Uma jornalista do Metrópoles, de Brasília, pediu uma entrevista sobre a condenação a 41 anos de prisão do mascu Marcelo. Eu respondi por email, mas não sei se publicaram. Então publico aqui.
Pergunta: Como as ações de Marcelo Valle mudaram a sua vida?
Resposta da Lola: Eu não deixei de fazer nada do que fazia antes, não mudei nada da minha rotina. O principal foi que esses ataques e ameaças gastaram muito do meu tempo. Precisei acompanhar a vida miserável de vários rapazes frustrados sem nada a agregar para a sociedade. Foram muitos ataques, pelo menos desde 2011. Sem querer, virei especialista em mascus (abreviação que dei para "masculinistas", que não são nada além de misóginos, racistas, homofóbicos, em grande parte neonazistas). ![]() |
| Um dos muitos quadrinhos de ódio publicados no chan |
Quando, no início de 2014, Marcelo me enviou o link para o chan (fórum anônimo) criado por ele, eu fiquei na dúvida se queria mesmo ver aquele conteúdo com tanto ódio. Ele me mandou o link para que eu pudesse ler as ameaças e planos mirabolantes que ele e sua quadrilha fariam diariamente contra mim, minha família, e outras pessoas. Eu pensei: quero ter todo dia essa exposição ao ódio, mesmo sabendo que a maior parte das ameaças não vai se concretizar? Ou é melhor deixar pra lá, não pensar nisso, e correr o risco de ser pega de surpresa? Optei pela primeira alternativa. Infelizmente, ignorar o ódio não fará com que ele desapareça.
Como se sentiu após a condenação dele?
Muito feliz, sorrindo de orelha a orelha. Na realidade, fiquei muito feliz mesmo no dia 10 de maio deste ano, quando Marcelo foi preso pela Operação Bravata, após cinco anos ininterruptos de impunidade. Minha vida melhorou bastante após a sua prisão, já que uma pessoa que tem como missão me destruir finalmente foi excluída. O que veio depois, os habeas corpus negados, as justificativas nas negativas (reconhecendo a perseguição que sofri e minha importância na investigação e prisão de Marcelo), e agora a condenação, foram bônus. ![]() |
| Prisão de Marcelo em 2012 |
Quando Marcelo foi preso, a PF disse que os crimes dele, somados, já chegavam a 39 anos. Agora ele foi condenado a 41 anos. Lógico que ele vai recorrer. Vamos ver quantos anos ele ficará preso, que é o que importa. Espero que sejam muitos, e muito mais que o tempo que ele ficou preso na sua segunda condenação, em 2012 (ele foi condenado a 6,7 anos, e só ficou na cadeia 1,2 meses; na sua primeira condenação, por racismo, em 2009, ele alegou insanidade mental e não chegou a ser preso). Ele não está apto para conviver em sociedade. Quando sair da prisão, voltará a fazer o mesmo que faz há tantos anos -- ameaçar, atacar, difamar, caluniar, tentar incriminar pessoas que ele não gosta, e tentar convencer homens frustrados como ele a matar essas pessoas.
A condenação de Valle coloca um ponto final nos "mascus"?
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| "Campanha" mascu contra a condenação de seu líder |
Não, infelizmente não. A quadrilha que ele comanda ainda está solta. Em 15 de junho, um mês depois de sua prisão, um rapaz chamado André, codinome Kyo, que era comparsa de Marcelo no mínimo desde 2011, e que inclusive foi moderador do seu chan durante anos, disse no fórum que não aguentava mais sua vida e que iria se matar. Ouviu em troca o típico "leve a escória junto", ou seja, antes de se matar, mate "gente que não presta" (que para mascus são mulheres em geral, feministas em particular, gays, lésbicas, negros, esquerdistas). E foi o que André fez: na mesma noite, saiu às ruas da pequena cidade onde vivia, Penápolis, no interior de SP, assediou duas mulheres que nunca tinha visto antes, e atirou na nuca de uma delas, covardemente, pelas costas. Em seguida, ele se suicidou. Ela ficou vinte dias internada na UTI e morreu.
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| Para mascus, Marcelo é apenas um troll preso por "crime de opinião" |
Algumas semanas depois, o chan migrou para a Deep Web, ou seja, não está mais acessível. Mas a quadrilha continua fazendo planos e enviando emails com ameaças de morte e de atentados terroristas a várias mulheres. Muitos outros mascus ainda precisam ser presos. Fora isso, a ideologia misógina que mascus defendem deve ser constantemente combatida. Já se sabe que a misoginia é a porta de entrada para ódios ainda mais pesados na internet. É como se recrutam homens para virar terroristas, por exemplo -- através do convite inicial de que "aqui você estará livre para odiar mulheres".
Como a sociedade pode se proteger de tipos como Marcelo?
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| Marcelo, preso, e Emerson, foragido na Espanha: voltaram a ser grandes amigos em janeiro de 2016 (brigaram no final daquele ano) |
A sociedade precisa saber que ameaças fazem parte da rotina de ativistas, e se revoltar contra isso. Não é aceitável que mulheres, feministas ou não, sejam frequentemente ameaçadas de estupro. Não é possível que a sociedade considere aceitável feministas e suas famílias serem ameaçadas de morte e estupro por defenderem direitos das mulheres. Na internet, muita gente ainda acha que, quando protestamos contra ataques, estamos nos "vitimizando". Muita gente acha que ligamos ao sermos chamadas de barangas, mal-amadas, gordas etc. Se fosse só isso... Há uma diferença enorme entre insultos e ameaças. É fundamental que as corporações que dominam a internet (como Google, Facebook, Twitter etc) façam das redes sociais um espaço seguro para mulheres e demais grupos historicamente oprimidos. Para tanto, precisam agir com rapidez para banir páginas de ódio e também sites que criam e divulgam fake news. Além do mais, no que diz respeito aos usuários, vale sempre a regra de jamais divulgar sites de ódio, apenas denunciá-los, sem ajudar a espalhar seu conteúdo. E também: não basta combater o ódio. Temos também que espalhar páginas de luta e resistência. E creio que, no dia a dia, o humor pode ser uma ferramenta eficaz para ridicularizar a ideologia de ódio dos mascus.
Você acha que a polícia demorou a entrar no caso? Por quê?
Creio que sim. É difícil dizer, pois a polícia não costuma se comunicar com a sociedade, não fala sobre o andamento das investigações, na maior parte das vezes sequer fala se está havendo investigações. Senti muito o silêncio da polícia em 2011, quando as denúncias contra o site de ódio de Marcelo chegaram a 70 mil na Safernet, e entre maio de 2013 e maio de 2018, período em que Marcelo voltou a fazer o que fazia antes de ser preso. Eu passei vários anos mandando prints e emails para a Polícia Federal, para finalmente receber um email da divisão de direitos humanos dizendo que iriam investigar, e um outro email, poucos meses depois, de um superintendente dizendo que houve um erro e que a PF não iria investigar, já que, segundo ele, a PF só investiga casos em que o Brasil é signatário internacional, como racismo e pornografia infantil.
O que sei é que foi difícil saber onde denunciar. De janeiro de 2012 a abril de 2017, registrei onze boletins de ocorrência. A maior parte foi aberta na delegacia civil. Alguns foram na delegacia da mulher. Finalmente, após cinco anos, o inquérito foi aberto da Delegacia da Mulher. E, depois, foi mandado para a Polícia Federal, pois a DEAM não tem estrutura para lidar com crimes cibernéticos. Com a Lei Lola, sancionada em abril deste ano, a PF tem a obrigação de investigar misoginia na internet. Já é um grande avanço. Mas ainda precisamos nos reunir com a PF para saber como denunciar, em que casos, através de que canal.
Teme que no governo Bolsonaro páginas como essa se repliquem?
Sim. Um fator decisivo nas eleições de outubro foi o uso de disparo de fake news no Whatsapp. As corporações não souberam evitar essa prática criminosa. Bolsonaro foi eleito, em grande parte, graças a essa ferramenta. Pelo jeito, o STF não fará nada. Continuaremos tendo milhões de robôs determinando o que estará nos Trending Topics do Twitter, por exemplo. Se não houver qualquer punição, por que eles irão parar? É óbvio que eles usarão esta prática que deu tão certo em outras eleições também, e é óbvio que o problema não começou agora nas eleições. Trata-se de um plano muito bem sucedido da extrema-direita no mundo todo. Nós, ativistas de direitos humanos, combatemos o ódio. E essas páginas todas nos combatem.
Num governo de extrema-direita como o de Bolsonaro, páginas que atacam ativistas serão muito úteis. Afinal, Bolsonaro disse no seu pronunciamento depois de vencer o primeiro turno que acabaria com o ativismo no Brasil. Ainda não sabemos o que ele quis dizer, mas, a julgar pelo ódio do seu exército, podemos ter uma ideia. Marcelo era um desses bolsominions, um entre muitos. Não estou dizendo que os 57 milhões de eleitores de Bolsonaro são lunáticos como Marcelo que querem literalmente matar mulheres, gays e negros. Mas estou dizendo que todos os mascus apoiam Bolsonaro, e faz tempo, desde 2011. Por que será? O que no seu discurso atraiu homens que vivem do ódio?














































