Gostaria de destacar dois trechos do longo e excelente artigo de Eliane Brum no ótimo El País. O primeiro é sobre o movimento #EleNão, que precisa ser mais estudado. Que já entrou pra história como a maior manifestação de mulheres da história do Brasil. E que continua ecoando na nossa resistência.
A maior manifestação organizada por mulheres da história do Brasil foi o #EleNão, que colocou centenas de milhares de pessoas nas ruas em 29 de setembro. O #EleNão foi também a maior manifestação da eleição de 2018. Esse protesto foi contra Bolsonaro. E começou numa página de Facebook -- “Mulheres Unidas Contra Bolsonaro” -- criada por Ludmilla Teixeira, uma mulher nordestina da Bahia, de origem periférica e negra.
Negar a centralidade desse movimento de mulheres na oposição a Bolsonaro e ao autoritarismo que ele representa, na eleição mais complexa da democracia brasileira, obedece à mesma lógica sexista, machista e patriarcal que o presidente eleito representa. Parte da esquerda foi rápida em “culpar” o movimento #EleNão pelo aumento das intenções de voto em Bolsonaro. Intelectuais inteligentes fizeram questão de esquecer de outras variáveis e também que política não é instante, mas processo.![]() |
| Vou sempre me orgulhar de lutar |
E destaco também este trecho do artigo de Brum porque é fundamental registrar a violência sofrida por uma heroína brasileira, Amelinha Teles.
Esta senhora de 74 anos, com quem tive a honra de compartilhar uma mesa-redonda na UFPB, não se cala. Ela foi presa e torturada durante a ditadura militar. Seu crime? Ela mantinha uma gráfica clandestina do PCdoB. Faz muitos anos que Amelinha tem a coragem de contar sua história de luta. E essa história inclui torturas horríveis. Ela foi uma das vítimas do coronel Ustra, idolatrado por Bolsonaro (e condenado pelo Superior Tribunal de Justiça).
Esta senhora de 74 anos, com quem tive a honra de compartilhar uma mesa-redonda na UFPB, não se cala. Ela foi presa e torturada durante a ditadura militar. Seu crime? Ela mantinha uma gráfica clandestina do PCdoB. Faz muitos anos que Amelinha tem a coragem de contar sua história de luta. E essa história inclui torturas horríveis. Ela foi uma das vítimas do coronel Ustra, idolatrado por Bolsonaro (e condenado pelo Superior Tribunal de Justiça).
Em outubro de 2018, Amelinha foi proibida pelo TSE de contar sua narrativa num programa de Haddad (que ela já havia contado várias vezes, como neste depoimento dado na novela Amor e Revolução). E bolsominions, em uma de suas inúmeras campanhas orquestradas de fake news, inventaram e espalharam a mentira de que Amelinha havia sido guerrilheira e matado gente. Eis o que escreve Eliane Brum:
Durante o processo eleitoral, outra vítima de tortura foi atacada pelos seguidores de Bolsonaro. De novo, uma mulher. E, de novo, não acredito que sexo e gênero sejam coincidências. De Amélia Teles, o herói de Bolsonaro primeiro mandou que lhe arrancassem a roupa. Depois, aplicaram choques em seus seios, na vagina, no ânus, no umbigo, nos ouvidos e dentro da boca. Em outra sala de tortura estava seu marido, também sendo torturado. Ele entraria em coma pelos golpes infligidos em seu corpo. Quando Amelinha já estava urinada e vomitada, o militar mandou chamar seus dois filhos: uma menina de cinco anos, um menino de quatro. O menino não reconheceu a mãe, pelo tanto que a tortura a tinha desfigurado. “Só reconheci você pela voz”, ele lembraria muito mais tarde. A menina perguntou: “Mãe, por que você está azul?”. Só então Amelinha percebeu que os hematomas tinham deixado seu corpo inteiramente azul.
No segundo turno da campanha eleitoral, a pedido da equipe de Fernando Haddad (PT), Amélia e sua filha gravaram um depoimento para o programa político na TV, testemunhando o que viveram. Na sequência, seguidores de Bolsonaro promoveram um linchamento nas redes sociais: inventaram que ela tinha esquartejado dois militares quando fazia a resistência à ditadura. Criaram uma ficção em que a vítima seria a torturadora e assassina. Inverteram e subverteram a realidade. E a ameaçaram de morte. Agora com 74 anos, é como se Amélia estivesse sendo torturada mais uma vez. O judiciário, que nada fez com relação a apologia ao torturador, cometida por Bolsonaro, desta vez censurou a voz de Amelinha, ao proibir o programa. A liminar que a calou foi concedida pelo ministro Luis Felipe Salomão, do Tribunal Superior Eleitoral, com a justificativa de que o programa promovia uma “distopia simulada”.
Os depoimentos das torturadas na ditadura revelam que havia um sadismo particular no ato de infligir sofrimento às mulheres. Primeiro, muitas delas foram estupradas. Ou seja. A violência sexual era usada como tortura. Baratas e ratos enfiados em suas vaginas era outra “técnica” habitual. Ao dar seu depoimento sobre a tortura que sofreu no regime de opressão, a jornalista Miriam Leitão relatou que os torturadores botaram uma jiboia viva em sua cela, apagaram a luz e a deixaram lá. O presidente eleito, Jair Bolsonaro, comentou na ocasião: “Coitada da cobra!”.
Choques nos seios, no ânus e na vagina eram habituais. Muitas mulheres, como Crimeia Schmidt, foram torturadas mesmo estando grávidas. Irmã de Amelinha, Crimeia foi espancada diretamente por Ustra. Ela estava com sete meses de gestação. Ustra a tirou da cela pelos cabelos e começou dando tapas em seu rosto. Ela foi sendo arrastada pelo corredor, sempre apanhando. Desmaiou e, quando recuperou a consciência, já estava na sala de tortura, toda urinada. Era só o primeiro dia. Nos seguintes, Crimeia foi torturada pela equipe do coronel.
Ustra só entrava na sala de tortura para dar uns tapas e ia embora. Este é o homem que inspira Bolsonaro e cujo rosto foi estampado em camisetas exibidas por seus filhos e seguidores durante a campanha eleitoral, sem que o judiciário achasse que fosse um problema.




















































