quinta-feira, 5 de setembro de 2019

GUEST POST: DEMOCRATAS NOS EUA PROCURAM CANDIDATURA MODERADA

João Paulo Jales dos Santos, colaborador frequente do blog, é estudante do curso de Ciências Sociais da UERN. Publico aqui seu texto sobre a política americana.

Pelo andar da carruagem, o bolsonarismo vai perder adeptos até mesmo entre seus mais fieis apoiadores, os integrantes da classe média. O meio ambiente é um dos focos que o bolsonarismo encara como guerra, ao lado da educação, da cultura, dos direitos humanos e das relações exteriores. Esta estratégia política é milimetricamente copiada da direita americana, que desde os anos 70 usa o que denominaram de ‘guerras culturais’ para ascender o moralismo tradicional na sociedade e desviar os olhares de questões políticas importantes. 
Esqueceu o presidente de que mesmo com uma retórica agressiva é difícil fugir dos acordos do ordenamento liberal global. O meio ambiente é tema de alta sensibilidade entre as instituições liberais, é preocupação constante, principalmente dos países da Europa ocidental, que junto com o Canadá, formam o bloco que dão sustentação do alerta sobre a imprescindível defesa ao meio ambiente. 
Como Bolsonaro não gravita no centro, tendo um projeto que mais prejudica do que beneficia o Brasil, sua política ambiental causa extremo desconforto no agronegócio, setor motor da economia do país e que sabe muito bem que mesmo tendo práticas de exploração ambiental que vão de encontro às políticas protecionistas ao meio ambiente, precisa manter ao menos uma postura política sensata sobre o quanto a preservação ao meio ambiente é importante na agenda econômica do país. Não dá para escapar de consensos estabelecidos pelo centro do ordenamento liberal, e o meio ambiente é uma das primeiras questões consensuais na agenda dos países de capitalismo avançado. 
Donald Trump retirou os Estados Unidos do bloco central que promovia a preservação do meio ambiente como um dos temas mais relevantes da agenda de desenvolvimento do século XXI. Bolsonaro pensa que tudo pode, mas como se vê diante de limitações políticas, tem que encarar o fato de que o Brasil não é os EUA, e que, portanto, precisa se adequar aos ditames do centro político mundial liberal. Se tentou usar o acordo entre Mercosul e União Europeia como uma cartada de seu governo, acordo que fora arduamente construído ao longo de anos por outros governos, Bolsonaro terá que se adequar à rigidez política europeia para selar de vez o acordo e tentar se promover em cima de uma parceria econômica que pouco pertence ao seu mandato. 
Tentando imitar impiedosamente Trump, Bolsonaro vai percebendo que ser presidente de um país da periferia do capitalismo é tarefa por demais complexa. Ora, se Trump mesmo governando a potencia americana se vê diante de entraves para promover sua agressiva agenda política, do que dizer de Bolsonaro governando um país que há décadas sempre fora visto como um quintal do imperialismo estadunidense.  
Nos Estados Unidos, Trump se vê enrolado com as eleições do ano vindouro. 
Segundo o site FiveThirtyEight, o presidente conta uma aprovação líquida negativa de 12,2%. Na eleição senatorial do ano passado, os democratas mantiveram e conquistaram sete assentos em estados que foram vencidos por Trump em 2016. Se as eleições presidenciais fossem hoje, a estimativa menos otimista dá aos democratas uma chance de vencer a presidência com 286 votos no colégio eleitoral. 
Como ainda falta pouco mais de um ano para as eleições gerais, há tempo hábil para Trump poder se recuperar, mas como o mandatário mantém sólido seu índice de reprovação, o horizonte aponta para uma reeleição complicada. 
O último presidente em exercício que enfrentou uma reeleição difícil foi George H. W. Bush, que perdeu para Bill Clinton diante de problemas econômicos. 
Há uma sinalização de economistas que a economia americana sofra uma desaceleração, que junto com a guerra comercial empreendida contra a China, traria riscos de um desaquecimento econômico. Caso essa previsão venha a se confirmar, os riscos de que os republicanos sofram uma convincente derrota no próximo ano fará com que o partido perca o controle do Senado Federal.  
No colégio eleitoral, é provável que mais estados se tornem competitivos até o próximo ano. Estados em que Trump venceu em 2016 deram vitórias estaduais aos democratas em 2018. Eleições estaduais, hoje em dia mais do que no passado, são importante termômetro para o sucesso de um partido na eleição geral seguinte. Na Câmara Federal, o número alto de republicanos que já começam a pedir aposentadoria acende um sinal de alerta nas fileiras do partido, principalmente em distritos moderados. 
Para vencer na Câmara em 2018, além de contarem com a reprovação de Trump em distritos moderados, os democratas tiveram a seu favor o fato de que muitos deputados republicanos se aposentaram, principalmente em distritos centristas, o que abriu caminho para que os democratas conseguissem maioria na baixa câmara federal. No Senado, o mapa para o próximo ano faz com que os republicanos tenham que defender mais assentos, um total de 22 num universo de 34 assentos que estarão em jogo. O mapa senatorial acaba sendo relativamente mais fácil para os republicanos porque há muitos estados conservadores que estarão em disputas. 
Os democratas começam a fazer um recrutamento de candidatos competitivos para disputarem em assentos que senadores republicanos estão concorrendo à reeleição ou estão se aposentando. Há pouco tempo, muitos estados conservadores conduziam democratas moderados ao Senado. O desafio para os democratas é voltar a vencer nesses estados, o que amplia as chances de o partido voltar a ter maioria na alta Câmara Legislativa Federal. 
Além do que, contar com um maior número de democratas moderados vindos de estados conservadores traz para as fileiras do partido um perfil de senadores que hoje representa um baixo número quantitativo quando se compara com um passado bastante recente, senadores moderados posicionados ao centro, alguns orbitando um pouco para a centro-direita, e que consequentemente faz com que o partido ganhe credibilidade entre eleitores republicanos, que são menos conservadores que a elite republicana, fazendo com que os democratas se posicionem ao centro da esquerda do espectro político, desejo do mais alto escalão do establishment democrata. 
No tabuleiro político os republicanos estão mais à direita, e os democratas gravitam no centro esquerdista, o que torna mais difícil que políticas bipartidárias venham a ser aprovadas, já que um polo político (o republicano) está mais distante do centro do espectro ideológico do que o outro (o democrata). 
É importante olhar para o mapa senatorial do ano vindouro, porque foi esse mapa conservador que fez com que os democratas tomassem oito assentos dos republicanos em 2008, e que fez com que seis anos depois, o partido perdesse nove assentos e consequentemente perdesse a maioria do Senado. Há um esforço do establishment democrata em recrutar candidatos competitivos num mapa inclinado à direita, junto a isso há uma real possibilidade de que disputas em assentos republicanos venham a se tornarem competitivas. 
Com um Trump impopular, aumenta as chances dos democratas de reconquistarem a maioria do Senado a partir de um mapa senatorial que do ponto de vista ideológico se inclina mais facilmente aos republicanos. O Senado é foco de maior atenção política porque é por lá que passa a indicação da Suprema Corte, palco de ferrenha disputa política, e porque é lá que outros assuntos pertinentes a sociedade americana são especificamente aprovados. 
Em relação aos governos estaduais, dos quais a maioria são de estados pouco populosos, os republicanos estarão defendendo um maior número de assentos, mas com possibilidades de que algumas disputas das onze que estarão em jogo para os governos, se tornem competitivas, e faça com que os democratas aumentem a quantidade de controle sob governos estaduais. 
O controle do escritório estadual se faz imprescindível porque o gabinete do (a) governador (a) tem a prerrogativa de vetar matérias aprovadas pelo legislativo estadual. E como nos últimos tempos os republicanos se tornaram dominantes nos legislativos dos estados, aprovando leis e projetos que politicamente prejudicam os eleitores democratas ou inclinados ao partido, os democratas voltarem a ter controle sob governos conservadores que recentemente estavam nas mãos do partido, é posicionamento político imprescindível no intricado e disputado tabuleiro político americano. 
Joe Biden segue como favorito pela indicação democrata, mas vendo seus adversários Elibazeth Warren, Bernie Sanders e Kamala Harris chegarem mais perto. Depois da desistência de três candidatos de peso à indicação do partido, um governador (Jay Inslee), um ex-governador (John Hickenlooper) e um deputado federal (Seth Moulton), a disputa pela indicação presidencial democrata deve ir ao longo dos próximos meses e quando começarem as primárias, diminuir cada vez mais, ficando o campo restrito a no máximo três candidaturas que competirão entre si pela indicação. A candidatura que quiser vencer terá que basear sua plataforma eleitoral em propostas econômicas, sociais, de impostos e saúde que gravitem a moderação da opinião pública americana. 
Caberá a quem conseguir a indicação do partido levar a cabo proposições que não se distanciem da média da opinião pública. Os americanos são queixosos de seu sistema de saúde, mas propostas que visem extinguir de vez esse sistema são bastante impopulares no seio da sociedade. Tem mais apoio propostas que expandam o sistema público de cuidado de saúde (Medicaid) para tornar elegível um maior número de pessoas. 
Por mais que o momento atual seja de promoção de uma agenda política de esquerda, essa agenda tem que se concentrar no centro esquerdista, e não avançar para uma plataforma mais à esquerda, que venha a causar aversão nos americanos. No solo que nasceu George Washington, John Adams e Thomas Jefferson, propostas políticas de esquerda são aceitáveis desde que não venham a cheirar como socialistas para a maioria da população. 
Uma das estratégias de Trump é ressuscitar um velho fantasma de repulsa americana, o socialismo. Como chega em grande dificuldade para vencer em 2020, a estratégia é manipular o debate público focando nas ‘guerras culturais’ e afirmar que a candidatura democrata representa o recrudescimento daquilo que como movimento de massa nunca chegou a galgar muito êxito nos Estados Unidos, o socialismo/ comunismo. Para Trump o jeito é apelar por um debate que foque em raça, identidade cultural e socialismo, porque tais questões são polêmicas e atraem atenção na sociedade. 
Pesquisas mostram que os eleitores se mobilizam mais pela emoção do que pela verdade dos fatos, mesmo que a emoção leve a uma mentira. Aos democratas cabe apresentar uma plataforma política convincente de economia e nas áreas que o partido é melhor visto pela sociedade, saúde e cuidados assistenciais. Caso os Dems caiam fácil (como ocorreu em 2016) na retórica republicana de ‘guerra cultural’, se verão envoltos num labirinto político que possam não conseguir encontrar saída. 
Se Biden for escolhido o candidato democrata, será difícil Trump aplicar uma retórica farsante de socialismo. Caso seja Warren, que vem subindo nas pesquisas, o êxito dessa retórica tem mais chances. Por mais que Warren não seja socialista, seu discurso centrado em proposições de esquerda pode não ser bem visto pelo eleitorado. A retórica republicana é aprofundar as divisões culturais que latejam no tecido social americano, buscando vencer mais uma vez em cima do já manjado, mas relativamente exitoso discurso dos valores tradicionais do conservadorismo. 
Nessa retórica o importante é estigmatizar e discriminar o negro pobre, enquanto ao branco de terno e gravata que comete atos ilícitos e é pertencente ao alto empresariado financeiro dá-se o consentimento do delito e da aceitação social. O campo social micro do eleitorado tem repercussão no modo de como se enxerga o mundo. 
Não importa se uma grande parcela do eleitorado republicano que vive nas zonas rurais e nas pequenas cidades nunca irá se deparar na vida com um latino ou um imigrante de pele retinta, o importante é que o pavor social do individuo seja repercutido na vocalização do candidato do GOP (partido republicano), no intuito de fazer com que o imaginário reacionário conservador consiga adentrar na cena eleitoral. 
O sistema político-eleitoral americano de primárias já demonstrou em algumas ocasiões que as elites podem não conseguir ter o total controle sob a indicação da candidatura que se almeja. O risco de perda eleitoral para os democratas é que vença nas primárias uma candidatura que não esteja sintonizada com o centrismo moderado, e sim uma candidatura que orbite o campo mais à esquerda, o que daria maiores chances para o GOP reconduzir Trump à presidência. 
Na democracia, por mais que projetos tragam mais justiça e inclusão social, tendem a prevalecer os projetos sintonizados com os interesses da elite. E na ordem global neoliberal não há espaço para que proposituras que tragam rupturas venham a prosperar. No atual estágio neoliberal, só se aceitam as revoluções tecnológicas que fazem o capitalismo se revolucionar de dentro para fora. Tudo é aceito desde que dentro dos ditames do capitalismo, nada é aceito fora destes ditames ordinários. 
 

6 comentários:

  1. Mais um artigo excelente, João. Gosto muito dos seus textos.

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  2. Honestamente acho difícil qualquer um dos candidatos democratas atuais derrotar Trump.

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  3. Trump vai ser reeleito. E Bolsonaro também vai. Vamos ter que aceitar que não temos, hj, nem nos EUA nem no BR um candidato viável de esquerda que possa derrotar em uma eleição os atuais Presidentes, e aceitar a situação até 2026, quando talvez poderemos ter alguma chance, a depender da governabilidade até lá.

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  4. Duvido que Bolsonaro se reeleja, mas Trump provavelmente vai. Enquanto Bolsonaro além de retrógrado é um imbecil, Trump até que foi competente em relação à economia.

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  5. Trump impopular? Com a menor taxa de desemprego histórica?

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