Gente, fui convidada para participar do programa Encontro com Fátima Bernardes ao vivo, na sexta-feira, pra falar um pouco sobre como pensam os misóginos. Acho que seria uma visibilidade importante. Um monte de gente que eu admiro achou também, quando eu falei disso no meu Twitter, ontem à noite.
Eu gostaria de ir. O porém é que hoje voo pra Brasília, e amanhã dou duas palestras na UnB, uma às 10h, no campus Darcy Ribeiro, e outra às 16:30, no campus Planaltina. Vocês estão convidadxs pra ambas! Por favor, apareçam!
Pra estar no Encontro da Fátima, eu teria que ir de Brasília pro Rio ainda na quinta. Até aí, sem problemas. A Globo pagaria minha passagem de Brasília para o Rio, hotel, e a volta. O problema é que o SCDP (Sistema de Concessão de Diárias e Passagens) já pagou a minha passagem de volta de Brasília para Fortaleza, que seria na sexta de manhã. E também já depositou o valor de duas diárias na minha conta.
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Na Universidade Estadual da Bahia,
campus Caetité, sertão baiano,
na última sexta-feira à noite |
No final da viagem, preciso prestar contas de tudo isso. Se eu ficar irregular, o sistema de concessão não paga mais as despesas das minhas viagens para palestras e bancas em outras universidades por um ano (e lembrando que, em 95% das minhas palestras, eu não cobro nada, apenas as despesas com viagem e hospedagem).
Como eu pensei em resolver o problema? Eu devolvo a passagem de volta que o SCDP já concedeu (R$ 435) e uma das diárias (creio que cerca de R$ 300). Mas pra isso conto com a ajuda de vocês. Vocês podem doar esses R$ 735 pra mim? Se cada um doar um pouquinho, não vai doer no bolso de ninguém. Por favor, façam o depósito na minha conta no Banco do Brasil (ag. 3653-6, cc 32853-7), ou na minha conta no Banco Santander (ag. 3508, cc 010772760), ou no PayPal aí do lado.
Se vocês doarem mais que os R$ 735, eu repassarei o excedente para a família de Iasmyn Nascimento de Souza da Silva. Iasmyn, de 20 anos, e sua namorada Juliana, de 24, foram assassinadas a facadas por um vizinho em Angra dos Reis (RJ). Ele era foragido da Justiça (agora foi preso) e já havia matado outra mulher em MG. No último sábado, ele assediou Iasmyn, eles discutiram, ele partiu para cima dela com uma faca. Juliana, ao tentar defendê-la, foi golpeada também. Um terrível lesbocídio. A família de Iasmyn precisa do dinheiro para o enterro (a vakinha termina na sexta, mas a família é pobre, e certamente precisará de mais dinheiro). Veja no final deste post quanto dinheiro foi arrecadado e como ele foi distribuído.

Bom, então eu vou pro Programa da Fátima!
Atenção: agora, no aeroporto de Fortaleza, recebi duas péssimas notícias. Uma, que meu voo foi cancelado. Vou chegar muito mais tarde hoje em Brasília. Duas, que a produção do programa da Fátima cancelou a pauta, sem maiores explicações, por enquanto. Então o tema não seráo mais sobre grupos de ódio e não irei mais ao Encontro. Muito obrigada a todxs que doaram dinheiro (ainda não sei quanto), e não se preocupem, que o valor será doado à família da Iasmyn. Na sexta, quando eu estiver de volta à Fortaleza, faço a transferência e aviso vocês do valor). Ontem, quando uma produtora do programa me contatou, ela também pediu prints que mostrem como esses homens frustrados que habitam o submundo da internet pensam. Enviei vários pra ela.
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Sentimento de entitlement
desenhado: numa caixa,
"Eu quero"; em outra,
"Não é justo" |
E me lembrei também desses dois relatos que eles publicaram no chan do Marcelo, que vou reproduzir abaixo (eu tinha publicado sem querer, sem ilustrações ou links, em setembro de 2017, daí alguns comentários na caixa, antes de eu remover o post).
Um dos muitos problemas dos mascus (e de muitos homens que não necessariamente seguem uma ideologia de ódio) é que eles nascem achando que o mundo lhes deve alguma coisa (vaga na universidade, um bom emprego, reconhecimento, as "melhores mulheres"). É o sentimento que em inglês se chama entitlement. Eles pensam que merecem tudo isso apenas por terem nascido homens e brancos, e se frustram quando veem que o mundo não é bem assim e que, apesar dos privilégios indiscutíveis que eles têm por serem homens, há mais gente no mundo batalhando.
Outra coisa que me chama a atenção é quando leio relatos de momentos traumáticos de mascus. São muito diferentes dos traumas que tantas mulheres têm. Acompanhem este caso que, apesar de anônimo, atribuo a um membro da quadrilha chamado Goec, um terrorista perigoso que continua solto e diz viver na Alemanha ou na Suíça (atenção, que o relato contém linguagem ofensiva e preconceitos explícitos):
Eu vejo vocês reclamarem da vida como se o planeta inteiro fosse como o Brasil. Não, pessoal. O mundo civilizado (Europa) não é como o Brasil.
Eu me lembrei hoje de algo que me deixou muito triste na infância e me fez abandonar um sonho por um tempo. Quando eu tinha 6 anos minha mãe me colocou na natação. Apesar da pouca idade eu era foda e gostava muito desse esporte.
Um dia, não me lembro com qual idade mas lembro que eu já tinha aprendido os quatro tipos de nado, virada e muitas outras coisas.
Ate que um professor chamado William (nunca vou esquecer este nome), musculoso, de óculos escuro, metido a playboy, passou a dar aula. Esse cara tinha uns 30 anos de idade, formado em educação física e que simplesmente dava em cima de TODAS as mulheres. Até nas de 6 anos de idade. E em relação aos homens ele fazia o contrário.
Passava atividades pra gente e depois ia conversar com as mães dos alunos pra tentar comer.
Um dia esse filho da puta passou uma atividade pra todos terminarem e eu fui o primeiro acabar. Acabei antes de uma vadiazinha que devia ter uns 15 anos de idade e era mais avançada que eu.
Sabem o que ele me falou na frente de todo mundo?
Por que você mente tanto? Nunca na sua vida você vai terminar antes da (nome da puta que não lembro). Isso acabou comigo. É a única coisa ruim que eu me lembro da infância.
A menina virou pra ele e disse que ela havia feito pausa e por isso eu terminei primeiro. Aí o cara olhou pra mim e disse: Ah, então está bem.
Depois disso eu perdi o amor pela natação e acabei largando meses depois. Eu amava aquilo. Fazia 3 vezes por semana.
Eu era uma criança inocente. Vocês acham certo fazer isso com uma criança? Vocês já fizeram isso com uma criança?
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Email de Goec enviado a mim
anteontem (clique para ampliar) |
Voltei a fazer quando fui pra Alemanha.
E o que eu tenho pra falar?
Eu NUNCA vi um professor ser antiético da forma como esse William fez e muito menos um professor cantar alunas ou ter QUALQUER atitude que possa ser considerada não profissional. Não tem gente cantando ninguém, não tem gente humilhando as pessoas para aparecer etc.
Ai quando chega um BOSTILEIRO [forma que mascus chamam brasileiros] pra fazer video, critica justamente as partes que são a base da sociedade civilizada, como ética, respeito, separação total da vida privada e da profissional etc.
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| Boteco na Alemanha |
O lugar de trabalho no Brasil é mais informal que um boteco na Alemanha. Eu fico impressionado em como o Brasil é uma merda. Todas as lembranças que eu tenho dessa merda me fazem pensar em botecos. País sem cultura, sem história, sem regras não tem futuro.
Por isso eu não tenho pena de fuder com a vida de brasileiros. Não tenho pena de ligar pra mãe de um cara e dizer que o filho está em estado grave no hospital depois de sofrer um acidente. Não tenho pena de estuprar uma mulher brasileira.
Não tenho pena de nada. Quero apenas vingança.
E um dia eu vou achar esse professor William. Estou na cola dele, hue [jeito que alguns mascus manifestam rir].
E quando eu souber o nome dele, o endereço dele, o nome da mãe dele, vai ser bem diferente de quando eu era uma inocente criança de 8 anos de idade.
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| Ontem estava relendo alguns prints e me deparei com este, escrito por Marcelo dois meses antes de ser preso. Ele tinha muita certeza da impunidade. Me deu uma satisfação enorme lembrar que ele foi condenado a 41 anos de prisão. Clique para ampliar |
Este é relato do ex-líder da quadrilha, Marcelo, que foi preso em maio do ano passado e condenado a 41 anos de prisão, em dezembro. Ele escreveu isso no chan no início de 2017, quando havia comprado uma apartamento novo em Curitiba -- com dinheiro da mãe -- e Temer ainda era presidente.
Eu me espelho em caras como o Michel Temer.
Veja a mulher do cara, branca, gostosa, enquanto ele é velho, rico e sábio.
Este Michel Temer tem vários livros de Direito Constitucional.
O cara é definitivamente ALPHA.
Ele não é ALPHA porque é bombado ou maromba, ele é ALPHA por sua capacidade intelectual e financeira.
Acabei de sair de um Uber. A vadialher era uma 8/10 [nota que mascus dão pra aparência das mulheres] e toda falante. Ai eu falei que estava voltando do apartamento que eu acabei de comprar, e falei que tinha passado em concurso. Aí a vagabunda já começou a melar a boceta.
Mas fiquei puto porque a vadia disse que também passou neste concurso só que para ANALISTA. É da área de DIREITO.
Já estou puto até agora porque não aceito ser superado por uma esgotalher, mesmo que seja em outra área.
Vadias sempre tem que ficar ABAIXO de mim.
Me lembro que quando era criança jogando com a minha mãe eu batia nela quando ela ganhava, porque dizia que vadialheres sempre tem que perder, eu sou homem e sou melhor. Nunca aceitei perder pra nenhuma vagabundalher.
Estou puto até agora. Imaginei esta vadia chupando rolas gozando com o salário de 10k. Salário que era para EU estar ganhando.
PRESTANDO CONTAS: PRA ONDE FOI O DINHEIRO QUE VOCÊS DOARAM PRA MIM
Como a pauta do Encontro da Fátima foi cancelada, eu não precisei usar o dinheiro. Logo, tudo que vocês contribuíram em menos de quatro horas (o tempo em que este post foi publicado até o meu aviso de que eu não precisaria mais do dinheiro pra pagar a passagem) foi doado. Vocês me deram um total de R$ 507.
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| Clique para ampliar |
Agradeço muitíssimo, de coração! Só que, na sexta (22/3), quando fui tentar transferir esses 507 pra vakinha da família da Iasmyn, a conta já havia sido encerrada (arrecadaram 167%, muito bom!). Perguntei então às pessoas que me seguem no Twitter para me darem sugestões, e acatei as melhores. Portanto, na segunda doei R$ 357 para a vakinha que vai ajudar Gudo Bai a reconstruir a casa de sua família em Moçambique, atingida pelo ciclone (vocês ainda podem contribuir!). E doei R$ 150 para a vaquinha (via abacashi) organizada pela Déia (NaoInviabilize), uma incansável ativista dos direitos animais. Esta vaquinha era para custear medicações e cirurgia de um cachorro e uma gatinha doentes e já foi encerrada, mas sempre há outras. Mais uma vez, obrigada por tudo. Sei que posso contar com vocês!