sexta-feira, 12 de junho de 2026

prostitutas e incels?

 Alguém de nome "Antipatriarcado/Antifascistas/Antimasculinistas" deixou três comentários no blog (num post sobre intolerância e ódio):

E ai pessoal, vamos conversar sobre incels hoje? Eu já falei sobre esses bostas antes em contas anteriores, mas com essas novas travessuras em que eles estão se envolvendo é com o coração pesado que eu sinto a necessidade de mais uma vez repassar alguns conceitos básicos com vocês.
Então, tenho certeza que a boa parte de vocês já está ciente que a última tendência fodida e fetichista dos incel (e demais masculinistas) vem sendo eles tentarem denunciar profissionais do sexo para a Receita Federal. Isso é tanto patético pra caralho como também é muito escroto e fodido. É patético e idiota porque muitas profissionais do sexo pagam impostos, mesmo aquelas que são pagas inteiramente em dinheiro, mas aquelas que não pagam alguns impostos geralmente têm razões muito boas para o porquê de escolherem não fazê-lo, seja por causa da pobreza básica, por recusa em apoiar o governo / estado e / ou algum outro motivo.
Muitas pessoas estão em pânico com isso, mas a realidade é que, se você praticar uma cultura de segurança minimamente decente, será muito difícil para qualquer pessoa encontrar informações suficientes sobre você para fazer uma denúncia / relatório que será levado a sério. Agora não é hora de entrar em pânico, agora é hora de proteger o seu próprio pescoço.
Dito isto, quero deixar claro que essa situação não é nem um pouco tranquila. O fato de incels estarem tentando armar o governo / estado contra profissionais do sexo é indicativo de suas atitudes gerais em relação a nós: eles nos odeiam mais do que eles odeiam mulheres em geral.
Nós sabemos disso. Nós dizemos isso. Há um bom tempo. Nós dizemos isso ESPECIALMENTE EM VOZ BEM ALTA E CLARA toda vez que algum pedaço de lixo humano faz alguma merda e as outras pessoas começam a gritar sobre como eles só tem que ir ver uma prostituta. Incels não tem que estar em nenhum lugar perto de profissionais do sexo.
Eu já disse isso antes, muitas outras já disseram isso antes, e eu vou dizer de novo, assim como outras prostitutas estão dizendo isso de novo: QUANDO VOCÊS COLOCAM PROFISSIONAIS DO SEXO COMO SOLUÇÃO PARA O PROBLEMA DOS INCEL TUDO O QUE VOCÊS ESTÃO DIZENDO É QUE VOCÊS ACHAM QUE NÓS DEVEMOS SER ALVOS PARA SUA MISOGINIA VIOLENTA.
Apresentar profissionais do sexo como uma solução para o problema dos incel faz duas coisas. 1. Ignora a raiz real da raiva e do ódio deles: que eles se sentem que tem direito aos corpos e ao serviço sexual de mulheres e acreditam que, em virtude de existirem, devem ter acesso a qualquer mulher que desejarem. Confie e acredite que esses homens ficarão tão loucos, se não ainda mais loucos por terem que pagar por sexo, quanto pela rejeição total. Porque a raiva e o ódio dos incel não é sobre eles não conseguirem alguém para transar, é sobre o fato de que eles não podem ter qualquer mulher que eles querem. (COMO ELES MESMOS LITERALMENTE FALAM! EU NÃO SEI COMO AS PESSOAS PENSAM QUE SOMOS A SOLUÇÃO PARA ESSE PROBLEMA. -- Na verdade eu sei exatamente por que -- porque as pessoas nos veem como descartáveis. Nós somos as esponjas que absorvem a violência masculina para que as mulheres "respeitáveis" que só saem de graça possam estar mais seguras.) ¬¬ ¬¬
Sugerir o contrário, agindo como se uma visita a uma profissional do sexo fosse uma solução para o problema incel, legitima a alegação falsa, fraudulenta e idiota de que a raiva e o ódio deles se originam de uma incapacidade de encontrar amor e romance, ao invés da realidade que eles tem um tóxico senso de direito / merecimento e uma visão de mulheres como menos.
2. Revela uma atitude realmente fodida e escrota em relação às profissionais do sexo, ou seja, que somos ou deveríamos ser algum tipo de amortecedor entre a violência de caras afundados em masculinidade tóxica e as “boas” mulheres que não cobram pela xana. Isso implica que é nosso trabalho e função proteger o mundo, especificamente as mulheres "boas", desses homens violentamente misóginos, posicionando-nos como algum tipo de devoradoras de pecados sexuais que podem sugar a violência e a agressividade desses escrotos desgraçados através dos paus deles.
Assim como a ideia que se vestir modestamente para evitar estupros ignora a causa real do estupro (estupradores) e culpabiliza roupas, beber ou qualquer outra coisa implica em "tenha certeza que ele estupre outra, a garota (má)", assim também apresentar profissionais do sexo como uma solução para os incels implica em "certifique-se que eles só matem as prostitutas".
Tudo isso está muito claro por toda essa merda de denúncias à receita. Tudo isso é muito, muito claramente uma retaliação pelo fato de que temos a audácia de cobrar pelo que esses homens acreditam que eles deveriam poder ter de graça, sob demanda.
MAS ESPEREM ... AINDA TEM MAIS! Agora que falei sobre as atitudes de merda em relação às profissionais do sexo que dizem respeito especificamente aos Incels, vamos falar sobre algumas outras atitudes de merda mais gerais sobre nós relacionadas ao que já abordamos.
Além do fato de que apresentar profissionais do sexo como uma solução para o problema incel legitima sua retórica pateticamente imbecil e nos posiciona como amortecedores entre a violência misógina e mulheres "respeitáveis", ela também atua na ideia (falsa) de que vamos transar com qualquer um que pagar.
Fato divertido: profissionais do sexo não transam com qualquer um disposto a pagar, e a noção de que vamos é a base para tais chistes velhos e sem graça como: "então se você foder uma prostituta sem pagar é estupro ou roubo? * hurr durr harr huhh *"
Literalmente não há uma única profissional do sexo no mundo que vai foder qualquer um que acene com dinheiro para nós. Naturalmente, quanto mais privilégio a profissional tiver, maior será sua capacidade de recusar clientes que parecem desonestos ou perigosos, mas, literalmente, CADA PROSTITUTA TEM, PELO MENOS, UM PROCESSO DE TRIAGEM / RASTREIO BÁSICO.
Da profissional de sobrevivência ao ar livre que só pode se dar ao luxo de tomar decisões rápidas e instintivas com base em uma interação curta até a prostituta cara que tem o luxo de exigir uma verificação completa de antecedentes, TODAS temos algum tipo de critério pelo qual aceitamos ou rejeitamos programas.
Os processos de triagem não são apenas para eliminar os policiais que provavelmente nos agridem e / ou nos prendem, mas também para nos proteger contra os misóginos violentos. O incel médio teria dificuldade em passar por qualquer tipo de triagem porque aprendemos rapidamente a farejar homens violentos a uma milha de distância.
A ideia de que as profissionais do sexo são uma solução para o problema dos incels é idiota e fodida não apenas pelas razões que eu já disse aqui, mas também porque promove a ideia de que em virtude do trabalho que realizamos para sobreviver sob o capitalismo, estamos totalmente disponíveis para qualquer um a qualquer momento.
Esse tipo de atitude literalmente nos mata. Esse tipo de atitude nos despoja de nosso arbítrio e nos reduz a, na melhor das hipóteses, nosso trabalho e, na pior, nada além de nossos orifícios.

COMO LIDAR COM QUESTÕES MACHISTAS NA INFÂNCIA?

 Sofia


Oi Lola, tudo bom? Sou uma novata no seu blog e agora leio diariamente, gosto muito dos seus posicionamentos, acho que o feminismo está se tornando o campo mais dialógico da esquerda.
Comecei a me interessar por questões feministas há pouco tempo, mais ou menos no meio da faculdade quando comecei a entrar no mercado de trabalho. Estudei design e hoje estudo cinema/edição e em ambas as áreas operei/opero muitos softwares e vejo que tem um preconceito muito grande sobre a capacidade e agilidade feminina para com o computadorzinho. É frustrante isso mas pelo menos em edição temos uma tradição mais feminina porque nos tempos da moviola as pessoas tinham que cortar e costurar/colar pedaços de película.
Mas enfim, são tantas questões que eu poderia levantar, né, mas o que eu queria falar mesmo é que eu tenho uma irmã de 9 anos (tenho 23) e uma dificuldade de fazê-la entender certas coisas nocivas na sociedade ou se ela é ainda muito jovem pra entender.
Como eu disse, só me dei conta da sociedade machista nesse processo de achar um emprego, na minha cabeça a escola era igualitária todos tinham a mesma aula, tinha meninas que tiravam boas notas assim como meninos que tiravam boas notas (na minha sala sempre era uma menina que encabeçava as melhores notas) mas claro que isso não tem nada a ver com "ninguém era machista no colégio", ou "a instituição mesmo não era machista". 
Há um tempo atrás vejo a minha irmã se queixando de um menino da outra turma que fica atrás dela (aliás, resolvi escrever esse e-mail por causa do post do dia 23). Ele escreve cartas, manda presentes, no recreio fica seguindo, na festa junina mandou um correio do amor... Todos acham muito bonitinho isso, mas a minha irmã é uma menina muuuito tímida, odeia exposição e ela acaba sendo sem querer a menina mais falada da escola. Ela já recusou muitos pedidos de namoro dele, um dia desses teve até xingamento por parte dele (ela nao quis me dizer qual foi...). Isso acabou por me reavivar um caso da minha infância que eu tinha esquecido até: tinha 8 anos e um menino também gostava muito de mim e eu sempre recusei, até que um dia o irmão mais velho (12 anos) dele ligou pra minha casa (não sei como eles arrumaram meu tel) e ele me ameaçou falando que se eu não aceitasse o pedido de namoro do irmão dele, ele me bateria. Prontamente chamei a minha mãe eles desligaram na cara dela. Acabei que não namorei e também não me bateram, mas isso me traumatizou na época, e resolvi contar pra ela. Falei que tinha casos de homens que não aceitam o não e que ela tinha que deixar isso claro pra ele e para as professoras que ela não gosta desse comportamento. Ela me disse que não, mas tenho quase certeza de que as profs não devem achar nada de nocivo nisso, que ele é romântico, sei lá, e que se a minha irmã não faz nada é porque pode estar até gostando de ser bajulada. Eu não sei como ela se sente (ela está incomodada mas não expressa muito bem os sentimentos, se está com raiva, triste) mas na época que isso me aconteceu me senti invadida porque ligaram pra minha casa e acharam que seria possível cercear a minha liberdade dentro da minha casa.
Essas coisas infantis são vistas com um olhar mais brando, claro, mas acho que isso deveria ser mais discutido nas escolas. Não sei se foi uma conversa muito precoce minha, não sei como fazer uma abordagem mais interessante pra ela... Pensei em poupá-la disso pra que ela ache que isso aconteça com pessoas, não só por ela ser mulher. Pensei em falar com as professoras no colégio, quando falei isso pra ela, ela até disse que ele já tinha parado a perseguição. A minha irmãzinha não deixa muito claro as coisas que acontecem com ela isso me preocupa ainda mais.
Ela está toda imersa nesse mundo de divas e modelos e quer ser uma, é muito linda, vive se olhando no espelho não tem muitos sonhos e não é muito criativa. Eu acho engraçado porque na minha época de criança queria ser presidente. Não sei, posso estar errada, pode ser o jeito da minha irmã que é diferente do meu, mas acho que estão reprimindo cada vez mais as meninas. Isso tem que ser debatido, as crianças são as pessoas que mais assistem TV, não podemos deixar que elas achem que a vida é como um comercial de desodorante ou de cerveja ou novela.
Enfim, o que faço pra levantar a auto-estima da minha irmã (sem ser da maneira diva) e qual seria a melhor forma de conversar com ela sobre questões feministas? É muito difícil pra mim fazê-la se interessar por esses assuntos, ela sempre se esquiva por não gostar de conversas mais sérias. Temo que ela sofra muito disso e não queira verbalizar.

Minha resposta:
Encontrei este lindo relato da Raphaella de Souza, da UERJ, do projeto Letras Pretas. Ela fala sobre como educar crianças negras numa sociedade racista.
Sociologia para crianças, da professora e doutora Tatiana Amendola https://www.cartacapital.com.br/educacao/mae-e-filha-mostram-que-e-possivel-e-necessario-discutir-temas-como-racismo-machismo-e-diversidade/?utm_campaign=novo_layout_newsletter_-_com_webinar_2008_usar_ate_3108&utm_medium=email&utm_source=RD+Station
Chimamanda