segunda-feira, 4 de dezembro de 2017

OS PERIGOS DE NÃO SE FALAR SOBRE SEXO EM CASA

Recebi este email de uma das minhas comentaristas atuais que mais gosto, a Kasturba:

Oi Lola. Descobri seu blog há 3 anos, e desde então leio quase diariamente. De vez em quando comento, e assino como Kasturba. Já refleti sobre muitos assuntos, e mudei muitos conceitos que eu tinha, graças aos seus textos. Obrigada!
Bem, estou te escrevendo pra contar um episódio triste que já passei na minha vida. O intuito não é me lamentar nem nada (já superei, e hoje em dia esse assunto já é passado), e sim, caso você ache interessante publicar, servir para reflexão de mães e pais que leiam seu blog, para evitar que o que aconteceu comigo aconteça com outras meninas.
Bem, inicialmente devo dizer que meus pais sempre foram muito dedicados, carinhosos e bons comigo. Sempre eu era prioridade pra eles, principalmente no que tange aos meus estudos. E de maneira recíproca, eu sempre fui uma ótima filha. Sempre estava entre as maiores notas da escola, era religiosa e inclusive participava das atividades jovens do meu templo religioso (visitas a hospitais e orfanatos, pedir alimentos de porta em porta, ajudava nas aulas de evangelização das crianças pequenas, etc). Além disso, eu nunca desobedecia meus pais, nunca mentia, e poucas vezes tive "discussões de adolescente" com eles. Enfim, eu era uma filha que orgulhava muito meus pais. 
Na nossa casa o diálogo sempre foi aberto, exceto sobre um tema: sexo! Quando eu tinha entre meus 6 ou 7 anos, minha mãe teve "a conversa", me explicando de onde nascem os bebês, e depois nunca mais tocamos nesse assunto. Todo o resto eu fui aprendendo na escola, na TV, ou depois de mais velha, na prática. Era como se esse tema não existisse. E agíamos sempre como se sexo fosse algo que não existisse. Eu entendia o recado, e pensava em sexo como algo promíscuo, em algo em que eu não deveria nem pensar, nem falar, e muito menos fazer.
Pois bem, aos 16 anos eu comecei a namorar o meu melhor amigo da escola. Ele também era um rapaz muito correto, da minha idade, com ótimas notas, religioso, educado, boa família... No início minha mãe achou engraçadinho, e o tratava muito bem (meu pai sempre teve "ciúmes", mas também sempre tratou meu namoradinho muito bem). Nos víamos na escola, e fim de semana sempre estudávamos juntos (estávamos nos preparando para um vestibular muito difícil), ou íamos ao cinema. 
Depois de alguns meses, meus pais começaram cada vez mais a "dificultar" nossos passeios, pois começaram a perceber que o namoro estava ficando sério, e o risco de que começássemos a pensar em sexo aumentava. Eu já não podia de maneira alguma ir na casa dele, mesmo que fosse junto a um grupo de amigos e com os pais dele presentes. 
Pra ir ao cinema, eu tinha que dizer o filme o horário, e meu pai me deixava na porta do shopping e me buscava na porta (inclusive teve uma vez que meu pai entrou na sala de cinema pra conferir se eu realmente estava lá), e já não podíamos mais estudar juntos. Apesar de não falarmos a palavra "sexo" na minha casa nunca, eu entendia muito bem que eu não poderia nunca pensar em fazer sexo. 
Mas acontece que, naturalmente, eu e meu namorado começamos a pensar no assunto, e a conversar sobre isso (como acredito ser perfeitamente natural em qualquer casal de namorados adolescentes, de qualquer orientação sexual). Ambos éramos virgens. Não sei se era algo realmente meu, ou se era culpa pelos meus pais, mas eu não me sentia preparada para fazer sexo com 16, e não queria. 
Mas meu namorado dizia que nos amávamos muito, que seria bom, e insistia bastante. Eu não tinha a menor ideia sobre consentimento, e não tinha ninguém para conversar sobre isso alem do meu namorado (sexo era tão tabu pra mim, que nem com as minhas amigas eu me sentia à vontade para conversar), que acabei cedendo. Achei que faríamos uma vez, ele ficaria satisfeito, e depois pararia de insistir. Eu não poderia estar mais enganada. 
Depois da primeira vez, ele sempre queria mais, porque agora eu já não tinha motivos pra não querer, afinal de contas, eu já não era mais virgem. 
E eu ficava sempre numa corda bamba: inventava desculpas pra não ir, mas de tempos em tempos eu tinha que "ceder". O sexo em si não era ruim, e ele era bem carinhoso comigo, mas eu me sentia tensa, com medo e muito culpada por estar mentindo para meus pais (pra fazermos sexo, eu dizia que ia ao cinema, e saíamos no início da sessão pra casa de uma tia dele que morava próximo ao shopping, e sempre viajava -- a empregada dava a chave pra ele). Além do mais, eu me sentia muito jovem pra transar.
Obviamente não usávamos nenhum método contraceptivo: primeiro, porque eu não tinha dinheiro pra comprar nada. Eu era adolescente, não trabalhava, e meu pai me dava dinheiro pro cinema, lanche da escola e só. Segundo, porque mesmo se eu arranjasse dinheiro, eu morreria de medo de guardar camisinhas ou caixa de anticoncepcional em casa (se minha mãe encontrasse, saberia que estávamos fazendo sexo, e nem sei o que aconteceria). 
Na casa dele também existiria o mesmo problema, pois nossos pais conversavam, e os dele contariam para os meus se achassem algo assim nas coisas dele. E terceiro, porque transávamos com tão pouca frequência, que eu achava que não havia chances de engravidar. 
Mas, aos 17, engravidei.
Minha menstruação sempre foi bem irregular, e eu negava para mim mesma os primeiros sinais (vômitos de manhã, etc), mas quando finalmente percebi que estava grávida, meu mundo caiu. Eu fiquei desesperada! A hora não poderia ser pior: ambos tínhamos acabado de passar no vestibular de uma faculdade do exército, dificílimo, que havíamos nos preparado tanto, mas que não aceitava jovens com filhos, ou meninas grávidas. 
O meu maior pânico não era perder a faculdade dos meus sonhos, ou "atrapalhar" a minha juventude -- meu único medo naquele momento seria como contar para os meus pais que isso havia acontecido. Eu ficava com a garganta seca só de pensar como eu contaria isso a eles. Eu sei que eles não me mandariam fazer um aborto (eles são bastante religiosos), mas eu simplesmente não conseguia imaginar a reação e o tamanho da decepção deles comigo. Eu era a "filha de ouro", como eu poderia ter traído eles dessa maneira, fazendo sexo?
Eu e meu namorado ficamos um tempo decidindo o que fazer, e as duas únicas hipóteses seriam fugir de casa para termos o bebê, ou fazermos um aborto sem o conhecimento dos nossos pais. Tentamos comprar Cytotec com aquela mesma empregada que dava a chave do apartamento da tia pra nós transarmos, mas ela nos vendeu comprimido falso. Depois de uma confusão envolvendo essa empregada, os pais dele acabaram descobrindo sobre a gravidez. 
Hoje que eu já sou adulta, não consigo acreditar na falta de decência dos pais dele: Em vez de procurarem os meus pais para contar o que estava acontecendo, eles me obrigaram a fazer o aborto! E nem tiveram a preocupação de me levar em uma clínica ou algo assim: o pai dele conseguiu os comprimidos de Cytotec e me mandou usar (engolir 2 e colocar 2 na vagina). 
No dia seguinte nada ainda tinha acontecido, e ele comprou mais e me mandou repetir a dose. E o mais grave de tudo: nesses dias meus pais já haviam viajado para o apartamento de praia, e eu havia ficado uma semana a mais na casa dos meus avós para fazer mais uma prova de vestibular. Exatamente nesse dia, eu iria viajar sozinha, de noite, para encontrar meus pais na praia. Quando eu estava no avião, senti as primeiras dores, fui ao banheiro e vi que já havia começado o sangramento, mas ainda leve. 
Cheguei na casa de praia, e no meio da noite acordei com cólicas fortes, e havia começado um sangramento intenso. Eu não tinha a menor ideia do que esperar. Me disseram que iria sair sangue, como uma menstruação normal, e depois sairia uma bolinha, que talvez eu nem visse. O que saiu foi um feto do tamanho da palma da minha mão, totalmente formado, e ficou pendurado em mim pelo cordão umbilical. 
Hoje imagino que eu deveria estar com 3 ou quase 4 meses de gestação. Eu cortei o cordão com as mãos, e depois de um tempo senti outra coisa saindo (hoje eu sei que era a placenta; naquela época eu nem sabia que isso existia). Foi uma experiência muito traumática pra mim. Felizmente não aconteceu nada além de trauma psicológico, mas hoje, pensando nisso, eu vejo o risco enorme que corri. Eu poderia ter morrido! Poderia ter uma hemorragia dentro do avião, sem ninguém conhecido junto de mim. 
Graças a Deus (ou à sorte, ao acaso ou o que quer que seja), eu sobrevivi a essa experiência. Hoje eu já consigo olhar pra isso e compreender, sentir pena e perdoar a adolescente assustada que eu era. Mas durante muitos anos esse era um assunto que me assombrava, e eu sentia muita culpa por ter "matado o meu bebê". E, não sei se tem algo a ver com esse ocorrido, mas eu estou tentando há alguns anos engravidar, e não consigo...
Eu não guardo raiva de maneira nenhuma dos meus pais, pois sei que eles me criaram da forma que achavam que era o melhor pra mim. Mas sei que se eles tivessem feito as coisas de modo diferente, eu não teria passado por isso tudo. Primeiro, se eu tivesse abertura para conversar sobre sexo com eles, eu teria mais noção sobre consentimento, e talvez tivesse decidido esperar um pouco mais, até me sentir mais madura, pra começar a transar com meu namorado. Ou talvez não, talvez decidisse transar naquela mesma época sim (mas sem ser por obrigação e sem o sentimento de culpa), mas iria ter acesso a métodos anticoncepcionais, em vez de ter medo de que "meus pais descobrissem". 
E, por fim, se mesmo assim eu ficasse grávida (por falha ou mau uso do método), eu poderia pedir o apoio dos meus pais, e teria realizado um aborto muito mais seguro (meus pais tinham condições financeiras para isso), ou então eu poderia mesmo ter optado por ter o bebê.
Essa ideia de que sexo é algo errado, pecaminoso, horroroso e inapropriado, é algo muito hipócrita. Adolescentes sentem curiosidade, e naturalmente pensam nesse assunto. É humano! É normal! É da natureza! Não é feio e nem pecado! Se os pais conversarem com seus filhos, e principalmente suas filhas, explicando tudo sobre o assunto, e dando abertura para que filhas e filhos tomem suas próprias decisões, ao invés de tratarem o assunto como algo promíscuo e proibido, ninguém mais vai precisar passar por episódios como esse que eu passei, que poderia ter tido consequências desastrosas.

domingo, 3 de dezembro de 2017

ALERTA: VAMOS LUTAR CONTRA A PROIBIÇÃO DO ABORTO EM TODOS OS CASOS

Foi convocada para dia 5 de dezembro, às 14h, a sessão final da Comissão Especial que discute a PEC 181, para votar os destaques interpostos pela Deputada Érika Kokay que solicita revisão em dois pontos do relatório aprovado em 8 de novembro. 
Caso os destaques sejam rejeitados e prevaleça o texto tal qual aprovado no dia 8 de novembro, o risco de criminalizar totalmente o aborto no Brasil vai aumentar: o texto vai para duas sessões de votação na Câmera mais retrógrada da nossa história, em que é preciso ter 308 votos favoráveis, e depois segue para o Senado. 
No dia 13 de novembro, a Defensoria Pública da União, através de Raquel Brodsky Rodrigues, Defensora Regional de Direitos Humanos/DF e Anginaldo Oliveira Vieira, Defensor Nacional de Direitos Humanos, 
apresentou requerimento à Comissão Especial apontando vício formal no acolhimento do substitutivo do Deputado Mundalen, que inclui defesa da vida desde a concepção, retomando a expressão de "contrabando legislativo" para casos de inclusão de assuntos não pertinentes a matérias em votação (afinal, deputados fundamentalistas aproveitaram um projeto que era favorável às mulheres -- aumento de licença maternidade para mães de filhos prematuros -- para incluir uma frase que possibilita criminalizar o aborto em todos os casos no Brasil, até em casos de estupro e risco de vida para a gestante). 
Para além dos aspectos formais, a Defensoria também argumentou em favor das mulheres e apontou a violação de direitos já garantidos em lei. 
Nos dias 13 e 14 de novembro, milhares de mulheres realizaram atos de protestos em mais de 30 cidades. Nesta terça, serão realizadas vigílias em várias capitais. É importante divulgar as movimentações!
Outra ação importantíssima é aumentar o número de assinaturas na petição online. Participe! 
Nenhuma mulher deve ser presa, punida, maltratada, humilhada, ou xingada por fazer um aborto. 

sábado, 2 de dezembro de 2017

SE ASSÉDIO SEXUAL E AGRESSÃO FOSSEM TRATADOS COMO TERRORISMO

As acusações contra o produtor de cinema Harvey Weinstein já chegaram à impressionante marca de 84 mulheres
Isso tem gerado um enorme rebuliço não só em Hollywood, mas em todos os EUA. A campanha #MeToo (Eu Também) encorajou milhares de mulheres a denunciarem assédio sexual e estupro. Minha dúvida é: esse incentivo para não se calar e a tendência a acreditar nessas denúncias serão algo permanente? Chegaram ao Brasil
Pedi pra maravilhosa Denise, que mora na Austrália e está prestes a ter seu segundo filho, pra traduzir este artigo provocativo da escritora Julian Vigo publicado no Counterpunch. Obrigada, Denise!

Ao falar com amigos sobre o sexismo pós-Weinstein -- se realmente pudermos fingir de forma coletiva que Harvey Weinstein seria, de algum modo, um ápice no mundo da predação sexual -- a maioria das mulheres com quem eu falei está profundamente preocupada com o fato de que essa questão acabará por desaparecer, coberta pelos escombros de notícias mais recentes. 
Clique para ampliar e ler o q
Lena Headley (Game of
Thrones
) diz sobre Weinstein
As mulheres sabem que o sexismo não é nem novo, nem está indo embora. Empilhar camadas sobre camadas de outras notícias sobre este assunto não ajuda o debate cultural e a necessária cura social que precisa ocorrer na mesa de jantar, na pausa pro cafezinho no trabalho, no trânsito, com a família e através de meios de comunicação.
Em vez desses diálogos acontecerem, no entanto, a mídia apenas lança uma outra edição de Weinstein sob a forma de uma figura masculina mais recente. Então foi Ben Affleck, Oliver Stone, Bob Weinstein (irmão de Harvey), Roy Price e então Kevin Spacey. Na verdade, há uma crescente lista de homens. As acusações variam desde avanços sexuais inapropriados até estupro e há investigações policiais em curso acerca de muitas das acusações contra Weinstein para as quais ele provavelmente precisará de representação legal e talvez possa pegar uma pena de prisão.
Muitos editoriais surgiram discutindo os perigos da recente cascata de mulheres (e alguns homens) que estão emergindo com suas próprias histórias de assédio sexual e agressão. Um deles chega a se referir ao escândalo de Affleck como “inspirado” pelas acusadoras de Weinstein, como se de alguma forma as mulheres não pensassem autonomamente sobre as consequências profissionais e pessoais de ir a público com as acusações. 
Não se envergonhe da sua
história. Ela inspirará outras
Certamente há mais segurança para ir a público agora, uma vez que a narrativa de predação sexual está sendo abraçada por um público que empatiza com as vítimas. Mas com que finalidade? E por quanto tempo esta tendência da mídia irá se traduzir em mudanças sociais reais e uma compreensão mais profunda de como podemos abordar melhor o assédio sexual quando ele ocorre e como analisar as estruturas sociais mais profundas que reforçam a “tradição” aceita de predação sexual masculina?
Por exemplo, Brendan O'Neill questiona a força atual de “vingança coletiva”, segundo o qual as alegacões das mulheres de assédio sexual e estupro resultam no paradigma da “santa acusadora”. E à medida que a mídia divulga quase que diariamente um ator, um importante chefão da indústria, um diretor de cinema, que um dia foi um predador, devemos nos lembrar do devido curso da justiça perante a lei. 
Da mesma forma, agora temos Brian Cranston incentivando as pessoas a perdoarem Spacey e Weinstein, sugerindo que há um lugar para eles em Hollywood. A audácia é opressiva do meu ponto de vista no sentido de que há agora uma micro-narrativa sendo lancada de que nós “precisamos” perdoar esses homens. E isso aconteceu depois que as narrativas de reabilitação surgiram para ambos Weinstein e Spacey. O último ator a vir a público e ter admitido que as histórias são verdadeiras, Louis C.K, também juntou uma declaração de mídia que misturou cuidadosamente a história de seu amadurecimento envolvendo suas mulheres vítimas como uma parada para encontrar sua humanidade. Oh, tão fofo!
A gente imagina se a recuperação de um vício não faz parte deste espetáculo midiático para que esses homens se redescubram.
Embora as muitas críticas em torno da predação sexual sejam amplamente razoáveis, todas elas evitam a questão central: a violência masculina como núcleo estrutural da nossa sociedade. E essas estruturas estão cheias de problemas da violência masculina -- de cima para baixo, e depois de volta, para incluir a colaboração da mídia no caso de Weinstein ter sido rechaçado pelo New York Times anos atrás. 
E, em seguida, paradoxalmente, a NPR fez uma hitória esta semana sobre como os jornalistas do Times, Jodi Kantor e Megan Twohey, “lançaram em primeira mão” a história de Weinstein. Mas esta história é a mesma que o próprio jornal havia varrido pra baixo dos panos treze anos antes. É quase cômico como o NPR dá ao New York Times crédito por “lançar a história em primeira mão”, quando isso é o inverso do que realmente ocorreu em 2004.
Onde a mídia tem desempenhado um papel, como sabemos agora, em acobertar Weinstein, a história finalmente foi levada a público com vários jornalistas já tendo divulgado que sofreram ameaças de ações judiciais por parte de pessoas associadas a Weinstein. Quanto mais tempo passa com todos esses casos recém-revelados, o que está claro é que todos sabiam o que estava acontecendo e que há uma “cultura do silêncio” em Hollywood que mantém em vigor essa cultura de predação. 
Passemos para Kathy Griffin que recentemente revirou os olhos ao se referir à declaração de um repórter de que George Clooney “não tinha ideia”. Ela então diz: “Eu não posso acreditar que esse cara não sabia. Eu sabia. E eu não estou na indústria de filmes.” Griffin continua dizendo que cada chefão de estúdio “se comporta desse jeito e todos os acobertam”. E um silêncio desconfortável caiu sobre a cena. Um dos jornalistas mudou o assunto para Kim e Kanye.
E é aí que minha mente começa a se mexer com as revelações diárias de abusadores sexuais, a grande maioria dos quais, ao contrário de Kevin Spacey, são predadores de mulheres. Como pode que a violência contra as mulheres tenha recebido uma prioridade tão baixa pelos governos, pela polícia, pelos sistemas judiciais, e assim por diante, que isso signifique que as mulheres têm que se reunir em massa para revelar algumas (nem perto da maioria) das suas histórias de abuso sexual naquela breve janela de tempo antes de serem chamadas de “putas” ou “mentirosas”. É como se as mulheres não existissem, exceto como um capítulo na vida dos homens. Naquele capítulo onde, como o filho pródigo, esses homens chegaram ao reconhecimento de sua própria humanidade com as mulheres como o campo de jogo para a sua jovem semeadura de aveia.
Embora eu esteja mais do que feliz que a questão do assédio sexual está sendo destacada, eu me preocupo que as razões estruturais para a predação sexual estejam sendo enterradas mais fundo, sob as histórias de pedofilia. Certamente a pedofilia é uma questão social a enfrentar, mas a predação de crianças pequenas e mulheres simplesmente não é desmontável em uma única unidade, como se o sexismo estrutural não existisse. 
Por isso tantos homens estão vindo pra cima das mulheres com uma #AllLivesMatter (Todas as vidas importam) através da pilha social #MeToo nas últimas semanas e as entrevistas com homens como Hugh Grant para comentar sobre a predação sexual. É quase como se as mulheres devessem estar agradecidas aos pedófilos para que nossos problemas pudessem ser destacados. Pouco importam as mulheres, pelo que parece.
E então eu me lembrei do 11 de setembro e de como a cobertura da mídia correu sem parar por meses! E eu nem estava no hemisfério ocidental durante o 11 de setembro! Dia após dia, a cobertura sem parar desse horrível evento continuou por semanas, meses. Recebemos relatos atrás de relatos do que todos viram, ouviram e ouviram dizer que alguém viu. Se eles estavam caminhando para a padaria, numa plataforma de metrô, ou compartilhando memórias de um colega falecido, por literalmente meses foi mostrado ao mundo o efeito total do terrorismo sobre a vida das pessoas em Nova York e além. Quase 3.000 pessoas morreram naquele dia e as notícias estiveram concentradas nessa cobertura por meses.
Pulemos para as mulheres, e a linguagem de urgência é diminuída. De acordo com as estimativas das Nações Unidas de 2015, existem 101,8 homens para cada 100 mulheres. Isso significa que pouco menos de 50% do planeta, que atualmente é de 7,6 bilhões, sofre desde assédio sexual a violência sexual. Dado que todas as mulheres experimentam discriminação sexual de uma forma ou de outra ao longo de suas vidas e que as estimativas conservadoras calculam que 35% das mulheres tenham sido agredidas fisicamente ou sexualmente, a urgência de enfrentar os graves problemas estruturais do patriarcado deve ser abordada de forma mais urgente do que a Guerra Global contra o Terror.
Hadley Freeman escreveu isso recentemente sobre o estado dos direitos das mulheres atualmente: “No momento em que as histórias de assédio começaram a emergir do jornalismo, da política, das artes, pareceu que talvez não se tratasse de uma única indústria, algumas maçãs ruins aqui e ali. Trata-se dos homens como um todo.” Ela sugere que os homens permaneçam em casa e tirem uma pausa da vida pública. Embora eu tenha rido ao ler o artigo de Freeman, a realidade é que não só o que Freeman sugere de brincadeira precise acontecer para acabar com esse tipo de assédio e estupro de mulheres no ambiente de trabalho, mas, infelizmente, por causa do poder dos homens em todas as indústrias do planeta, o confinamento de homens em suas próprias casas simplesmente nunca aconteceria. Infelizmente, apesar de toda política preventiva que existe hoje, os recursos que temos para enfrentar a violência masculina e o patriarcado estrutural não estão sendo utilizados para criar um mundo mais justo para as mulheres.
Meninos serão... vistos como
responsáveis pelas suas ações
Sejamos realistas, quando Bernie Madoff roubou bilhões de dólares de investidores, rapidamente se promulgaram reformas para evitar fraude futura e amplificar mecanismos de denúncia de fraude. E os meios de se manter as práticas empresariais e a troca de valores mobiliários de forma ética não são mais difíceis, em termos práticos, do que garantir que mulheres possam trabalhar, andar de transporte público ou estar embriagadas em uma festa sem serem sexualmente agredidas. O que seria necessário para acabar para sempre com o assédio sexual, a exploração e a violência contra as mulheres? 
Podem esses abusos estruturais ser encerrados através de uma abordagem de modelo de negócios? Por exemplo, e se os serviços de marketing juntassem uma equipe responsável em repensar a estratégia, como se estivesse reestruturando uma empresa? Em seguida, um plano poderia ser definido para reeducar os homens em torno de questões como violência, estupro, consentimento, igualdade econômica e educação? Então, eu me pergunto, se o modelo de negócios é efetivo e robusto o suficiente.
Isso me levou a refletir: e se o sexismo, em todas as suas encarnações culturais -- do assédio nas ruas ao assédio sexual no escritório, a dizer às crianças meninas que sua humanidade importa menos do que seus corpos, ao estupro, ao tráfico sexual, aos muitos que dissolvem as estruturas intrinsecamente sexistas chamando a escravização sexual de “trabalho sexual” -- fosse realmente tratado como uma emergência nacional? E se abordássemos o sexismo como fizemos com o 11 de setembro, quando todo o país e a mídia entraram em bloqueio simultâneo e visão restrita focada no horrível ato de terror? Como seria se ataques sexuais fossem tratados como terrorismo?
Eu diria que a Guerra Global contra o Patriarcado poderia se inspirar nos anos de operações militares prolongadas e ilegais e na colonização de grandes extensões do Oriente Médio. Eu chamaria essa fase da operação do que a comediante e escritora Jena Friedman se refere como “controle dos homens”. Se a violência e o assédio das mulheres fossem considerados tão seriamente como terrorismo, veríamos unidades armadas marchando pelas ruas e homens sendo regularmente parados para serem revistados por drogas usadas em estupro, pornografia e coisas do gênero. E isso é apenas o começo.
Não vai demorar muito até que
aconteça comigo também
Veríamos currículos escolares repletos de lições sobre igualdade de sexo, sobre sexualidade que inclua a voz de fala feminina, e as lições sobre consentimento que incluam o fato de que uma mulher que está dormindo ou desmaiou não está dizendo “sim”. Poderiam haver testes de visão especiais para os homens que têm inclinação para dizer a grupos de mulheres: “O que você está fazendo aqui sozinha?” Talvez haja um registro especial para todos os homens que devam entrar em um prédio kafkaniano para reportar seus movimentos ou, melhor ainda, façam o que Hasan Elahi fez e apenas denunciem automaticamente seu próprio paradeiro.
E quando os homens surgirem com desculpas para esse comportamento ou vierem com um “Eu nunca soube”, vamos trazê-los de volta aos escritórios da Segurança Vaginal para interrogá-los, apenas para descobrir quando eles realmente tomaram conhecimento.
Estou brincando? Claro que estou. Eu preferiria viver em um mundo onde não se assume que as mulheres são objetos sexuais dos homens e onde nós somos vistas exatamente como os homens. Você sabe, com vontades subjetivas, ideias, criatividade e uma vida interior. Imagine isso.