segunda-feira, 7 de janeiro de 2019

AINDA SORRINDO DE ORELHA A ORELHA

Uma jornalista do Metrópoles, de Brasília, pediu uma entrevista sobre a condenação a 41 anos de prisão do mascu Marcelo. Eu respondi por email, mas não sei se publicaram. Então publico aqui. 

Pergunta: Como as ações de Marcelo Valle mudaram a sua vida?
Resposta da Lola: Eu não deixei de fazer nada do que fazia antes, não mudei nada da minha rotina. O principal foi que esses ataques e ameaças gastaram muito do meu tempo. Precisei acompanhar a vida miserável de vários rapazes frustrados sem nada a agregar para a sociedade. Foram muitos ataques, pelo menos desde 2011. Sem querer, virei especialista em mascus (abreviação que dei para "masculinistas", que não são nada além de misóginos, racistas, homofóbicos, em grande parte neonazistas). 
Um dos muitos quadrinhos
de ódio publicados no chan
Quando, no início de 2014, Marcelo me enviou o link para o chan (fórum anônimo) criado por ele, eu fiquei na dúvida se queria mesmo ver aquele conteúdo com tanto ódio. Ele me mandou o link para que eu pudesse ler as ameaças e planos mirabolantes que ele e sua quadrilha fariam diariamente contra mim, minha família, e outras pessoas. Eu pensei: quero ter todo dia essa exposição ao ódio, mesmo sabendo que a maior parte das ameaças não vai se concretizar? Ou é melhor deixar pra lá, não pensar nisso, e correr o risco de ser pega de surpresa? Optei pela primeira alternativa. Infelizmente, ignorar o ódio não fará com que ele desapareça.
Como se sentiu após a condenação dele?
Muito feliz, sorrindo de orelha a orelha. Na realidade, fiquei muito feliz mesmo no dia 10 de maio deste ano, quando Marcelo foi preso pela Operação Bravata, após cinco anos ininterruptos de impunidade. Minha vida melhorou bastante após a sua prisão, já que uma pessoa que tem como missão me destruir finalmente foi excluída. O que veio depois, os habeas corpus negados, as justificativas nas negativas (reconhecendo a perseguição que sofri e minha importância na investigação e prisão de Marcelo), e agora a condenação, foram bônus. 
Prisão de Marcelo em 2012
Quando Marcelo foi preso, a PF disse que os crimes dele, somados, já chegavam a 39 anos. Agora ele foi condenado a 41 anos. Lógico que ele vai recorrer. Vamos ver quantos anos ele ficará preso, que é o que importa. Espero que sejam muitos, e muito mais que o tempo que ele ficou preso na sua segunda condenação, em 2012 (ele foi condenado a 6,7 anos, e só ficou na cadeia 1,2 meses; na sua primeira condenação, por racismo, em 2009, ele alegou insanidade mental e não chegou a ser preso). Ele não está apto para conviver em sociedade. Quando sair da prisão, voltará a fazer o mesmo que faz há tantos anos -- ameaçar, atacar, difamar, caluniar, tentar incriminar pessoas que ele não gosta, e tentar convencer homens frustrados como ele a matar essas pessoas.
A condenação de Valle coloca um ponto final nos "mascus"?
"Campanha" mascu
contra a condenação
de seu líder
Não, infelizmente não. A quadrilha que ele comanda ainda está solta. Em 15 de junho, um mês depois de sua prisão, um rapaz chamado André, codinome Kyo, que era comparsa de Marcelo no mínimo desde 2011, e que inclusive foi moderador do seu chan durante anos, disse no fórum que não aguentava mais sua vida e que iria se matar. Ouviu em troca o típico "leve a escória junto", ou seja, antes de se matar, mate "gente que não presta" (que para mascus são mulheres em geral, feministas em particular, gays, lésbicas, negros, esquerdistas). E foi o que André fez: na mesma noite, saiu às ruas da pequena cidade onde vivia, Penápolis, no interior de SP, assediou duas mulheres que nunca tinha visto antes, e atirou na nuca de uma delas, covardemente, pelas costas. Em seguida, ele se suicidou. Ela ficou vinte dias internada na UTI e morreu. 
Para mascus, Marcelo é apenas um
troll preso por "crime de opinião"
Algumas semanas depois, o chan migrou para a Deep Web, ou seja, não está mais acessível. Mas a quadrilha continua fazendo planos e enviando emails com ameaças de morte e de atentados terroristas a várias mulheres. Muitos outros mascus ainda precisam ser presos. Fora isso, a ideologia misógina que mascus defendem deve ser constantemente combatida. Já se sabe que a misoginia é a porta de entrada para ódios ainda mais pesados na internet. É como se recrutam homens para virar terroristas, por exemplo -- através do convite inicial de que "aqui você estará livre para odiar mulheres".
Como a sociedade pode se proteger de tipos como Marcelo?
Marcelo, preso, e
Emerson, foragido na
Espanha: voltaram a
ser grandes amigos em
janeiro de 2016
(brigaram no final
daquele ano)
A sociedade precisa saber que ameaças fazem parte da rotina de ativistas, e se revoltar contra isso. Não é aceitável que mulheres, feministas ou não, sejam frequentemente ameaçadas de estupro. Não é possível que a sociedade considere aceitável feministas e suas famílias serem ameaçadas de morte e estupro por defenderem direitos das mulheres. Na internet, muita gente ainda acha que, quando protestamos contra ataques, estamos nos "vitimizando". Muita gente acha que ligamos ao sermos chamadas de barangas, mal-amadas, gordas etc. Se fosse só isso... Há uma diferença enorme entre insultos e ameaças. É fundamental que as corporações que dominam a internet (como Google, Facebook, Twitter etc) façam das redes sociais um espaço seguro para mulheres e demais grupos historicamente oprimidos. Para tanto, precisam agir com rapidez para banir páginas de ódio e também sites que criam e divulgam fake news. Além do mais, no que diz respeito aos usuários, vale sempre a regra de jamais divulgar sites de ódio, apenas denunciá-los, sem ajudar a espalhar seu conteúdo. E também: não basta combater o ódio. Temos também que espalhar páginas de luta e resistência. E creio que, no dia a dia, o humor pode ser uma ferramenta eficaz para ridicularizar a ideologia de ódio dos mascus.
Você acha que a polícia demorou a entrar no caso? Por quê?
Creio que sim. É difícil dizer, pois a polícia não costuma se comunicar com a sociedade, não fala sobre o andamento das investigações, na maior parte das vezes sequer fala se está havendo investigações. Senti muito o silêncio da polícia em 2011, quando as denúncias contra o site de ódio de Marcelo chegaram a 70 mil na Safernet, e entre maio de 2013 e maio de 2018, período em que Marcelo voltou a fazer o que fazia antes de ser preso. Eu passei vários anos mandando prints e emails para a Polícia Federal, para finalmente receber um email da divisão de direitos humanos dizendo que iriam investigar, e um outro email, poucos meses depois, de um superintendente dizendo que houve um erro e que a PF não iria investigar, já que, segundo ele, a PF só investiga casos em que o Brasil é signatário internacional, como racismo e pornografia infantil. 
O que sei é que foi difícil saber onde denunciar. De janeiro de 2012 a abril de 2017, registrei onze boletins de ocorrência. A maior parte foi aberta na delegacia civil. Alguns foram na delegacia da mulher. Finalmente, após cinco anos, o inquérito foi aberto da Delegacia da Mulher. E, depois, foi mandado para a Polícia Federal, pois a DEAM não tem estrutura para lidar com crimes cibernéticos. Com a Lei Lola, sancionada em abril deste ano, a PF tem a obrigação de investigar misoginia na internet. Já é um grande avanço. Mas ainda precisamos nos reunir com a PF para saber como denunciar, em que casos, através de que canal.
Teme que no governo Bolsonaro páginas como essa se repliquem?
Sim. Um fator decisivo nas eleições de outubro foi o uso de disparo de fake news no Whatsapp. As corporações não souberam evitar essa prática criminosa. Bolsonaro foi eleito, em grande parte, graças a essa ferramenta. Pelo jeito, o STF não fará nada. Continuaremos tendo milhões de robôs determinando o que estará nos Trending Topics do Twitter, por exemplo. Se não houver qualquer punição, por que eles irão parar? É óbvio que eles usarão esta prática que deu tão certo em outras eleições também, e é óbvio que o problema não começou agora nas eleições. Trata-se de um plano muito bem sucedido da extrema-direita no mundo todo. Nós, ativistas de direitos humanos, combatemos o ódio. E essas páginas todas nos combatem. 
Num governo de extrema-direita como o de Bolsonaro, páginas que atacam ativistas serão muito úteis. Afinal, Bolsonaro disse no seu pronunciamento depois de vencer o primeiro turno que acabaria com o ativismo no Brasil. Ainda não sabemos o que ele quis dizer, mas, a julgar pelo ódio do seu exército, podemos ter uma ideia. Marcelo era um desses bolsominions, um entre muitos. Não estou dizendo que os 57 milhões de eleitores de Bolsonaro são lunáticos como Marcelo que querem literalmente matar mulheres, gays e negros. Mas estou dizendo que todos os mascus apoiam Bolsonaro, e faz tempo, desde 2011. Por que será? O que no seu discurso atraiu homens que vivem do ódio?

sexta-feira, 4 de janeiro de 2019

A ÚLTIMA DA BOBA DA CORTE

Ontem foi a vez de Damares Alves, aquela que viu Jesus na goiabeira, roubar a cena. Tô falando: este governo é feito inteirinho de bobos da Corte. Vai haver competição entre eles pra ver quem fala mais besteira e distrai mais
Disputa dura entre Damares, o chanceler olavette Ernesto Araújo e tantos outros
A ministra da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos é uma forte candidata a este cargo de maior boba da Corte. 
Ontem foi divulgado um vídeo patético da "terrivelmente cristã" Damares em que ela diz: "Atenção, atenção, é uma nova era no Brasil: menino veste azul e menina veste rosa!"
O pior, pra mim, foi que ela repete essa sandice, como se estivesse falando de uma grande revolução. Tudo com o brilho do fanatismo no olhar. Eu acho que ela realmente acredita nessas coisas.
A gente ri, mas é sério. Comparar Damares com a Tia Lydia de O Conto da Aia é muito oportuno. 
Em Gilead, onde os homens brancos e cristãos mandam após darem um golpe de Estado e transformarem os EUA numa ditadura religiosa sem qualquer direito pras mulheres, tudo é dividido por cores. As aias (que são apenas úteros com pernas) usam vermelho, as esposas dos comandantes, azul (já reparou que as roupas que a Virgem Maria vestia eram azuis, não rosas?); as marthas (servas), verde, e as tias, marrom. Ninguém pode fugir do figurino.
O Brasil de Bolso ainda não é Gilead, mas cabe perguntar por que um governo que prega o Estado Mínimo quer se meter tanto na vida das pessoas a ponto de determinar a cor que crianças devem vestir. Ou é Estado Mínimo pra economia e pra direitos, e Estado Máximo pra se intrometer nos costumes? Diante da repercussão negativa, a sinistra tentou se explicar. Ela teria feito apenas uma metáfora contra a "ideologia de gênero". 
Quem pensa como ela e acredita que menina gostar de rosa é natural (não, não é: é uma construção social) e que menino usar rosa ou brincar de boneca vai fazer com que ele "vire gay" ficou perdidinho. Não sabia como defender Damares diante de hashtags como #CorNaoTemGenero e #RosaeAzul.  
O melhor que conseguiram fazer foi um meme exigindo que a gente explicasse como existe Outubro Rosa e Novembro Azul se rosa não é pra menina e azul não é pra menino (como disse um leitor sobre a ignorância suprema dos obscurantistas: "É muita covardia"). 
Ué, é justamente isso. É uma convenção da sociedade codificar meninas com rosa e meninos com azul. Qualquer um que entrou numa loja de brinquedos ou numa loja de departamento pode constatar isso, o que não significa que deve ser assim. Aliás, já foi o contrário: rosa, por ser um cor mais próxima do forte vermelho, era vista como cor de menino. 
Damares quer que meninas sejam princesas e meninos príncipes
É isso que nós que estudamos gênero fazemos: desconstruímos essa narrativa. Dizemos que meninas e meninos devem ser livres para usar a cor que quiserem.
Por isso que revolução quem fazemos somos nós, não quem quer conservar as coisas exatamente como estão. 
A propósito, a linda ilustração sobre Conto da Aia é de Butcher Billy.

quinta-feira, 3 de janeiro de 2019

TUÍTES PRA SE LEMBRAR DE UM DOS PIORES DIAS DA NOSSA HISTÓRIA

Apresento alguns dos melhores tuítes da minha timeline sobre a possessão de Bolso. 
Não tem como torcer a favor! Aliás, a favor do quê?
Tomara que Bolso caia logo (já existem vários bolões pra quem acertar quando). 
Pra quem não entendeu, é uma referência à ótima série O Conto da Aia, que se passa nos EUA, depois que fundamentalistas cristãos deram um golpe e tiraram todos os direitos das mulheres, até o de ler e escrever. O comandante permite que sua esposa Serena discurse em alguns momentos, pra tentar mostrar que mulheres ainda têm direitos. Mas é tudo uma farsa. 
Leiam a thread inteira. Aliás, vocês sabiam que a famigilia Bolsonaro considera Michelle mulata (sei que a palavra é ofensiva, mas foi a que Eduardo usou)?
Esta imagem e tudo que ela representa é muito estranha mesmo.
São muito incompetentes mesmo!
Contagem regressiva desde já!
Pra nunca esquecer de comparar. 

quarta-feira, 2 de janeiro de 2019

MICHELLE DISCURSA NA POSSESSÃO E O FEMINISMO MORRE

E foi ontem a posse do Coiso, que marca oficialmente o dia em que o Brasil passa a deslizar ladeira abaixo com maior rapidez.
Eu não cheguei perto da TV pra ver o "espetáculo" sem povo, com a imprensa confinada, com o menor número de delegações estrangeiras. Pelo pouco que li e vi, foi um fiasco. Um cavalo no desfile se rebelou e nos representou mais que aquele asno que jamais será meu presidente. No Twitter, reaças não tiveram vez. Não conseguiram emplacar nenhuma hashtag positiva (os ainda muitos bolsobots se contentaram em atacar nossos perfis com aquelas expressões de sempre: "Chola mais", "Vai pra Cuba", "a Venezuela é logo ali", "Acabou a mamata", "O Lula tá preso, babaca", "O choro é livre, o Lula não", e nem coloco aqui "etc" porque é só esse mesmo o repertório deles). 
O que esteve no topo dos Trending Topics o dia todo foi #ForaBolsonaro e #PossessaoDoBolsonaro e, mais pro final da noite, #EleNaoEMeuPresidente. Alguns bots tentaram argumentar que nós dominamos o Twitter ontem porque eles estavam ocupados demais indo à posse (como se robô votasse ou fosse a posses), mas, bem, não foi bem isso que se viu. 
Bolsonaro, em seu rápido discurso de dez minutos, que vários compararam a uma compilação de tuítes, já que o fascista eleito não tem capacidade maior que esta, registrou "o dia em que o povo começou a se libertar do socialismo, se libertar  da inversão de valores, do gigantismo estatal e do politicamente correto". 
É rir pra não chorar: quando o Brasil foi um país socialista, um gigante estatal e politicamente correto? Eu devo ter piscado e perdido esse momento. 
Outro fantasma que Bolso prometeu combater em seu discurso foi a "ideologia de gênero". As escolas têm inúmeros problemas, mas os obscurantistas decidiram centrar seus esforços para combater algo que não existe. E ainda por cima fingindo que o que eles fazem não é ideológico. Pra eles, ideológico é sempre o outro
Diante de tanto ódio e mentira, quem roubou a cena foi a esposa do Coisa Ruim, Michelle, que fez um discurso em libras. Preciso dizer que Michelle seria o centro das atenções de qualquer jeito, com ou sem discurso, assim como o foi Marcela Temer nas duas posses de Dilma, principalmente da primeira. Lembram? 
Naquela ocasião histórica em que elegemos nossa primeira presidenta (um fato incrível que alguns países mais ricos que o nosso, como EUA, França e Itália, entre tantos outros, ainda não alcançaram), tinha mais gente preocupada em falar da primeira-dama, Marcela. Por quê? Porque Marcela é jovem e bonita. E, neste país que o fascista eleito vê controlado pelo "politicamente correto", beleza, juventude e maternidade são as missões de vida que se exigem das mulheres. Marcela, portanto, estaria cumprindo o protocolo. Dilma não. 
Bom, mas Marcela é passado, e provavelmente nunca mais ouviremos falar da moça que ficou definida como "bela, recatada e do lar" agora que seu marido 43 anos mais velho saiu do Planalto (e ninguém gritou "Fica Temer!" -- foi brincadeira nossa depois do desastroso primeiro turno em outubro). Talvez Marcela seja lembrada quando os caras que acham que mulheres têm função meramente decorativa comparem futuras primeiras-damas. E só.
Agora ouviremos falar bastante de Michelle, porque ela de certa forma quebra a feiura moral, cívica e estética de seu esposo 25 anos mais velho (imagine se, da próxima vez que elegermos uma presidenta, ela traga a tiracolo um marido 25 ou 40 anos mais jovem. Pense no escândalo que seria. Mas homem pode e é aplaudido por isso. Chama-se privilégio masculino). 
Michelle é uma boa distração, como já mostrou há poucos dias, quando vestiu uma camiseta que fazia alusão a Lula (pode apostar que este governo continuará xingando o PT diariamente). Vamos ter distrações assim com frequência. Sempre que o governo pensar em doar a Petrobrás, acabar com nossos direitos, tirar nossa aposentadoria, Michelle usará uma camiseta com mensagem bombástica, Bolso fará alguma declaração preconceituosa ultrajante, um de seus filhos ameaçará o Congresso ou Supremo ou abrir fogo contra Venezuela e/ou Cuba. Eles serão governo e bobos da Corte ao mesmo tempo.
Nós, que faremos oposição e resistência a eles, é que não podemos ser bobos. Não podemos nos focar nas distrações. E primeiras-damas são distrações. Não são cargos eletivos, não têm importância. Em onze anos de blog, deve dar pra contar nos dedos quantas vezes eu falei de Marisa, Marcela, ou Michele (todas mulheres com M). Elas são ou foram importantes pros seus respectivos maridos, não pro país. 
Mas Michelle, ontem, além de aparecer ao lado de seu hediondo esposo, também discursou em língua de sinais. Acho ótimo que ela dê atenção ao tema (outra mulher que se atenta a isso é a deputada Maria do Rosário, aquela que é atacada por bolsominions todos os minutos da sua vida. É dela o projeto de lei que regulamentou, em 2010, a profissão de tradutor e intérprete de Libras). 
Mas o olhar que Michelle parece ter para os surdos é de caridade, de assistencialismo de igreja, não de política governamental. E surdos e demais grupos historicamente oprimidos não precisam de caridade, mas de direitos. E o governo do marido de Michele não tem proposta nenhuma para a inclusão dos surdos. Muito pelo contrário: ele quer cortar verbas das universidades públicas e privatizar tudo.
Aliás, sabe o que o governo do marido de Michele fez hoje? O novo ministro da Educação, Vélez Rodriguez, acabou com a Secadi (Secretaria de Educação Continuada, Alfabetização, Diversidade e Inclusão), criada em 2004 durante o governo Lula. Era a Secadi a responsável pelo fortalecimento da educação dos surdos. Aparentemente, o novo governo eliminou a Secadi por não gostar da palavra "diversidade" (tão perigosa, não é mesmo?) e de temas como direitos humanos. Em lugar de uma secretaria, talvez venha por aí uma subpasta, Modalidades Especializadas. Em outras palavras: algo com status (e orçamento) muitíssimo inferior. 
Portanto, não adianta muito elogiar Michelle por promover Libras (algo totalmente politicamente correto) ao mesmo tempo que o governo de seu marido acaba com uma secretaria que promove a educação de surdos (entre outros).
Mas o pior foi que um montão de babaca aproveitou o gesto de Michelle para atacar feministas. O que uma coisa tem a ver com a outra, vocês podem pensar? Pois é. Um bocado de bolsobots usaram o discurso de Michelle para dizer que ela sim representa as mulheres (ao contrário das feministas) e que Bolso ter "deixado ela falar" é uma prova de que ele não é o misógino asqueroso que denunciamos há tantos anos. Essas pessoas não são muito inteligentes, eu sei, mas um cara "deixar uma mulher falar" não tem nada a ver com feminismo ou empoderamento da mulher. A ação ainda é do cara, que "deixou", que "deu permissão" para que uma mulher falasse. Isso é machismo! Não precisamos de permissão para falar, oras!
Mas o mais meigo foi ver grupos como MBL espalhar esta podridão:
Não é lindo? Um grupelho de uma dúzia de guris (muito bem patrocinados) decretaram a morte de um movimento que luta há décadas por igualdade e emancipação das mulheres.
Isso tudo porque uma primeira-dama discursou na posse de um lunático medíocre que tem uma imensa ficha-corrida de ofensas às mulheres! O "mito" agora tem mais duas conquistas pra incluir no seu currículo já repleto de realizações: defender as mulheres (porque deixou sua esposa falar) e acabar com o feminismo! 
Como você se sente em viver agora num Brasil livre da corrupção, do socialismo, do politicamente correto e do feminismo? Porque foi assim que você amanheceu hoje, segundo os reaças.
E antes que os escrotossauros de plantão venham dizer que eu e outras feministas temos inveja de Michelle (como diziam que tínhamos de Marcela), quero deixar claro que não, não temos. 
Primeiro que ter inveja de mulher é o oposto da sororidade que pregamos. Eu posso não falar de Michelle e considerá-la perfeitamente irrelevante, mas isso não quer dizer que eu a inveje. Inveja por causa de aparência é algo que o machismo encoraja, não o feminismo. O feminismo quer que as mulheres se unam; o machismo quer nos ver separadas, lutando umas contra as outras, em vez de lutarmos todas contra um sistema que nos oprime.
Além do mais, via de regra, feminista alguma inveja outra mulher por causa de homem. Muito menos inveja de uma moça casada com um troglodita muito mais velho, já no seu terceiro casamento, e com o histórico de não tratar bem qualquer mulher de sua vidinha (inclusive a filha "fraquejada" e a segunda esposa, de quem roubou um cofre no banco).
O feminismo segue vivíssimo e será -- pra variar -- o principal centro de resistência ao governo fascista. E reaças sabem muito bem disso, tanto que não param de falar da gente.