Deus pode estar nos detalhes, mas a deusa está nas perguntas. Quando começamos a fazê-las, não há como voltar atrás.
Gloria Steinem, um dos ícones do feminismo, sempre maravilhosa.
O episódio "Hated in the Nation" vai falar sobre ataques virtuais. Então ela me entrevistou por email.
Esta semana mesmo um rapaz de Aracaju chamado Arthur Lopes gravou um vídeo com um amigo que cobre parte do seu rosto. Primeiro ele me xinga de vagabunda, e, em seguida, o amigo diz: "Vou te matar quando for pra Fortaleza, tá ligado? Fica esperta aí, sua puta". Eu já fiz um boletim de ocorrência contra esse indivíduo que se julga tão acima da lei que faz ameaças de morte sem esconder o rosto ou o nome. Em 2016, ele deixou num chan uma foto do suposto revólver dele, com munição, e da passagem que ele havia comprado de Aracaju para Fortaleza. Ele viria aqui em casa (eles têm meu endereço residencial, o divulgam, divulgam imagens da fachada da minha casa, oferecem recompensas para quem me matar, ou matar meu marido), me matar e depois se suicidaria.
Sobre chegarem a derrubar o blog, não foi exatamente isso. O que uma quadrilha misógina fez foi organizar um ataque orquestrado ao meu blog em janeiro. Enviaram milhares de denúncias, via robôs e script, contra o meu blog, que é hospedado pelo Blogspot, que é do Google. O Google acatou as denúncias e removeu a senha que eu tinha para acessar o meu blog. E, em seguida, foi eliminando todas as imagens do blog, inclusive a do cabeçalho, que tem uma foto minha quando criança. E foi muito difícil falar com um humano no Google, porque é tudo máquina.
Tivemos que fazer uma campanha, #Google Não Censure A Lola, e enviar emails para o presidente do Google no Brasil, por exemplo. No final daquela semana uma pessoa do departamento judicial do Google me ligou, dizendo que realmente não havia qualquer infração no meu blog, e que eles devolveriam a senha e as imagens. Mas se recusaram a pedir desculpas públicas. Foi por pouco que um dos maiores blogs feministas do Brasil não foi derrubado por um grupinho de misóginos, com o aval de uma multinacional como o Google.
Algumas ameaças chegam por email, outras por comentários não aprovados no meu blog, outras no Twitter. Eu não tenho Facebook porque não tenho tempo. Já gasto tempo demais na internet. A maior parte das ameaças vem de um chan (fórum anônimo) criado em 2013 por um rapaz em Curitiba que foi preso em 2012 e permaneceu mais de um ano na cadeia por seus crimes de ódio. Só que quando ele saiu, voltou a fazer exatamente o mesmo que antes, principalmente ameaçando e atacando pessoas e instituições. Ele e seus comparsas atacam juízas, delegadas, jornalistas, advogadas, professoras... Eu nunca saberia do chan se seu autor não tivesse me enviado o link várias vezes.
Eu fico num dilema: vale a pena acompanhar as ameaças e planos de ataque (mesmo que boa parte dessas ameaças não serão concretizadas) ou deixar pra lá e correr o risco de ser pega de surpresa? Sinceramente, não sei. Mas estou cansada. São inúmeras denúncias, onze BOs, inquéritos abertos, e no mínimo quatro anos de ameaças ininterruptas, e nada é feito. Se a quadrilha não for presa em breve, creio que vou parar de acompanhar o que eles fazem. Isso não significa que vão parar de atacar a mim e a minha família, mas pelo menos vou dedicar parte do meu tempo a coisas mais produtivas.
Sim, é normal pra mim. É terrível que a gente tenha que se acostumar com esse tipo de ataque, mas a gente se acostuma. Na realidade, nunca me afetaram. Durmo bem à noite, não tenho medo. Não deixei de fazer nada por causa da quadrilha. Os ataques começaram quando eu já tinha mais de 45 anos. Eu já tinha casca grossa e maturidade suficientes para não me deixar abalar.
Não tive episódios assustadores, porque nunca fui atacada fisicamente. Pelo contrário, nas palestras que dou por todo o Brasil, sou recebida com muito carinho e vários abraços. Mas alguns episódios são surreais, como um misógino gravar um vídeo (com a cara dele!) dizendo ser meu filho. Nunca vi o cara, nem sei o nome dele, e ele diz que eu queria abortá-lo quando fiquei sabendo que o feto era masculino, mas minha mãe não deixou. E que eu abandonei minha mãe e o bebê (ele) para me dedicar a essa "causa maligna" que é o feminismo. E se eu sou feminista, como posso abandonar minha mãe, que, segundo ele, está confinada a uma cadeira de rodas? O mais bizarro é que ele divulgou o vídeo no dia do aniversário da minha mãe, que mora comigo há vinte anos. ![]() |
| Site de ódio mascu criado no meu nome |
Uma boa parte eu sei quem são, tenho seus nomes, números de documentos e endereços. Dois deles, justamente os que foram presos em 2012, estão me processando por danos morais. ELES me atacam, me difamam, me ameaçam, e eles que me processam. As polícias (civil e federal) e a Abin têm os nomes deles e de muitos outros faz tempo. Não adianta muito eu processá-los porque eles não trabalham, não estudam, não têm nada no nome deles. Eles já são criminosos, então ficar com o nome inadimplente não faz diferença alguma na vida deles. Já as centenas de perfis no Twitter que me agridem (a maior parte sem necessariamente me ameaçar de morte) são quase todos fakes. É uma luta muito desigual, pois eu sou uma pessoa de verdade, com nome completo e fotos, e todo mundo sabe onde trabalho, e eles são covardes contando com o anonimato. Na vida real, cara a cara, eles não teriam coragem sequer de me dirigir a palavra.
Fiz onze boletins de ocorrência. Há um inquérito aberto na Delegacia da Mulher de Fortaleza. A Polícia Federal está investigando desde o Natal do ano passado, quando o reitor da Universidade Federal do Ceará, onde sou professora, recebeu um email dizendo que, se eu não fosse exonerada, haveria um massacre no campus. O reitor teria que optar entre despedir "esta porca imunda" (eu) ou "passar uma semana recolhendo pedaços de cadáveres de 300 pessoas". Obviamente, o reitor levou o email para a PF, e eu fui chamada para depor e passei meu HD e a senha do meu email para que a PF pudesse averiguar. Mas realmente não sei o que foi investigado neste quase um ano.
A deputada federal Luizianne Lins (PT-CE) apresentou um projeto com nome de "Lei Lola", baseado no meu caso, exigindo que a PF investigue casos de ameaças a mulheres online. Eu torço para que a lei seja aprovada e, depois, cumprida, pois a verdade é que não temos proteção alguma. Tenho um email de um supervisor da PF dizendo que não iriam investigar as ameaças contra mim porque misoginia não é crime e a PF só investiga crimes em que o Brasil é signatário internacional, como racismo e pedofilia.
Não temo pela minha integridade física. Se eu morasse em São Paulo ou em alguma cidade do Sul (em Joinville, por exemplo, onde vivi até 2009), talvez eu ficasse mais receosa, pois lá a quantidade de neonazistas é infinitamente maior. Mas acho que no Nordeste estou bastante segura. Claro, tem vezes que vou dar alguma palestra em outra cidade e recebo ameaças, e fico na dúvida se devo ou não avisar a instituição ou a polícia ou ignorar.
Quem me ataca e ameaça são homens realmente perturbados, preconceituosos, anti-sociais, que odeiam suas vidas e culpam as mulheres, principalmente as feministas, por todos os seus fracassos. Eles nasceram num mundo machista, a grande maioria vem de famílias machistas, e, por nascerem homens, foi-lhes prometido que teriam vários privilégios. Mas aí eles crescem e percebem que, apesar dos privilégios, terão que competir com mulheres por vagas em faculdades e por empregos. E eles perdem nessa competição.
Além do mais, por serem preconceituosos, afastam as pessoas, especialmente as mulheres. E sentem-se muito mal por terem que pagar para transar, porque é o único jeito que conseguem fazer sexo. Se qualquer garota é minimamente simpática com eles, eles se apaixonam. E não sabem lidar com a rejeição. Eles sonham com a volta a uma sociedade totalmente patriarcal, sem feminismo. Não é nem que eles querem voltar aos anos 1950. Na realidade, querem voltar aos tempos das cavernas, ou à imagem deturpada que eles têm dos tempos das cavernas, em que um um neandertal batia com uma clave numa mulher e a arrastava para sua caverna pelos cabelos.
Sobre direitos humanos, fascistas nem sabem o que são direitos humanos, e vivem repetindo clichês como “direitos humanos para humanos direitos”. Acham que direitos humanos protegem criminosos, criminosos que essas pessoas fascistas gostariam que fossem exterminadas sem julgamento (desde que não sejam criminosos de colarinho branco ou filhinhos de papai). A verdade é que direitos humanos protegem todos os humanos. E acho que é isso que revolta os fascistas -- pra eles, só os “cidadãos de bem” é que merecem direitos. E eles põem no mesmo barco criminosos e ativistas de direitos humanos. Pra eles, uma ativista como eu sou criminosa. Eles vivem falando que me colocarão na cadeia. Por qual motivo, ninguém sabe. Por discordarem do que escrevo, imagino.
Portanto, o principal motivo é que as pessoas se sentem protegidas pelo anonimato para falarem as piores atrocidades. Elas pensam que a internet é terra de ninguém mesmo. Acho que são pessoas que promoveram bastante bullying na escola e não superaram a fase. Então, ao xingar uma mulher de baleia, de burra, de chata, de puta (porque eles geralmente alvejam mulheres), eles se lembram dos bons tempos de bullying e, além do mais, têm a ilusão de fazer parte de um grupo, que se une através do ódio.
Imagino que qualquer pessoa que tem um blog há tanto tempo quanto eu (quase uma década!) já pensou em desistir inúmeras vezes. Eu não penso tanto em desistir por causa dos ataques, é mais por causa da falta de tempo mesmo. Eu fico pensando em todo tempo que eu teria livre se não tivesse o blog. Sobraria tempo pra ler mais, pra publicar livros e artigos acadêmicos, pra minha vida pessoal. Seria ótimo! Mas eu escrevo faz muito tempo, desde criança, e é muito difícil me imaginar sem expor minhas opiniões. Além do mais, se eu largasse o blog, eu não teria mais como me defender. E eles continuariam me atacando. Eles vivem para nos silenciar. Cada vez que um blog, um vlog, uma página feminista no FB fecha, ou mesmo um perfil no Twitter é trancado, eles comemoram como uma grande vitória.
Não tem muito o que fazer. Realmente estamos desprotegidas. O melhor seja talvez ignorar os ataques, não ter medo. Não é possível denunciar todas as ameaças. Se eu fizesse isso, não sairia da delegacia. Às vezes vale a pena expor algumas ameaças, para que as pessoas saibam o que você passa e o nível de insanidade e ódio a que as ativistas estão sujeitas. E às vezes eu acho que somos passivas demais. O que nos impede, além da nossa ética, de atacá-los como eles nos atacam? Não ameaçá-los de morte ou estupro, mas, por exemplo, por que não colocar o nome e celular deles em sites de swing e prostituição, como eles fazem conosco?
Por que não enviar emails para os chefes daqueles poucos misóginos que são empregados, e contar a eles o que seus funcionários defendem (legalização da pedofilia e do estupro, estupro corretivo para lésbicas, assassinato de negros, gays e mulheres, defesa de massacres em escolas e universidades)? Por que não criar um grupo de feministas hackers, só pra nos defendermos e atacar as quadrilhas de misóginos que nos atacam? Capacidade pra isso certamente muitas mulheres que trabalham com TI tem. Esta é minha opinião, a opinião de uma ativista que vem sendo atacada incessantemente há mais de seis anos e que já tentou todas as vias legais para coibir esses ataques. É importante que a gente se junte e seja forte.
Boa tarde Lola, primeiramente gostaria de parabenizá-lá pelo seu maravilhoso blog. Mulheres como você são uma inspiração para todas nós!
Eu e minhas colegas de classe, que aliás somos a maioria, já escutamos que não devemos ser cirurgiãs porque cirurgia não é coisa de mulher, que devemos escolher áreas que não atrapalhem nossa vida (que, segundo eles, resume-se a casar e ter filhos).
Uma vez, vi uma residente muito estressada desabafando no elevador. Ela tinha feito um plantão de 48 horas e quando chegou em casa seu parceiro tinha deixado a casa um lixo e ela que teve de arrumar. Lola, o cara conseguiu ferrar a casa em 48 horas. Ela trabalhou 48 horas seguidas e agora tinha de resolver isso!
Já escutei de um colega de classe que ele só iria consultar uma urologista mulher (como todos sabem, urologista é médico que trata vias urinárias e órgão genital masculino) se ela fosse muito boa, porque óbvio que mulheres não podem entender mais do pênis deles do que eles, nem podem tratar impotência sexual. Mas ginecologista homem, tudo bem pra esse colega!
O pior de tudo é que o chefe aqui do hospital é casado também com uma médica, e todos o consideram o pica das galáxias, apesar de ele ser para mim um traste. E ela é sempre relegada ao segundo plano e vista como ruim. Já percebi que o relacionamento deles parece ser um pouco abusivo, do tipo: "Eu sou o foda, e você deve sempre me escutar". Uma vez ela questionou uma conduta dele de ter dado alta para uma paciente. Primeiro ele respondeu negando que tivesse sido ele (típico de homem). Ela lhe mostrou a assinatura dele e ele simplesmente virou as costas e saiu andando.
Eu moro com uma amiga também da medicina e o sonho dela é ser cardiologista. Recentemente ela estava passando por um estágio em cardiologia e o professor perguntou quem queria ser cardiologista. Ela e um colega levantaram a mão. A partir desse dia o professor a desconsiderou completamente, fazia perguntas "ao futuro cardiologista" e nem olhava na cara dela. Pode isso, Lola?
A verdade é que desde que entramos na medicina já nos dizem que tal e tal especialidade não é boa para mulheres. Quando insistimos, nos olham com maus olhos.
Meu comentário: Obrigada pela mensagem e pelo carinho, N.! O machismo nas faculdades de medicina é conhecido, e talvez por isso seria tão importante ter alguma disciplina sobre gênero na universidade. Até porque o machismo de colegas e professores médicos não afeta apenas as estudantes mulheres, mas as pacientes também. Afinal, se um colega ou um médico vê com preconceito uma aluna e a discrimina ou ignora, é bem provável que ele se comporte assim com as mulheres que ele terá que atender.
E, se uma faculdade -- um lugar pra educar -- não apenas não modifica esses pensamentos e atitudes machistas, como também os incentiva, tem algo de muito errado nesses cursos (e na profissão).
Mas vi uma única parte do livro em que o protagonista Winston questiona o seu "entitlement" -- seu sentimento de que ele merecia muitas coisas boas na vida simplesmente por ter nascido homem. É esta, quando ele se lembra da sua infância, em que ele, sua mãe e irmã pequena passavam fome (a tradução é minha, porque só tenho o livro em inglês):
"Ele perguntava pra sua mãe, insistentemente, por que não havia mais comida; ele gritava com ela, ou ele tentava acrescentar um pouco de doença em seus esforços para ganhar mais que a sua parte. Sua mãe estava pronta para dar-lhe mais que a sua parte. Para ela era natural que ele, 'o menino', deveria ganhar a maior porção, mas independente de quanto a mais ela lhe dava, ele invariavelmente exigia mais. Em toda refeição ela lhe dizia para não ser egoísta e para lembrar que sua irmãzinha estava doente e também precisava comer, mas não adiantava. Ele chorava de ódio quando ela parava de servir, ele tentava tirar a panela e colher de suas mãos, ele pegava pedaços do prato de sua irmã. Ele sabia que estava deixando as duas famintas, mas ele não podia evitar; ele até achava que tinha um direito para fazê-lo".
Achei uma descrição incrível desse sentimento que tantos homens aprendem desde bebês. E me lembrou muito o que uma professora da PUC-Goiás contou numa mesa-redonda de que participei.
Essa mulher reparou, por si mesma, que sempre que matava uma galinha, dava automaticamente as melhores partes para o marido e os filhos homens, sem nem pensar. Ela e as filhas ficavam com os restos, o pescoço, os pés, o que sobrava.![]() |
| Vc tem o q chamamos de um senso irracional de merecimento. Não vai te matar, mas vai fazer que vc creia que merece coisas por não fazer nada |
Desde o começo, a oposição à minha presença no Brasil esteve envolta em uma fantasia. Um abaixo-assinado pedia ao Sesc Pompeia que cancelasse uma palestra que eu nunca iria ministrar. A palestra imaginária, ao que parece, seria sobre "gênero", embora o seminário planejado fosse dedicado ao tema "Os fins da democracia" ("The ends of democracy").
Não sei ao certo que poder foi conferido à palestra sobre gênero que se imaginou que eu daria. Deve ter sido uma palestra muito poderosa, já que, aparentemente, ela ameaçou a família, a moral e até mesmo a nação.
A cada um de nós é atribuído um gênero no nascimento, o que significa que somos nomeados por nossos pais ou pelas instituições sociais de certas maneiras.
Eles nascem na sociedade, mas também são atores sociais e podem trabalhar dentro das normas sociais para moldar suas vidas de maneira que sejam mais vivíveis.
O livro negou a existência de uma diferença natural entre os sexos? De maneira nenhuma, embora destaque a existência de paradigmas científicos divergentes para determinar as diferenças entre os sexos e observe que alguns corpos possuem atributos mistos que dificultam sua classificação.
Mas o objetivo dessa teoria era gerar mais liberdade e aceitação para a gama ampla de identificações de gênero e desejos que constitui nossa complexidade como seres humanos.
Meu compromisso é me opor às ofensas que diminuam as chances de alguém viver com alegria e dignidade. Assim, sou inequivocamente contra o estupro, o assédio e a violência sexual e contra todas as formas de exploração de crianças.
Pessoas trans e travestis que desejam apenas a liberdade de movimentar-se no mundo público como são e desejam ser sofrem frequentemente ataques físicos são mortas.
No Brasil, uma mulher é assassinada a cada duas horas. A tortura e o assassinato recente de Dandara dos Santos, em Fortaleza, foi apenas um exemplo explícito da matança generalizada de pessoas trans no Brasil, uma matança que valeu ao Brasil a fama de ser o país mais conhecido pelo assassinato de pessoas LGBT.
Em geral, uma ideologia é entendida como um ponto de vista que é tanto ilusório quanto dogmático, algo que "tomou conta" do pensamento das pessoas de uma maneira acrítica.
Famílias queers e travestis adotam outras formas de convívio íntimo, afinidade e apoio. Mães solteiras têm laços de afinidade diferentes. A mesma coisa se dá com famílias mistas, nas quais as pessoas se casam novamente ou se juntam com famílias, criando amálgamas muito diferentes daqueles vistos em estruturas familiares tradicionais.
Em 2010, o argentino Jorge Scala lançou um livro intitulado "La Ideologia de Género", que foi traduzido ao português por uma editora católica [Katechesis]. Esse pode ter sido um ponto de virada para as recepções de "gênero" no Brasil e na América Latina.
Vista por essa lente, a teoria de gênero não só nega as diferenças biológicas como gera um perigo moral.
Será possível que a chamada ideologia de gênero tenha virado um espectro simbólico de caos e predação sexual precisamente para desviar as atenções da exploração sexual e corrupção moral no interior da Igreja Católica, uma situação que abalou profundamente sua autoridade moral?
Ao longo da história, atribuíram-se às bruxas poderes que elas jamais poderiam, de fato, ter; elas viraram bodes expiatórios cuja morte deveria, supostamente, purificar a comunidade da corrupção moral e sexual.
O fantasma dessas mulheres como o demônio ou seus representantes encontra, hoje, eco na "diabólica" ideologia de gênero. E, no entanto, a tortura e o assassinato dessas mulheres por séculos como bruxas representaram um esforço para reprimir vozes dissidentes, aquelas que questionavam certos dogmas da religião.
Aquele gesto simbólico de queimar minha imagem transmitiu uma mensagem aterrorizante e ameaçadora para todos que acreditam na igualdade das mulheres e no direito de mulheres, gays e lésbicas, pessoas trans e travestis serem protegidos contra violência e assassinato.
Essa abertura ética é importante para uma democracia que inclua a liberdade de expressão de gênero como uma das liberdades democráticas fundamentais, que enxergue a igualdade das mulheres como peça essencial de um compromisso democrático com a igualdade e que considere a discriminação, o assédio e o assassinato como fatores que enfraquecem qualquer política que tenha aspirações democráticas.
Eu vou me lembrar do Brasil por todas as pessoas generosas e atenciosas, religiosas ou não, que agiram para bloquear os ataques e barrar o ódio.
JUDITH BUTLER, 61, referência nos estudos de gênero e teoria queer, é codiretora do programa de teoria crítica da Universidade da Califórnia em Berkeley. Lança o livro "Caminhos Divergentes: Judaicidade e Crítica do Sionismo" pela Boitempo.