Tive de reler o romance porque um aluno de mestrado está dando duas (excelentes) aulas sobre 1984 (objeto de análise da sua dissertação) numa disciplina minha sobre adaptação fílmica.
Não sei quando li o livro antes, se foi na minha adolescência (em torno de 1984!) ou aos 20 anos, mas o que me chamou a atenção, relendo-o agora, três décadas depois, é como ele é misógino. (Sei que quase reli o romance novamente em 2002, quando o publicitário Washington Olivetto foi sequestrado durante dois meses e deram 1984 pra ele ler no cativeiro. E eu pensei, na época: existe livro mais deprê e opressivo pra se ler quando está preso do que esse?).
Realmente, o que me assustou mais hoje (além das passagens de tortura, que são o que há de mais marcante), mais do que o regime ditatorial do Grande Irmão, foi a misoginia do protagonista, que diz explicitamente odiar mulheres. Bom, só porque um personagem de um livro ou filme é machista ou racista ou homofóbico, isso não torna a obra necessariamente machista ou racista ou homofóbica. Pode ser uma crítica aos preconceitos, certo?
Tipo o conto “Meninas em Guerra”, do nigeriano Chinua Achebe. O protagonista Reginald tem uma péssima opinião das mulheres, acha-as aproveitadoras, acha ridícula a vontade delas de participar da guerra de independência do país -– Biafra, no caso –-, acha que elas só pensam em si e são promíscuas e condenáveis. Seu ódio a elas apenas é atenuado pela sua decisão de “salvar” Glagys, a moça que lhe inspira todos esses pensamentos (mulher, fuja do cara que quer te salvar!). Só que, no final, Gladys prova que o protagonista misógino estava totalmente errado. E o último trecho, de Reginald ajoelhado, desesperado, gritando, mostra que ele aprendeu a lição.![]() |
| A capa mais pulp fiction de 1984 já feita |
Mas em 1984 (escrito em 1948, e publicado no ano seguinte), durante mais de um terço do livro, Winston é praticamente o único personagem que temos. Somos levados a nos identificar com ele, a torcer para que ele se rebele contra as opressões. Porém, como se identificar com um cara que diz, no primeiro encontro com Julia, que suas impressões iniciais sobre ela eram “Odiava te ver. Queria te estuprar e te matar depois. Duas semanas atrás eu pensei seriamente em esmagar sua cabeça com um paralelepípedo”? (E ela ri! Moça, se um homem te diz isso num primeiro encontro, mesmo que seja pra demonstrar sobre como mudou de opinião a seu respeito, bom, torço para que não haja um segundo encontro).
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| Suzanna Hamilton como Julia no filme 1984 de Michael Radford, lançado em 1984 |
Antes de conhecê-la intimamente, o protagonista tem “alucinações vívidas e belas” sobre Julia. A narração nos conta as fantasias de Winston: “Ele iria açoitá-la até a morte com um cassetete de borracha. Ele a amarraria nua numa estaca e a encheria de flechas como São Sebastião. Ele a estupraria e a cortaria no momento do orgasmo. Ele notou por que ele a odiava. Ele a odiava porque ela era jovem e bonita e assexuada, porque ele queria ir pra cama com ela e nunca iria, porque ao redor da sua doce e maleável cintura, que parecia pedir para que você a agarrasse com seu braço, havia apenas uma faixa escarlate, um odioso e agressivo símbolo de castidade”.
Fui digitar “misogyny in Orwell's 1984” (misoginia no 1984 de Orwell), pensando, com muita ingenuidade, que fosse uma impressão só minha (“Vocês veem machismo em tudo!”), mas não, tá cheio de coisa. E o problema não é só com Winston, mas com Orwell. As descrições são mais ou menos assim: “Era a Sra. Parsons, a mulher do vizinho no mesmo andar”. Quer dizer, a Sra. Parsons é vizinha de Winston, mas o narrador a vê apenas como “a mulher do vizinho” (ela só existe em relação a um homem).
Sei o que você vai dizer. Mas dizer que o romance é um “produto de seu tempo” não é uma boa justificativa. Segundo Noah Berlatsky, que vê Julia como o estereótipo da Manic Pixie Dream Girl, o maravilhoso Langston Hughes também era um “produto de seu tempo”, e ele escrevia contra o racismo. As protagonistas de Charles Dickens eram “doces demais e insossas”, mas as de George Eliot não eram. Quer dizer, Theodore Dreiser também era um “produto de seu tempo”, e ele escreveu o incrível Sister Carrie em 1900, meio século antes de Orwell.![]() |
| A ideia deste post começou com uns tuítes (obrigada a todas as envolvidxs -- são muitos!) |
Segundo Berlatsky, a defesa do “é um produto de seu tempo” implica que somos moralmente muito mais iluminados hoje que antigamente, que preconceitos são coisa do passado, e que as melhorias sociais ocorrem progressiva e naturalmente (uma leitora, quando comentei no Twitter sobre não ter reparado na misoginia de 1984 há três décadas, comentou num tuíte: “Hoje em dia somos muito mais esclarecidas do que antigamente”, o que me lembrou da sentença mais irônica do fantástico conto “The Life You Save May be Your Own”, traduzido pelo meu orientador de doutorado José Roberto O'Shea como “Salve sua própria vida”. Um vagabundo diz que tudo bem dormir dentro de um carro, já que os monges de antigamente dormiam nos seus caixões, e aí uma velhinha caipira e analfabeta responde: “Eles não eram tão avançados como a gente”).
Contexto histórico é importante, lógico. Berlatsky dá um ótimo exemplo: “Seria ridículo dispensar Jane Austen como sexista porque suas personagens mulheres procuram homens para conseguir segurança financeira em vez de aprenderem a se tornar presidentas de empresas. Mas um contexto histórico importante é que desigualdades de raça, gênero e classe (para citar apenas três) têm estado aqui durante muito tempo, e continuam aqui. Quando os criadores tocam nesses temas, bem ou mal, eles estão falando conosco. É mais respeitoso argumentar com eles do que fingir que evoluímos para além da necessidade de ouvi-los”.![]() |
| Contexto histórico: camiseta bem misógina referente a 1984 à venda no século 21: "Faça com Julia" |
Para o autor, “Em vez de defender [escritores antigos que foram preconceituosos], o argumento do 'produto de seu tempo' ameaça torná-los irrelevantes. Se, afinal, o passado era tão diferente do presente, se sabemos muito mais hoje do que então, se somos moralmente tão superiores, o que esses escritores podem nos ensinar? Se progredimos tanto além de Orwell na nossa compreensão de igualdade e liberdade e justiça e humanidade, então por que deveríamos ler 1984, que pretende discutir temas como igualdade e liberdade e justiça e humanidade?”
A resposta é que “ainda devemos ler Orwell não apesar do sexismo, mas em parte por causa dele. […] Prestar atenção no sexismo de Orwell é uma forma de prestar atenção no nosso sexismo; faz 1984 mais relevante, não menos”.
Parece que Orwell na sua vida pessoal tinha de fato uma quedinha pela misoginia, e isso evidentemente transparece em sua obra. O escritor britânico (1903-1950) que se definia como “socialista democrático”, costumava dizer, por exemplo: “Uma das provas mais contundentes da genialidade de Joseph Conrad é que as mulheres não gostam de seus livros”. Sem falar que Orwell nunca pronunciou o termo “feminista” sem que fosse em tom jocoso.
Em A Vitória de Orwell, livro de Christopher Hitchens, há um capítulo chamado "Orwell e as feministas: dificuldades com as mulheres". Hitchens afirma que não só em 1984, mas em boa parte de sua obra, Orwell descreve as mulheres como incapazes e tediosas, boas apenas para se fazer sexo (e Orwell se ressente da necessidade de ter mulheres). Citando Beddoe, Hitchens concorda que as mulheres nos romances de Orwell são "megeras ou simplórias, vamps ou desmazeladas, ou então (exceto a Julia de 1984) cobiçosas e conformistas”. Esse desdém contra o feminino, lembra Hitchens, atinge até Mimosa, a "égua branca, vaidosa e fútil" da Revolução dos Bichos, que se vende por fitas e torrões de açúcar.
Voltando a 1984, eu gosto bastante de Julia. Ela é um sopro de ar quando aparece no livro, depois da perspectiva depressiva e derrotista de Winston. Ela é sexualmente independente, é ela quem toma a iniciativa, ela que sabe como burlar o sistema para manter seus encontros sexuais. Imagina quantos homens ela deve ter seduzido ao simplesmente lhes passar um bilhetinho escrito “Eu te amo” (homens são tão fáceis!).
Winston vê Julia como depravada, e diz a ela: “Quanto mais homens você teve, mais eu te amo. Você entende isso? Odeio pureza, odeio bondade! Não quero que virtude exista em qualquer lugar. Quero que todo mundo seja corrupto até os ossos”. Para o protagonista, Julia precisa sempre servir a um propósito.![]() |
| Peça teatral |
Não sabemos muito sobre Julia, já que a narração, mesmo em terceira pessoa, se centra apenas no que Winston pensa (o que pode ser interessante num sentido: talvez Julia não esteja transando exclusivamente com Winston naquele período?). O narrador não lê os pensamentos de Julia. Sabemos, através do protagonista, que Julia não está interessada em derrubar o sistema, apesar de detestá-lo. Sua rebelião é só para satisfazer seus desejos sexuais.
Como Winston diz pra ela, “Você só é rebelde da cintura para baixo!” E daí?, você pode perguntar. A revolução sexual não deixa de ser uma revolução, pô!
Dependendo da sua visão, você pode achar que Julia age muito mais que Winston -- que pensa muito, odeia muito, mas faz pouco. Mas não é assim que o romance a vê, e sim como fútil e traidora (quanto tempo ela demorou para "trair" Winston durante a tortura? Só sabemos a versão de O'Brien).
Adoro a parte em que Winston e Julia se encontram com a "resistência", liderada por O'Brien. Até um momento atrás eles nem tinham certeza se existia uma resistência, mas, ao conversar com O'Brien, respondem a uma série de perguntas ridículas (eu estaria fora dessa revolução, sinto muito). Aliás, não são os dois que respondem, é só Winston, que fala por ele e por Julia, ou pelo menos é isso que ele e O'Brien acreditam.
O'Brien quer saber se eles dariam suas vidas pela resistência, se matariam, se cometeriam atos de sabotagem que poderiam causar a morte de dezenas de inocentes, se encorajariam a prostituição, se disseminariam doenças venéreas, se jogariam ácido no rosto de uma criança, se se suicidariam... E pra tudo Winston responde "Sim", sem pestanejar. Mas quando O'Brien pergunta se eles estariam prontos para se separarem e nunca mais se verem de novo, Julia interrompe e grita "Não!" Winston demora pra responder, e não sabe qual palavra sairá da sua boca. Finalmente ele diz não. Quem ama mais nesse relacionamento?
E olha que bem antes dessa parte, Julia já havia conquistado o coração de Winston ao roubar cosméticos e se maquiar para ele. Ao vê-la maquiada, ele sente que ela ficou muito mais bonita e, “acima de tudo, mais feminina”. E ela diz a ele: “Você sabe o que mais eu vou fazer? Vou conseguir um vestido de uma mulher de verdade de algum lugar e usá-lo em vez dessa porcaria de calça. Vou usar meias de seda e sapatos de salto alto! Neste quarto, eu serei uma mulher, não uma camarada do Partido”.
Ai, ai, Julia... Tudo bem você querer usar vestido e se pintar, mas fazer isso só por um homem? Achar que só mulheres que são “femininas” são de verdade? Esta talvez seja a maior qualidade que Winston (e Orwell) concede a Julia -- ela querer ser feminina e vaidosa para agradar os homens.![]() |
| Comercial "Repressão" Boticário, 2008 |
Segundo o carinha de “Seu livro preferido fede” (amei o título, embora não concorde que 1984 sucks), essa presunção de que a maquiagem faz falta no mundo (me lembrou o comercial do Boticário, certamente inspirado em 1984), aliada à certeza de Winston de que a vida era melhor antes, faz gerar uma tese para Orwell:
“Precisamos do capitalismo para fazer o mundo melhor porque o capitalismo permite às mulheres que pintem seus rostos a ponto de não se tornarem reconhecíveis -- e é isso o que as torna realmente desejáveis. Na realidade, é isso que as torna mulheres de verdade”.
No entanto, Margaret Atwood, que escreveu uma distopia tão boa e talvez ainda mais relevante pros dias atuais do que 1984 (em janeiro, 1984 foi o livro mais vendido na Amazon depois que uma conselheira de Trump utilizou a frase “fatos alternativos”, os conhecidos “fake news” do presidente que nem as piores distopias podiam imaginar, e que se parecem muito com o “newspeak” de Orwell), O Conto da Aia, ama Orwell.
Ela leu 1984 na adolescência e se identificou com Winston e com seu desejo de manter um diário e escrever secretamente. Mas, quando começou a escrever O Conto da Aia, aos 44 anos, no ano real de 1984, Atwood já tinha reparado que a maioria das distopias haviam sido escritas por homens e mostravam o ponto de vista masculino. E então ela escreveu O Conto da Aia pensando em algo como "O Mundo segundo Julia"!
Em The Orwell Mystique: A study in male ideology (A mística orwelliana: um estudo em ideologia masculina), a professora e feminista radical Daphne Patai foi uma das primeiras a apontar a misoginia do escritor. Ao observar uma obsessão com a masculinidade na obra dele, Patai pergunta: se a visão de Orwell sobre as mulheres era tão negativa, como ele podia ser um defensor da liberdade? Simples: liberdade pra quem, cara pálida?![]() |
| Julia no seu momento "dois minutos de ódio", numa versão teatral |
Patai acha o estilo de escrita de Orwell manipulador e dominante. E ela escreveu isso há mais de trinta anos. Ou seja, quando eu li 1984 pela primeira vez, e não me choquei com a misoginia, já tinha feminista falando nisso. E o pior: eu já era feminista! Como deixei de ver o que estava tão nítido diante dos meus olhos? Eu mudei? 1984 mudou? O mundo mudou? Todas as anteriores?




















































