quinta-feira, 27 de dezembro de 2018

HOMENAGEM AOS LARANJAS DE TODOS OS BOLSOS

Dispensa explicações, de acordo com Sérgio Moro.

quarta-feira, 26 de dezembro de 2018

PRIMEIRA ENTREVISTA QUE DEI SOBRE A CONDENAÇÃO DE MARCELO

Reproduzo aqui a entrevista que dei para a Vice na quarta sobre a condenação do mascu Marcelo a 41 anos de prisão. A entrevista saiu um dia antes de eu escrever o artigo pra Intercept Brasil (que eu coloquei aqui no bloguinho, cheio de links e imagens). 
Quem fez as perguntas foi a jornalista Gislene Ramos. A Vice, assim como a Ponte e a Fórum, já publicou diversos artigos sobre mascus. 

Eu e Silvinho em Buenos Aires
na semana passada
VICE: Quais sentimentos passaram por você após a divulgação da pena de 41 anos a Marcelo?
Lola Aronovich: Como estou de férias, não estou acompanhando direito as notícias. Ontem à tarde [penúltima terça] alguém me perguntou no Twitter se a decisão do STF não soltaria o Marcelo, que foi preso pela Operação Bravata em 10 de maio, e já teve quatro habeas corpus negados. Fiquei preocupada e comentei com meu marido que, se Marcelo fosse solto, a primeira coisa que ele faria seria fugir do país, para só depois voltar a fazer tudo que ele sempre fez na vida, que é atacar, ameaçar, difamar pessoas. 
Fora do país ele encomendaria a minha morte (e talvez a do meu marido também), como vinha prometendo havia anos. Depois do jantar, à noite, voltei para a quitinete, e um rapaz passou o link pelo Twitter sobre a condenação de Marcelo a 41 anos. Claro que fiquei muito feliz! Estou sorrindo de orelha a orelha até agora! Mas o alívio maior foi a prisão de Marcelo no dia 10 de maio. De lá pra cá minha vida melhorou bastante.
Em algum momento, ao longo desses anos de ataques e investigações, você teve medo?
Lola: Medo eu nunca tive, sinceramente. Ele e sua quadrilha são muito covardes. Querem nos intimidar com ameaças de morte e estupro. Nas primeiras ameaças às pessoas que a gente ama (como a meu marido e a minha mãe), eu senti um pouco de medo. Mas em seguida vi que eram só mais ameaças vazias. Por outro lado, sou um alvo fácil. Eles sabem meu endereço residencial há 8 anos. Sabem onde eu trabalho. Acompanham as palestras que dou em todo o país. Se eles quisessem me matar, não seria difícil. E não há nada que eu possa fazer. Mas acho que eles sabem que, se me matassem, me transformariam numa mártir (como as milícias fizeram com Marielle), e que eles seriam os principais suspeitos.
Você chegou a perder a esperança de que ele seria punido?
Lola: Foram 5 anos ininterruptos de ataques a mim e a muitas outras pessoas, principalmente mulheres, negros e LGBTs. E ambos me processaram! Dá uma raiva danada ser processada por quem te difama e ameaça de morte. Mas eles fizeram isso só pra incomodar, e quando viram que não teriam chance de ganhar as ações, nem de me forçar a ir a Curitiba ficar frente a frente com eles, desistiram dos processos. Muitas vezes eu perdi a esperança que eles voltariam a ser punidos, mas continuei colaborando com a Polícia Federal, mandando e-mails, prints e links do que eles estavam fazendo. Foi muito compensador saber em maio que tudo que eu enviei foi usado na investigação e na eventual condenação. Tudo que Marcelo criou contra mim (por exemplo, um site horrível em 2015, com meu nome, fotos e endereço) foi usado para sua condenação.
É possível acreditar que a prisão de Marcelo intimide outros misóginos e racistas a não praticarem atos semelhantes?
Figurinha antiga:
comunidade no
Orkut criada por
Marcelo e quadrilha
em 2009
Lola: Acredito que sim. Marcelo existia faz muito tempo na internet, era uma figurinha conhecida nos rincões. Então todos os channers (frequentadores de fóruns anônimos), todos os mascus, sabem muito bem quem ele é. E lógico que eles estão intimidados. Eles achavam que não daria em nada, que seria “feijoada”, um termo que eles usam sempre. A quadrilha que ele comandava, o Dogolachan, fórum que ele criou em 2013, quando saiu da prisão, migrou para a Deep Web pouco depois de Marcelo ser preso novamente, em maio de 2018. Está lá. Ainda há outros membros que devem ser presos e condenados. Mas creio que já ficou evidente que a vida que eles levam não compensa: Marcelo foi condenado a 41 anos, Emerson está foragido na Espanha, André se suicidou em junho (não sem antes matar Luciana, uma mulher que ele nunca havia visto na vida, em Penápolis, SP), e por aí vai. Desconheço o caso de algum misógino que tenha conquistado algo ou que seja feliz. O fracasso os define. A prova disso é que nem mesmo a vitória de um candidato dos sonhos deles os contenta. São eternos infelizes.
O período das eleições foi marcado por diversos casos de ataques racistas e misóginos por eleitores e apoiadores de Jair Bolsonaro . O que você espera para 2019, com a prisão do Marcelo, mas ao mesmo tempo, com uma onda fascista se espalhando no país?
Primeiros apoiadores:
mascus queriam Bolso
presidente já em 2011
Lola: Pois é, como eu disse, minha vida melhorou a partir de maio, quando um sujeito que vivia para arruinar os meus dias foi preso. Mas muitas ameaças e ataques voltaram no segundo semestre, junto com as eleições. Sem dúvida, a presença de um candidato abertamente misógino, racista e homofóbico fez com que muitos homens que pensam igual a ele saíssem do armário. Houve vários ataques no período eleitoral, inclusive algumas mortes. Ativistas e grupos historicamente perseguidos por fascistas ficamos com medo, compreensivelmente. 
Espero que aqueles que se dizem “homens de bem” entendam que a vitória de um presidente execrável, que é piada no mundo inteiro mas um pesadelo para nós, não anula a Constituição, não acaba com as leis, e que eles não ganharam um passe-livre para nos atacarem. O que me causa mais apreensão é que Bolsonaro cumpra sua promessa de liberar as armas. Se isso acontecer, teremos muitos mais casos hediondos de crimes de ódio, como o massacre de Realengo, em 2012. Viraremos um EUA no que eles têm de pior, que é um massacre por semana em alguma escola. Marcelo, que desfilava com uma camiseta pró-Bolsonaro até ser preso, sonhava com o fácil acesso a armas para poder cometer massacres. Ele jurava que iria cometer um atentado terrorista na UnB (onde estudou Letras Japonês por um semestre) há muito tempo, desde a época do Orkut.
Para a luta feminista, o que essa condenação representa? Como se sente agora para seguir em frente com seu trabalho e luta?
Lola: É uma vitória, um reconhecimento do meu trabalho, e me dá mais ânimo para seguir adiante, mesmo sabendo que viveremos um período horroroso e sem precedentes no Brasil. Toda feminista sabe o que é um mascu, um misógino, porque já foi atacada por eles. Saber que não estamos sozinhas, que a internet não é uma terra sem lei, nos dá força.
Que sentimento fica agora e o que você tem a dizer às mulheres que sofrem ataques misóginos na internet?
Lola: O sentimento é de vitória, de força, de garra, de quem não se deixa calar. Gostaria que as mulheres que sofram ataques sejam fortes também, que continuem lutando, que denunciem, que saibam que não estão sós. Em abril foi sancionada a Lei Lola, que atribui à Polícia Federal a investigação de crimes de misoginia na internet. É pouco, mas é um começo para que todos saibam que mulheres merecem ser respeitadas em todos os espaços.

terça-feira, 25 de dezembro de 2018

DEUS AJUDA A CURAR OS PROBLEMAS

De quem é o problema?

segunda-feira, 24 de dezembro de 2018

FELIZ NATAL PRA QUEM NÃO VOTOU NO COISA RUIM

Duas tirinhas fantásticas do André Dahmer, dos Malvados. Admiro muito esse cara!
De fato, não daria pra namorar -- casar nem pensar -- com quem votou num fascista medíocre. Não daria nem pra passar o Natal com tal pessoa. 
Mas, pra todas as minhas leitoras e leitores inteligentes, feliz natal!

sábado, 22 de dezembro de 2018

O CARA QUE TENTOU DESTRUIR MINHA VIDA FOI CONDENADO A 41 ANOS DE PRISÃO

E nós estamos como?

Olá, pessoas queridas! Estou de férias em Buenos Aires desde domingo. Eu só ia escrever sobre a condenação de Marcelo quando eu voltasse, no Natal. Mas aproveitei o dia chuvoso na quinta para dar algumas entrevistas e escrever um texto sobre o caso a convite da The Intercept Brasil. Eles publicaram na página deles ontem, e reproduzo meu relato aqui hoje.

Marcelo Valle Silveira Mello, 33 anos, foi condenado a 41 anos e seis meses de prisão por vários crimes, entre eles associação criminosa, divulgação de pedofilia, racismo e terrorismo. Todos crimes que ele cometeu na internet.
Ele está na cadeia em Curitiba desde 10 de maio deste ano, quando a Operação Bravata, lançada pela Polícia Federal, o prendeu pela segunda vez. De lá para cá, teve quatro habeas corpus negados. 
Uma das ilustrações publicadas
no chan de Marcelo contra mim
Marcelo é cria da classe média-alta de Brasília. Filho único de um pai que morreu jovem, sua mãe é funcionária pública aposentada. Marcelo sempre foi tímido, antissociável, sem amigos. Segundo ele, foi vítima de bullying na escola. Também segundo ele próprio, quando criança odiava perder de mulher em qualquer jogo. Além de detestar meninas, detestava negros, gays, e esquerdistas em geral.
Encontrou na internet o espaço ideal para extravasar seu ódio. Foi criador de inúmeras comunidades no Orkut e fez amizades e contatos com homens misóginos de extrema-direita que pensavam como ele. Conseguiu se destacar pelo seu ódio sem fim e sua dedicação em atacar desafetos.
Carteira de estudante. Marcelo a
colocou no seu chan criminoso e
supostamente anônimo
Em 2009, Marcelo foi o primeiro brasileiro a ser condenado por racismo na internet. Ao entrar em discussões contra a política de cotas em páginas da UnB (onde Marcelo cursou Letras Japonês durante um semestre), deixou claro seu ódio a negros. Declarou insanidade para não ter que cumprir a pena. Formou-se em Informática numa faculdade particular. Com esse currículo, tornou-se figura popular nos chans (fóruns anônimos, tão misóginos que mulheres por lá são apelidadas de “depósitos” [de porra]). 
Minha foto num dos sites
de ódio criados por
Marcelo (este em 2014)
“E eu quico?”, como costumava dizer um aluno adolescente quando queria perguntar “E eu com isso?”
Eu, que sou autora de um blog feminista, professora de Literatura em Língua Inglesa na Universidade Federal do Ceará, casada, e quase vinte anos mais velha que Marcelo, nunca havia ouvido falar dele até 2011. Porém, pouco depois de iniciar meu blog, em 2008, conheci indiretamente um nível de misoginia que era inédito pra mim. Ingênua, eu não fazia ideia que existiam homens que se reuniam para xingar uma feminista que teve a coragem de relatar a vez em que foi estuprada e deixada para morrer numa poça do seu próprio sangue. Os comentários no post da blogueira americana lamentavam que ela não havia sido morta, duvidavam da sua história (ela seria feia demais para merecer ser estuprada), prometiam finalizar o serviço.
Ao ler isso, fiquei horrorizada. Não sabia que homens cruéis eram aqueles. Um tempo depois descobri que se autointitulavam MRAs (Men's Rights Activists), ou defensores pelos direitos dos homens. Descobri com surpresa que há muitos homens que estão convictos que vivemos num matriarcado e que a verdadeira vítima da sociedade é o homem branco e hétero. Não fiquei muito surpresa ao descobrir que esses grupos, que existem nos EUA, Reino Unido, Canadá e Austrália, não lutam por direito algum -– apenas odeiam mulheres e atacam feministas. 
Meu primeiro contato com esse tipo de grupo no Brasil foi no caso Eloá, em outubro de 2008. Para quem não se lembra, um rapaz chamado Lindemberg invadiu a casa de sua ex-namorada Eloá, de 15 anos, em Santo André, e a manteve, junto com a amiga Nayara, em cárcere privado durante mais de cem horas. O caso se tornou famoso porque programas de TV sensacionalistas tiveram a oportunidade de entrevistar o agressor por telefone durante o sequestro, enquanto ele mantinha uma arma na cabeça de Eloá, e porque a polícia paulista permitiu que Nayara, que havia sido liberada, voltasse ao cativeiro. No trágico final, a polícia invadiu a casa, e Lindemberg atirou em Eloá, que morreu, e em Nayara, que sobreviveu. O assassino foi preso.
Eu estava tão indignada com o caso que escrevi quatro posts sobre ele na época. Um deles era sobre uma comunidade no Orkut assinada pela “Ordem Suprema dos Homens de Bem” e chamada “Eloá virou presunto –- foi tarde”. Na comunidade, a jovem de 15 anos assassinada covardemente era xingada de tudo quanto era nome, com ênfase na sua sexualidade, enquanto Lindemberg era saudado como herói por ter posto um fim “naquela puta”. Os participantes só reclamavam que ele não tinha também conseguido liquidar Nayara.
"Como matar mulheres?": lições de
uma das inúmeras comunidades
misóginas no Orkut
Eu somente vim a saber alguns anos depois que os MRAs dos países de língua inglesa se diziam masculinistas no Brasil, e que eles começaram a se juntar a partir de 2005 em comunidades no Orkut como “O Lado Obscuro das Mulheres” e “Mulher Só Gosta de Homem Babaca”. Nesses grupos, rapazes que não faziam sucesso com as garotas encontravam uma explicação: a culpa não era deles, mas delas, que não queriam “homens bonzinhos” como eles –- homens tão bonzinhos que chamavam todas as mulheres (incluindo suas mães) de “vadias”. 
Em fevereiro de 2011 descobri não só que esses grupos no Brasil se autointitulavam masculinistas, como que eles já me xingavam fazia tempo. Pelo jeito, eu era a única feminista que eles conheciam. Escrevi nesta data um post informativo chamado “O pensamento vivo (modo de dizer) dos masculinistas”, explicando quem eram esses estranhos rapazes que odiavam tanto as mulheres. Um mês depois, reuni num outro post, este humorístico, as “pérolas” deixadas nos comentários do post anterior. Foi a primeira vez que chamei masculinistas de “mascus”, uma mera abreviação. O termo pegou, ficou pejorativo, e rapidamente acabou com o masculinismo (pelo menos no nome) no Brasil, já que nenhum mascu queria ser chamado de mascu. 
Wellington automaticamente virou
herói entre os mascus
Em 7 de abril de 2011 a brincadeira acabou. Wellington Menezes, de 23 anos, entrou na escola estadual onde havia estudado, em Realengo, no Rio, e matou dez meninas e dois meninos. Após ser atingido na perna por um policial, Wellington se matou. A mídia brasileira nunca explicou a discrepância do número de vítimas nem deu atenção às testemunhas, que diziam que o assassino atirava nas meninas para matar, e nos meninos, para ferir. Ou seja, a mídia não tratou o terrível massacre como um crime de ódio, como feminicídio, e sim como uma tragédia
Assim como Lindemberg, Wellington virou herói entre os mascus. Mas, diferente do primeiro, Wellington era ele mesmo um mascu. Ele tinha queimado seus computadores antes de cometer o massacre, mas havia registros de suas ligações com fóruns mascus, tanto que a Polícia Federal passou a investigá-los. No mesmo dia do massacre, o maior blog mascu do Brasil, o de “Silvio Koerich” (não seu nome verdadeiro) deixou de ser atualizado. 
Seu autor somente reapareceu um semestre depois para anunciar que o blog estava fechando as portas, sem explicar o porquê. Logo depois, um blog com o mesmo nome e layout passou a publicar posts escabrosos, pregando a legalização do estupro e da pedofilia, o estupro corretivo para lésbicas, a matança de mulheres, negros e gays. Além disso, o blog oferecia recompensas para quem matasse o deputado federal Jean Wyllys e eu (éramos chamados de “escória”), e prometia um atentado ao prédio de Ciências Sociais da UnB, para matar o máximo de “vadias e esquerdistas”. 
O blog de ódio permaneceu no ar durante longos meses e rendeu quase 70 mil denúncias à SaferNet. Ele não estava hospedado no Brasil e, sempre que um país o expulsava, ele reabria em outro. Com a ajuda do grupo Anonymous, descobrimos seus dois principais autores: Marcelo e Emerson Eduardo Rodrigues, que se dizia engenheiro (não era) e que havia gravado um vídeo racista na Índia dizendo atrocidades como “o estado natural do preto é a sujeira, o estado natural da mulher é a prostituição, o estado natural do homem branco é o trabalho”.
Em março de 2012, a Polícia Federal lançou a Operação Intolerância e prendeu Marcelo e Emerson em Curitiba. Na conta bancária de Marcelo foram encontrados 440 mil reais, dinheiro que sua mãe lhe havia passado. Marcelo e Emerson brigaram na cadeia, mas foram condenados a mais de seis anos e seis meses de prisão. Infelizmente, cumpriram apenas um ano e dois meses. Ao saírem, em maio de 2013, ambos me mandaram emails me responsabilizando por sua prisão e jurando que iriam me processar. 
Marcelo no Twitter em setembro
de 2013 (clique para ampliar)
Não sei ao certo o que Marcelo fez nos seus primeiros meses soltos, mas já no segundo semestre de 2013 ele estava enfurecido. Abriu um perfil no Twitter com sua foto e nome e passou a mandar mensagens cada vez mais agressivas a mim, ao delegado que o havia prendido, e a outros desafetos. Mandou emails e deixou comentários (não aprovados e nunca respondidos) no meu blog com ofensas e ameaças. Ainda em 2013 criou seu próprio chan, o Dogolachan. Como fiquei sabendo? Porque no início de 2014 ele me enviou o link pro chan, para que eu pudesse acompanhar as ameaças. 
Marcelo e Emerson em
foto de janeiro de 2016
As ameaças eram diárias, mensagens do tipo “essa Lola não sabe com quem tá mexendo. Achando que prisão é eterna, achando que se eu não ve [sic] o dedo dela em uma nova prisão que fodeu com minha vida eu não vou lá pro Ceara e mato ela”, e "Sonho todos os dias com essa gordona escrota morta, até imprimi uma foto dessa maldita e colei na minha porta e fico apontando minha 9mm pra foto dela. Essa desgraçada precisa ser parada por um homem sancto, se ela quer ser martir das misandricas, então ela será", e "Vou cravar a Lola de balas, sei q estamos ameaçando-a faz tempo, mas o dia da retribuição chegará. Nosso sancto wellington agiu sob nossas orientações". 
Abertura do chan do Marcelo em 2014: seja um herói como Elliot, Wellington e Anders
O Dogolachan de Marcelo desde o início se pôs a cultuar assassinos como Wellington (do massacre de Realengo), Elliot Roger (que em maio de 2014 matou seis pessoas na Califórnia e se suicidou, após deixar um manifesto misógino de 140 páginas), e Anders Breivik (que em 2011 matou 77 pessoas na Noruega). Sempre que algum membro do chan falava em suicídio –- algo extremamente comum entre homens fracassados em todas as searas de suas vidas -– ouviam o coro “Leve a escória junto”. Em outras palavras, não se mate ainda. Antes vá numa palestra feminista, numa Marcha das Vadias, numa Parada do Orgulho Gay, numa Marcha das Mulheres Negras, e abra fogo. Só então se mate ou seja morto pela polícia, e torne-se um herói. 
Outro passatempo de Marcelo era lançar “novos” sites de ódio, na tentativa de repetir a popularidade do Silvio Koerich. Eu ponho a palavra “novos” entre aspas porque os blogs eram todos iguais, com o mesmo design, o mesmo ódio, e vários textos repetidos, trocando apenas alguns trechos e imagens. Nesses últimos cinco anos, Marcelo criou sites como Realidade, Homens de Bem, Tio Astolfo, PUAHate, Reis do Camarote, Filosofia do Estupro, e Rio de Nojeira, entre outros. 
Em 2015 e 2016 ele lançou "guias de estupro", em que só mudava o nome da universidade, mas sua base era "como estuprar vadias" na USP, UFC, UFRGS, UFRJ e, claro, UnB. Através dos sites de ódio, Marcelo cumpria três objetivos: o de divulgar sua ideologia, o de enfurecer o "gado" (qualquer pessoa que não seja um mascu), e o de tentar incriminar inimigos. Em cada um dos sites ele colocava o nome completo de algum desafeto como autor, como por exemplo o meu marido, Silvio, com direito a fotos e endereço residencial e comercial. Silvio também teve que registrar boletim de ocorrência, já que Marcelo tinha/tem grande obsessão por ele. Marcelo não se conforma que uma feminista seja heterossexual, e que uma mulher gorda tenha um marido que a ame. Logo, vários de seus planos envolviam a destruição de Silvio.
Um dos sites de ódio de Marcelo: montagens com fotos do meu marido
Em outubro de 2015, Marcelo inovou e criou um site com discurso de ódio no meu nome. Havia fotos minhas, link pro meu currículo Lattes, meu endereço e telefone residenciais em cada post. 
O site de ódio no meu nome,
no segundo semestre de 2015
O objetivo confesso de Marcelo era que o "gado" me reconhecesse na rua e me linchasse. O site pregava coisas que eu jamais defenderia: aborto para fetos masculinos, infanticídio e castração de meninos, queima de bíblias, racismo. Num post “eu” (já que o blog era escrito em primeira pessoa, com meu nome) me vangloriava de ter realizado um aborto numa aluna em sala de aula, na UFC. O site viralizou, graças à divulgação de figuras reacionárias conhecidas, como o guru da extrema-direita Olavo de Carvalho e Roger Moreira, do Ultraje a Rigor. Eles sabiam que o site era falso e o divulgaram mesmo assim. Antes disso, na mesma semana em que o site foi lançado, Emerson, que havia reatado a amizade com seu ex-comparsa Marcelo, me denunciou ao Ministério Público como autora do site –- e o MP acatou a denúncia. Foi surreal.
Mais do site de ódio que
Marcelo fez no meu nome
Entre janeiro de 2012 e abril de 2017, eu registrei onze boletins de ocorrência contra Marcelo e sua quadrilha. Não foi fácil. O Estado do Ceará, onde vivo, não tem delegacia de crimes cibernéticos (e mesmo os 16 Estados que contam com esta delegacia ainda estão focados em crimes patrimoniais, não crimes contra direitos humanos). A Polícia Civil tem muitos outros crimes pra resolver, e talvez lhe falte infraestrutura para lidar com sites anônimos hospedados em outros países. Na Delegacia da Mulher, a primeira pergunta feita pela escrivã é: o quê o agressor é seu? E Marcelo não é nada meu, graças à deusa, nem o conheço pessoalmente, nunca o vi, nunca falei com ele. E a Polícia Federal deixou claro que não investigaria as ameaças contra mim porque, segundo um superintendente que entrou em contato comigo em 2015 por email, a PF só investiga crimes em que o Brasil é signatário internacional, como racismo e pornografia infantil (crimes pelos quais Marcelo também foi condenado). Só em abril de 2017 a Delegacia da Mulher finalmente me ouviu num depoimento de cinco horas ininterruptas e abriu um inquérito, que foi logo encaminhado para a PF.
Mas nem tudo foi negativo. Por causa desta “verdadeira caçada, uma perseguição impiedosa pontuada por um jogo pérfido e sádico promovido por Marcelo em face de Dolores Aronovich Aguero, professora da Universidade Federal do Ceará”, como definiu  um desembargador federal em auto de setembro de 2018 para indeferir o pedido de habeas corpus de um advogado de Marcelo, a deputada federal Luizianne Lins (PT-CE) apresentou um projeto de lei para fazer com que a Polícia Federal investigue crimes de ódio contra mulheres na internet. O projeto foi aprovado na Câmara dos Deputados em dezembro de 2017, durante os 16 Dias de Ativismo pelo Fim da Violência contra as Mulheres, no Senado na semana do dia 8 de março (Dia Internacional da Mulher), e foi sancionado pelo presidente em exercício Michel Temer em abril deste ano. É a lei no.  13.642/18, também conhecida como Lei Lola, em minha homenagem. 
Um mês depois da sanção da lei, a Operação Bravata prendeu Marcelo. Teria também prendido Emerson, mas ele está foragido na Espanha. A Polícia Federal disse, na ocasião, que os crimes cometidos por Marcelo somavam 39 anos. No dia da sua prisão, pela qual eu aguardara ansiosamente durante cinco anos, tive que cancelar minha aula na pós-graduação. A felicidade era grande demais e, além disso, muitos veículos de comunicação me procuraram para entrevistas. 
Porém, um mês depois, um fato veio para abalar minha satisfação e alívio. No dia 15 de junho, no Dogolachan, um rapaz de 29 anos chamado André, codinome Kyo, que fazia parte da quadrilha de Marcelo havia sete anos, e que inclusive era moderador do chan, deixou uma mensagem no fórum afirmando que não aguentava mais a sua vida e que iria cometer suicídio. Recados como esse eram frequentes, e mais frequente ainda foi a resposta: “Leve a escória junto”. Vários membros do chan se prontificaram para pagar a passagem aérea de André, habitante de Penápolis, interior de SP, para Fortaleza, para que ele pudesse me matar e depois se suicidar. Na mesma noite, André saiu às ruas de sua pequena cidade, abordou duas moças que jamais havia visto, atirou pelas costas na nuca de uma delas, e se matou. Sua vítima, Luciana de Jesus do Nascimento, 27 anos, permaneceu vinte dias internada na UTI, e faleceu em 5 de julho. Para quem acha que mascus vão só fazer ameaças vazias, é bom se lembrar de Luciana.
Marcelo num vídeo deste ano,
em que aparecia gritando
"Viva Bolsonaro!"
Isto que contei aqui é apenas um resumo. Há muito, muito mais. Afinal, Marcelo e sua quadrilha me atacaram (e a muitas outras pessoas também) entre 2011 e 2012, e entre 2013 e 2018. Foram mais de sete anos de inúmeras ameaças (a mim e também a meu marido e minha mãe), de difamações, de mentiras contra mim, de sites no meu nome e no do meu marido. Nem mencionei a quadrilha ter enviado um email para o reitor da minha universidade, dois dias antes do Natal de 2016, prometendo um atentado a bomba que mataria 300 pessoas na UFC caso eu não fosse exonerada. Ou as ameaças e ataques que Marcelo e sua gangue fizeram a duas advogadas minhas quando uma juíza determinou que eu não precisaria ir a Curitiba ficar frente a frente com um psicopata que me ameaçava há anos, num dos processos que ele moveu contra mim. Pois é, é tão surreal que os caras que te atacam, ameaçam e difamam são os mesmos que tentam te processar por danos morais.
Muita gente me pergunta como aguentei tudo isso durante tanto tempo. Bom, eu sei que sou forte. Eu vejo como outras pessoas reagem quando são atacadas de um jeito muito mais discreto. Eu tenho uma certa maturidade, a vantagem de ter começado um blog feminista quando eu já tinha 40 anos. E é maravilhoso contar com meu marido, que sempre me apoiou. Meu bom humor também é uma defesa fundamental. Rir realmente é o melhor remédio muitas vezes. 
Mas talvez o principal motivo da minha resistência foi sempre lembrar quem eu sou, e quem são eles. Eles são seres cheios de ódio e não me atacam porque sou Lola (eles sequer me conhecem), mas por eu ser feminista. Um dos maiores elogios que já recebi foi do presidente da SaferNet, Thiago Tavares, que conheci num evento inspirador para jovens ativistas em Manaus, em agosto. Ele me elogiou por, apesar de todos os ataques recebidos, jamais me rebaixar ao nível dos misóginos. Não sou nenhuma santa, não tenho pena, mas não odeio Marcelo, nem quero sua morte, muito menos que ele seja torturado ou estuprado na prisão. Estou radiante com sua condenação e espero que ele fique na cadeia durante muitos anos. Mas sei que seu pior castigo é saber que, apesar de tanto esforço, ele não conseguiu nos calar. 

sexta-feira, 21 de dezembro de 2018

É GILEAD QUE SE CHAMA

Esta é a opinião verdadeira de uma pessoa sobre o bolsa estupro. Se o estuprador engravidar uma mulher e ele não for preso, ele teria que pagar uma pensão. 
Que lindo! Nasce uma família!Se o estuprador não for identificado, a proposta do governo reaça é de pagar R$ 85 por mês para a mulher que foi estuprada e engravidar não abortar seu filho.
É ou não é de fazer inveja ao Conto da Aia?

quinta-feira, 20 de dezembro de 2018

NÃO ZOMBE DO RECONHECIMENTO INTERNACIONAL DE BOLSO

Concorrendo com Trump e Duterte, seu presidente (meu ele nunca será) foi escolhido por um programa da TV francesa o racista do ano e o misógino do ano. 
Mas podem chamar Bolso de qualquer coisa, só não chamem um motorista! Que aí o fascistão foge mais rápido do que fugiu de todos os debates com Haddad.

quarta-feira, 19 de dezembro de 2018

O QUE OS FILMES ME ENSINARAM SOBRE SER MULHER

Uma amiga me enviou este texto inspirado que a crítica de cinema Manohla Dargis publicou no New York Times no mês passado.
Eu pedi pro super prestativo Vinícius traduzir. 

Um dos beijos mais arrebatadores do cinema está em Depois do Vendaval, um clássico de John Ford. Maureen O'Hara interpreta uma aldeã irlandesa que se apaixona pelo estrangeiro irlandês-americano interpretado por John Wayne. Eles se veem pela primeira vez quando ela está descalça tomando conta de carneiros e, inicialmente, eles trocam olhares penetrantes. Mas uma noite ele descobre que essa mulher voluntariosa entrou sorrateiramente em sua casa. Ela corre para a porta. Ele a puxa para ele. Eles brigam e, enquanto ele segura o braço direito dela atrás de suas costas, o esquerdo fica mole. Ele se inclina para beijá-la, envolvendo-a. É requintado; alguns podem chamar de meio estuprante.
Eu era uma garota impressionada pelo cinema, e aprendi muito assistindo, incluindo coisas sobre homens e mulheres que depois tive que desaprender ou aprender a ignorar. Aprendi que mulheres precisavam ser protegidas, controladas e deixadas em casa. Aprendi que homens lideravam, mulheres seguiam. E então, embora eu amasse Fred Astaire, eu apenas gostava de sua maior parceira de dança, Ginger Rogers. Ficava encantada com seu sorriso esperto e deslumbrada com a curva de sua cintura quando ela se inclinava em seu abraço. Mas eu a via como uma mulher nos braços do grande homem, uma mensagem que não aprendi apenas nos filmes.
No primeiro livro de cinema que tive, The Fred Astaire and Ginger Rogers Book, a crítica Arlene Croce escreveu sobre um número de Astaire-Rogers: “O modo como ela olha sem palavras para o homem maravilhoso com quem está dançando exalta ele, ela, e tudo o que acabamos de ver.” Croce me prometeu: “Apenas nos musicais de Astaire sonhamos assim.” A metáfora do sonho é sedutora, a menos que você se lembre do que costumam dizer às mulheres para sonhar. Na esteira de Harvey Weinstein e do #MeToo, tenho pensado muito sobre o que os filmes me pediram para sonhar, incluindo a imagem do beijo forçado e tudo o que isso significa sobre mulheres e filmes. Estive pensando sobre o que mais aprendi com eles.
Isso me leva a Mae West, cuja voz eu poderia imitar razoavelmente quando tinha 10 anos. Eu não entendia seus duplos sentidos e era jovem demais para entender o estilo camp. Para mim, West era linda, engraçada, desbocada e generosamente cheinha (que eu entendo como gorda, como eu). Ela tinha as melhores falas e a adoração de Cary Grant, e sua impertinência e seu jeito relaxado de andar compeliam todos a seguirem seu comando. Só quando adulta aprendi que ela havia negociado um grande controle criativo em seus filmes e que sua representação da sexualidade feminina fazia dela um alvo, inclusive dos censores de Hollywood. Isso colocou sua petulância em perspectiva; também parecia uma reivindicação de uma garota desbocada.
Filmes nos ensinam todo tipo de coisas: como aspirar a algo, com quem fantasiar (todos os príncipes virão), como fumar, se vestir, entrar em um quarto (sempre como Bette Davis). Eles nos ensinam a quem e como amar, bem como a necessidade ostensiva de sacrificar o amor junto com carreiras. Eles também nos ensinam que tomar banho, ser babá, estar em estacionamentos subterrâneos ou simplesmente ser mulher pode te matar. Não há uma relação causal entre o comportamento do espectador e a tela. Não tem que haver. Porque os filmes entram em nossos corpos, fazendo-nos uivar e chorar, enquanto seus padrões visuais e narrativos, suas ideias e ideologias deixam sua marca.
Lição 1: Mulheres estão lá para serem beijadas
A relação entre mulheres e cinema sempre foi particularmente tensa e não apenas porque muitas vezes envolve o que se chama de olhar masculino. No início, mulheres ajudaram a fazer filmes americanos enquanto cineastas, artistas e consumidoras. No entanto, quando os filmes passaram a ser falados, as mulheres foram largamente retiradas da direção. Hollywood continuava produzindo fantasias, mas as mulheres espirituosas dos primórdios do cinema, que haviam sido heroínas de suas histórias, foram substituídas por tipos femininos mais domesticados e familiares. Durante grande parte da era clássica, os filmes impulsionaram o romance como a aspiração feminina, com histórias seladas com um beijo de felizes para sempre.
Há muitos sabores de beijos cinematográficos: sedutor, casto, dramático, divertido, erótico, paterno. Alguns são mútuos, outros nem tanto. O beijo forçado de Depois do Vendaval foi muito popular nos filmes de Hollywood até muito recentemente. A maioria dos beijos forçados transmite uma relação eroticamente carregada, no limite ou abruptamente violenta entre uma mulher e um homem, que rondam um ao outro de forma divertida, cautelosa ou sarcástica antes de entrarem em um abraço íntimo. E embora às vezes um beijo seja apenas um beijo intenso e uma deixa para o fade-out, outras vezes também evoca a violência sexualizada e o estupro que os censores do Código de Produção policiavam desde os anos 1930 até os anos 1960.
O beijo forçado pode ter nuances; depende muito do filme e de seu ponto de vista, do que te empolga em termos de Cinema e de outras formas. Em Anjo do Mal, de Samuel Fuller, o batedor de carteiras interpretado por Richard Widmark bate com tanta força no rosto da intrusa interpretada por Jean Peters que a deixa desacordada. Ele não sabe em quem bateu porque as luzes estão apagadas. Pouco depois, os dois estão esquentando as coisas em uma névoa de violência erótica. Em Blade Runner, o policial de Harrison Ford persegue a replicante interpretada por Sean Young, fecha bruscamente a porta que ela abre, agarra-a e a empurra contra uma janela. Ele ordena que ela o beije, e ela obedece. Em Presente de Grego, a ex-profissional da cidade grande dos anos 1980 interpretada por Diane Keaton repreende o veterinário local de Sam Shepard, que então a beija enquanto a prensa contra seu carro.
O beijo forçado sugere uma visão de mundo que não é mais inteiramente ou pelo menos impensadamente permissível, dadas as leis sobre consentimento e iniciativas contemporâneas como a "sim significa sim". E é só por causa do #MeToo que tenho encarado como beijos forçados têm sido comuns e como muitas vezes não dei à maioria deles um segundo pensamento. Agora eles pulam em mim, lembrando-me que a violência sexualizada e sua ameaça têm sido lindamente conduzidas, e é uma maneira pela qual os filmes dão significado a relações entre homens e mulheres. Isso não me levou a rejeitar certos filmes e cineastas. Policiar o desejo não é do meu interesse. Entender o filme é.
Lição 2: Mulheres precisam levar umas palmadas
Nos filmes, a dominação masculina às vezes inclui punição que é concebida como divertida. Em O Regresso Daquele Homem, Nick Charles bate em sua esposa, Nora, com um jornal e ela brinca sobre surras em mulheres. John Wayne bate em Elizabeth Allen em O Aventureiro do Pacífico e em Maureen O'Hara em Quando um Homem É Homem!. Um de seus roteiristas disse uma vez: “Tudo o que você precisa ter em um filme de John Wayne é uma dama com seios grandes que o Duke possa lançar por cima dos joelhos e dar uma surra”. Em Feitiço Havaiano, Elvis salva uma potencial suicida, em quem ele então bate vigorosamente. Depois eles comem juntos alegremente com ela sentada em travesseiros, presumivelmente porque sua parte traseira estava dolorida.
Na franquia Cinquenta Tons de Cinza, a dominação sexual foi mercantilizada e uma masmorra estilizada é meramente parte da aspiração a um estilo de vida para heterossexuais aborrecidos e entediantes. Fetiches à parte, os filmes falam de uma ambivalência sobre o poder, mulheres e homens, evidentemente tanto nas histórias femininas quanto nas masculinas, e que também dominam as bilheterias. Isso pode ser mais fácil de tolerar se menos filmes prenderem mulheres na mesma caixa de gênero, como a mulher que espera. Como a mulher de Odisseu, Penélope, que fica em casa enquanto ele parte para sua aventura. Em No Coração do Mar, Charlotte Riley pede para Chris Hemsworth prometer que ele vai "voltar" para ela. Ele volta, infelizmente.
Lição 3: Mulheres vivem para apoiar homens
Em No Coração do Mar, Riley interpreta tanto a esposa que espera quanto outro estereótipo ingrato: a esposa do tipo líder de torcida que aponta a boa-fé heterossexual do herói e oferece apoio. “Se você não falar por eles, quem falará?”, a esposa interpretada por Gugu Mbatha-Raw pergunta a seu marido patologista (Will Smith) em Um Homem Entre Gigantes. Ele está próximo da grandeza e ela existe para ajudá-lo a alcançá-la. Outros cineastas tentam expandir o papel de esposa, como Damien Chazelle no filme biográfico de Neil Armstrong, O Primeiro Homem. Mas enquanto ele dá tempo de tela à esposa interpretada por Claire Foy, Janet, é o marido dela (Ryan Gosling) quem voa para a lua, e Chazelle nunca consegue tornar essas duas realidades iguais.
Ele tenta, principalmente através da morte de uma criança que humaniza Neil. Mas, prolongando-se no impacto do luto em Neil, Chazelle deixa de lado Janet e seu papel na vida emocional e psicológica de seu marido. No final, a morte da criança se confunde com todas as outras mortes na vida de Neil -- todas perdas suas --, o que desloca O Primeiro Homem para um terreno familiar à medida que se torna outra história de sacrifício masculino, triunfo e redenção. Como muitos cineastas, Chazelle tropeça na esfera doméstica aqui. Ele falha em mostrar o que a viagem heroica significa para os homens que partem e para as mulheres e crianças que ficam para trás, uma divisão que James Gray explora radicalmente em Z: A Cidade Perdida.
Lição 4: Mulheres podem transcender estereótipos
É claro que, se os filmes fossem todos ruins, nós não os amaríamos; eu não poderia amá-los. Um de seus milagres é que, apesar de tudo, eles nos trazem personagens femininas sublimes que superam frequentes estereótipos degradantes e generosos castigos abusivos. Essa ambivalência preenche o arranca-lágrimas de 1937 Stella Dallas, Mãe Redentora, no qual a personagem boa-vida de Barbara Stanwyck sofre por ser quem é. Mas Stella é indomável, como muitas personagens femininas memoráveis, e sua força de vontade a conecta com heroínas posteriores como Ripley, da franquia Alien. A performance de Stanwyck, junto com seu carisma radiante e sua humanidade, carrega uma plenitude de vida feminina que muitos filmes tentaram –- e ainda tentam -– negar. 
Há alguns anos reli o livro de 1974 de Molly Haskell, From Reverence to Rape: The Treatment of Women in the Movies, que continua um relevante guia de como as mulheres podem amar filmes sem renunciar às suas políticas ou ao seu amor-próprio. Haskell observou que, embora a indústria dominada pelos homens fizesse sua parte para manter mulheres em seu lugar, escritoras e editoras continuaram a moldar o cinema, assim como as estrelas femininas. Essas “deusas do amor, mães, mártires” incorporavam estereótipos que às vezes também transcendiam. Eu já havia aprendido essa lição assistindo aos filmes, os quais amava apaixonadamente, passei a odiar, e tive que aprender a amar de novo.
Lição 5: Mulheres podem ser heróis
Quando eu era criança, esse amor era incondicional. Assisti a tudo, frequentemente sozinha nos cinemas. (Na década de 1970, meus pais que eram da época pré-helicóptero não monitoravam minhas idas ao cinema). Na época, como hoje, muito do que eu assistia eram filmes sobre homens. Mas sempre vi as mulheres, as engraçadas e as tristes, as fracas e as fortes, as que sobreviviam no final e as que não. Adorei performances como a de Cicely Tyson em Lágrimas de Esperança, um favorito de infância, e Shelley Winters em O Destino de Poseidon, personagens radicalmente diferentes que permaneceram comigo por serem fortes, mas também porque elas eram fortes de formas humanamente reconhecíveis. Elas soavam reais para mim, como pessoas, não como decoração.
O feminismo complicou meu amor pelo cinema e eventualmente o enriqueceu. Primeiro, tive dificuldades em lidar com ortodoxias teóricas, incluindo aquelas em relação a prazer visual e mulheres existindo nos filmes apenas para serem olhadas por homens. Uma vida assistindo filmes –- e as mulheres neles -– me disse o contrário. Assim como descobrir diretoras como Claire Denis (Chocolate), Julie Dash (Daughters of the Dust) e Kathryn Bigelow (Jogo Perverso), que ofereceram novas visões do que uma mulher poderia fazer e ser em tela. Um prazer contido em suas obras não é que as histórias sejam apenas dirigidas por mulheres, mas que as mulheres podem ser heróis arquetípicos, um papel que hoje ainda é majoritariamente interpretado por homens. 
Essa foi uma lição que aprendi através de outros favoritos, como Thelma e Louise, embora é sabido que as coisas não tenham terminado bem para elas. Prefiro focar em tudo o que acontece antes delas dirigirem para o além, em toda a loucura e diversão. Bette Davis lamentou o final de alguns de seus filmes. “Os chefes dos estúdios mudavam os finais após o filme estar concluído com a mesma frequência que mudavam os títulos –- ambas coisas prejudiciais para o nosso trabalho no filme.” Ela estava certa, mas poucos finais hollywoodianos podem apagar os 85 ou mais minutos transportadores e libertadores que vêm antes, quando estrelas como Davis e West, assim como personagens como Thelma e Louise, detêm seus filmes -– ou os compartilham como Ginger Rogers.
Lição 6: Mulheres podem ser perigosas
Isso não será surpresa nenhuma para quem me conhece (ou me lê), mas eu tenho uma queda por mulheres difíceis, a quem sinto atração na vida e nas telas. Tenho um fraco em particular pelos tipos perigosos, às vezes descontrolados de femme fatales de filmes noir como Mortalmente Perigosa e Fuga ao Passado. Invariavelmente mulheres assim são postas em seus lugares (e em caixões). Ainda assim, muitos filmes apresentam uma visão de poder feminino, embora sexualizado e patológico. A história está dizendo algo, embora às vezes apenas sutilmente. As artistas e personagens magnéticas transmitem o medo primordial das mulheres (o desejo, também), mas com visões de desobediência feminina e uma força vital que censor nenhum poderia eliminar. 
Isso me traz de volta a Depois do Vendaval. Talvez pareça absurdo, mas eu o adoro profundamente apesar de seu sexismo e de tudo o que depois aprendi sobre o comportamento abusivo de John Ford sobre Maureen O'Hara. Como seu diretor, Ford foi áspero com O'Hara, mas ela transmite uma auto determinação que ultrapassa e muito o conceito de soberania feminina do filme. Como atriz, ela não pode consertar tudo, incluindo a sugestão de que relações sexuais são uma disputa por poder. Mas a simpática imagem de resolução de O'Hara –- sua determinação palpável -– é uma visão de atenuada libertação feminina, que é o que dá ao filme seu verdadeiro brilho de realismo.  
Lição 7: Mulheres podem ser cúmplices
Mulheres no cinema frequentemente são maiores e mais complexas que suas histórias. Em E o Vento Levou, um filme com vários beijos forçados, a Scarlett de Vivien Leigh sofre, mas sua dor é destinada a parecer mais profunda -– e ajuda a obscurecer –- as agonias suportadas pelos personagens escravizados, incluindo a Mammy de Hattie McDaniel. De muitas formas, Scarlett é a antítese do tipo de mulher sofrida que os filmes ainda adoram, mas seu triunfo só é possível por conta do racismo, o que há muito tem sido a história fora das telas de mulheres brancas em Hollywood. Outra lição dolorosa que os filmes me ensinaram é que só porque uma mulher é vítima não significa que ela não seja culpável.
Lição 8: Mulheres podem se manifestar
Levei anos para entender como eu poderia fazer mais do que tentar ignorar, desprezar ou simplesmente ralhar sobre sexismo e racismo nas telas, e todos os inúmeros ultrajes que estavam -- estão –- sempre lá. Aprendi a encontrar prazer apesar desses paradoxos -– e às vezes neles -–, a ver além das dualidades deusa-vagabunda, e às vezes a amar tanto as bobinhas de sorrisos fúteis quanto as rabugentas devoradoras de homens. Eu poderia ignorar a feiura dos filmes, deixar de lado as partes ruins ou assisti-los seletivamente. Em vez disso, aceitei que filmes são uma forma das pessoas darem um significado confuso à vida, e a maior coisa que eu poderia aprender com eles é me recusar a deixar que eles ou meus igualmente confusos prazeres fiquem livres de responsabilidades.
Eis o que mais os filmes me ensinaram: eles raramente acertam com as mulheres. Beijos forçados e (a maioria das) palmadas não são mais distribuídos livre e despreocupadamente, mas a dinâmica de poder que eles representam permanece. Em vez de heróis masculinos solitários, nós às vezes recebemos caricaturas de empoderamento feminino, com aspirantes a princesas e guerreiras unidimensionais brandindo as mesmas e velhas armas e poses. Às vezes essas mulheres têm aventuras; outras vezes, elas se assemelham à esposa do cinema clássico que está lá sobretudo para apoiar o homem, exceto que agora ela está usando spandex em vez de avental. Seu status de segunda categoria diz muito sobre o que há de errado com os filmes, sim, mas a culpa dificilmente é apenas dos filmes. 
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O que as leitoras aprenderam com o cinema
Perguntamos às leitoras o que a telona as ensinou sobre ser mulher. Eis o que elas aprenderam...
Legalmente Loira (2001)
"Tudo bem se você é mulher e se manifesta firmemente. Não há necessidade de se sentir pequena, pouco importante ou incapaz só porque outras pessoas em sua vida a fazem se sentir assim."  Cleo Papadopoulos, Nova Iorque
Grease: Nos Tempos da Brilhantina (1978)
"Garotas boazinhas são chatas. Garotas ousadas têm o poder."  Erin Courtenay, Madison
Star Wars: Episódio IV – Uma Nova Esperança
"Mulheres –- mesmo mulheres jovens –- podem ser líderes. A Princesa Leia era fodona. Praticamente tudo o que ela faz no filme poderia ser realizado por um homem." Jan Combopiano, Brooklyn
Norma Rae (1979)
"Mulheres podem ser corajosas mesmo quando assustadas." Susan Davis, Forth Smith
E o Ventou Levou (1939)
"Me ensinou que uma sociedade dominantemente branca enxerga mulheres negras essencialmente como cuidadoras, em todos os sentidos." Donna Bailey, Nova Iorque
Alien, O Oitavo Passageiro (1979)
"Nunca tinha visto uma mulher sendo tão destemida e poderosa. Toda vez que me encontro em uma situação estressante, realmente penso: como Ripley lidaria com isso?"  Gabrielle Zucker, São Francisco
Mulan (1998)
"O que eu guardei foi como ela abraça sua feminilidade e usa isso como seu poder, sem ter que, literalmente, fingir ser um homem.” Shalini Chudasama, Atlanta
Ela é Demais (1999)
"Mulheres dão boas parceiras se forem ‘atraentes’ do jeito convencional. Enquanto uma garota adolescente, isso realmente entrou na minha cabeça."  Sara Sousa, Portugal
A Garota de Rosa-Shocking (1986)
"Molly Ringwald não teve que mudar para se tornar digna de um menino -– ele teve que mudar para terminar junto do herói (ela). Sempre me perguntei o que ela viu em Andrew McCarthy.” Heidi Mueller, Chicago
Mulheres de Verdade Têm Curvas (2002)
“Odiava meu corpo aos 12 anos. Ver em cena alguém que se parecia comigo, amando a si mesma em sua própria pele, foi um modelo.” Carolina Kammel, Durham
Os Caça-Fantasmas (1984)
“A violoncelista independente de Sigourney Weaver me ensinou que havia um futuro que não envolvia necessariamente casamento e filhos.” Clem Bastow, Melbourne
Contato (1997)
“[Ensinou] que eu poderia ser uma astrônoma incrível, e que a ciência também é feita por/para mulheres.” Rosana Hinojosa, via Instagram
O Diabo Veste Prada (2006)
“Não deixe que sua carreira incomode seu homem. Ele irá deixar você.” J. Borg, Nova Jersey
De Repente 30 (2004)
“Para ter sucesso em sua carreira, você precisa ser malvada. E se você for malvada, então você não pode ficar com o cara.” Vaishnavi Vaidya, Filadélfia
Todas as comédias românticas
“[Ensinaram] que sua vida acaba quando você se casa.” Jennifer Hamlin, via Instagram
Todos os filmes de terror
“As mulheres que não se comportam modestamente merecem o ridículo, o desrespeito e ‘o que quer que lhes aconteça’, o que na maioria dos casos é ser a primeira a morrer". Melanie Rogers, Australia