Oi Lola. Descobri seu blog há 3 anos, e desde então leio quase diariamente. De vez em quando comento, e assino como Kasturba. Já refleti sobre muitos assuntos, e mudei muitos conceitos que eu tinha, graças aos seus textos. Obrigada!
Bem, estou te escrevendo pra contar um episódio triste que já passei na minha vida. O intuito não é me lamentar nem nada (já superei, e hoje em dia esse assunto já é passado), e sim, caso você ache interessante publicar, servir para reflexão de mães e pais que leiam seu blog, para evitar que o que aconteceu comigo aconteça com outras meninas.
Bem, inicialmente devo dizer que meus pais sempre foram muito dedicados, carinhosos e bons comigo. Sempre eu era prioridade pra eles, principalmente no que tange aos meus estudos. E de maneira recíproca, eu sempre fui uma ótima filha. Sempre estava entre as maiores notas da escola, era religiosa e inclusive participava das atividades jovens do meu templo religioso (visitas a hospitais e orfanatos, pedir alimentos de porta em porta, ajudava nas aulas de evangelização das crianças pequenas, etc). Além disso, eu nunca desobedecia meus pais, nunca mentia, e poucas vezes tive "discussões de adolescente" com eles. Enfim, eu era uma filha que orgulhava muito meus pais.
Na nossa casa o diálogo sempre foi aberto, exceto sobre um tema: sexo! Quando eu tinha entre meus 6 ou 7 anos, minha mãe teve "a conversa", me explicando de onde nascem os bebês, e depois nunca mais tocamos nesse assunto. Todo o resto eu fui aprendendo na escola, na TV, ou depois de mais velha, na prática. Era como se esse tema não existisse. E agíamos sempre como se sexo fosse algo que não existisse. Eu entendia o recado, e pensava em sexo como algo promíscuo, em algo em que eu não deveria nem pensar, nem falar, e muito menos fazer.
Pois bem, aos 16 anos eu comecei a namorar o meu melhor amigo da escola. Ele também era um rapaz muito correto, da minha idade, com ótimas notas, religioso, educado, boa família... No início minha mãe achou engraçadinho, e o tratava muito bem (meu pai sempre teve "ciúmes", mas também sempre tratou meu namoradinho muito bem). Nos víamos na escola, e fim de semana sempre estudávamos juntos (estávamos nos preparando para um vestibular muito difícil), ou íamos ao cinema.
Depois de alguns meses, meus pais começaram cada vez mais a "dificultar" nossos passeios, pois começaram a perceber que o namoro estava ficando sério, e o risco de que começássemos a pensar em sexo aumentava. Eu já não podia de maneira alguma ir na casa dele, mesmo que fosse junto a um grupo de amigos e com os pais dele presentes.
Pra ir ao cinema, eu tinha que dizer o filme o horário, e meu pai me deixava na porta do shopping e me buscava na porta (inclusive teve uma vez que meu pai entrou na sala de cinema pra conferir se eu realmente estava lá), e já não podíamos mais estudar juntos. Apesar de não falarmos a palavra "sexo" na minha casa nunca, eu entendia muito bem que eu não poderia nunca pensar em fazer sexo.
Mas acontece que, naturalmente, eu e meu namorado começamos a pensar no assunto, e a conversar sobre isso (como acredito ser perfeitamente natural em qualquer casal de namorados adolescentes, de qualquer orientação sexual). Ambos éramos virgens. Não sei se era algo realmente meu, ou se era culpa pelos meus pais, mas eu não me sentia preparada para fazer sexo com 16, e não queria.
Mas meu namorado dizia que nos amávamos muito, que seria bom, e insistia bastante. Eu não tinha a menor ideia sobre consentimento, e não tinha ninguém para conversar sobre isso alem do meu namorado (sexo era tão tabu pra mim, que nem com as minhas amigas eu me sentia à vontade para conversar), que acabei cedendo. Achei que faríamos uma vez, ele ficaria satisfeito, e depois pararia de insistir. Eu não poderia estar mais enganada.
Depois da primeira vez, ele sempre queria mais, porque agora eu já não tinha motivos pra não querer, afinal de contas, eu já não era mais virgem.
E eu ficava sempre numa corda bamba: inventava desculpas pra não ir, mas de tempos em tempos eu tinha que "ceder". O sexo em si não era ruim, e ele era bem carinhoso comigo, mas eu me sentia tensa, com medo e muito culpada por estar mentindo para meus pais (pra fazermos sexo, eu dizia que ia ao cinema, e saíamos no início da sessão pra casa de uma tia dele que morava próximo ao shopping, e sempre viajava -- a empregada dava a chave pra ele). Além do mais, eu me sentia muito jovem pra transar.
E eu ficava sempre numa corda bamba: inventava desculpas pra não ir, mas de tempos em tempos eu tinha que "ceder". O sexo em si não era ruim, e ele era bem carinhoso comigo, mas eu me sentia tensa, com medo e muito culpada por estar mentindo para meus pais (pra fazermos sexo, eu dizia que ia ao cinema, e saíamos no início da sessão pra casa de uma tia dele que morava próximo ao shopping, e sempre viajava -- a empregada dava a chave pra ele). Além do mais, eu me sentia muito jovem pra transar.
Obviamente não usávamos nenhum método contraceptivo: primeiro, porque eu não tinha dinheiro pra comprar nada. Eu era adolescente, não trabalhava, e meu pai me dava dinheiro pro cinema, lanche da escola e só. Segundo, porque mesmo se eu arranjasse dinheiro, eu morreria de medo de guardar camisinhas ou caixa de anticoncepcional em casa (se minha mãe encontrasse, saberia que estávamos fazendo sexo, e nem sei o que aconteceria).
Na casa dele também existiria o mesmo problema, pois nossos pais conversavam, e os dele contariam para os meus se achassem algo assim nas coisas dele. E terceiro, porque transávamos com tão pouca frequência, que eu achava que não havia chances de engravidar.
Mas, aos 17, engravidei.
Minha menstruação sempre foi bem irregular, e eu negava para mim mesma os primeiros sinais (vômitos de manhã, etc), mas quando finalmente percebi que estava grávida, meu mundo caiu. Eu fiquei desesperada! A hora não poderia ser pior: ambos tínhamos acabado de passar no vestibular de uma faculdade do exército, dificílimo, que havíamos nos preparado tanto, mas que não aceitava jovens com filhos, ou meninas grávidas.
O meu maior pânico não era perder a faculdade dos meus sonhos, ou "atrapalhar" a minha juventude -- meu único medo naquele momento seria como contar para os meus pais que isso havia acontecido. Eu ficava com a garganta seca só de pensar como eu contaria isso a eles. Eu sei que eles não me mandariam fazer um aborto (eles são bastante religiosos), mas eu simplesmente não conseguia imaginar a reação e o tamanho da decepção deles comigo. Eu era a "filha de ouro", como eu poderia ter traído eles dessa maneira, fazendo sexo?
Eu e meu namorado ficamos um tempo decidindo o que fazer, e as duas únicas hipóteses seriam fugir de casa para termos o bebê, ou fazermos um aborto sem o conhecimento dos nossos pais. Tentamos comprar Cytotec com aquela mesma empregada que dava a chave do apartamento da tia pra nós transarmos, mas ela nos vendeu comprimido falso. Depois de uma confusão envolvendo essa empregada, os pais dele acabaram descobrindo sobre a gravidez.
Hoje que eu já sou adulta, não consigo acreditar na falta de decência dos pais dele: Em vez de procurarem os meus pais para contar o que estava acontecendo, eles me obrigaram a fazer o aborto! E nem tiveram a preocupação de me levar em uma clínica ou algo assim: o pai dele conseguiu os comprimidos de Cytotec e me mandou usar (engolir 2 e colocar 2 na vagina).
No dia seguinte nada ainda tinha acontecido, e ele comprou mais e me mandou repetir a dose. E o mais grave de tudo: nesses dias meus pais já haviam viajado para o apartamento de praia, e eu havia ficado uma semana a mais na casa dos meus avós para fazer mais uma prova de vestibular. Exatamente nesse dia, eu iria viajar sozinha, de noite, para encontrar meus pais na praia. Quando eu estava no avião, senti as primeiras dores, fui ao banheiro e vi que já havia começado o sangramento, mas ainda leve.
Cheguei na casa de praia, e no meio da noite acordei com cólicas fortes, e havia começado um sangramento intenso. Eu não tinha a menor ideia do que esperar. Me disseram que iria sair sangue, como uma menstruação normal, e depois sairia uma bolinha, que talvez eu nem visse. O que saiu foi um feto do tamanho da palma da minha mão, totalmente formado, e ficou pendurado em mim pelo cordão umbilical.
Hoje imagino que eu deveria estar com 3 ou quase 4 meses de gestação. Eu cortei o cordão com as mãos, e depois de um tempo senti outra coisa saindo (hoje eu sei que era a placenta; naquela época eu nem sabia que isso existia). Foi uma experiência muito traumática pra mim. Felizmente não aconteceu nada além de trauma psicológico, mas hoje, pensando nisso, eu vejo o risco enorme que corri. Eu poderia ter morrido! Poderia ter uma hemorragia dentro do avião, sem ninguém conhecido junto de mim.
Graças a Deus (ou à sorte, ao acaso ou o que quer que seja), eu sobrevivi a essa experiência. Hoje eu já consigo olhar pra isso e compreender, sentir pena e perdoar a adolescente assustada que eu era. Mas durante muitos anos esse era um assunto que me assombrava, e eu sentia muita culpa por ter "matado o meu bebê". E, não sei se tem algo a ver com esse ocorrido, mas eu estou tentando há alguns anos engravidar, e não consigo...
Eu não guardo raiva de maneira nenhuma dos meus pais, pois sei que eles me criaram da forma que achavam que era o melhor pra mim. Mas sei que se eles tivessem feito as coisas de modo diferente, eu não teria passado por isso tudo. Primeiro, se eu tivesse abertura para conversar sobre sexo com eles, eu teria mais noção sobre consentimento, e talvez tivesse decidido esperar um pouco mais, até me sentir mais madura, pra começar a transar com meu namorado. Ou talvez não, talvez decidisse transar naquela mesma época sim (mas sem ser por obrigação e sem o sentimento de culpa), mas iria ter acesso a métodos anticoncepcionais, em vez de ter medo de que "meus pais descobrissem".
E, por fim, se mesmo assim eu ficasse grávida (por falha ou mau uso do método), eu poderia pedir o apoio dos meus pais, e teria realizado um aborto muito mais seguro (meus pais tinham condições financeiras para isso), ou então eu poderia mesmo ter optado por ter o bebê.
Essa ideia de que sexo é algo errado, pecaminoso, horroroso e inapropriado, é algo muito hipócrita. Adolescentes sentem curiosidade, e naturalmente pensam nesse assunto. É humano! É normal! É da natureza! Não é feio e nem pecado! Se os pais conversarem com seus filhos, e principalmente suas filhas, explicando tudo sobre o assunto, e dando abertura para que filhas e filhos tomem suas próprias decisões, ao invés de tratarem o assunto como algo promíscuo e proibido, ninguém mais vai precisar passar por episódios como esse que eu passei, que poderia ter tido consequências desastrosas.































