As guerreiras perseguindo o carro que as atropelou
Thaís é escritora, ativista, feminista, LGBT e defensora de direitos humanos.
Em 2017, em Nova Friburgo, RJ, ela interferiu para ajudar uma moça que não conhecia num bar, que havia sido arrastada para o banheiro por um homem chamado Gabriel. Quando Thaís chamou o agressor para ir à Delegacia da Mulher, ele tentou atropelá-la com seu carro. Atropelou uma amiga. Mesmo assim, Thaís foi à delegacia. E isso foi o que ela escreveu em 2017:
Acabo de sair da delegacia da mulher, estava dando meu testemunho sobre uma agressão e, sinceramente, minha empatia pelas mulheres que não denunciam triplicou. Lá, te perguntam todos os detalhes -- todos, por menores que sejam --, te questionam sobre tudo a fim de encontrar qualquer coisa que possa ser usada contra você e o processo não ir pra frente. Enquanto eu esperava, não sei informar quantas vezes passou pela minha cabeça "Será que eu exagerei?", "Será que eu dei show à toa?", "Será que precisava disso tudo mesmo?". Precisava. Sempre vai precisar. ![]() |
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E sabe o que é pior? Eu sei que vamos ser deslegitimadas. Sei que nossa voz vai ser calada. Sei que Friburgo é uma cidade minúscula e isso pode se voltar contra nós. Como podemos ser culpadas pela agressão do outro? Isso não existe. Nada justifica.
Pensei milhões de vezes antes de me abrir dessa forma, não sei até que ponto esse tipo de exposição ajuda ou atrapalha. Mas acho necessário que fique claro que aqui não vai mais passar em branco. O "show" é legítimo, o escândalo é válido e agressão contra a mulher é crime.
Eu agradeço aos meus amigos que não estão me deixando fraquejar, agradeço a eles que estão sempre me lembrando que machismo e misoginia NÃO PASSARÃO. Nunca mais. Vocês não estão sozinhas e nem eu.
Dois anos se passaram, e finalmente a sentença saiu. Este é o relato de Thaís hoje:
Quase dois anos depois, o agressor Gabriel teve sua sentença. As perguntas que eu e minhas meninas nos fazíamos na DEAM foram respondidas: é necessário SIM fazer escândalo. É necessário SIM dar show.
Tínhamos essa resposta em mente porque somos feministas e sabemos o quanto é importante fazer um movimento para que machistas, misóginos, covardes e inconsequentes tenham o que mereçam.
No dia, eu estava indo ao banheiro de um bar em Friburgo, quando ouvi uma pequena confusão e uma menina chorando copiosamente. Perguntei, então, o que havia acontecido e, enquanto ela me contava que Gabriel a havia arrastado para o banheiro, o garçom o retirou do local e ele voltou a beber, normal e tranquilamente.
Fui atrás. Questionei se ele preferia ir comigo à DEAM ou esperaria a intimação chegar. Em tom de deboche e com certeza da impunidade, me respondeu “bora lá. Vamos no meu carro ou de táxi?”. Passei na minha mesa e avisei aos meus amigos que estava indo de táxi à delegacia. Prontamente, todos se levantaram. Gabriel havia estacionado seu carro próximo ao bar e, como eu estava mais à frente, ele entrou e engatou a ré, como se fosse me atropelar. Continuei imóvel.
Covarde, como já havia se mostrado, ele engatou a primeira. Uma de minhas amigas parou em frente ao capô do carro e perguntou se ele iria passar por cima. A resposta não veio em palavras -- ele simplesmente acelerou. Não sei com que força, com que técnica ninja, com que coragem, mas minha amiga conseguiu pular e sentar no capô e se segurar no limpa vidro (inclusive, Gabriel, se quiser de volta, guardamos como prova da sua falta de coragem em assumir os atos de AGREDIR DUAS MULHERES).
Acham que Gabriel parou? Imagine! Acelerou mais ainda e fez uma curva fechadíssima em alta velocidade. Minha amiga voou longe, foi parar no meio da rua.
Felizmente, um amigo meu estava filmando. Filmou tudo. Filmou Gabriel acelerando, filmou minha amiga sendo arremessada, filmou todo mundo correndo, tudo. Tudo foi entregue à DEAM.
Durante dois anos, tivemos a certeza da impunidade. Tivemos raiva, ódio, audiências, conciliações. Até que hoje, uma das amigas agredidas por Gabriel me mandou uma mensagem com a foto do documento de sua sentença. Foi condenado. Vai pagar. Vai sair do bolso.
Vai entender na marra que NÃO PASSARÃO.
A cada mulher agredida ou silenciada, outras mil serão suas vozes.
“Somos mulheres, a resistência de um Brasil sem fascismo e sem horror. Vamos à luta pra derrotar o ódio e pregar o amor.”
De batalha em batalha, vocês vão perder a guerra que só vocês quiseram entrar contra quem é muito mais forte. Se cuidem.
















































