Neste final de semana, num intervalo de doze horas, houve dois massacres terríveis nos Estados Unidos. Um dia depois do ataque em El Paso, Texas, que matou 22 pessoas, outro massacre, desta vez em Dayton, Ohio, matou 9.
Só pra colocar em perspectiva: em um só dia mais americanos foram mortos nesses dois massacres do que soldados americanos foram mortos no Afeganistão em dois anos de guerra, entre 2017 e 2018.
E este de Dayton foi o massacre número 250 só este ano nos EUA. Quando a gente diz que acontece pelo menos um ataque por semana em algum lugar público (geralmente escolas e universidades), não estamos exagerando.
Até agora -- porque não há qualquer expectativa que isso vai parar --, estes foram os dez piores massacres (em número de vítimas fatais) deste tipo em solo americano:
Las Vegas, outubro 2017 - 58 mortos
Orlando, junho 2016 - 49
Virginia Tech, abril 2007 - 32
Sandy Hook, dezembro 2012 - 27
Sutherland Springs, novembro 2017 - 26
Killeen, outubro 1991 - 32
El Paso, agosto 2019, este do último final de semana - 22
San Ysidro, julho 1994 - 21
Universidade do Texas, agosto 1966 - 18
Parkland, fevereiro 2018 - 17
Nem é bom apresentar essas listas, já que os homens (são todos homens, quase todos brancos e héteros) que se inspiram e comemoram essas carnificinas gostam de comparar placares, pra ver quem mata mais, o que algumas pessoas chama de gamification of violence. Ou seja, é como transformar a vida real num videogame.
Já é sabido que supremacistas arianos tentam recrutar adolescentes americanos através de videogames. Para eles, gamers são possíveis aliados da sua ideologia de ódio, e podem ser convencidos a cometerem massacres. O Gamergate de 2014 (em que gamers aproveitaram para atacar mulheres que também eram gamers) é apontado por muitos estudiosos como um vetor do crescimento da alt-right nos EUA. Como a gente não cansa de dizer: a misoginia é a porta de entrada para drogas mais pesadas na internet.
Esses massacres certamente não aconteceriam se os EUA não fossem o país com a maior quantidade de armas nas mãos dos civis. Das 857 milhões de armas de fogo em posse dos civis no mundo, 46% estão em solo americano (que representa apenas 4% da população mundial). Mas é exatamente este modelo que o Brasil nas mãos da extrema-direita quer copiar.
O atirador do Walmart em El Paso saiu da cidade de Allen, Texas, onde morava com os avós, e dirigiu mil quilômetros até chegar a El Paso, cidade texana na fronteira com o México (especificamente com Ciudad Juarez, cidade conhecida pela violência, principalmente contra as mulheres).
Num manifesto -- algumas pessoas são contra usar o termo, pois seria uma forma de legitimar discurso de ódio -- racista, publicado no asqueroso fórum 8Chan antes do massacre, o rapaz de 21 anos viu seu ato como uma resposta à "invasão hispânica do Texas".
Ele defendia (defende ainda) um sistema de aparthaid contra os imigrantes. No texto, ele mostrou seu apoio ao massacre de Christchurch (que matou 50 muçulmanos na Nova Zelândia em março, aquele em que o atirador acoplou uma câmera na sua cabeça, para poder transmitir o massacre). "Este é só o começo da luta pela América e pela Europa", termina o supremacista branco.
Como ele está vivo (várias pessoas apontaram que ele foi preso sem um arranhão sequer, algo que não aconteceria se ele não fosse branco), infelizmente ainda ouviremos falar muito nele.
Inúmeras pessoas culparam Trump pelo massacre em El Paso. Afinal, o discurso de presidente americano há anos tem alvejado hispânicos, que são vistos como "invasores". Trump, como é típico dos covardes, fez a egípcia e fingiu que não é com ele. Pelo contrário: culpou as fake news! Mas é inegável que o discurso de ódio de Trump é parecidíssimo com os dos nacionalistas brancos.
E por falar em 8Chan, o massacre de El Paso é no mínimo o terceiro em que o atirador era frequentador do fórum de ódio. No de Christchurch também foi assim, e no de Poway, na Califórnia, em abril (seis mortos numa sinagoga), idem. São todos neonazistas. Nada muito diferente do que vemos nos chans brasileiros. O massacre de Suzano, em março, foi anunciado (e amplamente comemorado) no Dogolachan. E pode anotar: não será o único. Chans vivem pra isso -- pra convencer rapazes cheios de ódio com tendências suicidas a levar "a escória junto". Um de seus lemas é "O mundo te odeia. Devolva esse ódio".
Só agora, com o massacre de El Paso, a empresa Cloudflare optou por romper a parceria com o 8Chan, que "repetidamente tem provado ser um poço de ódio", segundo a firma. Dois anos atrás, a Cloudflare expulsou o fórum nazista Daily Stormer, o que adianta muito pouco. Em pouco tempo, esses fóruns encontram outros servidores e ganham novos seguidores, atraídos pela publicidade. Pro Dogolachan, por exemplo, o melhor que aconteceu foi o fórum ter saído da superfície, onde estava desde a sua criação, em 2013, por Marcelo Valle Silveira Mello, e migrar para a Deep Web, em setembro do ano passado. Se na superfície o Dogola era um chan minúsculo, com poucos usuários, no fundo perdido da internet ele encontrou seu público.
Ainda não sabemos se o atirador de Dayton, Ohio, também frequentava chans. Ele, que foi morto pela polícia, era um branco de 24 anos que usou um colete à prova de balas ao atirar contra pessoas num bar (e matar a própria irmã, que estava presente no local). Como policiais estavam patrulhando a área, conseguiram chegar ao bar em um minuto, o que foi visto como fundamental para impedir um número ainda maior de vítimas. Quatro mulheres e cinco homens foram mortos. Seis das nove vítimas fatais eram negras, mas a polícia descartou que o crime tenha sido motivado por racismo.
À medida que mais informações vão chegando, mais o atirador se encaixa no velho perfil conhecido. O assassino de Dayton tinha uma banda de um gênero chamado pornogrind que fazia músicas sobre estupro e mutilação de mulheres. Um dos seus álbuns se chama "6 formas de carnificina de mulheres". Um de seus colegas no grupo disse que vai tirar as gravações do ar para que elas não sejam cultuadas. Diz ele: “Me sinto um merda por ter deixado ele entrar na banda, fazer essas letras”. Para o colega, as músicas eram só brincadeira.
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| Protesto contra as armas nos EUA |
Logicamente, esses massacres constituem terrorismo doméstico. São americanos matando outros americanos, em sua maioria. Mas para Trump e outros expoentes da extrema direita, não é terrorismo. São incidentes isolados causados por problemas mentais de um indivíduo, não por discursos de ódio. É o fetiche por armas, a masculinidade tóxica, e o nacionalismo racista que servem de combustível para esses massacres. E a direita não se responsabiliza! Será que, com dois ataques em 12 horas, os EUA vão enfim revisar sua lei de armas? Quantos outros massacres têm que acontecer?
Madonna lançou um videoclipe poderoso no final de junho, "God Control", em que ela se posiciona contra as armas. No vídeo, vemos que todo ano mais de 36 mil americanos são mortos através de armas de fogo, e outros cem mil são baleados e feridos. Para ela, isso é inaceitável numa democracia, já que a violência das armas desproporcionalmente afeta mais crianças, adolescentes, e quem está à margem da sociedade.
Assim que, na noite de sábado, eu condenei o massacre de El Paso e o joguei na conta da direita, veio alguém me dizer para parar de enfiar política em tudo. Então o massacre de um supremacista ariano fortemente armado contra imigrantes hispânicos não é um ato político? É o quê, então?