quinta-feira, 4 de julho de 2019

MMS E MÃES DE AUTISTAS, UM TERRENO FÉRTIL

Aqui a segunda parte do excelente texto de Andréa Werner (veja também seu vídeo). E, claro, não deixe de ler a primeira parte deste artigo escrito especialmente para o blog.

Apesar da teoria da mãe geladeira ter ficado para trás com as novas descobertas da genética, a culpabilização materna continua.
Tudo começa na hora do diagnóstico, que nunca é fácil. Em um primeiro momento, temos a mãe preocupada com o desenvolvimento do filho de 2 anos, época em que os sintomas costumam se manifestar com mais força. A criança apresenta um atraso na fala e a mãe questiona o pediatra. 
A resposta mais comum é "seu filho não fala por falta de estímulo". Ou o famoso "você dá tudo na mão dele". A essa lista, somam-se várias outras explicações nada científicas: você teve depressão pós parto, voltou a trabalhar quando ele ainda era muito novinho, ele é filho único e mimado, você não dá limites. Culpa da mãe.
Lembro quando meu próprio filho foi diagnosticado, um mês antes de completar 2 aninhos. O neuropediatra me disse "isso é genético, nada de culpa aí". Pois eu já conheci mães que se sentem culpadas até pela genética, principalmente porque é comum a descoberta de que um ou ambos os pais também têm "um pezinho lá no autismo" após o diagnóstico da criança.
E, onde a pseudociência encontra a culpa e a desinformação, rola negócio. 
O "modus operandi" da seita do MMS é entrar nos países se infiltrando em grupos de diversas doenças e condições nas redes sociais. À primeira visão de alguém desesperado, surge o vendedor de milagres oferecendo a solução perfeita "que a indústria farmacêutica tenta ocultar, porque não dá lucro". Pode não dar lucro para a indústria farmacêutica, mas está dando para muita gente!
No caso de mães de autistas -- após 2 meses de ativismo intenso contra o MMS que incluiu infiltração em grupos do Facebook -- notei um padrão. Os charlatões criam o problema enfiando o dedo na ferida da culpa: "mãe, você intoxicou seu filho até durante a gravidez, quando tomou vacinas e remédios. Continuou intoxicando quando ele nasceu ao vaciná-lo e dar antibióticos. E é por isso que ele ficou autista". 
A ferida dói, sangra. Afinal, no fundo, aquela mãe sempre desconfiou que tinha alguma culpa nisso tudo. Ser mãe é ter culpa. Ser mãe de criança atípica é ter culpa em dobro.  
Em seguida, o charlatão oferece a solução: "tenho aqui o MMS". Segue-se aí uma sucessão de mentiras -- como a de que Rivera e Kalcker são "doutores e cientistas" -- e mais uma dúzia de links de vídeos no youtube. Todos com testemunhos lacrimosos de curas. 
E, para terminar, o processo padrão pelo qual todo culto passa: afastar a pessoa de quem pode esclarecê-la. "Não conte para o médico do seu filho que está dando isso, porque a medicina é toda comprada pelas grandes farmacêuticas". Quando questionados sobre evidências científicas que corroboram o uso do MMS, apelam para papers que citam a segurança do dióxido de cloro na purificação da água -- sem, no entanto, qualquer menção a seu uso terapêutico -- ou para o Google Academics, onde você encontra até teses de mestrado e doutorado sobre absolutamente qualquer coisa.
Por fim, tiram qualquer responsabilidade de si mesmos ou do produto. Se a criança passou mal, são duas explicações possíveis: ou é "sintoma de que o detox está funcionando", ou foi a mãe que fez o protocolo de foram errada. Ponto pra culpa materna de novo.
É frequente que as mães comecem a relatar melhoras absurdas nos filhos após o início do uso do MMS. Observo que isso vem de dois fatores: um é a própria vontade da mãe de ver uma melhora, já que ela sabe que o método é ilegal e apresenta riscos. O segundo fator é que a criança autista que está se sentindo mal, muitas vezes se recolhe, fica quietinha, até dorme mais. E isso é visto como sinal de melhora.
O ciclo não tem fim
Uma das maiores dificuldades de qualquer TV ou jornal que tenha feito matérias recentemente sobre o MMS foi encontrar mães dispostas a falar que "deu errado". Elas existem aos montes, mas não querem, em hipótese alguma, aparecer. 
Desde o início da campanha #foramms, recebemos dezenas de relatos de amigos e parentes de crianças e adolescentes que usaram o produto e convulsionaram, tiveram feridas sérias no trato gastrointestinal, ou até vieram a falecer de septicemia após perfuração no intestino ou até falência renal. Amigos ou parentes. Nunca as mães.
Aparecer significa assumir a culpa por ter sido enganada. Aparecer significa assumir a culpa de ter colocado a vida do filho em risco por uma cura que não existe. Aparecer pode significar até mesmo o fim de um casamento ou a perda da guarda da criança. Mais culpa. 
Enquanto isso, os charlatãos se aproveitam disso para dizer que "não há casos de sequelas ou morte, já que só vemos depoimentos de melhoras e curas". Como bem definiu Carlos Orsi, do Questão de Ciência, "quem não sara não liga para agradecer. Ou, numa formulação mais radical –- os mortos não falam. Todo curandeiro, seja ele sincero ou charlatão, recebe retorno predominantemente positivo".
Quebrando o ciclo
Andréa Werner menciona algumas das
doenças que o MMS jura que cura
Comecei o ativismo em 2012, escrevendo no blog Lagarta Vira Pupa. A consciência da "perda de privilégios" e da cadeia de opressões que atinge as pessoas com deficiência ficou muito clara pra mim desde o princípio. E o silenciamento das mães de pessoas com deficiência através do discurso paternalista do "você é especial e foi escolhida por Deus para esta missão" se escancarou ao conversar com tantas mulheres que chegaram até mim pelo blog.
O Estado vira as costas. Mal há diagnóstico. Não há políticas públicas para que essas crianças e adolescentes tenham terapias na qualidade e na intensidade necessárias. As escolas não estão preparadas para acolher qualquer tipo de diferença na forma de aprender.
A sociedade também vira as costas. O marido vai embora porque "especial é a mulher, ele não tem estrutura pra lidar com aquilo". Aquela mãe também passa a ser "especial demais" pra ser parte do grupo de amigas. Aquela criança é "especial demais" para ser chamada para a festinha de aniversário do coleguinha. Que fiquem as duas juntas: a mãe especial que tem esta missão e, portanto, nunca terá depressão, nunca reclamará da falta de suporte. A criança ou adolescente especial que é praticamente um anjo: não precisa de cidadania, direitos legais, acesso à educação, à saúde e ao lazer.
Machismo estrutural que impõe a culpa, mais a falta de políticas públicas, mais a falta de educação científica. Essa equação só pode gerar muito dinheiro no bolso dos vendedores de milagres.
Menos "mãe especial",
mais acolhimento
É preciso quebrar o ciclo. Não só através do investimento em políticas públicas e educação. Mas o feminismo atual também precisa abraçar estas mulheres que se encontram em posição de vulnerabilidade por tantos fatores. É acolher, empoderar e mostrar que "mãezinha especial" é um prêmio de consolação que ninguém deveria querer. E que é possível se livrar da culpa através do conhecimento. Este é o caminho.

quarta-feira, 3 de julho de 2019

AUTISMO E MMS: COMO A CULPA MATERNA VEM SENDO EXPLORADA POR CHARLATÕES

Autismo não tem cura, mas pessoas inescrupulosas vêm vendendo o MMS (uma solução mineral "milagrosa" que nada mais é que uma substância química equivalente à água sanitária) para mães e pais de crianças autistas.
A guerreira Andréa Werner
A jornalista, escritora e ativista Andréa Werner, mãe de um menino com autismo, é uma heroína (veja seu ótimo vídeo sobre MMS). Ela foi atrás de quem está vendendo este veneno. Sem medo, ela apareceu numa matéria do Fantástico no final de maio contando sua investigação. Este é um texto que ela escreveu especialmente aqui para o blog. Como é longo, vou dividi-lo em duas partes. A outra está aqui.
Leia, divulgue, comente! As pessoas precisam saber mais sobre este golpe. A campanha se chama #foramms

"Os perigos do pensamento mágico. Que se somam aos sempre presentes perigos do machismo, que exigem que toda mãe seja uma santa e opere milagres -- e, se necessário, que não se furte a ser uma mártir" (Ana Nunes Nogueira, em seu livro Cartas de Beirute).
Ter um filho com algum tipo de deficiência muda completamente o rumo da vida de qualquer mãe. E falo de vida em seu sentido mais amplo: social, emocional, laboral.
No lado emocional, o sentimento de perda do filho idealizado se alia ao da incapacidade de lidar com a criança real.
No lado social, há a sensação de perda de lugar em um grupo hegemônico: o das mãe de crianças típicas. A partir de agora, tudo será mais difícil. O simples ato de matricular a criança em uma escola pode ser tornar uma briga hercúlea. É, de certa forma, uma perda de privilégios.   
Não só homens costumam abandonar
crianças com doenças graves, mas
costumam abandonar também as
parceiras quando elas adoecem
E, olhando pela perspectiva laboral, muitas abrem mão de suas carreiras para poder acompanhar o filho mais de perto e levá-lo às terapias. A maioria, no entanto, não pode se dar a esse "luxo", principalmente em um cenário em que o abandono paterno é epidêmico. Uma pesquisa do Instituto Baresi, de 2012, mostrou que 78% das mulheres são abandonadas pelos maridos após o nascimento de uma criança com uma doença rara grave. Essas mulheres se tornam, ao mesmo tempo, as únicas cuidadoras e mantenedoras da criança, já que os pais, muitas vezes, só pagam a pensão sob judicialização. E há as que suportam relacionamentos claramente abusivos porque sabem que o filho demanda cuidados extras, e não querem correr o risco de passar pela novela do ex-marido que não paga pensão.
Mas eu gostaria agora de voltar, especificamente, ao fator emocional. Não dá pra falar de autismo sem falar de culpa materna.
O autismo é um transtorno do neurodesenvolvimento de origem majoritariamente genética que atinge cerca de 1 em cada 59 crianças nos Estados Unidos, segundo a estimativa mais recente do CDC (Centro de Controle de Doenças). É extremamente comum, principalmente se comparado com a Síndrome de Down, por exemplo, cuja incidência é de 1 em 700. E a história do autismo está intimamente ligada à saga da culpabilização materna.
É claro que há autistas desde a época das cavernas, mas essa condição só foi descrita no século XX, quando foi considerada como “retardo mental” ou “psicose infantil”. Em 1943, o psiquiatra Leo Kanner surgiu com uma hipótese que chamamos até hoje de "teoria da mãe geladeira". Ele sugeriu que as crianças apresentavam tendência ao isolamento e comportamentos repetitivos por "falta de calor materno". A "brilhante conclusão" foi tirada ao observar a dificuldade que as mães de crianças autistas tinham de brincar com elas. O que era consequência virou causa.
O avanço da neurociência veio derrubar o mito: existem, atualmente, mais de 800 genes identificados que estão ligados ao autismo. Então a culpabilização materna parou, certo? Errado. Ela continua firme e forte, mas com uma roupagem diferente. Ou várias. E os "vendedores de milagres" sabem exatamente como explorá-la.
MMS e autismo
O ex-cientologista americano Jim Humble afirma ter descoberto um composto que cura virtualmente toda doença existente, seja ela proveniente de bactérias, vírus, ou o que quer que seja. 
Esse composto foi chamado por ele de MMS -- Mineral Miracle Solution (Solução Mineral Milagrosa). Ele diz, em vídeos, que descobriu o MMS ao "curar" seus amigos que contraíram malária na Amazônia. Ele também declara que "tratou com sucesso" mais de 700 casos de HIV. E, por fim, ele afirma ser um Deus que veio da galáxia de Andrômeda e criou seu próprio culto: a Gênesis II, igreja da saúde e da cura, onde o MMS é um sacramento.
MMS nada mais é do que dióxido de cloro, um alvejante potente usado na indústria de papel para descolorir polpa de madeira. Também é usado no tratamento da água, mas em proporções realmente mínimas por sua força e toxicidade. Ele é obtido através da mistura de uma solução de 28% de clorito de sódio com uma de 4% de ácido clorídrico. Há "protocolos" diferentes com o MMS para tratar cada tipo de doença, mas normalmente a orientação é dilui-lo e ir tomando aos poucos de hora em hora.
A popularização do MMS como "cura do autismo" veio através da também americana Kerri Rivera, corretora de imóveis e homeopata, que escreveu o livro Curando os sintomas conhecidos como autismo, onde ela detalha todo um protocolo que inclui dietas restritas, desintoxicação e desparasitação feita por "enemas". Kerri orienta os pais a inserirem o dióxido de cloro diluído pelo reto das crianças. O resultado é que as crianças expelem muito muco e pedaços do revestimento intestinal, o que ela descreve como "vermes que causam os sintomas de autismo".
Ela saiu dos Estados Unidos após sofrer diversos processos, já morou no México e, atualmente, está na Alemanha. Mas ainda comanda grupos de pais onde cobra por orientação sobre como usar o MMS e vende produtos de sua lojinha virtual relacionados ao protocolo. Apesar disso tudo, ela deixa claro em seu site que não se responsabiliza por absolutamente nada que venha a acontecer com a criança.
Outro charlatão que se aproveitou da onda foi o alemão Andreas Kalcker. Apesar de se intitular "doutor", Kalcker apenas tem um curso de "filosofia da medicina alternativa". Ele também defende protocolos de uso do MMS que incluem enemas e é defensor da ideia -- já totalmente desacreditada pela ciência -- de que vacinas causam autismo.

Aqui a continuação deste texto de Andréa Werner. Ela explica como mães de autistas são alvos fáceis de golpistas. 

terça-feira, 2 de julho de 2019

MANIFESTAÇÕES FRACASSADAS MOSTRAM QUE AGENDA AUTORITÁRIA NÃO TEM RESPALDO SOCIAL

Nível dos manifestantes (à direita, na rua, homenagem à carreira militar)

Pra mim esses atos em defesa do governo no último domingo foram, além de ridículos, como sempre, um fiasco totalPublico o artigo do deputado federal Orlando Silva (PCdoB-SP) sobre as manifestações que nós apelidamos de Parada do Orgulho Gado. 

MBL recuou e decidiu
apoiar atos reaças desta
vez (não apoiou atos
com a mesma pauta em
26/5)
Diante do que esperavam os organizadores, fracassaram os atos em defesa do governo e da Lava-Jato. Foi o que se viu nas ruas do país neste domingo: mesmo com o reforço de grupos como o MBL e o Vem Pra Rua, as manifestações foram bem inferiores as de 26 de maio, que por sua vez já davam sinais de refluxo.
Além da adesão menor, a verdade é que os atos mais relevantes estão ficando circunscritos aos estados do centro-sul e o perfil dos manifestantes representativo apenas das elites. A mídia fala em manifestações em 70 cidades, pouco se compararmos com as mobilizações em defesa da educação –- e, por extensão, contra o governo --, que ultrapassaram 1 milhão de pessoas e atingiram mais de 200 municípios.
É claro que Bolsonaro e Moro se apressaram em cantar vitória, não o fazer seria equivalente a admitir que o grito das ruas não passou de sussurro. Pior: seria atestar que o governo perde popularidade rapidamente, como mostram as pesquisas, e que as denúncias de ilegalidades cometidas pelo juiz e por promotores na Lava-Jato atingiram em cheio a imagem da operação e de seu principal agente.
Quem trabalha protesta aos domingos..
E às vezes nem isso
À medida em que apostam em pautas autoritárias, como fechamento do Congresso e do STF, e buscam sacralizar as imagens de Bolsonaro e de Moro, os grupos de extrema-direita passam a pregar apenas para convertidos e se isolam da ampla maioria da sociedade. Aliás, com a evocação desavergonhada de ideias fascistas, a divisão e o ódio tomaram o próprio movimento, como provam as cenas de pugilato entre grupos e a hostilidade recebida pelo MBL em diversos locais.
Chama a atenção esse culto à personalidade obsessivo, politicamente rasteiro, que prega a substituição das instituições democráticas por pretensos salvadores da pátria. Por mais críticas que se faça à política, tal messianismo não encontra nenhum respaldo na realidade objetiva. Goste-se ou não da agenda atual, tudo o que se move no país acontece apesar de Bolsonaro e não a partir dele. É ridículo o argumento de que o Congresso e o STF sabotam o executivo. A verdade é que, em seis meses no cargo, o presidente da República só atrapalhou o funcionamento do governo e agravou a crise econômica do país. Ora, quem tem um “messias” desses nem precisa de inimigo...
Em Americana, SP, lotou
A pergunta que fica é qual rumo tomará o governo a partir de agora? Vai entender que já perdeu tempo e capital político demais apostando numa radicalização insana e passar a se comportar dentro dos marcos democráticos? Ou vai redobrar a aposta no extremismo, buscando manter mobilizada sua seita de apoiadores acríticos? A resposta a esses questionamentos deixa o país em tensão permanente.
Por isso mesmo é preocupante que o ministro Augusto Heleno, quadro experiente que é, tenha sucumbido aos devaneios autoritários do presidente e participado de mobilizações abertamente hostis às instituições. Não parece que seja representativo de militares que compreendem o papel das Forças Armadas. É muito arriscada a politização dos quartéis, conforme já alertou o general Villas-Boas, então comandante do Exército.
É urgente que os diversos setores políticos se sentem à mesa para dialogar e unificar posições tendo como centro a defesa da democracia e do Estado de direito. É imperativo isolar a extrema-direita e matar no ninho o risco de aventuras autoritárias.
Será que os manifestoches entenderam
a ironia do rapaz?
Nossa luta deve ser pela frente ampla, por uma nova maioria, capaz de garantir a democracia e, a partir dela, retomar um projeto nacional de desenvolvimento que defenda a soberania, estimule os investimentos públicos e privados, impulsione o crescimento econômico e proteja os direitos sociais.

segunda-feira, 1 de julho de 2019

GRÁVIDA PERDE O FILHO E É ACUSADA DE ASSASSINATO

Queridas e queridos, vou falar de um caso que pra algumas pessoas é polêmico, mas pra quem é feminista ou minimamente sensato é simplesmente incrivelmente mega baita super duper ultra absurdo. 
Aconteceu no Alabama, sul dos Estados Unidos. Uma mulher grávida brigou com outra, a outra atirou nela, a grávida perdeu o bebê, e ELA foi acusada de assassinato. Chocante, né? Fica comigo, que só ficar pior.
Nesta quarta-feira, 26 de junho, Marshae Jones, 27 anos, foi presa por um crime que aconteceu em dezembro em Birmingham, Alabama, no estacionamento de uma loja, à luz do dia. Marshae, que estava grávida de 5 meses, começou uma briga com outra mulher negra, Ebony Jemison, de 23 anos. O motivo da discussão foi por um homem, o pai do feto. Ebony atirou na barriga de Marshae e ela perdeu o bebê. 
Inicialmente, a polícia indiciou Ebony pelo crime. Mas um júri decidiu não levar a acusação contra Ebony adiante e no seu lugar indiciou Marshae, dizendo que Marshae começou a briga e que Ebony agiu em legítima defesa ao atirar.
Um policial local disse: "Não vamos esquecer que o bebê não nascido é a vítima aqui. Ela não teve escolha em ser posta desnecessariamente numa briga em que ela dependia da sua mãe para sua proteção". Uma promotora disse: “Temos simpatia pelas  famílias envolvidas, incluindo Ms. Jones, que perdeu seu bebê não nascido. O fato de que esta tragédia era 100% evitável faz do caso ainda mais triste”. 
Um pouquinho de contexto aqui. O Alabama é um estado racista. Um caso que ficou famoso aconteceu no ano passado, quando uma mulher negra foi acusada de assassinato por matar o marido abusivo em legítima defesa. A polícia local queria indiciar a mulher por não ter buscado medidas protetivas contra o marido. Graças à pressão popular no resto do país, um júri resolveu não indiciar a mulher. Isso daí dá uma boa ideia do que poderia acontecer aqui no Brasil se as mulheres tivessem arma em casa. Claro que se tivesse arma em casa a mulher seria morta, é o que todas as estatísticas mostram. Mas não é esse o ponto.
Tem um artigo de 2012 da revista do New York Times que fala da criminalização de "mães más", que se refere à Justiça punir mulheres por aborto espontâneo se elas usaram drogas, ou pela morte de seus filhos já nascidos por negligência em acidentes. Tipo: em 2011, uma mulher negra foi condenada por homicídio quando seu filho de 4 anos foi atropelado por um caminhão enquanto ela cruzava a rua. O júri a culpou pela morte porque a mãe não usou a faixa de pedestres. 
Se alguém atira numa mulher grávida e ela e o bebê morrem, por exemplo, o acusado responderá a dois crimes. Mas imagina que absurdo seria se uma mulher grávida tentasse se suicidar, sobrevivesse, mas perdesse o bebê, e fosse acusada de assassinato? Acho que isso ainda não aconteceu. Mas 38 estados dos EUA têm leis que reconhecem o feto como possível vítima de um crime. Um embrião ou feto em qualquer estágio de desenvolvimento é considerado uma pessoa no Alabama. 
Faz um mês, o governador republicano do Alabama assinou a lei mais restritiva contra aborto no país. Bane praticamente todos os casos de aborto, incluindo em caso de incesto e estupro. Só libera se a gestante correr risco sério de morrer. Mesmo que a lei só entre em vigor em novembro, ativistas em direitos reprodutivos avisam que o caso de Marshae Jones mostra o que pode acontecer com as mulheres do Alabama assim que a lei começar a valer. 
É o retrato de um país cada vez mais conservador, indo pro caminho do Conto da Aia. Nos anos 1990, havia cerca de 20 clínicas no Alabama que realizavam abortos. Em 2017 eram só 5. Agora há 3. Com a nova lei, um médico que realizar um aborto pode pegar entre 10 e 99 anos de prisão. 
Isso está acontecendo em várias partes dos EUA. As ONGs contestam a banição nas cortes, e o que os grupos pró-vida querem é que chegue à Suprema Corte, para que ela derrube o marco jurídico de 1973, Roe vs Wade, que legalizou o aborto em todo o país. 
Marshae Jones durante sua
primeira gravidez
Vamos lembrar que aqui no Brasil o projeto dos fundamentalistas cristãos é proibir o aborto em todos os casos. Enquanto essa lei absurda não entra em vigor no Alabama e outros estados, vão punindo as mulheres. Pra mim parece meio óbvio que, neste caso específico, se a mulher grávida não fosse negra e pobre ela não seria acusada de um crime. Prova como a vida do feto é vista em lugares racistas e misóginos como mais importante que a vida de uma mulher adulta. 
Ebony Jemison
Mas vamos voltar ao caso. De acordo com Ebony, ela, Marshae e o pai do bebê trabalhavam juntos num depósito. Marshae tinha ciúmes e foi confrontá-la. Ebony e três amigos estavam num carro na frente de uma loja durante o intervalo pro almoço quando Marshae e quatro amigos chegaram. Uma discussão começou. Ebony diz que Marshae puxou seu cabelo, e que ela, Ebony, atirou para o chão como advertência, e que nem sabia que o tiro tinha atingido Marshae. 
Marshae com sua filha de 6 anos
Já a polícia diz que Ebony atirou na barriga de Marshae. Li em outro lugar que Ebony entrou no seu carro durante a briga para pegar a arma, atirou e foi embora. A avó de Marshae conta que ela parou de brigar e estava indo embora quando Ebony atirou. Há várias versões. O que sabemos é que Marshae começou a discussão, estava desarmada, Ebony tinha uma arma e atirou, Marshae foi atingida na barriga e perdeu seu bebê de 5 meses. E agora, se julgada e condenada, Marshae pode pegar 20 anos de prisão. Ela já tem uma filha de 6 anos, o que leva a gente a pensar se alguém sai ganhando se Marshae for presa.
É tanto absurdo, né? Vamos imaginar que eu começo uma briga, desarmada, e a pessoa com quem eu comecei a briga tem uma arma e atira em mim em legítima defesa. Eu devo ser indiciada? Ou a pessoa que atirou em mim? E se a pessoa armada atira pro chão ou pro alto pra me advertir e o tiro atinge uma criança que tá lá perto. Eu cometi o assassinato por ter começado a briga ou a pessoa que atirou? O que me leva a outro ponto: pro pessoal que adora dizer "armas não matam pessoas, pessoas matam pessoas", num caso como esse, em que duas mulheres brigam, se uma delas não tivesse uma arma, alguém teria morrido? A socos? 
Local do crime: estacionamento em Birmingham, Alabama
Quando me mandaram a notícia no Twitter, eu divulguei, indignada. Um rapaz que eu nunca tinha ouvido falar respondeu ao meu tuíte: "Acho que os argumentos da justiça daquele estado estão corretos. Foi a mãe que colocou o bebê em risco, a outra mulher reagiu em legítima defesa. Não há o que se argumentar. E sem sombra de dúvidas a vida do feto é mais importante por estar indefeso".  
Eu disse pra ele: "Não me siga, por favor. Não quero q alguém q ache a vida de um feto mais importante do q a de uma mulher me siga. Obrigada." Ele ainda insistiu, com um argumento que diz tudo: "Imagina eu, um espírito, esperando na fila minha vez de nascer. Fernandinha estava louca para dar pro Ricardinho, não se aguentou e deu pra ele sem camisinha. Depois de 1 mês Fernandinha descobre que engravidou, quer abortar pois tem a vida toda pela frente. Mas e eu na fila?" Cara, quem é você na fila do pão? Dane-se vc. A discussão não é sobre vc. É sobre uma mulher que foi baleada na barriga. Tá vendo como você não dá a mínima pro corpo da mulher? Se a Fernandinha tivesse te abortado, vc não estaria aqui neste momento escrevendo besteira. 
Bom, diante da repercussão nacional e internacional, a promotoria do Alabama disse que ainda vai avaliar o caso e ver se é de homicídio, se vai reduzi-lo a outro crime, ou se não vai indiciar ninguém.
Um grupo que ajuda a financiar abortos para mulheres pobres no Alabama disse que iria pagar a fiança de 50 mil dólares para que Marshae deixasse a cadeia, e que também pagaria uma representação legal. Uma federação nacional pró-aborto disse num tuíte: "É assim que as pessoas -- principalmente as mulheres negras -- já estão sendo punidas e tendo sua gravidez criminalizada". Também estão divulgando alguns tuítes em inglês com a tag "Perder uma gravidez não é crime".
Uma diretora do Fundo pró-aborto disse que "o Alabama provou mais uma vez que no momento que uma pessoa engravida sua única responsabilidade é produzir um bebê vivo e saudável, e que o Estado considera qualquer ação realizada pela pessoa grávida um ato criminoso". 
"Não respire"
E só pra vocês saberem: no Alabama, o sexto estado mais pobre dos EUA, mulheres negras têm 3 vezes mais chances de morrer durante ou depois do parto do que mulheres brancas. Lá menos da metade das cidades têm hospitais que oferecem serviços obstétricos. O Alabama também é líder nos EUA em acusar mulheres grávidas por "crimes contra a gravidez". Então, qualquer coisa que puder ser considerada contra a gravidez pode levar uma gestante à cadeia: se ela bebe álcool, se ela usa drogas, se ela não faz o pré-natal, se ela engorda demais durante a gravidez, se ela faz caminhadas para não engordar demais, se ela anda de bicicleta e cai, se ela lê um post feminista meu e fica revoltada e isso altera sua pressão e ela perde o bebê. Qualquer coisa! 
Ou seja, olha a hipocrisia: se um feto ou uma mulher grávida morre, não é culpa do estado e seu atendimento falho, mas da mulher. Ao mesmo tempo, uma mulher não pode realizar um aborto legal, mas pode morrer à vontade ou ver seu bebê morrer em decorrência de um estado que não lhe dá nenhum direito, só a criminaliza.