sábado, 26 de janeiro de 2019

OBRIGADA POR TUDO E VOLTE LOGO, JEAN!

Anteontem o deputado federal Jean Wyllys (Psol-RJ), que havia sido eleito para seu terceiro mandato, disse à Folha de SP, em entrevista exclusiva, que iria renunciar e sairia do Brasil (ele está fora do país, em férias).
Esta é uma notícia terrível para o Brasil, não só porque perdemos um grande deputado, um dos mais atuantes da Câmara, mas por indicar que não vivemos numa democracia. A notícia já repercutiu internacionalmente e, podem apostar, o Brasil deve ser denunciado na Comissão Interamericana de Direitos Humanos da OEA (Organização dos Estados Americanos), o que pode render sanções. Afinal, se um deputado não consegue se manter vivo no país em que vive, algo está muito errado com esse país. 
Jean não é o primeiro exilado forçado deste novo governo. Antes dele, por conta das ameaças e dos ataques, as professoras, feministas e ativistas Debora Diniz e Marcia Tiburi já haviam saído. Falei com elas recentemente, até porque ambas sempre manifestam sua preocupação com as ameaças que eu recebo. Marcia foi candidata à governadora do RJ pelo PT, e nós sabemos como mulheres na política costumam ser massacradas (vejam como foram tratadas Dilma e Manuela D'Ávila, por exemplo). Depois da campanha, ela disse "chega!" Vai continuar seu ativismo, mas em algum país em que não corra riscos.
Já Debora é um dos principais nomes no Brasil pela legalização do aborto, referência internacional no tema. Por isso recebe muitas ameaças de morte daqueles que se dizem pró-vida (irônico, né? Mas é a pura verdade). O tom aumentou quando foi anunciado que ela falaria na audiência do STF, em agosto do ano passado (seu discurso brilhante está aqui). Ela me revelou que estava usando colete à prova de balas nessa audiência, e me disse: "A primeira vez que eu tive que colocar um colete à prova de balas, eu chorei" -- o que não denota fraqueza, mas inconformismo com as ameaças surreais que recebe. A situação ficou insustentável, porque houve ameaças terroristas à UnB, onde ela dava aulas. Ela pediu licença não-remunerada e saiu do país. Continua super ativa, só que agora segura. Ninguém vai nos calar
Tem que desconhecer muito o cenário que vivemos para achar que Jean inventou as ameaças. Ele é ameaçado no mínimo desde 2011. 
Lembram de um site mascu/ neonazista que pregava o assassinato de mulheres, negros e LGBT, que viralizou em 2011 e que culminou na Operação Intolerância, em que dois misóginos, racistas, homofóbicos (e desde aquela época já fãs de um certo político que hoje é presidente), Marcelo e Emerson, foram presos? Seus alvos preferenciais eram Jean e eu. Quase todo dia havia ameaças de morte fresquinhas contra nós, oferta de recompensas para quem nos matasse... Parte dessas ameaças só pararam entre 2012 e 2013, enquanto os dois líderes estavam presos, e mais recentemente a partir de maio de 2018, quando Marcelo foi preso novamente (e em dezembro foi condenado a 41 anos de prisão). 
Agora à tarde o Globo divulgou algumas das ameaças hediondas encaminhadas a Jean. E, ao lê-las, eu tive certeza que grande parte vem da mesma quadrilha que nos ameaça desde 2011. Além de serem parecidas com as que recebo, as mais aterrorizantes, que ameaçam a família inteira e vem com os dados dos parentes (endereços residenciais, placas de carro etc), são da mesma época -- final de 2016 -- em que entrou um novo integrante na quadrilha de Marcelo, o "Goec". Ele tinha acesso a bancos de dados muito detalhados, e assim podia fazer "doxxing" (encontrar dados e espalhá-los, para que a vítima e seus familiares sejam atacados). 
Ainda não sabemos quem é Goec, mas temos fortes indícios que a conta de email Sigaint e depois Protonmail, que não permite rastros, era compartilhada por vários membros da quadrilha. 
Porém, a atuação e visibilidade de Jean atraem muitos outros grupos de ódio. Todos são de direita, mas nem todos são necessariamente mascus (grupos misóginos). O fato é que a Polícia Federal já abriu cinco investigações sobre as ameaças, o que já é suficiente para calar os bolsominions que duvidam da veracidade dos ataques ou dizem que Jean está se vitimizando. 
Respostas precisas de Marcelo Freixo
Eu não consigo nem imaginar o que Jean tem passado. Ele já havia dito em entrevistas que sentia-se em cárcere privado, que não podia nem sair de casa. Mesmo que eu tenha sido perseguida por tantos anos, nunca tive escolta policial, que deve ser um inferno (acaba com sua privacidade). Nunca tive que usar colete. Eu tenho o apoio de um grupo de proteção a defensores de direitos humanos, mas o apoio é jurídico e psicológico (se eu precisar).
Mas Jean vivia sob escolta policial desde março do ano passado. Como ele disse na entrevista, até certo ponto ele não acreditava que as ameaças de morte poderiam se concretizar -- até que Marielle Franco foi executada. Aí as três a quatro ameaças de morte que ele recebia por semana passaram a parecer mais reais. Além disso, ele acompanhava o martírio de seu companheiro de partido, Marcelo Freixo, que é alvo das milícias há anos (vejam Tropa de Elite 1 e 2). Deve ser horrível viver assim.
Mas a gota d'água na decisão de Jean parece ter sido a revelação das ligações perigosas entre as milícias que mataram Marielle com a família (ou familícia, como andam dizendo) Bolsonaro. Sobre essas ligações não há mais dúvidas, a não ser se (ou quando) Jair rifará o filho Flávio, que homenageou o miliciano foragido e empregou parentes de outros milicianos em seu gabinete na Alerj, ou se afundará junto. Lembrem-se: a repercussão internacional em torno do assassinato de Marielle é gigantesca. A notícia do envolvimento da familícia com o crime organizado também está sendo. 
Uma coisa é receber ameaças de morte anônimas. Outra é ver sua amiga e colega de partido ser executada. Ainda outra é constatar que seu maior inimigo, um sujeito que te ataca há anos, surpreendente e lamentavelmente se elege presidente. Ainda outra é descobrir que esse sujeito e sua família estão diretamente envolvidos com milícias. Fica um tanto mais perigoso, não?
E estamos falando apenas das ameaças de morte. Talvez até pior seja a infinidade de fake news das quais Jean é vítima. 
Jean já processou e ganhou várias ações, mas é sempre um desgaste. O povo que acredita em mamadeira de piroca e kit gay certamente acredita que Jean apoia a pedofilia, que Jean defende o casamento de garotas de 9 anos com adultos, que Jean vai obrigar que meninos virem meninas, e sei lá quantas mais coisas atrozes essa gente baixa inventa. E Jean é uma celebridade, deve ser um dos deputados mais conhecidos do Brasil. O risco de algum fanático reconhecê-lo num lugar público e querer fazer "justiça" com as próprias mãos é imenso. 
Páscoa de 2015. O autor
desse post injurioso contra
mim, "Luciano Ayan", é
o mesmo
que caluniou
Marielle ano passado
Só pra dar um exemplo básico. Na páscoa de 2015 eu viajei e fiquei numa pousada sem acesso à internet. Reaças se aproveitaram da minha ausência e de um fato midiático -- a morte do filho do Alckmin num acidente de helicóptero -- para forjar um tuíte no meu nome em que eu comemorava a morte e lamentava que o pai não tivesse morrido também. Isso foi numa sexta. Quando cheguei em casa, no domingo, havia milhares de mensagens no meu Twitter, quase todas me xingando, muitas me ameaçando. Alguns reaças fizeram posts para me insultar. Mesmo quando eu expliquei que o tuíte não era meu, a maior parte não acreditou. Sabe quantos pediram desculpas e se retrataram? Nenhum. Um ou outro deletou o post difamatório, sem explicações. Mas a maior parte, nem isso. Até hoje o teor do tuíte fake aparece. 
Tipo: quando o G1 deu a notícia de que Marcelo foi condenado a 41 anos, e me destacou como seu principal alvo, lá nos comentários havia alguém dizendo que eu não tinha moral pra nada, pois tinha comemorado a morte do filho do Alckmin.
Agora multiplique isso por mil e vocês começam a ter uma ideia do que Jean passa. 
Nem precisa ir muito longe. É só observar as ofensas e acusações a Jean entre quinta e sexta. Bolsobots criaram anteontem a hashtag #JeanVaiPraCuba, em que os comentários são um festival de homofobia (pro comentarista reaça da Jovem Pan que disse que Jean é execrado pela população brasileira, mas não por ser gay, recomendo que ele dê uma olhada na tag). Ontem foram ainda mais longe, com uma tag chamada #InvestigarJeanWillis (com o sobrenome errado). 
Desde cedo, instigados por Lobão, o podre, abundam teorias conspiratórias das mais esdrúxulas. Uma é que Jean vendeu seu mandato para o suplente (estaremos bem representados: quem assumirá a cadeira é David Miranda que, além de gay, é negro e veio da pobreza; obviamente ele já está sendo atacado e chamado de terrorista). Outra é que ele está fugindo do país. Mas as melhores são as que "provam" que Jean é o mandante da tentativa de assassinato a Bolso. 
Jean abraçando Manu no ano
passado
Ontem cedo vi um vídeo de 40 minutos de uma jornalista que foi candidata à deputada pelo PSL no Ceará (graças à deusa, ela não foi eleita). Nele ela afirma que Adélio Bispo, o esfaqueador, era frequentador assíduo dos gabinetes de Jean, Gleisi, Maria do Rosário e Manu no Congresso (deve ter sido difícil pro Adélio encontrar o gabinete da Manu em Brasília, visto que desde 2014 ela voltara a ser deputada estadual, lotada em Porto Alegre). 
Mas Jean seria o principal mandante e iria se sacrificar para encobrir a culpa dos outros mandantes. A prova disso? A carta que Lula mandou a Jean esses dias. A jornalista leu a carta em voz alta duas vezes. O trecho em que Lula pede a Jean "muita tranquilidade e paciência para enfrentar esses tempos difíceis" é um atestado de culpa, segundo a jornalista. 
Para ela, que ainda jura que Lula está querendo criar milícias para combater Bolso (entenderam? Não é Bolso o chefão das milícias, é Lula! Alguém fala "Lula está preso, babaca" pra ela, por favor?), os "tempos difíceis" são uma referência indiscutível a que Jean será preso pelo atentado contra Jair. 
A "lógica" reaça é bastante peculiar, pra se dizer o mínimo. Eles citam que Jean, como deputado, tem imunidade parlamentar, então ele deixa de ser deputado para... perder a imunidade parlamentar. Certo, não tentem entender.
Só um adendo pra lembrar os reaças de que ninguém quer a investigação sobre a facada mais do que nós da esquerda. Muitos de nós não acreditamos na farsa, e o documentário A Facada no Mito só veio atiçar nossas suspeitas. Somos nós que queremos saber quem está pagando os advogados de Adélio e quem não o está deixando falar. 
Minha única foto com Jean, em 2015.
Eu e várias feministas estivemos
numa audiência no Congresso sobre
a legalização do aborto
Bom, para terminar este texto imenso, quero destacar como Jean foi um excelente deputado, presente, trabalhador, muito atuante nas causas de movimentos sociais. Faço parte da Frente Nacional pela Legalização do Aborto, e as assessoras de Jean são fundamentais. E pouca gente sabe, mas, em 2016, quando a então maior página feminista no Facebook, a Feminismo Sem Demagogia, foi derrubada por denúncias de robôs, foi a interferência da assessoria de Jean com o FB que a trouxe de volta. Ah, foi a assessoria dele, não foi ele?! Sim, assessores de alguns deputados são honestos e competentes e trabalham. Outros assessores de outros políticos são funcionários fantasmas e laranjas que vão se esconder na favela de Rio das Pedras, dominada pelas milícias, quando o cerco aperta. 
Jean teve a generosidade de me ajudar quando Emerson (preso em 2012, solto em 2013, agora foragido na Espanha) me processou por danos morais. Com o processo ainda no início, em 2015, minhas advogadas sugeriram que eu reunisse testemunhas. Escrevi pro Jean e pra Manu e eles prontamente aceitaram. Jean ainda aproveitou que agora tinha o endereço de Emerson e ele mesmo entrou com um processo contra ele. Infelizmente, o juiz do caso arbitrariamente dispensou minhas testemunhas. Aliás, não houve uma única audiência. 
Emerson preso em 2012
Agora em janeiro minha advogada me comunicou que o processo do Emerson foi extinto por negligência dele. A juíza o condenou a pagar os honorários da minha advogada, em 10% do valor da causa, R$ 4.068. A cobrança do valor fica suspensa por cinco anos, já que Emerson era beneficiário da justiça gratuita, mas depois a advogada pode executar. Ela nunca verá a cor do dinheiro de um fugitivo, mas é simbólico que a juíza tenha condenado Emerson. Agora vamos dar prosseguimento à reconvenção (eu o processo). Fica a dica para aqueles que me ameaçam, atacam e difamam e, ironicamente, vem me processar para me incomodar e tentar me silenciar. 
Por último, quero apontar que não considero a atitude de Jean covarde ou medrosa. Ele aguentou por oito anos ininterruptos! Será que um outro político aí suportaria por 6 minutos o que Jean suportou? Além disso, ele não vai se calar. Só vai seguir lutando de outro lugar. E vai se dedicar aos estudos, cursar doutorado. Convites não faltarão. Compreendo sua decisão totalmente. Só porque eu não tenho medo das ameaças não significa que eu esteja certa. Pode ser falta de noção também. 
O medo é um mecanismo de defesa, de sobrevivência. Preferimos Jean vivo. Quem leva uma vida bonita, de luta, com amor, como eu, Jean, Debora, Marcia e tantas outras pessoas, quer viver.  Só um maluco pra querer ser mártir. 
Obrigada por tudo, Jean! Espero que, quando a democracia volte ao Brasil, você volte também! Vai passar, como promete o Chico.
 

quinta-feira, 24 de janeiro de 2019

SOU CONTRA O GOLPE NA VENEZUELA

Vou tentar falar um pouco sobre a crise na Venezuela, nosso país vizinho que nos últimos tempos deve ter ultrapassado Cuba nas famosas citações dos reaças ("Vai pra Venezuela!"). A Venezuela está sofrendo um golpe de estado neste momento e pode estar embarcando numa guerra.
Em 2002, quando Hugo Chavéz era presidente, houve um golpe patrocinado pelos EUA. Chávez foi detido por militares e o empresário oposicionista Carmona se autoproclamou presidente, que o governo americano reconheceu prontamente, lógico. Mas houve resistência popular e o golpe não deu certo. 47 horas mais tarde, Chavez era presidente de novo, para desespero do então presidente Bush Jr e da direita em todo o mundo.
Pichação em Caracas: "O povo
morre de fome"
Chavez morreu em 2013, e no ano seguinte o preço do petróleo despencou no mercado internacional, jogando a Venezuela numa longa crise. O sucessor chavista, Nicolas Maduro, não soube lidar bem nem com a recessão da economia, nem com os protestos, que prosseguiram nos anos seguintes. O PIB do país caiu, e a inflação explodiu. A escassez de alimentos fez com que 2,5 milhões de venezuelanos deixassem o país nos últimos anos.
Depois de uma Assembleia Constituinte rejeitada pela oposição e de seguidos adiamentos das eleições (que a oposição boicotou), Maduro foi reeleito em maio do ano passado para mais seis anos no poder. Ele tomou posse em 10 de janeiro, quase oito meses depois do pleito (que teve 54% de abstenção). Embora vários países não tenham reconhecido a vitória de Maduro, 94 delegações internacionais compareceram à posse -- mais que o dobro da posse de Bolso. 
Ontem o líder da oposição e presidente da Assembleia Nacional da Venezuela, Juan Guaidó, se declarou presidente interino do país. Foi imediatamente reconhecido pelos EUA (como disse um jornalista russo: "Se meia hora após um golpe os EUA declaram que ele é legal, não significa que eles apoiam. Significa que els organizaram"). Pouco depois, o Brasil de Bolsonaro também o reconheceu como novo presidente, assim como vários outros países. 
Rússia, China, Cuba, Turquia e Bolívia declararam apoio a Maduro. A União Europeia pediu o início imediato de "um processo político que leve a eleições livres e críveis", mas não reconheceu Guaidó presidente. México e Uruguai se colocaram à disposição para tentar encontrar uma solução para as tensões e contenção de uma escalada da violência. A ONU pediu "diálogo para evitar desastre".
Houve manifestações contra e a favor de Maduro por toda a Venezuela. O exército do país disse que continuará apoiando Maduro, que rompeu relações com os EUA e deu 72 horas para que diplomatas e representantes americanos deixassem a Venezuela. Os EUA, que não aceitam mais a autoridade de Maduro, se recusam a sair. 
Intervenções militares
dos EUA na América
Latina
Nas redes sociais, as três hashtags nos primeiros lugares dos trending topics eram #YankeeGoHome (ianques vão embora), #WeAreMaduro e #MeDeclaro (zoando de Guaidó se autoproclamar presidente). Portanto, não sabemos ainda se o golpe realmente irá vingar.
Sinceramente, não tenho apreço nenhum por Maduro. Mas tenho apreço ainda menor pela contínua política imperialista dos EUA, que se vê no direito divino de tratar a América Latina como seu quintal e intervir nos governos alheios. 
Quintal dos
Estados Unidos
Existe uma piada antiga sobre a "interferência" (eufemismo) dos EUA na América Latina. É assim: Por que não há golpe de Estado nos EUA? Porque lá não tem embaixada americana.
É simplesmente absurdo que, apoiado pelos EUA, um sujeito que não foi eleito se proclame presidente de uma nação. Seria como se Aécio Neves, que perdeu por uma margem pequena de Dilma em 2014 e nunca aceitou a derrota, se declarasse presidente do Brasil -- e os EUA acatassem a decisão. Ou seria como se o PT, agora em outubro último, não reconhecesse a eleição (vencida graças a fake news) de Bolso e decidisse que Haddad é o novo presidente do Brasil. Não é assim que as coisas funcionam! Isso é golpe dos mais rasteiros. 
Eu concordo com a nota divulgada pelo Psol: "O PSOL defende uma saída pacífica e constitucional para a crise da Venezuela, respeitando a soberania de seu povo e rechaça qualquer interferência estrangeira neste país irmão".
A Venezuela tem a maior reserva de petróleo no mundo, e é muito óbvio que o interesse dos EUA naquele país não tem nada de humanitário. 
Soa bonito falar que os EUA vão libertar o povo da Venezuela. Mas pô, gente, será que não aprendemos nada com a invasão americana no Iraque, sob as desculpa de que queria libertar a população? Hoje só alguém muito, muito limitado a ponto de chamar fascista de mito acredita que havia outro motivo para matar montes de iraquianos que não fosse petróleo.
Dizer isso significa que eu gostava de Saddam Hussein? Lógico que não. Assim como não defendo ditadores, tampouco defendo a postura imperialista dos EUA. O mesmo vale para Maduro e a Venezuela. Não gosto de Maduro, mas não pode ser a maior potência da história da humanidade que determina quem pode ou não ser presidente de um país (qualquer país).
Nesse quesito de querer dominar o resto do mundo e por seus interesses em primeiro lugar, não há muita diferença entre republicanos e democratas nos EUA. Reagan, Bush Sr., Clinton, Bush Jr, Obama, Trump (só pra citar os presidentes mais recentes) nem piscam antes de invadir outras nações. Mas com Trump há um agravante. Ele pode sofrer um impeachment. E não há nada melhor para distrair a população e tentar uma união nacional do que uma guerra.
Bolsonaro, que é o sonho molhado da política externa americana (imagina ter como presidente da maior nação da América Latina um cara que bate continência pra bandeira americana?), também corre risco de seu governo de extrema-direita naufragar diante das denúncias de corrupção e conexões com milícias. Pra ele a guerra contra a Venezuela também poderia ser um ótimo negócio. Resta saber se os militares que chancelam Bolso (este governo tem mais militares no poder do que o governo militar que tivemos durante a ditadura militar de 1964 a 1985) estão de acordo. O vice-presidente Mourão já disse que não.
Gostaria que todos tivessem o bom senso de concordar que guerras são terríveis. Eu não quero uma guerra na Venezuela. E nunca aceitarei que os EUA continuem mandando aqui. 

terça-feira, 22 de janeiro de 2019

A IMAGEM DA DERROTA

Enquanto a situação de Flavio (e consequentemente do resto da famiglia) vem se complicando, 
agora não apenas com suspeitas de corrupção mas também de envolvimento com as milícias que mataram Marielle Franco (a ponto da hashtag #FlavioBolsonaroNaCadeia passar o dia todo em primeiro lugar nos trending topics do Twitter), Jair esteve no Fórum Econômico Mundial, em Davos, Suíça.
Ele tinha 45 minutos pra discursar a centenas de empresários e líderes internacionais. Falou 6. Foi tão desastroso que até o deus-mercado, que normalmente adora políticos de direita, caiu hoje quase 1%. A repercussão foi trágica.
Pra ilustrar seu isolamento, Bolso foi almoçar num bandejão num supermercado. Só passou a imagem de que é "simples e humilde" pra quem o chama(va) de "mito". Pro resto do mundo, foi um recado que seu governo corre risco de acabar antes mesmo de começar. E o fundo laranja combinou com a situação do seu mandato.
Na excelente série dinamarquesa Borgen, a protagonista tem um discurso importante para fazer. Ela mede seu fracasso pelo tempo que duram as palmas. Veja no final da fala de Bolso o pífio aplauso que recebeu. Se alguém souber de um vexame maior na história de Davos, me avise. 

segunda-feira, 21 de janeiro de 2019

CRUZEIRO PRA BEIRADA DO MUNDO

A tirinha acima é da sempre brilhante Laerte e foi publicada na Folha de hoje (clique para ampliar).
Decerto a cartunista se inspirou em matérias de alguns dias atrás sobre terraplanistas (pessoas que acreditam que a Terra é plana, tipo uma pizza ou panqueca gigante) que anunciaram que fretarão um cruzeiro no ano que vem para chegar à beira do nosso planeta. Eles creem que a beirada fica na "muralha de gelo" mais conhecida como Antártida.
Sei muito pouco sobre terraplanistas, fora que são todos malucos e devotos de teorias da conspiração (tipo que o ser humano nunca foi à lua, foi tudo armação da Nasa). Mas pelo que vejo, quase todos são reaças (tem terraplanista no Brasil que não seja olavette?). E são grupos que crescem à medida que a direita avança. Eles se aproveitam do obscurantismo corrente pra progredir.
Além de não acreditarem na gravidade, alguns terraplanistas creem que a Austrália não existe. O país de 24 milhões de pessoas seria apenas uma farsa para disfarçar que os criminosos que foram transferidos da Grã Bretanha para a Oceania na realidade morreram afogados, num dos maiores assassinatos em massa na história. Quem habita a Austrália hoje são meros robôs gerados por computadores. Sempre desconfiei! 
Olha, eu iria fácil num cruzeiro desses! Ainda mais se me permitissem escrever sobre as experiências depois. Sem que me processassem por eu contar as teorias dos lunáticos.