Muito tem se falado de bullying devido ao massacre ocorrido semana passada numa escola particular em Goiânia, em que um aluno de 14 anos abriu fogo numa sala, matando dois colegas e ferindo quatro.
O menino pegou a arma do pai, que, assim como a mãe, é oficial da polícia militar. O pai disse, em depoimento, que nunca havia ensinado o filho a atirar e que não sabia que ele sofria bullying. A coordenadora da escola, Simone Maulaz Elteto -- uma heroína que convenceu o atirador a entregar a arma, evitando assim uma tragédia com maior número de mortos -- contou que não sabia do bullying. Mas outros alunos comprovam que o menino era chamado de "fedorento".
De toda forma, o bullying é uma praga social que afeta inúmeras crianças e adolescentes e que, infelizmente, muitas vezes não é combatido. Conservadores (aqueles mesmos que defendem a liberação de armas) tratam o bullying como piada (vide o filme do Gentili) ou como um rito de passagem, algo importante para "formar caráter".
É completamente absurdo pensar que um ritual que tem o potencial de arruinar a infância e adolescência de tanta gente pode ser benéfico. Eu nunca sofri bullying, mas quem sofreu sabe que não há nada de graça ou de aprendizado nisso.
Reproduzo o texto que Lucila Saidenberg publicou na sua página no FB.
Lá pela sétima, oitava série. Escola Milton de Tolosa, em Campinas. De repente, sem motivo aparente, eu passei a ser um alvo. Uma criança aleatória chegava e dizia: "Oi, você passa alguma coisa no cabelo? Que tal um pente?" E mais outras pequenas chacotas baseadas em aparência física. Eu era magra, cabelo comprido, estudiosa. Ignorei.
Mas a partir daí só aumentou. Passei a "bruxa" e a "louca". Nada do que eu dizia ou fazia era aceitável, tudo era motivo para riso.
Eu sabia que mudaria de escola em pouco tempo, e continuei ignorando, achando que no segundo grau isso ia parar. Ledo engano.
Continuou, piorou. Escola Vitor Meirelles, Campinas. Eu era a "mulher maluca", por ser estudiosa e ter minhas próprias opiniões. A "feminista" (antes até de saber que essa palavra existia) por não "arrastar asa" para os meninos, como as outras garotas.
Onde quer que eu fosse, nos corredores ou no pátio, era abordada e assediada. Piadas maldosas, risos de escárnio. Minha aparência sempre tinha algo errado. Minhas roupas eram sempre motivo de riso, por mais normais que fossem. Passei a evitar acessórios, usava o uniforme escolar da maneira mais simples possível. Não adiantava.
Se eu falava alguma coisa, qualquer palavra que soasse diferente era motivo de riso. Me ouviam para distorcer o que eu dizia. Se eu classificava algo de "excepcional", ouvia de volta que havia falado "retardado". Parei de usar figuras de linguagem e metáforas.
Estudava mentalmente todos os sentidos possíveis de cada palavra que eu ia falar. E nem assim adiantava. Passei a lanchar na porta da biblioteca, e a passar o recreio inteiro lá dentro lendo alguma coisa. Qualquer coisa. Desaparecia. Só assim me deixavam em paz. Eram tão limitados que nem se lembravam de que eu existia, se eu não estivesse à vista. Pensei que havia encontrado uma solução. O que eu não sabia era que estavam planejando algo pior.
Um dia ouvi de um menino no pátio um xingamento diferente. Ele apontou um dedo para o meu nariz e disse, em tom de acusação: "Judia!"
Eu sabia que um já falecido avô meu era judeu, eu tinha noções de religião e cultura judaicas, mas fora o sobrenome, eu não falava sobre isso na escola.
"É verdade que os judeus enterram seus mortos debaixo do piso da cozinha?" Ele perguntava em tom de acusação. "Que usam o sangue de crianças cristãs em seus rituais?" Se eu tentasse esclarecer qualquer coisa, ouvia de novo, como se estivesse sendo acusada de um crime: "Judia!"
Só fiquei sabendo depois que ele era um desses nazistóides tupiniquins, essa gentinha complexada, que tem racismo de si mesma e que se acha muito "poderosa" ao assumir posturas fascistas. Provavelmente fazia parte de algum grupelho, e queria se afirmar. Achou a mim para perseguir.
Tentei negar, tentei explicar que só é judeu quem é filho de mãe judia. Não adiantou. Ele estava citando as leis nazistas de Nurenberg, que eu também desconhecia, que faziam de qualquer pessoa com pelo menos um avô judeu um candidato às câmaras de gás.
Me mandou "provar" que não era judia. "Como?" Eu perguntei. Ele me olhou bem nos olhos e me disse: "você sabe".
Naquele momento eu entendi que, para "provar" alguma coisa, eu teria de me transformar em alguém até mais antissemita do que ele. Negar meu pai, odiar meu avô, me transformar em um monstro. Era mais uma tentativa de me controlar, de conseguir me submeter à visãozinha de mundo tacanha dos meus agressores.
Nada do que eu tentasse "provar" seria o suficiente. Se eu sucumbisse, seria controlada, humilhada, inventariam mil coisas para eu fazer contra a vontade como "teste". Eu viraria o capacho da escola.
Mas eu sabia que a minha permanência naquela segunda escola também era temporária. Logo eu estaria fora de lá, também. Virei as costas para o nazistinha, deixei ele falando sozinho e foquei nos estudos, coisa que sempre foi o meu objetivo. Era para estudar que eu ia à escola. Nada mais.
O que eu realmente não esperava foi ouvir o "mulher maluca" dos brasileiros na terceira escola, Ayanot, supostamente frequentada por gente "mais bem educada", onde terminei o segundo grau já em Israel. Mas até lá eu já estava calejada e, após o choque inicial, mandei todos mentalmente à M*.
Aos meus perseguidores, eu só tenho uma coisa a dizer: malditos sejam, todos.
A quem sofre de bullying: eu rezo por vocês. Sejam fortes e nunca se calem. Busquem ajuda, falem com pais e professores, vão à polícia, reclamem por escrito na secretaria de educação de suas cidades. Vão à OAB e procurem assistência jurídica. Façam um escândalo! Não é porque vocês são crianças, que vocês não têm direitos.
Aos professores e diretores de escolas: não esperem o bullying começar, nem tentem olhar para o outro lado. É preciso evitar que ele comece, antes de mais nada. Existem métodos pedagógicos para isso.
Isso tem que acabar.








































