sexta-feira, 29 de novembro de 2002

CRÍTICA: O CRIME DO PADRE AMARO / Crimes e pecados

Não sei se você já viu um jornalzinho publicado pela Igreja Universal do Reino de Deus, que tem uma das maiores tiragens do país. Eu já o li umas duas vezes. Uma matéria falava dos padres pedófilos nos EUA, outra das taxas abusivas cobradas pela Igreja Católica para um casamento. Bom, “O Crime do Padre Amaro” deve ser o filme de cabeceira do Bispo Macedo. Tirando pedofilia, todos os podres da Madre Igreja estão expostos no drama mexicano dirigido por Carlos Carrera.

O romance de Eça de Queirós, escrito em 1875, é um velho conhecido dos vestibulandos. É também um belo livro, que se posiciona contra o celibato imposto aos padres e expõe a paixão que um jovem pároco sente por uma moça. Só que, no romance, uma das idéias mais fortes está no prazer que o padre tem em dominar sua amada. Ele, que passou toda sua vida baixando a cabeça e cumprindo ordens, pode controlar alguém pela primeira vez. No filme, esse contexto desaparece completamente. Ademais, no livro, a moça é corroída pela culpa, tem pesadelos, visões, imagina que arderá no fogo do inferno. Na versão cinematográfica, ela é bem mais nova e sem a menor consciência.

O filme transpõe a ação de Portugal do século XIX para o México do século XXI. É uma decisão acertada, eu acho, pois mostra que nada mudou na Igreja em 130 anos. Claro que o drama incorpora fatos novos, como os conluios com o narcotráfico e a influência da Teologia da Libertação – o único padre com real vocação pra coisa pertence a essa vertente. Mas os antigos dogmas continuam: nem uma palavrinha sobre métodos anticoncepcionais, por exemplo. O que, convenhamos, faz com que mulheres que tenham casos com padres engravidem com certa facilidade, né?

É normal que a gente ainda esteja meio sentida com o drama mexicano porque foi ele, provavelmente, que tirou “Cidade de Deus” da disputa do Oscar pra Melhor Filme Estrangeiro. E é até ridículo comparar as inovações de “Cidade” com a banalidade de “Crime”. No quesito Críticas à Religião, o britânico “O Padre”, de 94, é superior, só pra citar um caso. Mas “Crime” é bem feito, tem ótimas atuações, e não demoniza seus personagens. Só que também é ultra-convencional e, por isso, não é memorável. Não traz nada de novo pro front da guerra santa. Putz, a Igreja é corrupta? Ohhh, existe fornicação entre os homens santos? Vai dizer que alguém ainda não sabia disso? Se esses escândalos não eram novidade em 1875, imagina agora. Mas a Igreja Mexicana lançou campanha contra o filme e, talvez por causa disso, ele se transformou na maior bilheteria da história do país. Gael García Bernal, que faz o Padre Amaro e já era um ator quente, de repente foi alçado a ícone nacional. Porém, não dá pra ver “Crime” como um legítimo representante do novo cinema mexicano. Embora não seja melodramático, “Crime” está mais pra novelão do que pra vibração de “Amores Brutos” e “E Sua Mãe Também” – ambos, aliás, com Bernal no elenco. Pessoalmente, gosto muito do cinema mexicano. O que não gosto é que quase todos os atores têm três nomes.

Tal qual o livro, “Crime” é contra o celibato (se bem que não seja exatamente anti-clerical). Mas, apesar de todas as críticas, esta tradição da Igreja não vai cair tão cedo. Por que os padres não podem casar? Simples. Porque, com o matrimônio, vem também os herdeiros, os divórcios, as pensões... E a Igreja não quer repartir seu polpudo patrimônio com ninguém. Nem imagino como fazem outras religiões que aceitam o casamento de seus sacerdotes. Mesmo assim, eu nutro simpatia pelo catolicismo porque é a religião que menos se leva a sério. Pode ser que o Papa não concorde comigo, mas que outra crença tem fiéis tão pouco fiéis? Os católicos são os únicos que não se consideram o povo escolhido. Isso os torna menos bélicos, pelo menos hoje em dia. E quer saber o que mais: a religião que nunca pecou que atire a primeira pedra.

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