segunda-feira, 8 de janeiro de 2018

AS OPINIÕES DE ALGUMAS CUBANAS SOBRE CUBA

Eu e Tamara em sua lojinha em Varadero

Uma das pessoas com quem mais conversamos em Cuba foi a Tamara, de 47 anos. Ela tem uma pequena loja em Varadero, onde vende artesanato (que não é ela que faz). 
Não lembro exatamente se ela nos chamou quando passávamos caminhando em frente à lojinha dela. Só sei que o maridão começou a elogiar sua cadeira de balanço de madeira (que não estava à venda), e ela, simpática, respondeu: “Todo turista quer comprar a minha cadeira”. Mais pra frente na conversa, ela insistiu para que eu me sentasse na sua cadeira de balanço.
Tamara nos respondeu tudo que perguntamos com total honestidade. Ela contou que já foi professora (maestra, como dizem), mas que não quer mais trabalhar para o Estado, que paga mal demais. Ela disse que gostava de ser professora, de trabalhar com crianças, e que era boa na profissão, mas o salário que recebia era inviável: cerca de 20 CUCs por mês (algo como 20 euros, ou 80 reais). Ela disse que já foi muita coisa na vida, só não vendeu o corpo porque tem "um corpo estranho" e porque a profissão não lhe agrada.
A tal cadeira de balanço. E note como ela está de casaco, porque é inverno lá
Ainda assim, ela elogiou muito a educação e a saúde pública de Cuba. Aliás, juntando tudo que conversamos com vários cubanos, surgiram algumas unanimidades: eles têm muito orgulho dessas e de outras conquistas (como a baixa criminalidade ou o fato de ninguém passar fome), não querem perdê-las de jeito nenhum, mas acham que o país precisa mudar. 
Como me disse Helen, uma jovem professora (filha dos donos de um dos apês em que ficamos em Havana), “Estamos atrasados dez anos em relação ao mundo”. Ela se referia à internet, mas, como escrevi em outro post, a impressão que se tem de Cuba é mesmo de um lugar que parou no tempo. Os cubanos reconhecem que isso em grande parte se deve ao embargo americano, que já tem mais de meio século. Mas as pessoas com quem conversei também achavam que o pessoal que estava no poder tinha que se renovar e abrir espaço para as novas gerações, que “pensam diferente”. 
Um jovem cubano com quem falei em Havana, na fila pra pegar o ônibus pra ir pra uma praia próxima, Santa Maria del Mar, disse que faltavam oportunidades em Cuba. Por isso que ele foi tentar a sorte há 3 anos em Londres, onde mora atualmente. Ele é psicólogo e trabalha numa universidade inglesa. Volta pra Cuba todo ano pra visitar a família. Para ele, ainda vai levar uns quinze ou vinte anos até que o país mude. 
Tamara, que conheci antes de falar com os outros, não tem esperança de que algo mude. Ela, que viveu o tempo de “bonança” de Cuba (comparado a agora, pelo menos), quando a União Soviética ainda existia e era uma parceira comercial fundamental do país (em matéria de turismo, ainda há voos diretos de Moscou para Havana, e vários estabelecimentos têm placas traduzidas para o russo), corroborou o que disse o jovem psicólogo: “Toda a juventude do país está indo embora. Não há perspectivas”. 
Para ilustrar, ela mencionou que têm filhos adolescentes (ela é casada com um engenheiro) que, como tantos jovens, querem se divertir. Querem acesso à internet, por exemplo. Ela citou que o ingresso para uma discoteca custa 10 CUCs. “Como um jovem cubano vai pagar?” Por isso, os que podem vão embora, segundo ela. Eu disse a ela que isso não é exclusividade de Cuba, que em países pobres capitalistas, como Brasil e Uruguai, o sonho de inúmeros jovens é também viver num país rico. 
Sempre que falávamos no Brasil, os cubanos abriam um largo sorriso (todo mundo ama o Brasil, menos os coxinhas brasileiros). Apesar do tamanho, Brasil e Cuba têm muito em comum. São povos alegres, festivos, musicais, simpáticos, comunicativos. Nosso clima não é tão diferente. 
Mas em Cuba eles praticamente não têm criminalidade. Dá pra sair na rua à noite numa boa (algumas pessoas em Varadero falaram que em “La Habana” não é assim, que é preciso tomar cuidado com a bolsa e a carteira, mas tivemos total sensação de segurança na capital também). Há pouquíssimos homicídios. Segundo Tamara, nas prisões cubanas tem mais gente presa por corrupção do que por furto e assassinato.
Toni, eu, Drixia e Helen em sua casa em Havana
Helen e seus pais, Toni e Drixia, nos deram alguns exemplos de como, para eles, o governo age rápido para manter a criminalidade baixa. 
Toni e Silvio
Eles contaram que, há alguns anos, “estava na moda” delinquentes puxarem correntes de ouro de turistas e cubanos na rua e saírem correndo. Até que uma vítima caiu, bateu a cabeça e morreu, causando revolta na população. Então o governo decidiu que esse tipo de furto renderia vinte anos de prisão. E, de acordo com a família, esse crime acabou. 
Para eles, Cuba não tem problemas com drogas ou tráfico porque as punições são severas. Eles contaram que, como uma pessoa flagrada com um cigarro de maconha pode pegar vinte anos de cadeia, ninguém se atreve. Eles são a favor da proibição da maconha (exceto em casos medicinais) e disseram que não conhecem campanhas pró-liberação das drogas em Cuba.
Para Tamara, a vida dos cubanos é muito difícil. Sua maior queixa é a existência de duas moedas no país, uma para os nativos, outra para os turistas. A deles vale cerca de 25 vezes menos, e tem bastante coisa que eles têm que pagar com o CUC, a moeda dos turistas. Mas ela lembrou que todos os cubanos recebem uma cesta básica com itens que duram mais ou menos metade do mês. E há vários produtos que são subsidiados, como arroz (com 1 CUP você compra quatro quilos). “Tenho que apontar o que dá certo, o que é bom”, era algo que ela repetia sempre, assim como “Vocês vão voltar a Cuba mais vezes, e vocês vão se lembrar do que eu falei”.
Bar e restaurante Beatles em
Varadero. Tem cover todo dia
Ela disse que os cubanos têm o hábito de se ajudarem mutuamente. Todo mundo colabora. O próprio governo não deixa ninguém na mão. Isso, segundo ela, pode ser um problema porque, se o governo te dá tudo, por que você vai se aventurar e trabalhar? E mesmo assim, pra ela (numa de suas contradições), os cubanos trabalham muito. Quando migram para outro país, estão entre os mais esforçados e batalhadores. “Foram os cubanos que fizeram Miami”, disse ela (eles pronunciam Miami não como “mai-a-mi”, mas como “miahm”. Também adorei a pronúncia deles pros Beatles: “bit-les”). 
Tamara reclamou bastante de Obama. “Obama não fez nada por Cuba”, disse ela. Ela o chamou de covarde, pois deixou para fazer algumas mudanças apenas no finalzinho do seu segundo mandato, sabendo que as reformas deveriam ser aprovadas pelo Congresso. Assim ficou fácil pra Trump (que os cubanos pronunciam “Tromp”) derrubar tudo. Os cubanos se prepararam para a chegada dos turistas americanos, que nunca vieram (para o pessoal que aluga quartos pelo AirBnB e afins, eles vieram sim, durante sete meses excepcionais). Ela apontou triste para as ruas de Varadero, com poucos turistas em dezembro. Os comerciantes de Varadero torcem para que chova, porque quando o tempo é bom, os turistas ficam na praia. 
Tamara me ensinou que tudo é do Estado. Eu pensava que os grandes empreendimentos hoteleiros eram de multinacionais estrangeiras, mas não, é tudo do Estado cubano. Tipo: pra mim me parece absurdo que vários trechos de praia sejam particulares de um resort. Só os hóspedes podem entrar. Acho absurdo que haja um campo de golfe, um esporte elitista que é uma desgraça pro meio ambiente. Mas é do Estado. Tamara justificou: “Se o Estado não fizesse um campo de golfe, o turista iria pra outro lugar”.
Eu no Museu da Revolução, em
Havana, diante de duas
mulheres guerreiras
Sobre a situação das mulheres em Cuba, todo mundo com que falei disse que não há muito machismo, só nas gerações passadas. Eu já sabia que Cuba era um dos países com maior representatividade feminina no legislativo (quase 50%, enquanto que no Brasil mal passa dos 10%). Mas e os salários? (as mulheres ganham igual, me disseram -- é salário baixo pra todo mundo). Mas e violência doméstica? E feminicídios? As pessoas com quem conversei desconheciam o termo. Ainda usavam “crimes passionais”, e disseram que isso era raro. Helen foi talvez a que explicou melhor: “A mulher cubana é muito forte. Você reconhece uma mulher cubana pelo jeito que ela anda -- ela é segura, decidida. Ninguém manda nela”.
Já sobre homofobia, o pessoal disse que diminuiu muito nos últimos anos. Tamara atribui isso ao fato da filha de Raul Castro ser lésbica. 
Bom, gostaria de indicar a lojinha de Tamara para quem for a Varadero, mas não posso: ela não está mais na mesma localização. Na nossa segunda visita a ela, Tamara chorou. Ela ia ter que sair do local (onde estava há três meses apenas, e que não era dela, ela pagava aluguel) porque a garagem onde fica a lojinha foi considerada irregular pelo governo e teria que ser reconstruída. 
Ela me deixou seu endereço em Matanzas, uma das quinze províncias de Cuba, onde ela vive (Varadero faz parte de Matanzas). Torço para que Tamara -– e toda Cuba -– fique bem.
Imagem que me marcou em Havana: árvore cresce dentro de casarão sem reforma
 

sexta-feira, 5 de janeiro de 2018

GORDOFOBIA SÓ É PIADA PROS PRECONCEITUOSOS

Como estava viajando e desconectada, não vi a ótima reportagem sobre gordofobia que a BBC publicou na véspera do Natal.
A matéria fala sobre o preconceito e a discriminação que as pessoas gordas sofrem. É a isso que damos o nome de "gordofobia". E é esse preconceito que se vê diariamente que muita gente tenta negar que existe. Eu sou alvo constante de gordofóbicos (que me atacam principalmente por eu ser feminista e de esquerda, mas sempre xingam o meu corpo para tentar me atingir). Disfarçam ataques com piadas batidas e sem a menor graça, fingem estar preocupados com a sua saúde (é irônico ver gente que quer que eu morra pedindo para eu fazer dieta, se não vou morrer -- porque, como sabemos, só gordo morre), associam gordura à sujeira, feiura, doença, mau cheiro, desleixo e até falta de inteligência, e se irritam sempre que alguém os chama pelo que são: babacas preconceituosos cheios de ódio.
As partes que mais gostei da matéria da BBC foram: uma nutricionista, Marcela Kotait, falando o óbvio (mas é importante uma nutricionista dizer "Existe a crença de que alguém acima do peso é doente. Isso não é verdade"); uma ativista, Alexandra Gurgel, afirmando que "uma das minhas maiores ajudas para me recuperar de tudo isso [traumas e baixa autoestima] foi descobrir sobre o feminismo, porque ele me mostrou que eu não sou obrigada a nada e posso ser da forma que quiser"; e outro ativista, Bernardo Boechat, lembrando que apenas se aceitar não é suficiente para mudar a sociedade: 
"Não interessa o quanto eu me ame e me aceite, a sociedade continua sendo contra mim. Não é porque eu me amo que vou conseguir passar em uma catraca de ônibus, que vou conseguir assento no avião ou que vou encontrar roupa com facilidade. Não adianta eu me achar lindo e maravilhoso, porque a estrutura gordofóbica vai dizer que não faço parte daquilo ali".
Concordo com ele, e isso vale para outros tipos de preconceitos também (não é por você descobrir que tem uma cor maravilhosa que a polícia vai parar de te considerar suspeito pela sua cor, por exemplo). Mas desconstruir os próprios preconceitos e aceitar a si mesmo ajuda muito. É um primeiro passo. Afinal, como lutar contra a gordofobia se você internalizou e acredita no que os babacas preconceituosos cheios de ódio falam das pessoas gordas?
Um desses babacas que apareceram para gritar "Chamaram? Presente!" foi o invariavelmente detestável Danilo Gentili. No mesmo dia que a reportagem foi publicada, o reaça disfarçado de humorista tuitou para seus milhões de seguidores: 
E, no dia seguinte, Natal, ele decidiu atacar diretamente a Alexandra (cuja foto abria a matéria da BBC):
O bacana é que Alexandra, que tem um canal sobre aceitação do corpo e contra gordofobia no YouTube, não deixou barato: gravou um vídeo respondendo a Gentili, lançou a tag #Gordofobia Não é Piada (tudo junto), que viralizou, e ganhou a grande mídia (Bernardo também fez um bom vídeo). 
No vídeo Alexandra não fala só de gordofobia, mas de quem reclama de que o mundo tá chato, não se pode mais rir de nada (típico de Gentili e seus asseclas zumbis):
"O mundo para quem é minoria já é chato há muito tempo. Nunca foi divertido sofrer preconceito. Nunca foi legal ser marginalizado. Nunca foi motivo de riso ser expulso de casa, ser maltratado, ser visto como doente, ser visto como desprezível. Nunca foi divertido pra gente. Agora que a gente está tendo visibilidade, está tendo espaço, está começando a ficar um pouco mais legal o mundo, porque esses assuntos estão vindo à tona. Está começando a ficar chato para você, né?" 
Só não compartilho o otimismo da Alexandra sobre a possibilidade de Gentili aprender e mudar de opinião. Tem gente que não quer nem vai mudar, que ganha a vida sendo preconceituosa. Que outro tipo de humor alguém tão limitado intelectualmente como Gentili conseguiria fazer, afinal?
É excelente que as pessoas falem sobre gordofobia e aceitação do corpo. Hoje vi um tuíte incrível de uma moça que não conheço, Marcelloca, que colocou uma foto sua de biquíni e escreveu:
Uma ótima mensagem para quem ainda está encucada sobre ir à praia ou o que vestir ou se tem o "corpo certo" para curtir um mar. Se você tem um corpo, você tem o corpo certo, ué. E sobre a roupa, dá uma olhada no que os moralistas de 1949 achavam sobre as mulheres que usavam maiô:
"Espetáculos afrodisíacos e atentatórios à moral", "exagero nos trajes estimula a imoralidade", "necessário um pouco mais de comedimento", trajes "que fazem concorrência à parra bíblica", "a um passo do nudismo"... A gente lê essas palavras, olha a foto com o tamanho dos maiôs, e morre de rir, né? Mas tinha babaca preconceituoso cheio de ódio que realmente falava essas besteiras setenta anos atrás, que por falta do que fazer gastava tempo demais julgando mulheres, seus corpos, suas roupas. 
Assim como ainda tem gente que condena topless, que inventa que mulher gorda não deve poder ir à praia, pois seria uma afronta aos "bons costumes" (e aos seus olhos sensíveis), que passa o dia nas redes sociais zoando de gente que aprendeu a se amar -- que é, no fundo, tudo que essa galera do ódio mais quer: se amar.
Tomara que leve bem menos que setenta anos pra que essas pessoas do nível Gentili sejam vistas como o embuste ridículo e moralista que são. 

quinta-feira, 4 de janeiro de 2018

PRIMEIRA PARADA: VARADERO

Gente linda, voltei de uma viagem incrível no domingo. Preparem-se que, se a preguiça não baixar, vou dedicar vários posts a essa viagem. E preparem-se pras muitas fotos também, a maior parte tirada pelo maridão. 
Sei que serei apedrejada pelos inimiguinhos de sempre. Só a resposta a uma leitora no Twitter que perguntava sobre a internet em Cuba (eu disse que é lenta e cara) já gerou um carnaval entre os reaças, que não primam exatamente pela interpretação de texto. Eles devem achar que uma viagem não pode ser maravilhosa se alguma coisa num país não funciona. Não sabem que, sempre que viajo, procuro ao máximo ficar distante da internet, pra me desligar mesmo da rotina. Não sabem que, dos 21 dias viajando, uns oito não foram em Cuba, e sim em lugares ultra capitalistas onde a internet também é lenta e cara. Mas calma aí que vou contar tudo. 
Suponho que cada pedacinho de cada post meu seja printado, tirado do contexto, e usado por reaças para "provar" sei lá o que eles querem provar -- que Cuba é um inferno? (que ridículo pensar isso). Que Cuba não é um paraíso? Nunca imaginei que fosse. 
Por do sol em Varadero
Quem acredita em paraíso e inferno são os reaças, que acham que nos EUA, por exemplo, "tudo funciona". E que se esforçam em demonstrar, baseados puramente em achismos, que "nada funciona" em Cuba, uma pequena ilha em que educação e saúde são vistas como modelo no mundo. 
Mas não escrevo pra reaças nem pra mascus. Escrevo pra quem sabe ler, interpretar texto, debater. Pra quem quer trocar ideias e não vem com várias pedras na mão. Então escrevo pra vocês, minhas queridas leitoras e leitores, não pra trolls. 
Eu sempre quis conhecer Cuba, em parte porque é no Caribe, em parte por toda a mística de ser uma ilha que enfrentou o maior império da história da humanidade, os EUA. Alguns anos atrás eu perdi R$ 1.630 comprando um pacote pra Havana de uma agência de viagem no Rio que nos roubou. Desta vez procurei a CVC em Fortaleza (no Shopping Benfica) ainda em maio, fui super bem atendida pelo Leonardo, um amor, que fez montes de cotações de voos nas poucas datas em que podemos viajar (pois eu e o maridão somos professores, então é sempre na alta temporada). No total, nossa viagem não saiu barata: quase 16 mil reais por três semanas (pra duas pessoas, sem filhos). 
Maridão conversando com estátua em belo parque em Varadero
O mais caro foi mesmo chegar lá. Pagamos R$ 6.660 de avião. Fomos direto, pela Avianca, de Fortaleza para Bogotá (a outra opção, mais cara, era ir de Fortaleza para SP, de lá para o Panamá, e do Panamá a Cuba). Pedimos ao Leonardo para que nos deixasse ficar um dia na ida e outro na volta em Bogotá, pra aproveitar e conhecer um pouquinho da cidade (farei um post sobre Bogotá). Ainda assim, a viagem é longa: de Bogotá pra Cidade do México, e de lá pra Havana. Na volta, a mesma coisa.
Eu na parte dos apaixonados no Parque Josone
Pausa pra contar como fiquei mal impressionada com o aeroporto mexicano. Pra começar, me pareceu o aeroporto mais frio que já vi. Tudo bem, é inverno lá no norte (a gente que não tinha pensado nisso e viajou sem uma mísera camisa de manga comprida -- nunca mais! Temos que aceitar que os outros lugares não têm o clima cearense). Mas aeroporto não é um treco meio climatizado? Aquele parecia aberto, com muito vento gelado circulando sem parar. Não ajudou que tivemos que permanecer sete horas lá. 
Dossiê Pelicano: Silvinho com as aves ao fundo
E, na ida, experimentamos a segunda maior roubada gastronômica de nossas vidas. A primeira foi em Moscou (pós-comunista), em 2004, quando pagamos 50 dólares por um tímido pedaço de frango e outro de carne (sem acompanhamento) num hotel. Lá tinha a barreira da língua, e na maior parte do tempo não sabíamos o que estávamos pagando nem quanto estávamos pagando. Mas no México, não. Hablamos español. 
Na ponte, noivos posam para fotos
Fomos tomar café da manhã num restaurante do aeroporto. Pedimos dois omeletes simples, duas "tortas" (que nosso portunhol fez crer que seriam duas fatias de torta, mas eram sanduíches -- frios, ainda por cima), e aceitamos o café que os garçons passavam servindo. Na hora da conta, a surpresa: quase 50 dólares por aquele café da manhã chinfrim! Um omelete custava 11 dólares! Pagamos com o cartão de crédito, com muita dor no coração. (Na volta, mais espertos, comemos 2 cachorros quentes cada, mais um suco e uma água. Saiu por 5 dólares). 
Maridão querendo me convencer que o mapa de Varadero estava errado e ele, certo
Ao chegar em Cuba, fomos direto do aeroporto pra Varadero. Trocamos 150 euros no aeroporto por 170 CUCs, a moeda cubana para turistas. Já tínhamos comprado a passagem pela internet com uma agência cubana, que nos levou de carro do aeroporto de Havana pra Varadero por 15 dólares cada. 
Ficamos cinco dias em Varadero, e aqui uma queixa: é tempo demais pra se gastar naquela cidadezinha de apenas 22 km (na realidade, a parte "habitada" tá mais pra 6 km). É tudo tranquilo e limpo, mas não tem muito o que fazer lá. Teria se a gente fosse pra praia todo dia, mas ninguém nos lembrou que em dezembro é inverno em Cuba. 
Eu testando as águas em Varadero: gelo!
Então sabe aquela propaganda toda de mar morninho do Caribe? Não se aplica no inverno. Claro, a água não é tão fria quanto a do Pacífico (eu coloquei a ponta do pé no mar do Chile em janeiro passado) ou, ha ha, das praias catarinenses (desculpem, não resisti!), dá pra entrar, mas é frio. A Mary, cubana de quem alugamos um quarto pelo BnB, nos disse: "Cubano não vai pra praia no inverno". E parece que em janeiro é pior. Pros turistas europeus, a temperatura do mar caribenho no inverno deve ser quentinha. Mas pra gente que tá acostumada com o nordeste...
Prova inequívoca que finalmente entrei no mar
À primeira vista, Cuba parece muito cara. Afinal, a moeda usada é o CUC, que vale praticamente tanto quanto o euro (quase 4 reais). Mas a diferença é que dá pra comprar bastante coisa com um CUC, enquanto que com um dólar ou um euro, muito pouco. Quase todas as nossas refeições em Cuba saíram por 10 CUCs pros dois. Certo, vocês sabem como nós somos. Comemos bastante hambúrger. Mas eram hambúrgueres de cerdo (porco), deliciosos, parrudos (entre 150 g e 200 g), e pagamos entre 1,20 a 2,70 CUC cada, dependendo do lugar. 
O café da manhã que você combina na casa cubana que ficar custa 5 CUCs por pessoa. Em Varadero não tinha muita fruta porque eles ainda estavam sofrendo os efeitos do furacão, que foi feio em Cuba. 
Entrada para o quarto que alugamos em Veradero
Pra sobremesa, o que comi quase todo dia sem cansar foi um potinho de 450 ml de sorvete de chocolate da Nestlé "hecho en Cuba". Quer dizer, infelizmente só tem lá. É muito bom e o preço é ótimo: quase meio litro de sorvete de chocolate por 1,35 CUC. Tinha também sanduíche de sorvete por 1 CUC. Devo dizer que em nenhum momento chegamos perto de passar fome em Cuba. Muito pelo contrário... 
O quarto que alugamos em Varadero era muito bom (R$ 770 pelos 5 ou 6 dias, via BnB), ficava em frente a uma das várias entradas de um belo parque, o Josone. 
Não sei como alguém pode ficar nos resorts. Além de caros, são longe pacas do centro da cidade. Teve um dia em que pegamos o ônibus turístico (5 CUCs por pessoa pelo dia inteiro, pode entrar e sair quantas vezes quiser) pra conhecer a vila de cabo a rabo, e chega uma hora que é só resort, campo de golfe (argh), hotéis enormes e distantes. Ah, tudo propriedade do Estado. 
Como todo mundo que vai a Cuba diz, parece um lugar parado no tempo (muito por causa do embargo de mais de meio século dos EUA). A gente vê carros antigos, alguns até da década de 1920, o tempo todo. Muito bem conservados. Quase todos são usados pra turismo. Alguns, os conversíveis mais chamativos, te levam para uma excursão pela cidade por 100 CUCs a hora. O que também tem direto, principalmente em Varadero, são charretes com cavalo. 
Pro cara ser um charreteiro, ele precisa se responsabilizar pelo cocô que o cavalo fizer na rua (se não recolher na hora é multado) e deve ter três cavalos, porque um cavalo trabalha um dia e descansa dois. Do alto da minha ingenuidade, pensei que os três cavalos de cada um ficassem confortáveis num sítio, mas, num país do tamanho de Pernambuco, não é isso que acontece. Eles ficam num estábulo mesmo, todos eles. Mas os charreteiros juram que os cavalos são bem cuidados. 
O preço é tabelado: 5 CUCs por pessoa por meia hora de passeio. Achamos caro e não íamos fazer, até que um rapaz simpático nos ofereceu um passeio de uma hora por 10 CUCs no total. Topamos. Mas já estranhamos ao ver que o charreteiro não era o rapaz simpático, e sim outro, também simpático. E foi um passeio agradável. Uma das coisas que jamais saberíamos, por exemplo, era que Al Capone teve casa em Cuba. 
Mas, na hora de pagar, o cara falou: "Foram duas horas e meia de passeio, então são 25 CUCs". Eu não gostei porque tinham sido duas horas, não duas horas e meia, e também porque o preço combinado não tinha sido esse. Mas entreguei os 25 CUCs na mão dele, e aí ele disse: "Por pessoa". Isso achamos um absurdo. Nunca que iríamos pagar quase 200 reais por um passeio. O maridão exigiu ser levado ao carinha com quem havíamos combinado a transação. Lá, o sujeito, muito do desonesto, insistiu que havíamos entendido mal. O maridão, meu herói, finalmente disse "Não vamos pagar", virou e foi embora.
Algo parecido aconteceu novamente em Havana. Tínhamos que ir ao porto. A distância era mínima, cinco quarteirões, mas já era noite, não sabíamos o caminho, e estávamos carregando as malas. Um rapaz com uma "bicicleta-táxi" ofereceu nos levar lá por 3 CUCs. Chegando ao porto, ele nos disse "Por pessoa". Paguei os 6 CUCs, mas sei que fui roubada. Um táxi normal (carro) nos cobraria 3 CUCs. Portanto, fica a dica: cuidado com isso de "por pessoa". 
Uma coisa que aprendi em Varadero é que cubano adora canadense. Não é à toa: o Canadá nunca respeitou muito o embargo americano a Cuba e, além disso, é o país que mais manda turistas pra ilha. Só em 2015, um milhão de canadenses visitaram Cuba!
Tirando gente mau caráter, que tem em todo lugar, a viagem foi muito calma. Em Cuba a criminalidade é quase inexistente, e os habitantes têm enorme orgulho disso. Como me disse Toni, dono de um dos dois quartos em que ficamos em Havana, "No meu país não preciso me preocupar com minha filha sozinha na rua à noite. Sei que ela chegará em casa em segurança". 
Voltarei ao tema, prometo! Mais posts virão sobre a viagem.

segunda-feira, 1 de janeiro de 2018

ARRUMEM UM CONSENSO AÍ

Tantas vezes vem um pessoal dizer que devemos debater com trolls da internet, que um debate feminista tem que ouvir "o outro lado" (dos misóginos?). Eu sempre pergunto: "Num evento do movimento negro, devem chamar a Ku Klux Klan?"
Só diz "tem que ouvir o outro lado" (da intolerância, do ódio) quem não conhece o outro lado.