quinta-feira, 7 de fevereiro de 2019

QUEM SOBROU PARA CRITICAR O DECADENTE NEOLIBERALISMO?

"Toda manhã eu acordo do lado errado do capitalismo"

Publico um guest post do João Paulo Jales dos Santos, estudante do curso de Ciências Sociais da UERN, e colaborador frequente aqui do blog.

O site Five Thirty Eight mensura que a popularidade de Donald Trump está com cerca de 16% de saldo negativo. A impopularidade do presidente, que já estava alta, subiu aproximadamente 6% desde que o inconsequente levou a cabo a ideia de querer no orçamento federal do ano fiscal a inclusão de uma quantia para construir um muro na fronteira com o México. Uma proposta de campanha, completamente infundada, ainda mais se levando em conta que Trump afirmava, para seu eleitorado, que seria o México que pagaria pelo muro. 
Como o México pagaria por esse muro? Como Trump obrigaria o México a custear o muro? O presidente não tinha resposta alguma, apenas dizia que o México pagaria. A retórica alucinante funcionou durante a campanha, mas para ser viável na gestão, até aqui, não teve êxito. Sendo Trump o presidente mais impopular da história moderna neste período de governo, a promessa de um orçamento para o muro foi apenas uma tentativa de fazer com que o presidente mobilizasse sua base eleitoral, e pudesse entregar concretamente uma promessa que fora das mais importantes de sua campanha, depois que perdeu a maioria na Casa dos Representantes. 
Mas Trump foi derrotado na tentativa de custear o muro, e na queda de braço, a oradora (presidente) da Casa dos Representantes, Nancy Pelosi, saiu vencedora. The Donald, o ‘machão’ que proferiu “Grab them by the pussy. You can do anything” ("pegue-as pela b*ceta. Você pode fazer qualquer coisa"), perdeu para uma mulher. Uma derrota pública, que certamente deve ter deixado o magnata-presidente irritadíssimo. Trump, por sinal, é o exímio típico homem branco medíocre, que só chegou onde está graças aos privilégios que homens brancos héteros desfrutam no patriarcado. 
Pelosi, experiente líder, provou que a indicação do partido para que ela se mantivesse como líder da bancada democrata na Casa, e consequentemente se tornasse oradora, foi uma decisão acertada. Ela há tempos sofre imenso desgaste popular, graças a ataques ininterruptos da direita, que a tornaram uma espécie de razão de viver para os reacionários republicanos, exemplo similar do que ocorre com os antipetistas no Brasil.  
Pelosi, deputada do 12º distrito da Califórnia, correspondente à cidade de São Francisco, mostrou que num momento delicado da vida política americana, sua experiencia política foi imprescindível. Trump enfrentou uma política pragmática e conhecedora dos escaninhos de Washington, que não teme enfrentamento, e que ao ser confrontada, costuma responder prontamente à altura o ataque recebido. O estado de onde vem Pelosi é um caso particular das mudanças políticas, demográficas e culturais que vem remodelando as escolhas partidárias da sociedade americana. 
Outrora bastião republicano, assim como alguns estados do Nordeste americano, a Califórnia é hoje uma sólida fortaleza democrata. Foi exercendo mandatos no estado que Ronald Reagan e Richard Nixon chegaram à Presidência. Situação histórica semelhante ao estado sulista da Geórgia, filão partidário nas fileiras democrata durante décadas, que alçou Jimmy Carter à Presidência em 1976, e que veio posteriormente se tornar um confiável território republicano, como outros muitos estados sulistas, que eram máquinas automáticas de depositar votos em candidatos democratas. Mas enquanto na Geórgia, progressivamente, os republicanos vêm perdendo a liderança que exercem no estado desde os anos 2000, na Califórnia, o definhamento do GOP (partido republicano) parece não ter fim. 
A Geórgia, situada no Sul profundo, também começa a experimentar um tipo de mudança de comportamento eleitoral que ocorre em todo o território americano. A classe média alta do país, que migrou maciçamente para os subúrbios dos grandes centros urbanos a partir da década de 60, quando as grandes cidades foram ficando cada vez mais cosmopolitas, e que antes era fiel eleitora do GOP, começa a virar a mesa da cena política-eleitoral, se tornando, em sua maioria, um importante grupo constituinte da coalização democrata. Com altos níveis de escolaridade e renda, há ainda uma significativa parcela suburbana da classe média alta que vota no GOP, mas que nem de longe representa os percentuais de votos que os republicanos amealhavam no passado. 
O voto classista médio alto nos democratas é um caso que era inimaginável décadas atrás. Convém aguardar as próximas eleições para se afirmar com mais precisão a fidelização da classe média alta em torno do partido democrata, afinal, se socialmente se enxergam como liberais, economicamente, os integrantes da classe afirmam serem moderadamente conservadores. De todo modo, o fenômeno político deve impactar significativamente os rumos políticos dos Estados Unidos, numa virada que igualmente corresponde à mensurada entre os eleitores menos escolarizados, antes adeptos aos democratas, mas reduzindo sua preferência em torno do partido nos últimos anos. 
A enorme maioria dos
professores nos EUA são
democratas. A ilustração
mostra o símbolo demo-
crata, o burro, e o repu-
blicano, o elefante
A preferência de uma classe altamente escolarizada por políticos liberais enche de orgulho o ego da maioria dos acadêmicos progressistas. Os acadêmicos, idealizados de um eleitorado culto, politicamente e esteticamente sofisticados, veem a ascensão da preferência da classe média alta em prol dos democratas como um alívio; afinal, a votação em liberais por parte de um segmento mais rico e educado, sempre foi uma idealização acadêmica. Enquanto se alegram com a chegada de uma classe outrora republicana, os cânones liberais acadêmicos pouco se importam com a perda de apoio com uma classe que formava a espinha dorsal do partido democrata, a classe trabalhadora, também conhecida como a coalização do New Deal, formada a partir das políticas sociais dos mandatos do democrata Franklin Delano Roosevelt. Não surpreende essa falta de preocupação, pois o aburguesamento e uma dose alta de elitismo na academia são recorrentes. 
Se encaminhando para o término da 2ª década do século XXI, é estupefaciente o compromisso da esquerda no que tange o status quo neoliberal. Antes frequente e contumaz crítica do status quo capitalista, a esquerda cedeu esse lugar para a extrema direita, que é quem prega uma ruptura da ordem burguesa. Se antes a defesa da classe trabalhadora e dos pobres cabia ao movimento esquerdista, hoje quem se coloca como defensora do operariado são os segmentos da extrema direita. Basta olhar para a Europa: na França, Alemanha, Grã-Bretanha, Áustria, Holanda, Polônia, Itália, e Hungria, nações em que a direita reacionária chegou ao poder, são os políticos reacionários e os teóricos e adeptos conspiracionistas que conclamam a população a se rebelar contra o status quo. 
Na infame campanha do Brexit, enquanto os reacionários e alguns expoentes do partido conservador pregavam o voto pela saída da União Europeia, a maioria dos políticos trabalhistas faziam campanha pela permanência britânica na União Europeia. Certamente, a posição marcada pela esquerda britânica ao defender um voto pela permanência delimitou um espaço numa arena política da defesa de valores universalistas e humanistas, já que no lado da extrema direita se pregava racismo, xenofobia, islamofobia, ódio e mentiras sem limites. 
No entanto, o que se analisa é a posição da esquerda num espaço que antes lhe pertencia, a crítica ao status quo. A esquerda aburguesada muito pouco critica o status quo capitalista-burguês. Os políticos de esquerda fazem defesa de valores progressistas e humanistas, desde que os avanços civilizatórios dessas ideias não corroam o ordenamento neoliberal. À direita e à esquerda, os lesados pelas constantes crises do neoliberalismo são mais defendidos pelos extremistas reacionários. 
A direita, que antes ainda vendia o liberalismo para o indivíduo das massas, agora se compromete tão somente com o liberalismo para o 1% mais rico. A esquerda, defensora das classes trabalhadora e média baixa, se deslocou para um liberalismo social, e basicamente busca mais defender os valores progressistas dos direitos individuais libertários, em detrimento dos valores marxistas e socialistas. A crítica de muitos da esquerda ao neoliberalismo resvalou num imenso vazio de lugar-comum. 
As grandes massas, que foram as grandes perdedoras das políticas neoliberais, submetidas às humilhações inerentes do reacionarismo capitalista, e largadas pelas centro-esquerda e direta, se tornaram fáceis e maleáveis adeptas da retórica nazifascista. A ascensão da extrema direita na Europa, nas Américas e em outras partes do globo se deve justamente a isso. De proletários à pequena e média burguesia, a extrema direita constrói uma coalização heterogênea, a partir dos escombros do neoliberalismo. Como a manutenção do status quo do ordenamento global capitalista é defendida à direita e à esquerda, pe compreensível, então, a ojeriza popular às elites tradicionais. 
Interessante a leitura de um artigo de autoria de um importante nome da direita americana, Tucker Carlson, intitulado "Mitt Rommey apoia o status quo. Mas para todas as outras pessoas, é enfurecedor", em que o articulista faz algo impensável vindo de um direitista: critica os rumos do atual estágio avançado do neoliberalismo. Sob uma perspectiva conservadora, Carlson aponta soluções à direita para um profundo cenário de depressão social e econômica que atinge o âmago da middle America. Se os caminhos defendidos por Carlson diferem dos apontados pelos socialistas de seu país para solucionar e superar a crescente desigualdade social e de oportunidades e a exponencial geração de miséria do status quo, o argumento crítico de Carlson a esse status que só se preocupa com o bem-estar do 1% mais rico converge para uma preocupação dos socialistas americanos. 
O artigo de Carlson gerou polêmica nas hóstias conservadoras, mas ao menos serviu para mostrar que há alguns expoentes da direita americana que já começam a se preocupar com o atual estado de coisas liberal. O avanço das políticas neoliberais está num estágio tão crítico que não há como reformar o sistema se apenas um lado pede mudanças. Para uma reversão, é necessário um compromisso público entre esquerda e direita, como aquele firmado após o fim da 2ª Guerra Mundial.  
Em um mundo que nunca foi tão rico mas ao mesmo tempo tão pobre e tão desigual, em que nunca se trabalhou tanto e com salários com ganhos reais de baixos níveis, reverter a miséria, a concentração de riqueza, e a pouca mobilidade social e econômica, é um compromisso que requer um pacto social daqueles que prezam pelo bem-estar dos que sofrem os fortes impactos do aprofundamento do ordenamento inconsequente de uma ordem global preocupada em proporcionar vantagens e privilégios para o 1% mais rico, às custas do empobrecimento e de dificuldades dos outros 99%.
O apodrecimento neoliberal causa uma metástase social de cegueira incomensurável, tanto que o establishment democrata é ferrenho crítico de Bernie Sanders, que por defender maior proteção social e trabalhista e gratuidade nas universidades, incomoda o centrismo neoliberal estadunidense, refratário que é, à proposta de Medicare for All. Se políticas como essas, e as que pedem aumento progressivo de impostos para os mais ricos, que estão em seus menores níveis históricos nos países desenvolvidos, de participação dos trabalhadores, quem de fato geram riqueza, nos lucros e dividendos das empresas, incomodam tanto, é porque são alternativas factíveis ao neoliberalismo. E são propostas como essas que se devem buscar implementar para se fazer frente a um caos social que vem a cada década, desde os anos 80, gerando maiores graus de instabilidade nas sociedades. 
Nesse sentido, é extasiante que um esquerdista tradicional como Jeremy Corbyn lidere o trabalhismo inglês, depois de quase duas décadas de influência liberal de Tony Blair. Corbyn, quando foi eleito líder do partido em votação, se elegeu sem o consentimento de Blair, que à época chegou a escrever uma carta pedindo um não voto em Corbyn. Vencendo Blair, que atuou em conjunto com Bush para invadir o Iraque, Corbyn melhorou o desempenho do trabalhismo na eleição geral britânica de 2017, e é apontado como favorito, levando-se em conta o humor político do eleitorado no curto e médio prazo, para se tornar o próximo primeiro-ministro britânico. 
Caso consiga tal feito, será nos últimos tempos uma liderança de esquerda, a nível global, que não chegará ao poder influenciado por uma carreira construída sob a aprovação do establishment neoliberal. Corbyn é a liderança que a esquerda precisa nesse momento histórico. Representante de uma esquerda firmemente centrada nos valores da esquerda pré-década de 80, Corbyn tem a pinta do quase extinto político bonachão nascido dentro das estruturas sindicalistas, que sabe dialogar com as massas e transpira uma confiança sincera que faz com que o velho operariado sinta aquela esperança tão contumaz no eleitorado esquerdista dos anos de 20, 30, 40, 50 e 60. 
Os economistas neoliberais, sedentos por mais e mais neoliberalismo, costumam dizer que Thomas Piketty é um obsessivo economista que só se preocupa em taxar ricos. Se O Capital no Século XXI é uma obra que incomoda tanto é porque consegue adentrar as entranhas do decadente status quo neoliberal e propor soluções possíveis, quando se há compromisso político e público para tanto. 
Há uma enorme preocupação com o avanço da extrema direita europeia, que venceu a legislativa de março de 2018 na Itália, e têm chances de conquistar mais espaços políticos com Marine Le Pen, que está dando um verniz mais palatável a seu movimento que agora se chama Reagrupamento Nacional, e que pode se beneficiar dos protestos dos coletes amarelos. Le Pen, assim como seu correligionário ideológico Matteo Salvini, começa uma estratégia de se aproximar mais de instituições populares, como sindicatos, para angariar mais apoio de base. Enquanto a extrema esquerda tem enormes dificuldades para avançar, a extrema direita passeia no tecido social europeu com uma facilidade que não se via desde o fim do nazismo e do fascismo. 
Há que se ter comedimento de possíveis vitórias de partidos reacionários nas próximas eleições europeias, já que muitos direitistas com plataformas reacendendo o ódio social foram derrotados em pleitos majoritários depois do rescaldo da vitória de Trump, fato contrário da presença que possuem no parlamento europeu, de onde advém boa parte da verba para custear atividades políticas de parlamentares que para poderem combater as instituições liberais, recorrem ao dinheiro destas instituições para manterem assíduas suas atividades. 
Mas a meteórica ascensão da extrema direita na Europa, fenômeno que se dá em diferentes graus de intensidade entre países, é um alerta máximo de que o aprofundamento neoliberal causa ainda mais desordem institucional e política. Com uma centro-esquerda e uma centro-direita encantadas por defender o status quo, cabe a uma direita inconsequente angariar a fúria popular de um sistema conservador, cada vez mais fechado para a ascensão social dos pobres, mas aberto para mais e mais privilégios dos ricos. 
Apesar do progresso, 180 milhões de
crianças encontram-se em situação
pior que a de seus pais
Pesquisas mostram que a mobilidade social declinou drasticamente nas sociedades de capitalismo avançado desde os anos 80, período coincidente com o florescer neoliberal. A expectativa hoje é que os filhos tenham uma condição socioeconômica pior do que a dos pais. Não é de continuidade, e sim de maior fragilidade social. A Europa, outrora centro mundial portador do ideal civilizatório de direitos humanos, assiste o esgarçamento de uma ordem erguida há quase 40 anos. 
O neoliberalismo avança depressa, destruindo nações em todo o mundo, fazendo minorias étnicas e sociais serem usadas como bodes expiatórios, para assim poder argumentar e custear o sofrimento dos povos. O espaço de crítica a um status quo tão perverso como esse pertenceu a esquerda. É a esquerda que historicamente se preocupou com as questões sensíveis da classe trabalhadora, da classe média baixa, dos pobres e excluídos. Se a esquerda perdeu o comprometimento de lutar para enfraquecer o poderio do establishment capitalista, que ao menos retorne ao seu lugar político vinculado aos anseios das demandas dos trabalhadores. Com uma esquerda e uma direita alienadas pelo sonho de consumo do 1% da rica elite burguesa global, fica difícil um panorama político, social e econômico que possa refrear a escalada da boçalidade do reacionarismo mundial.

terça-feira, 5 de fevereiro de 2019

A NOVA ERA DOS BOLSOMINIONS SAFADOS

Eis uma história para nos fazer sorrir.
Não sei se alguém lembra de um rapaz que, logo após as eleições, publicou uma foto no seu Facebook com uma arma, uma camiseta do Bolso, e a legenda "Está com medo petista safada? É a nova era!" Ou seja, uma mensagem que podia muito bem ser interpretada como ameaça.
Na época, a imagem causou polêmica, e internautas logo passaram a vasculhar a vida do bolsominion. De acordo com vários sites, seu perfil foi encontrado num aplicativo de encontro gay chamado "Scruff". Ainda segundo o que se noticiou na internet, Salomão tem, ou tinha, um blog em que defende "a família tradicional". 
No dia 30 de outubro o rapaz gravou um vídeo ao lado de sua mãe, mostrando a sua "arminha de espoleta" quebrada e pedindo desculpas. "Peço para acalmar, até, todas as partes, até porque ninguém vai ganhar nada com isso". 
Vídeo em que Salomão pede
desculpas
Mas em algum momento sua constatação de que "ninguém vai ganhar nada com isso" se perdeu, e ele decidiu processar a revista Fórum por danos morais e materiais. Numa matéria bastante inofensiva, a Fórum relatou o que Salomão havia feito nas últimas horas (foto com ameaça, aplicativo, vídeo ao lado da mãe). Na ação, Salomão alegou que a publicação (apenas uma entre muitas) assassinou sua reputação e lhe causou transtornos.
Ele perdeu a ação. Uma juíza de São Lourenço, MG, onde vive o bolsominion, concluiu que a Fórum não mentiu, apenas informou, "limitando-se a noticiar os fatos na forma como ocorreram". Mas a melhor parte foi a juíza dizer que foi o próprio autor quem assassinou sua reputação. Óbvio, né?
Pelo jeito, não contente com a exposição negativa do ano passado, Salomão decidiu repetir a dose no ano novo ao entrar com a ação. Agora tem um monte de gente rindo dele de novo. E o rapaz e sua mãe ainda devem ter perdido uma graninha pra pagar as custas.
Seria mais divertido se a gente não soubesse que é uma estratégia da direita tentar criminalizar a oposição e os movimentos sociais através de processos. Bolso e seu filho Eduardo entraram com uma ação contra a Fórum agora em janeiro, simplesmente porque a revista publicou uma foto de Lula Marques de 2017. Espero que percam. 

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2019

SOBRE A MORTE DA ATIVISTA SABRINA BITTENCOURT

Fiquei sabendo ontem à noite sobre o suposto suicídio da ativista Sabrina Bittencourt, ocorrido no sábado.
Sabrina, 38 anos, foi uma das principais mulheres a denunciar João de Deus e Prem Baba. Na infância, foi abusada dos 4 aos 8 anos por integrantes da igreja mórmon, a qual sua família pertencia, o que mais tarde a levou a ser uma das criadoras da Coame (Combate ao Abuso no Meio Espiritual). Ela dizia sofrer de câncer linfático e se mudava frequentemente de cidade por receber ameaças de morte
Segundo o grupo Vítimas Unidas, ela deixou esta carta de despedida, publicada na sua página no FB no sábado:
"Marielle me uno a ti. Somos semente. Que muitas flores nasçam dessa merda toda que o patriarcado criou há 5 mil anos! Eu fiz o que pude, até onde pude. Meu amor será eterno por todos vocês. Perdão por não aguentar, meus filhos. VOCÊS TERÃO MILHARES DE MÃES NO MUNDO INTEIRO. Minhas irmãs e irmãos na dor e no amor, cuidem deles por mim… Eu sempre disse que era só uma pequena fagulha. Nada mais. Só pó de estrelas como todos. 
USEM A SUA PRÓPRIA VOZ. A SUA PRÓPRIA VONTADE. TOMEM AS RÉDEAS DE SUAS PRÓPRIAS VIDAS E ABRAM A BOCA, NÃO TENHAM VERGONHA! ELES É QUEM PRECISAM TER VERGONHA. Não aguento mais. Todas as provas, evidências, sistemas de apoio, redes organizadas e sobretudo, meu legado e passagem por aqui está entregue ou chegará às mãos corretas. As REDES DE APOIO AOS BRASILEIR@S FORAM CRIAD@S E SE EXPANDIRÃO NA VELOCIDADE DA LUZ! Não se desesperem. Dessa vida só levamos o mais bonito e o aprendido. Paulo Pavesi, eu sinceramente sinto muito pela morte do seu filho. Tenha certeza, que se eu soubesse da sua história na época, implicaria minha vida e segurança como fiz com centenas de pessoas. 
Damares, eu sei que você não teve tratamento psicológico quando deveria e teve sequelas, servindo de marionete neste sistema de merda que te cooptou, acolheu e com o qual você se sente em dívida o resto da sua vida. Não tenho dúvidas que você amou e cuidou da sua 'Lulu' como gostaria de ter sido cuidada e protegida na sua infância, mas ela nao é uma bonequinha bonita que você poderia roubar e sair correndo… Giulio Sa Ferrari, eu te considerei um irmão e você sabia de todas as minhas rotas de fuga… eu vi em você a pureza de um menino que nunca foi notado por uma sociedade neurotípica que não entendia os neuroatípicos, mas reputação é algo que se constrói e não é de um dia ao outro. 
Gabriela Manssur, muito obrigada por me fazer ter esperança de que elas serão ouvidas e atendidas em suas necessidades. João de Deus, Prem Baba, Gê Marques, Ananda Joy, Edir Macedo, Marcos Feliciano, DeRose Pai, DeRose filho, todos os padres, pastores, bispos, budistas, espíritas, hindús, umbandistas, mórmons, batistas, metodistas, judeus, muçulmanos, sufis, taoístas, meus familiares, Marcelo Gayger, Jorge Berenguer, eu desconheço a sua infância e a sua criação pelo mundo, mas sei no meu íntimo que TODO MENINO NASCEU PURO e foi abusado, corrompido, machucado, moldado, castrado, calado, forçado a fazer coisas que não queria, até se converter talvez, cada um à sua maneira, em tiranos manipuladores (em maior ou menor grau) que ao não controlar os próprios impulsos, tentam controlar a quem consideram mais frágil e assim praticam estupros, pedofilia, adicções diversas… 
Eu sei, eu sinto, eu vi. Mas ainda assim, preferi SEMPRE ficar do lado mais frágil nesta breve existência: mulheres, crianças, idosos, jovens, povos originários, afrodescendentes, refugiados, ciganos, imigrantes, migrantes, pessoas com deficiência, gays, pobres, lascados, fudidos, rebeldes e incompreendidos… Essa vida é uma ilusão e um jogo de arquétipos do bem e do mal, de dualidades… desde que o mundo é mundo. Vivo num outro tempo desde que nasci e sempre senti que vivia num mundo praticamente medieval. Volto pro vazio e deixo minha essência em PAZ. Aos meus amigos, amadas e amantes, nos encontraremos um dia! Sintam meu amor incondicional através do tempo e do espaço. SIM e FIM.”
É algo terrível. No entanto, sua morte ainda está cercada de mistérios
Ao contrário do Vítimas Unidas, o filho mais velho de Sabrina, Gabriel, de 16 anos, até agora o único familiar a se pronunciar, disse que sua mãe morreu no Líbano. A embaixada do Brasil em Beirute diz que não foi notificada.
Gilberto Dimenstein, criador do Catraca Livre, afirmou ter recebido uma mensagem de Sabrina no Whatsapp horas antes do suicídio, em que ela dizia estar sendo perseguida por Pavesi. Já Pavesi disse que iria pedir à Polícia Federal a investigação de seu "suposto suicídio". 
A revista Carta Capital publicou hoje uma matéria sobre o que se sabe da morte de Sabrina. Para Dimenstein, isso foi uma insinuação de que a ativista pode estar viva: "Como ainda ninguém viu registro de morte nem o corpo de Sabrina Bittencourt, há rumores entre os jornalistas de que o suicídio não teria acontecido. O falso suicídio seria um jeito de Sabrina livrar-se das pessoas que supostamente estariam interessadas em matá-la". 
Em meados de dezembro, espalhou-se uma notícia falsa de que Sabrina teria se suicidado. "Estou sendo alvo de gente louca, mas sigo na ativa", afirmou a ativista.
Desta vez, várias vítimas de João de Deus entraram em contato com uma reportagem do Globo. Disse uma delas: "Quero acreditar que ela conseguiu uma medida protetiva. Que ganhou outra identidade e que agora conquistou a paz para cuidar de seus filhos". 

domingo, 3 de fevereiro de 2019

OSCAR 2019 - INDICAÇÕES

MELHOR FILME
A Favorita
Roma
Vice
Pantera Negra
Green Book - O Guia
Nasce uma Estrela
Infiltrado na Klan
Bohemian Rhapsody

MELHOR DIREÇÃO
Alfonso Cuarón (Roma)
Spike Lee (Infiltrado na Klan)
Yorgos Lanthimos (A Favorita)
Pawel Pawlikowski (Guerra Fria)
Adam McKay (Vice)

MELHOR ATOR
Bradley Cooper (Nasce uma Estrela)
Rami Malek (Bohemian Rhapsody)
Christian Bale (Vice)
Willem Dafoe (No Portal da Eternidade)
Viggo Mortensen (Green Book - O Guia)

MELHOR ATRIZ
Olivia Colman (A Favorita)
Lady Gaga (Nasce uma Estrela)
Glenn Close (A Esposa)
Melissa McCarthy (Poderia Me Perdoar?)
Yalitza Aparicio (Roma)

MELHOR ATOR COADJUVANTE
Richard E. Grant (Poderia Me Perdoar?)
Mahershala Ali (Green Book - O Guia)
Adam Driver (Infiltrado na Klan)
Sam Elliott (Nasce uma Estrela)
Sam Rockwell (Vice)

MELHOR ATRIZ COADJUVANTE
Regina King (Se a Rua Beale Falasse)
Marina de Tavira (Roma)
Amy Adams (Vice)
Emma Stone (A Favorita)
Rachel Weisz (A Favorita)

MELHOR ROTEIRO ORIGINAL
Green Book - O Guia
Roma
No Coração das Trevas
A Favorita
Vice

MELHOR ROTEIRO ADAPTADO
Infiltrado na Klan
A Balada de Buster Scruggs
Se a Rua Beale Falasse
Nasce uma Estrela
Poderia Me Perdoar?

MELHOR ANIMAÇÃO
Homem-Aranha no Aranhaverso
Os Incríveis 2
WiFi Ralph
Ilha de Cachorros
Mirai

MELHOR FILME ESTRANGEIRO
Roma (México)
Guerra Fria (Polônia)
Assunto de Família (Japão)
Cafarnaum (Líbano)
Nunca Deixe de Lembrar (Alemanha)

MELHOR DIREÇÃO DE ARTE / DESIGN DE PRODUÇÃO
O Retorno de Mary Poppins
A Favorita
O Primeiro Homem
Roma
Pantera Negra

MELHOR FOTOGRAFIA
Roma
Nasce uma Estrela
A Favorita
Guerra Fria
Nunca Deixe de Lembrar

MELHOR FIGURINO
A Favorita
A Balada de Buster Scruggs
Duas Rainhas
O Retorno de Mary Poppins
Pantera Negra

MELHOR MAQUIAGEM
Vice
Border
Duas Rainhas

MELHOR EDIÇÃO
A Favorita
Infiltrado na Klan
Bohemian Rhapsody
Green Book - O Guia
Vice

MELHOR TRILHA SONORA
Se a Rua Beale Falasse
Ilha de Cachorros
Pantera Negra
O Retorno de Mary Poppins
Infiltrado na Klan

MELHOR CANÇÃO ORIGINAL
"Shallow" (Nasce uma Estrela)
"All the Stars" (Pantera Negra)
"I'll Fight" (RBG)
"The Place Where Los Things Go" (O Retorno de Mary Poppins)
"When a Cowboy Trades His Spurs for Wings" (A Balada de Buster Scruggs)

MELHORES EFEITOS VISUAIS
Vingadores: Guerra Infinita
Christopher Robin - Um Reencontro Inesquecível
Jogador nº 1
O Primeiro Homem
Han Solo: Uma HIstória Star Wars

MELHOR EDIÇÃO DE SOM
O Primeiro Homem
Pantera Negra
Roma
Um Lugar Silencioso
Bohemian Rhapsody

MELHOR MIXAGEM DE SOM
O Primeiro Homem
Roma
Nasce uma Estrela
Bohemian Rhapsody
Pantera Negra

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2019

COMEMORANDO ONZE ANOS DE BLOGUINHO

Pessoas queridas, nesta última semana de janeiro comemorei algumas coisas: nove anos que cheguei à Fortaleza, e onze anos de bloguinho.
Lolinha quando morava no Rio
Tudo passa tão rápido! Eu morei menos de 4 anos em Buenos Aires, quando era criança, 6 no Rio, quando minha família se mudou pro Brasil, 16 em SP (toda minha adolescência), 15 em Joinville (passando várias semanas em Floripa), um em Detroit, e agora estou aqui desde 2010. E do Nordeste não saio mais. 
Lolinha em 2007, em Detroit
Sobre o blog, eu o abri em janeiro de 2008, enquanto fazia doutorado-sanduíche nos EUA. Onze anos depois, ele continua atraindo bastante gente, mas o tempo dos blogs passou. O auge do meu foi em 2013. Hoje "textão" virou um termo pejorativo. No entanto, é só blog que eu sei fazer. E só os textos, porque layout que é bom... Sei que prometi arrumar o layout do blog faz tempo, mas agora vou cumprir. 
A designer gráfica Veronica Sauthier (instagram aqui) vai me ajudar. Ela até já repensou o meu banner (lá em cima), mas só vou trocar quando mudar o design do blog. E ela fez este selo também, que ficará na margem superior direita pra marcar os onze anos. Muitíssimo agradecida!
O ilustrador Marcelo Daltro fez este selo pra mim. Muitíssimo obrigada, Marcelo (este é seu instagram), que é marido da Patricia, uma blogueira tão antiga quanto eu. 
E vamos tocando o blog... 
Anteontem dei uma entrevista por email pra Maria Teresa Cruz, editora da Ponte. Gostei muito do resultado (que foi publicado com o título "Moro vai investigar os crimes contra ativistas?, pergunta blogueira ameaçada"), então vou reproduzir o texto aqui. 
Email que recebi anteontem, e que motivou a entrevista (clique para ampliar)
Ponte – Você convive há muitos anos com as ameças desse grupo. Às vezes somem, às vezes reaparecem, mas estão sempre orbitando. O que sentiu quando recebeu o e-mail dessa vez? Uma vez que não é uma novidade, o que te motivou a divulgar?
Lola – É, são oito anos de ameaças de morte e inúmeras perseguições. Por isso estou acostumada. Não é bacana se acostumar com esse tipo de coisa, mas é o jeito. Então, quando recebi o email de manhã, não me afetou em nada. Eu devo ter bocejado de tédio, sabe? Mais do mesmo. Não falei nem pro meu marido, porque achei que não havia novidade nenhuma ali. Creio que um pouco depois encaminhei o email pra uma jornalista, mas só porque ela tinha acabado de me entrevistar no dia anterior sobre ameaças. 
Depois fui trabalhar, mesmo estando de férias, respondi a outra entrevista. Quando voltei pra casa, recebi o link de uma leitora para uma matéria mais recente da Folha em que Jean Wyllys relatava a Sérgio Moro novas ameaças que havia recebido nos últimos dias. E aí vi, mais uma vez, que é a mesma quadrilha que me ameaça também, e decidi colocar o print do e-mail pra minha timeline do Twitter. Eu não divulgo nem 1% das ameaças que recebo, mas às vezes é bom divulgar, porque tem gente que não acredita. Tem gente que não consegue nem imaginar as barbaridades que recebemos. E tem um pessoal que acha que eu e outras feministas nos ofendemos por ser chamadas de gordas e feias. A gente nem pisca pra essas ofensas da 4ª série B. O que não dá pra tolerar são ameaças de morte e estupro e esquemas de difamação orquestradas, com várias pessoas envolvidas, por exemplo.

Ponte – Quando a Ponte noticiou a ação desses fóruns, integrantes da nossa equipe foram alvo de ataques, eu inclusive, que talvez tivesse assinado uma reportagem apenas daquela série. Eles mexem com o psicológico, promovem perseguições virtuais, mas existe um medo real? Como lida com isso?
Reportagem da Ponte
publicada em dezembro 2017
Lola – Eu acompanhei no chan do Marcelo Valle Silveira Mello, antes dele ser preso, em maio, a raiva que ele despejava contra os repórteres da Ponte, porque vocês fizeram excelentes matérias sobre ele e sua quadrilha. Ele [Marcelo] entrou com processo contra mim, mais de uma vez, e acabou desistindo quando viu que eu não teria que ir para Curitiba ficar cara a cara com ele. Sei que atacou alguns repórteres da Ponte, mas os Homens Sanctos, a quadrilha do Marcelo, são acima de tudo misóginos. Eles são também neonazistas, racistas, homofóbicos, tudo de ruim, um combo do preconceito. Mas nada os move mais que o ódio contra mulheres. Portanto, pra eles ameaçarem e atacarem homens é muito mais difícil. Falta criatividade. Quase sempre eles acabam atacando as mulheres da vida dos caras: esposa, mãe, filha. 
Cartum de Junião ilustrando
reportagem da Ponte do final
de dezembro 2017: um resumo
dos channers e trolls
(clique para ampliar)
Então não é nenhuma surpresa pra mim que eles tenham te atacado, mesmo você não sendo a autora das reportagens. É o que eles fazem: doxxing [descobrir todos os dados sobre uma pessoa e seus familiares, para então poder ameaçá-los e atacá-los] e ameaças. Muitas vezes fazem montagens pornôs com suas fotos ou colocam seu nome e telefone em sites de swing e prostituição. São coisas que eles não podem fazer com homens, só com mulheres. Nesses anos todos, principalmente entre 2013 e 2018, cinco anos ininterruptos, Marcelo e sua quadrilha atacaram centenas de mulheres e homens também. Várias vítimas ficaram bastante abaladas. Afinal, se receber um e-mail dizendo “Vamos te estuprar e te matar e depois te estuprar de novo” já é hediondo, imagina receber essa mesma mensagem e, junto, seu endereço residencial, o nome dos seus familiares e o endereço deles, seu CPF, a placa do seu carro? Isso leva a ameaça para um outro nível. Claro que é perturbador.

Ponte – Mas você sente medo?
Lola – Eu, sinceramente, nunca tive medo deles. Nunca me abalei. Durmo bem à noite. Primeiro porque eu achava que nunca iria acontecer, e segundo, porque, se alguém realmente quer te matar, é meio inevitável. Quando chegaram as primeiras ameaças contra meu marido e contra a minha mãe, doeu muito mais. Mas aí você decide que nada vai acontecer com eles. Só que aconteceu a execução da Marielle em março do ano passado. E aconteceu um outro assassinato em junho. Um rapaz de 29 anos chamado André, codinome Kyo, que fez parte da quadrilha do Marcelo durante anos, e foi até moderador do Dogolachan, avisou no chan que iria se matar e, na mesma noite, saiu às ruas de Penápolis, SP, onde morava, abordou duas moças que ele nunca tinha visto antes, atirou na nuca de uma delas, e se matou. 
Apoio do maridão
A moça entrou em coma e morreu vinte dias depois. Nessas horas você vê que a ameaça pode se concretizar. Fiquei muito triste com a morte dessa moça, Luciana, porque sua execução foi de uma covardia e futilidade sem tamanho. Mas eu tento continuar lidando com tudo isso da mesma forma: sem me deixar abater. O humor é uma arma importante pra mim. Ajuda também eu ser velhinha e ter maturidade. Talvez, se eu não tivesse 51 anos, se eu fosse mais jovem, eu não lidaria tão bem. E ajuda muito, claro, contar com todo o apoio do meu marido, e de muitas leitoras e leitores também.

Ponte – Apesar de muitos ainda se manterem anônimos, já que o mais conhecido deles é o Marcelo, que está preso, você acredita esse grupo que te atacou e ainda ataca é o mesmo que sempre perseguiu o Jean?
O hediondo site de ódio de
Marcelo e Emerson em 2011:
 entre imagens de pornografia
infantil, muitas ameaças aos
inimigos
Lola – Sim, sem dúvida, é a mesma quadrilha. Eles começaram a ameaçar o Jean e eu em conjunto, em 2011, através do site de ódio Silvio Koerich, do Marcelo e do Emerson. O Jean por ser ativista LGBT, e eu, por ser feminista. Já naquela época eles anunciavam recompensas pra quem nos matasse. Tanto eu quanto ele somos alvos da quadrilha desde 2011. Mas o Jean tem uma visibilidade muito maior, então certamente ele recebe ameaças de outros grupos também. Agora, não tenho dúvida que a maior parte das ameaças que ele recebe, principalmente aquelas que alvejam seus familiares, vem da quadrilha do Marcelo. É certeza que, desde 2016, vem desse mesmo e-mail: primeiro goec@sigaint, depois goec@protonmail, que é compartilhado entre membros da quadrilha.

Ponte – Você vê relação dessas novas ameaças contra você ao episódio do Jean Wyllys e, como consequência, o dimensão midiática dada ao caso?
Lola – Claro! Eles sempre comemoram muito quando conseguem mídia. É importante pra eles “gerar lulz”, deixar o “gado” indignado, provocar risadas entre eles. Muitas vezes eles competem pra ver quem gera mais repercussão. Se eles ficam sabendo que a vítima está sofrendo, eles celebram. Devem estar comemorando que expulsaram o Jean do Brasil. Isso é um tanto contraditório pra eles, pois eles odeiam o Brasil, que eles chamam de Bostil. O sonho de todos eles é sair daqui. Vai ser duro pra eles acompanharem o Jean sendo convidado pra fazer doutorado em um monte de universidades pelo mundo, para dar palestras internacionais, ver o PSOL processando todos esses reaças que espalham fake news e ganhando… 
Mas a quadrilha vai tentar manter a mídia que conseguiu enquanto der. Também tem o fato do líder deles, Marcelo, estar preso. Marcelo deve estar recorrendo da sentença a que foi condenado [41 anos de prisão] em primeira instância, e talvez seja uma estratégia da quadrilha caprichar nas ameaças para tentar mostrar que Marcelo não é o único, que ele não pode ser condenado por tudo que o acusaram. E creio também que há vários membros que querem ser presos. A vida deles é um fracasso tão absoluto, que ir pra cadeia pode ser um upgrade.

Ponte – O que pretende fazer ou ainda o que acha que seria necessário para acabar com esse ciclo de ameaças, esse horror?
Lola – O momento é de muitas dúvidas, tanto pra eles, os algozes, quanto pra gente que é perseguida. Todos eles votaram no presidente que os representa. Uma das promessas de campanha, de posse e porte de armas, é irresistível pra eles, que fantasiam em cometer atentados contra feministas, mulheres em geral, ativistas LGBT e negros. E Bolsonaro já manifestou diversas vezes o mesmo preconceito que eles têm contra minorias. Todos eles são de extrema direita e apoiam Bolsonaro desde 2011. Mas imagino que seja decepcionante pra eles ver que, mesmo elegendo o candidato dos sonhos deles, o “mito”, a vida deles continue a mesma miséria. Então eles estão testando, ver quão longe podem ir com as ameaças, ver se o governo Bolsonaro e o Judiciário darão sinal verde pra eles contra a gente, ver se teremos uma ditadura em que nós seremos fuziladas num paredão ou jogadas de um helicóptero, e eles serão recompensados por atormentar quem eles chamam de escória. 
Enquanto isso, nós também queremos saber qual é a de Bolsonaro, e principalmente a do seu super ministro da Justiça, Sérgio Moro. Haverá investigação de fato para encontrar os outros integrantes da quadrilha do Marcelo? Se reunirmos provas de que, assim como existem ligações perigosas entre a família no poder e as milícias, também podem existir ligações entre a família e gangues virtuais, alguém irá investigar isso? Nós, ativistas, seremos criminalizadas por Bolsonaro, que em seu pronunciamento logo após o primeiro turno prometeu acabar com o ativismo? Perceba que ele não prometeu acabar com milícias virtuais que atacam e ameaçam ativistas, mas com o ativismo. Então é patente que ele tem lado. 
Portanto, como esperar que a Lei Lola, sancionada em abril do ano passado, seja realmente implementada? A Lei Lola é importante porque atribui à Polícia Federal a investigação de crimes contra mulheres na internet. Mas e se quem o novo governo colocou na direção da PF ver nós mulheres como criminosas? E se o governo determinar que quem defende a legalização do aborto está fazendo apologia ao crime e deve ser presa? E se o governo classificar ativistas como terroristas? É preciso que todas e todos nós fiquemos alertas. A luta será árdua, e não podemos fugir dela.