Quinta passada estive na Câmara dos Deputados para uma audiência pública sobre ataques a mulheres na internet. Você pode ver o vídeo completo aqui.
Foi ótimo, inclusive porque pude conhecer pessoalmente a deputada Maria do Rosário, outra mulher que é recordista em ataques de reaças. Não conhecia Luizianne Lins, autora de um projeto de lei que exige que a Polícia Federal investigue ameaças contra mulheres na net. Eu já conhecia o projeto -- o que eu não sabia é que ele já tem nome: Lei Lola!
Bom, depois da palestra várias pessoas simpáticas vieram falar comigo, e uma delas foi a Sheila. O que aconteceu com ela é tão incrível que decidi entrevistá-la (anteontem, por email):
Lola: Sheila, por favor, você pode me falar um pouco de você?
Sheila: Tenho 28 anos, nasci em Brazlândia, vim de uma família muito simples. Meu pai é pedreiro, minha mãe, faxineira. Em casa fui ensinada que a melhor maneira de conquistar meus sonhos seria a partir da educação. Com doze anos eu disse aos meus pais, “Um dia eu vou estudar na Europa”. Investi nisso, fiz faculdade com bolsa pelo ProUni, pegava seis ônibus por dia, me formei com 24 anos, algumas vezes eu pedia carona para ir à aula, pois não tinha o dinheiro da passagem, morava no Itapoã, cidade pobre e que em geral a TV não mostra, fica a poucos quilômetros da Esplanada dos Ministérios, minha rotina começava às 5h da manhã. Aos 26 anos terminei minha pós-graduação em Assessoria de Comunicação, aos 27 anos, eu já havia alçado voo, era mestre pela Universidade Fernando Pessoa, em Portugal. Sou jornalista e amo o que escolhi fazer, acredito que além de meu dom profissional, devo exercer meu papel social na comunidade. Sou cristã, solteira, sou professora universitária.
O que aconteceu na madrugada do dia 22 de setembro? Você foi parada em uma blitz pela polícia em Brasília, certo?
Sim, estava saindo da casa de amigos, da varanda era possível ver uma grande ação policial. Me despedi deles, estava sozinha em meu carro. Ao me aproximar da blitz, reduzi, a partir daí, uma viatura encostou na traseira, como se fizesse sinal para eu sair. Parei e perguntei ao policial que estava ao lado dos cones o que estava acontecendo, ao que ele me respondeu de maneira rude, “Não fala comigo! Habilitação e documento do carro, desce, que a senhora vai fazer o bafômetro”. Argumentei que eu não era obrigada a fazer o teste etilômetro. Ali começava o pior dia da minha vida. A truculência seguiu, com xingamentos e violência física.
Por que você inicialmente não quis fazer o teste do bafômetro? Vc havia bebido?
Eu havia tomado uma taça de vinho no almoço por volta das 13h, sou empresária, havia fechado um contrato de trabalho e comemoramos em equipe. Fui abordada por volta da 00:26 da noite, temi que pudesse constar algo, pois sou fraca para bebida e peso 58 quilos. Como consta na legislação vigente, não há obrigatoriedade do exame de sangue e do bafômetro: ninguém é obrigado a fazer prova contra si mesmo. Mas, depois de ser agredida, fiz o teste. Os policiais militares não me mostraram o resultado do exame, nem sequer me apresentaram a autuação. Ao invés disso, me algemaram e me deram voz de prisão. Os policiais guincharam meu carro e ficaram de posse de meu celular, bolsa e a chave da minha casa.
Como vc explica a violência? Por que você acha que a polícia agiu assim, com tanta truculência, a ponto de te machucar e te dar voz de prisão por desacato a autoridade?
Não sei explicar de onde nasce o ódio gratuito, mas a face dele estava diante de mim, o tempo todo o policial que me parou dizia “Vou fazer de tudo para te prejudicar patricinha”. Era um grupo de quatro policiais, mas a violência maior partiu da 3º sargento, uma mulher, que dizia “Sua bonitinha, patricinha, gostosinha, vagabunda, você vai descer hoje!”. Ao receber o primeiro soco no nariz, como defesa, eu disse ser jornalista e que a violência sofrida estaria na manhã seguinte nos jornais. A partir daí, eles me bateram ainda mais.
Tenho recebido muito pedidos de ajuda de pessoas que sofreram truculência por parte da PMDF. Isso acontece todos os dias e as pessoas se sentem acuadas em buscar justiça, pois sabem que é uma luta inglória contra o Estado.
Como agiu o delegado de plantão?
O delegado da polícia civil foi atencioso. Fui conduzida para uma cela. Ele vendo meu estado (cheguei na delegacia com minhas roupas rasgadas, sem sapatos, pois fui arrastada pelos cabelos na grama, meu nariz e perna sangrando), ele não permitiu que eu permanecesse na cela, me deixando ficar em sua sala à espera de meu advogado. Ele foi o único a me tratar como ser humano.
Fiz o exame assim que sai da delegacia na companhia de meu advogado.
No dia seguinte você escreveu uma carta aberta contando o que aconteceu. Como foi a repercussão? Muitas ameaças?
No dia 22 fui agredida na blitz, dia 23 escrevi a carta aberta, dia 24 a PM espalhou o vídeo de outra motorista chamada Mari, dizendo ser eu. Isso correu nos grupos de Whatsapp, a PM em seu perfil oficial diz ser eu no vídeo. A carta aberta era a única maneira de defesa aos meus olhos, já que os PMs envolvidos deixaram claro o desejo em me calar. Disseram que se eu levasse isso à mídia, ou à justiça, eles sabiam qual era o meu carro e meu endereço. Removi a carta após receber dois mil comentários ofensivos, de xingamentos a ameaças de morte.
Creio que o pior dessa situação toda, além do abuso de poder e das agressões a você, foi a própria polícia divulgar um vídeo de uma mulher parada numa blitz e dizer que era você. No vídeo, uma mulher chamada Mari e que não se parece em nada contigo bate a cabeça numa árvore para simular uma agressão policial. Qual foi sua reação?![]() |
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Acompanhei tudo isso de casa, ao lado de minha família, foi muito doloroso. Meu advogado me instruiu a não sair das redes, pois isso tudo servirá de insumos para que lutemos por justiça. Muitos dos comentários e mensagens caluniosas e de xingamentos partiram de perfis de militares, que inclusive aparecem de farda nas fotos. Printamos tudo e vamos ajuizar diversas petições na justiça.
A tentativa de linchamento moral só demonstra o quanto a polícia é mal preparada. Além do que, isso claramente testifica a culpa da PM: eles não tinham nada contra mim, tanto que resolveram me caluniar com um vídeo de outro caso.
Esse vídeo viralizou, sempre atrelado a você. Eu li alguns dos comentários. As pessoas, ensandecidas para te culpar, alegam que no vídeo falso uma pessoa grita "Pare", não "Mari", que o seu nome do meio seria Mari, que qualquer um dizendo que a mulher que aparece no vídeo não é você, Sheila, tem que ser seu amante vindo te defender... As pessoas têm tanta confiança assim na polícia para aceitar passivamente a versão dela, mesmo quando estão diante de imagens que a desmentem?
A PM viralizou o vídeo em grupos de WhatsApp e pediu aos conhecidos para divulgarem a notícia falsa atrelada ao meu nome. Essas mesmas pessoas (acredito serem familiares e amigos dos PMS) vieram em minha página do Facebook me caluniar e me agredir moralmente, mas rapidamente a mentira caiu, pois fica claro nas imagens que não sou eu a mulher do vídeo.
Minha carta aberta foi enviada para a Ouvidoria da PM, que já entrou em contato e disse querer esclarecer a conduta de seus policiais envolvidos, do ponto de vista ético e disciplinar. Além disso, fiz uma representação contra a PMDF na Comissão de Direitos Humanos da Câmara Legislativa do DF e levarei o caso também ao Ministério Público.
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| A versão da PM |
Por que você veio me procurar após a audiência? Você está sendo ameaçada?
Sim, tenho recebido ameaças diariamente.
Minha ida à audiência na Câmara do Deputados em Brasília foi um pedido de socorro. Sabia que lá haveria a participação de várias personalidades que lutam pelos direitos das mulheres. Conheço seu trabalho como ativista e admiro. Meu apelo vai a todos que trabalham por essa causa. Quero conseguir que meu nome seja retirado do tal vídeo na internet. Esse caminho é complicado junto ao Facebook e Google, e quero ajuda para lutar!
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| Leia a versão da PM |
Espero que minha imagem conquistada com tanto suor não sofra consequências por conta de uma polícia covarde.
Só posso pedir que escreva Lola! Escreva por mim, por você e por tantas mulheres que sofrem com agressões desmedidas e são ainda vítimas do ódio segregador de uma sociedade que pouco conhece sobre respeito e empatia.










































