Eu e Tamara em sua lojinha em Varadero
Uma das pessoas com quem mais conversamos em Cuba foi a Tamara, de 47 anos. Ela tem uma pequena loja em Varadero, onde vende artesanato (que não é ela que faz).
Não lembro exatamente se ela nos chamou quando passávamos caminhando em frente à lojinha dela. Só sei que o maridão começou a elogiar sua cadeira de balanço de madeira (que não estava à venda), e ela, simpática, respondeu: “Todo turista quer comprar a minha cadeira”. Mais pra frente na conversa, ela insistiu para que eu me sentasse na sua cadeira de balanço.
Tamara nos respondeu tudo que perguntamos com total honestidade. Ela contou que já foi professora (maestra, como dizem), mas que não quer mais trabalhar para o Estado, que paga mal demais. Ela disse que gostava de ser professora, de trabalhar com crianças, e que era boa na profissão, mas o salário que recebia era inviável: cerca de 20 CUCs por mês (algo como 20 euros, ou 80 reais). Ela disse que já foi muita coisa na vida, só não vendeu o corpo porque tem "um corpo estranho" e porque a profissão não lhe agrada.![]() |
| A tal cadeira de balanço. E note como ela está de casaco, porque é inverno lá |
Ainda assim, ela elogiou muito a educação e a saúde pública de Cuba. Aliás, juntando tudo que conversamos com vários cubanos, surgiram algumas unanimidades: eles têm muito orgulho dessas e de outras conquistas (como a baixa criminalidade ou o fato de ninguém passar fome), não querem perdê-las de jeito nenhum, mas acham que o país precisa mudar.
Como me disse Helen, uma jovem professora (filha dos donos de um dos apês em que ficamos em Havana), “Estamos atrasados dez anos em relação ao mundo”. Ela se referia à internet, mas, como escrevi em outro post, a impressão que se tem de Cuba é mesmo de um lugar que parou no tempo. Os cubanos reconhecem que isso em grande parte se deve ao embargo americano, que já tem mais de meio século. Mas as pessoas com quem conversei também achavam que o pessoal que estava no poder tinha que se renovar e abrir espaço para as novas gerações, que “pensam diferente”.
Um jovem cubano com quem falei em Havana, na fila pra pegar o ônibus pra ir pra uma praia próxima, Santa Maria del Mar, disse que faltavam oportunidades em Cuba. Por isso que ele foi tentar a sorte há 3 anos em Londres, onde mora atualmente. Ele é psicólogo e trabalha numa universidade inglesa. Volta pra Cuba todo ano pra visitar a família. Para ele, ainda vai levar uns quinze ou vinte anos até que o país mude.
Tamara, que conheci antes de falar com os outros, não tem esperança de que algo mude. Ela, que viveu o tempo de “bonança” de Cuba (comparado a agora, pelo menos), quando a União Soviética ainda existia e era uma parceira comercial fundamental do país (em matéria de turismo, ainda há voos diretos de Moscou para Havana, e vários estabelecimentos têm placas traduzidas para o russo), corroborou o que disse o jovem psicólogo: “Toda a juventude do país está indo embora. Não há perspectivas”.
Para ilustrar, ela mencionou que têm filhos adolescentes (ela é casada com um engenheiro) que, como tantos jovens, querem se divertir. Querem acesso à internet, por exemplo. Ela citou que o ingresso para uma discoteca custa 10 CUCs. “Como um jovem cubano vai pagar?” Por isso, os que podem vão embora, segundo ela. Eu disse a ela que isso não é exclusividade de Cuba, que em países pobres capitalistas, como Brasil e Uruguai, o sonho de inúmeros jovens é também viver num país rico.
Sempre que falávamos no Brasil, os cubanos abriam um largo sorriso (todo mundo ama o Brasil, menos os coxinhas brasileiros). Apesar do tamanho, Brasil e Cuba têm muito em comum. São povos alegres, festivos, musicais, simpáticos, comunicativos. Nosso clima não é tão diferente.
Mas em Cuba eles praticamente não têm criminalidade. Dá pra sair na rua à noite numa boa (algumas pessoas em Varadero falaram que em “La Habana” não é assim, que é preciso tomar cuidado com a bolsa e a carteira, mas tivemos total sensação de segurança na capital também). Há pouquíssimos homicídios. Segundo Tamara, nas prisões cubanas tem mais gente presa por corrupção do que por furto e assassinato.![]() |
| Toni, eu, Drixia e Helen em sua casa em Havana |
Helen e seus pais, Toni e Drixia, nos deram alguns exemplos de como, para eles, o governo age rápido para manter a criminalidade baixa.
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| Toni e Silvio |
Eles contaram que, há alguns anos, “estava na moda” delinquentes puxarem correntes de ouro de turistas e cubanos na rua e saírem correndo. Até que uma vítima caiu, bateu a cabeça e morreu, causando revolta na população. Então o governo decidiu que esse tipo de furto renderia vinte anos de prisão. E, de acordo com a família, esse crime acabou.
Para eles, Cuba não tem problemas com drogas ou tráfico porque as punições são severas. Eles contaram que, como uma pessoa flagrada com um cigarro de maconha pode pegar vinte anos de cadeia, ninguém se atreve. Eles são a favor da proibição da maconha (exceto em casos medicinais) e disseram que não conhecem campanhas pró-liberação das drogas em Cuba.
Para Tamara, a vida dos cubanos é muito difícil. Sua maior queixa é a existência de duas moedas no país, uma para os nativos, outra para os turistas. A deles vale cerca de 25 vezes menos, e tem bastante coisa que eles têm que pagar com o CUC, a moeda dos turistas. Mas ela lembrou que todos os cubanos recebem uma cesta básica com itens que duram mais ou menos metade do mês. E há vários produtos que são subsidiados, como arroz (com 1 CUP você compra quatro quilos). “Tenho que apontar o que dá certo, o que é bom”, era algo que ela repetia sempre, assim como “Vocês vão voltar a Cuba mais vezes, e vocês vão se lembrar do que eu falei”.![]() |
| Bar e restaurante Beatles em Varadero. Tem cover todo dia |
Ela disse que os cubanos têm o hábito de se ajudarem mutuamente. Todo mundo colabora. O próprio governo não deixa ninguém na mão. Isso, segundo ela, pode ser um problema porque, se o governo te dá tudo, por que você vai se aventurar e trabalhar? E mesmo assim, pra ela (numa de suas contradições), os cubanos trabalham muito. Quando migram para outro país, estão entre os mais esforçados e batalhadores. “Foram os cubanos que fizeram Miami”, disse ela (eles pronunciam Miami não como “mai-a-mi”, mas como “miahm”. Também adorei a pronúncia deles pros Beatles: “bit-les”).
Tamara reclamou bastante de Obama. “Obama não fez nada por Cuba”, disse ela. Ela o chamou de covarde, pois deixou para fazer algumas mudanças apenas no finalzinho do seu segundo mandato, sabendo que as reformas deveriam ser aprovadas pelo Congresso. Assim ficou fácil pra Trump (que os cubanos pronunciam “Tromp”) derrubar tudo. Os cubanos se prepararam para a chegada dos turistas americanos, que nunca vieram (para o pessoal que aluga quartos pelo AirBnB e afins, eles vieram sim, durante sete meses excepcionais). Ela apontou triste para as ruas de Varadero, com poucos turistas em dezembro. Os comerciantes de Varadero torcem para que chova, porque quando o tempo é bom, os turistas ficam na praia.
Tamara me ensinou que tudo é do Estado. Eu pensava que os grandes empreendimentos hoteleiros eram de multinacionais estrangeiras, mas não, é tudo do Estado cubano. Tipo: pra mim me parece absurdo que vários trechos de praia sejam particulares de um resort. Só os hóspedes podem entrar. Acho absurdo que haja um campo de golfe, um esporte elitista que é uma desgraça pro meio ambiente. Mas é do Estado. Tamara justificou: “Se o Estado não fizesse um campo de golfe, o turista iria pra outro lugar”.
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| Eu no Museu da Revolução, em Havana, diante de duas mulheres guerreiras |
Sobre a situação das mulheres em Cuba, todo mundo com que falei disse que não há muito machismo, só nas gerações passadas. Eu já sabia que Cuba era um dos países com maior representatividade feminina no legislativo (quase 50%, enquanto que no Brasil mal passa dos 10%). Mas e os salários? (as mulheres ganham igual, me disseram -- é salário baixo pra todo mundo). Mas e violência doméstica? E feminicídios? As pessoas com quem conversei desconheciam o termo. Ainda usavam “crimes passionais”, e disseram que isso era raro. Helen foi talvez a que explicou melhor: “A mulher cubana é muito forte. Você reconhece uma mulher cubana pelo jeito que ela anda -- ela é segura, decidida. Ninguém manda nela”.
Já sobre homofobia, o pessoal disse que diminuiu muito nos últimos anos. Tamara atribui isso ao fato da filha de Raul Castro ser lésbica.
Bom, gostaria de indicar a lojinha de Tamara para quem for a Varadero, mas não posso: ela não está mais na mesma localização. Na nossa segunda visita a ela, Tamara chorou. Ela ia ter que sair do local (onde estava há três meses apenas, e que não era dela, ela pagava aluguel) porque a garagem onde fica a lojinha foi considerada irregular pelo governo e teria que ser reconstruída. ![]() |
| Imagem que me marcou em Havana: árvore cresce dentro de casarão sem reforma |

















































