sexta-feira, 30 de novembro de 2007

CRÍTICA: SHREK 3 / Bicho verde pra criança

É, com quase todas as salas do Brasil passando arrasa-quarteirões infantis com o número três no título, não consegui escapar de “Shrek Terceiro”. A sessão que eu fui era noturna, e ainda assim tava cheia de criança sobrando na poltrona. Perguntei pro maridão como ele se sentia vendo um filme pensado pra pessoas quarenta anos mais novas que ele, e ele respondeu: “Me sinto bem, desde que ninguém me reconheça aqui...”. Pois é, o problema principal é que isso não é pra gente. Eu posso até compartilhar algumas risadas com alguém de 4 aninhos, mas suponho que eu tenha interesses diferentes, inclusive um senso de humor diferente. Esses filmes claramente agradam seu público-alvo.i O que me aborrece é que a) não haja opções, já que todas as salas exibem a mesma coisa; e b) os críticos adultos elogiem uma dessas atrações só porque não sentiram vontade de esmurrar a tela. Aturar não é igual a adorar, é? Parto do princípio que o máximo que um adulto pode sentir por esses produtos infantis é tolerância. “Shrek” não vai se tornar o filme de cabeceira de um adulto, a menos que seu gosto esteja tão infantilizado após anos e anos do mesmo tipo de cinema que ele pode vestir uma camiseta escrito “Hollywood, você conseguiu!”.

Eu devo ter sido a única no planeta a achar o primeiro “Shrek” insuportável. É que não agüentei ver um monte de mesmice tratada como se fosse algo inovador. O segundo eu não vi no cinema, felizmente, mas vi agora em DVD, até porque queria entender quem era a mulher-homem que faz companhia às princesas (acho, não tenho certeza, que é a irmã feia de alguma delas) e como o rei vira sapo. Dormi em certas partes do segundo, e me pareceu que o ogro verde deu lugar a um humano durante todo o desenho, mas gostei do Antonio Banderas como o Gato de Botas. Agora, com “Shrek 3º”, as expectativas são muito mais baixas, e ninguém em sã consciência ousa pôr a animação e a palavra “criativa” na mesma frase. Então me permiti aturar melhor o filme.

A história, escrita por oito (!) roteiristas, é idêntica à formula usada pelos seriados cômicos: no primeiro episódio os pombinhos se conhecem, no segundo se casam, no terceiro tem filhos. E no quarto o ogro, cansado, começa a se engraçar por outras saias. Mas sempre volta pra saia original (a separação só ocorre no sexto episódio, sem ser definitiva). Pelo menos em “Shrek 3º” a trama é simples.ii Tem uma mensagem fofinha contra os “bullies”, os valentões que atormentam seus colegas nas escolas de países ricos.iii A mensagem em si é um pouco ambígua, porque não condena abertamente os malvadões, só explica pra vítima que o essencial é não se deixar afetar. Ainda assim há um recado direto pros valentões: ninguém precisa ser vilão o tempo todo. De todas essas lições de moral, só não gostei do elogio à monarquia. Tá certo que o Shrek acha mais importante ser pai do que ser rei, mas mesmo assim reis são louvados. A monarquia é ótima, desde que o rei seja bonzinho. Se eu tivesse filho, não sei se gostaria que ele crescesse ouvindo que hierarquia e poder absoluto são ótimas pedidas.iv

Há várias piadinhas legais. Gostei daquela em que alguém diz “o maior culpado é você”, apontando pra um pobre coitado; todos gritam “Pega ele!” e tem início um linchamento. As primeiras três das 25 mortes do Rei Sapo são gracinhas. E é bacana que as mulheres resolvam a situação e queimem sutiãs.v Gostei do “Just Say Nay”, que o pessoal daqui nem tentou traduzir.vi E a cara do gato é tudo (se bem que quem tem gato de verdade já tá acostumado). A adolescente do meu lado adorou, e gritava “Muito massa!” a cada aparição do gato, principalmente quando ele dança e canta rap. Já a criançada vibrou mais com os puns no fim. Quem diria, hein, que adolescentes e crianças de quatro anos têm tanto em comum?... E pro pessoal mais crescidinho, o que sobra?vii

i Por exemplo, um amiguinho meu de 9 anos adorou “Piratas do Caribe 3”, e o coloca no topo da lista dos melhores que ele já viu. Ele só não gostou dos beijos. Contou seis cenas de beijo, e nessa idade isso é insuportável.

ii Não vou narrar a trama aqui, porque qualquer um que viu o trailer já tá cansado de saber. Além disso, trama?! Isso importa num desenho?

iii Certamente existem “bullies” aqui também, mas acho que não é um problema tão sério como em outros lugares. Ou é?

iv Meu comentário favorito envolvendo morais e bons costumes vem de um site cristão: “o longa-metragem tem momentos de flatulências e outros gases, mas nada que incomode profundamente uma boa família cristã”. Fora, incômodos profundos!

v Depois elas voltam a sua condição “normal”, claro, que não é governar, mas ser lindas e cuidar da prole. Aliás, notou como o Shrek pode ser gorducho e feio que é engraçado? Já a Fiona tá mais magra do que nunca, mesmo agora que ela está grávida de, o quê, sêxtuplos? Perdi a conta.

vi Eu também não sei como traduzir: “Apenas diga não”, talvez. O chiste tá em “nay” ser inglês antigo. Mas “just say nay” soa bem melhor que “just say no”. Até rima!

vii Só porque eu mais ou menos gostei do desenho não quer dizer que eu queira ver “Shrek” 4, 5, 6, e sabe-se lá quantos vierem pela frente.

Um comentário:

  1. Bullying é um problema sério aqui também, Lola. Eu realmente tinha problemas na escola, a estilo de colégios americanos (qs pessoas não falavam comigo, os meninos me davam apelidos cruéis e me ameaçavam, era considerada "nerd", atiravam objetos como bolas de papel, fizeram um blog com montagens em fotos minhas, tiradas sem minha autorização, etc) e várias outras pessoas passaram por isso. O que acontece é que é tratado como "coisa de criança". Acho que só recentemente virou uma preocupação de educadores e pais.

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