quarta-feira, 4 de outubro de 2017

UM EXEMPLO DA TRUCULÊNCIA DA POLÍCIA

Quinta passada estive na Câmara dos Deputados para uma audiência pública sobre ataques a mulheres na internet. Você pode ver o vídeo completo aqui. 
Foi ótimo, inclusive porque pude conhecer pessoalmente a deputada Maria do Rosário, outra mulher que é recordista em ataques de reaças. Não conhecia Luizianne Lins, autora de um projeto de lei que exige que a Polícia Federal investigue ameaças contra mulheres na net. Eu já conhecia o projeto -- o que eu não sabia é que ele já tem nome: Lei Lola!
Bom, depois da palestra várias pessoas simpáticas vieram falar comigo, e uma delas foi a Sheila. O que aconteceu com ela é tão incrível que decidi entrevistá-la (anteontem, por email):

Lola: Sheila, por favor, você pode me falar um pouco de você?
Sheila: Tenho 28 anos, nasci em Brazlândia, vim de uma família muito simples. Meu pai é pedreiro, minha mãe, faxineira. Em casa fui ensinada que a melhor maneira de conquistar meus sonhos seria a partir da educação. Com doze anos eu disse aos meus pais, “Um dia eu vou estudar na Europa”. Investi nisso, fiz faculdade com bolsa pelo ProUni, pegava seis ônibus por dia, me formei com 24 anos, algumas vezes eu pedia carona para ir à aula, pois não tinha o dinheiro da passagem, morava no Itapoã, cidade pobre e que em geral a TV não mostra, fica a poucos quilômetros da Esplanada dos Ministérios, minha rotina começava às 5h da manhã. Aos 26 anos terminei minha pós-graduação em Assessoria de Comunicação, aos 27 anos, eu já havia alçado voo, era mestre pela Universidade Fernando Pessoa, em Portugal. Sou jornalista e amo o que escolhi fazer, acredito que além de meu dom profissional, devo exercer meu papel social na comunidade. Sou cristã, solteira, sou professora universitária.

O que aconteceu na madrugada do dia 22 de setembro? Você foi parada em uma blitz pela polícia em Brasília, certo?
Sim, estava saindo da casa de amigos, da varanda era possível ver uma grande ação policial. Me despedi deles, estava sozinha em meu carro. Ao me aproximar da blitz, reduzi, a partir daí, uma viatura encostou na traseira, como se fizesse sinal para eu sair. Parei e perguntei ao policial que estava ao lado dos cones o que estava acontecendo, ao que ele me respondeu de maneira rude, “Não fala comigo! Habilitação e documento do carro, desce, que a senhora vai fazer o bafômetro”. Argumentei que eu não era obrigada a fazer o teste etilômetro. Ali começava o pior dia da minha vida. A truculência seguiu, com xingamentos e violência física. 

Por que você inicialmente não quis fazer o teste do bafômetro? Vc havia bebido?
Eu havia tomado uma taça de vinho no almoço por volta das 13h, sou empresária, havia fechado um contrato de trabalho e comemoramos em equipe. Fui abordada por volta da 00:26 da noite, temi que pudesse constar algo, pois sou fraca para bebida e peso 58 quilos. Como consta na legislação vigente, não há obrigatoriedade do exame de sangue e do bafômetro: ninguém é obrigado a fazer prova contra si mesmo. Mas, depois de ser agredida, fiz o teste. Os policiais militares não me mostraram o resultado do exame, nem sequer me apresentaram a autuação. Ao invés disso, me algemaram e me deram voz de prisão. Os policiais guincharam meu carro e ficaram de posse de meu celular, bolsa e a chave da minha casa.

Como vc explica a violência? Por que você acha que a polícia agiu assim, com tanta truculência, a ponto de te machucar e te dar voz de prisão por desacato a autoridade?
Não sei explicar de onde nasce o ódio gratuito, mas a face dele estava diante de mim, o tempo todo o policial que me parou dizia “Vou fazer de tudo para te prejudicar patricinha”. Era um grupo de quatro policiais, mas a violência maior partiu da 3º sargento, uma mulher, que dizia “Sua bonitinha, patricinha, gostosinha, vagabunda, você vai descer hoje!”. Ao receber o primeiro soco no nariz, como defesa, eu disse ser jornalista e que a violência sofrida estaria na manhã seguinte nos jornais. A partir daí, eles me bateram ainda mais. 
Tenho recebido muito pedidos de ajuda de pessoas que sofreram truculência por parte da PMDF. Isso acontece todos os dias e as pessoas se sentem acuadas em buscar justiça, pois sabem que é uma luta inglória contra o Estado.

Como agiu o delegado de plantão?
O delegado da polícia civil foi atencioso. Fui conduzida para uma cela. Ele vendo meu estado (cheguei na delegacia com minhas roupas rasgadas, sem sapatos, pois fui arrastada pelos cabelos na grama, meu nariz e perna sangrando), ele não permitiu que eu permanecesse na cela, me deixando ficar em sua sala à espera de meu advogado. Ele foi o único a me tratar como ser humano.

Vc fez exame de corpo de delito? [Sheila me mostrou vários hematomas no seu braço].
Fiz o exame assim que sai da delegacia na companhia de meu advogado.

No dia seguinte você escreveu uma carta aberta contando o que aconteceu. Como foi a repercussão? Muitas ameaças?
No dia 22 fui agredida na blitz, dia 23 escrevi a carta aberta, dia 24 a PM espalhou o vídeo de outra motorista chamada Mari, dizendo ser eu. Isso correu nos grupos de Whatsapp, a PM em seu perfil oficial diz ser eu no vídeo. A carta aberta era a única maneira de defesa aos meus olhos, já que os PMs envolvidos deixaram claro o desejo em me calar. Disseram que se eu levasse isso à mídia, ou à justiça, eles sabiam qual era o meu carro e meu endereço. Removi a carta após receber dois mil comentários ofensivos, de xingamentos a ameaças de morte.

Creio que o pior dessa situação toda, além do abuso de poder e das agressões a você, foi a própria polícia divulgar um vídeo de uma mulher parada numa blitz e dizer que era você. No vídeo, uma mulher chamada Mari e que não se parece em nada contigo bate a cabeça numa árvore para simular uma agressão policial. Qual foi sua reação?
Clique para ampliar
Acompanhei tudo isso de casa, ao lado de minha família, foi muito doloroso. Meu advogado me instruiu a não sair das redes, pois isso tudo servirá de insumos para que lutemos por justiça. Muitos dos comentários e mensagens caluniosas e de xingamentos partiram de perfis de militares, que inclusive aparecem de farda nas fotos. Printamos tudo e vamos ajuizar diversas petições na justiça.
A tentativa de linchamento moral só demonstra o quanto a polícia é mal preparada. Além do que, isso claramente testifica a culpa da PM: eles não tinham nada contra mim, tanto que resolveram me caluniar com um vídeo de outro caso.

Esse vídeo viralizou, sempre atrelado a você. Eu li alguns dos comentários. As pessoas, ensandecidas para te culpar, alegam que no vídeo falso uma pessoa grita "Pare", não "Mari", que o seu nome do meio seria Mari, que qualquer um dizendo que a mulher que aparece no vídeo não é você, Sheila, tem que ser seu amante vindo te defender... As pessoas têm tanta confiança assim na polícia para aceitar passivamente a versão dela, mesmo quando estão diante de imagens que a desmentem?
A PM viralizou o vídeo em grupos de WhatsApp e pediu aos conhecidos para divulgarem a notícia falsa atrelada ao meu nome. Essas mesmas pessoas (acredito serem familiares e amigos dos PMS) vieram em minha página do Facebook me caluniar e me agredir moralmente, mas rapidamente a mentira caiu, pois fica claro nas imagens que não sou eu a mulher do vídeo.

Vc deu queixa à Ouvidoria? O que vc fará agora? Vai processar o Estado?
Minha carta aberta foi enviada para a Ouvidoria da PM, que já entrou em contato e disse querer esclarecer a conduta de seus policiais envolvidos, do ponto de vista ético e disciplinar.  Além disso, fiz uma representação contra a PMDF na Comissão de Direitos Humanos da Câmara Legislativa do DF e levarei o caso também ao Ministério Público.

A versão da PM
Por que você veio me procurar após a audiência? Você está sendo ameaçada?
Sim, tenho recebido ameaças diariamente.
Minha ida à audiência na Câmara do Deputados em Brasília foi um pedido de socorro. Sabia que lá haveria a participação de várias personalidades que lutam pelos direitos das mulheres. Conheço seu trabalho como ativista e admiro. Meu apelo vai a todos que trabalham por essa causa. Quero conseguir que meu nome seja retirado do tal vídeo na internet. Esse caminho é complicado junto ao Facebook e Google, e quero ajuda para lutar! 
Leia a versão da PM
Espero que minha imagem conquistada com tanto suor não sofra consequências por conta de uma polícia covarde.
Só posso pedir que escreva Lola! Escreva por mim, por você e por tantas mulheres que sofrem com agressões desmedidas e são ainda vítimas do ódio segregador de uma sociedade que pouco conhece sobre respeito e empatia. 

terça-feira, 3 de outubro de 2017

ALGUÉM AINDA QUER SER REITOR?

Fiquei muito triste com a morte, ontem, do reitor da Universidade Federal de Santa Catarina, Luiz Carlos Cancellier. 
Não o conhecia (pra falar a verdade, até umas poucas semanas, nem de nome), e estou longe da UFSC faz um tempinho, desde junho de 2009, quando defendi minha tese. Mas só trago lembranças maravilhosas da UFSC, onde tive o privilégio de fazer mestrado e doutorado e conhecer alguns dos melhores professorxs e colegas da minha vida. Como já disse diversas vezes, lá na Pós-Graduação em Inglês nós não competíamos. Nós colaborávamos. Éramos uma comunidade, ou pelo menos eu tive essa impressão durante os seis anos que lá estudei. 
Fico imaginando como deve estar todo o campus da Trindade. A UFSC ficará de luto durante três dias, sem atividades acadêmicas ou administrativas.
Ouvi falar do reitor no dia 14 de setembro, quando ele e outras seis pessoas não identificadas foram presas na Operação Ouvidos Moucos, da Polícia Federal, que investiga o desvio de recursos da Educação a Distância. Cancellier não era acusado de corrupção (até porque os supostos desvios teriam começado em 2006, e ele só assumiu o cargo de reitor dez anos depois), mas de atrapalhar as investigações.  
Não importa se Cancellier era inocente ou se deixou a cadeia no dia seguinte -- ao ter sua prisão noticiada por todos os jornais, para a opinião pública, ele era automaticamente culpado. Como ele disse num bilhete, "Minha morte foi decretada no dia da minha prisão". Para piorar a humilhação, o reitor foi impedido de entrar na universidade onde fez toda sua graduação, mestrado e doutorado. Na quinta, a polícia permitiu que ele ficasse três horas na UFSC para falar com orientandos. Cancellier, deprimido, não aguentou. Ontem de manhã se jogou de um vão no quarto andar do maior shopping de Floripa, o BeiraMar. 
A Andifes (Associação Nacional dos Dirigentes das Instituições Federais de Ensino Superior) divulgou uma nota forte de solidariedade ao colega: "É inaceitável que pessoas de bem, investidas de responsabilidades públicas de enorme repercussão social tenham a sua honra destroçada em razão da atuação desmedida do aparato estatal. É inadmissível que o país continue tolerando práticas de um Estado policial, em que os direitos mais fundamentais dos cidadãos são postos de lado em nome de um moralismo espetacular". 
Eu fico pensando: alguém mais vai querer ser reitor de universidade depois disso? Aliás, alguém vai querer ser pró-reitor? Diretor de centro? Chefe de departamento? Professor?
Eu não faço a menor ideia de como pode haver corrupção ou desvio de dinheiro na universidade pública. 
Primeiro que os recursos são escassos. Segundo que tudo que a gente faz é contabilizado. Nosso salário está no Portal da Transparência. Ao viajar para outro país para um congresso científico, mesmo pagando do seu próprio bolso, o professor não pode ficar nem um dia a mais no local. Tudo precisa passar por editais, relatórios, burocracias mil. Nós, professores com dedicação exclusiva, devemos prestar contas de qualquer real ganho fora da sala de aula. Um servidor me contou que, para quem faz a auditoria, tanto faz se for R$ 200 ou R$ 200 mil "suspeitos" (ou seja, não declarados) -- o professor será investigado.
Acabamos sendo responsáveis por tudo, mesmo aquilo que não temos muito controle. Por exemplo, faz uns meses fizeram um inventário do que tem no gabinete de cada professor (computador, impressora -- mesmo que não funcione --, mesa, cadeiras etc). Daqui a vinte ou trinta ou quarenta anos, quando o professor se aposentar, ele precisará prestar conta de cada um daqueles itens. Uma professora colega minha está preocupada porque um datashow foi roubado da sua sala. Depois, será ela a arcar com o prejuízo.
E isso que estou falando de professores que, comparados a gestores, têm poucas atribuições. Não conheço a rotina dos reitores, mas tenho certeza que deve ser exaustiva e repleta de responsabilidades. Conheço um pouco melhor, no entanto, o que passa a diretora do Centro de Humanidades da UFC, onde trabalho. Ela responde por tudo que acontece no CH. Se numa festa não autorizada no campus alunos brigarem a socos e se ferirem, não serão eles os responsáveis, e sim ela. 
E há inúmeras picuinhas. Soube que um dia uma servidora da limpeza (terceirizada, ou seja, na base da pirâmide dos assalariados numa universidade) pegou uma caneca da mesa de algum secretário, a lavou e guardou num armário. O secretário não encontrou a caneca e acusou a servidora de furtá-la. Mesmo depois de reencontrar a caneca, ele achou que passou por um estresse tão imenso que abriu um processo contra a moça. A diretora do CH decidiu intervir em defesa da servidora e foi processada também.
Sabe quando que eu seria diretora de centro? Nunca! Além de eu não ter o perfil pra esse tipo de atividade (precisa de gente que tolera burocracia, o que não é o meu caso), o aumento salarial que a pessoa recebe para se encher de trabalho e da possibilidade de processos judiciais é mínimo e não compensa. Ninguém vira reitor, pró-reitor, diretor, chefe, coordenador pela gratificação. Vira, suponho, porque acredita na autonomia universitária. Sabe que, se professores não assumirem esses cargos, podem vir dirigentes sem qualquer ligação com a universidade. 
Sei que sou ingênua e otimista, mas creio que quem pega esses cargos tem a intenção de fazer o bem pela sua universidade, de ampliá-la, de fazê-la mais democrática e inclusiva, de melhorar a posição em rankings, de abri-la mais para a comunidade (tudo bem, sei que há projetos políticos bem diferentes). Duvido que alguém entre pensando "Yay, agora sou reitor, vou roubar adoidado!" Simplesmente não vale o risco e o esforço. Sem falar que o dinheiro nem passa perto da gente. 
Com a perseguição injustificada a Luiz Carlos Cancellier, que culminou em seu trágico suicídio, com o dever de um gestor ter que responder por tudo que seus antecessores fizeram antes dele, fica a pergunta -- alguém ainda quer ser reitor?

UPDATE: Na sessão solene fúnebre do Conselho Universitário, o desembargador Lédio Rosa de Andrade disse, em discurso comovente sobre o colega e amigo pessoal: "Só a tragédia pode chamar a atenção de uma população q vive uma histeria coletiva".
A morte do reitor ainda vai dar muito que falar, acredite. 
UPDATE em 30/10/17: O site Jornalistas Livres publicou uma excelente reportagem sobre o principal responsável pela perseguição a Cancellier. Veja o que acontece quando se dá poder demais a um corregedor. 

segunda-feira, 2 de outubro de 2017

ACUSAÇÃO DE ESTUPRO DENTRO DA ESQUERDA

Em meados de setembro, Luiza, feminista e professora em Brasília, me enviou um email contando seu caso e pedindo ajuda. Com a correria, não tive tempo de respondê-la (desculpe, Luiza!). Luiza acabou publicando seu relato no Facebook, que reproduzo aqui: 

- Precisamos urgentemente falar sobre ESTUPRO -
Na manhã do dia 14/10/16, acordei nua, na cama de um cara, sem saber o que tinha acontecido. Lidar com isso, carregando traumas antigos, quase custou minha vida e me faz passar 18 dias internada. Foram meses de dor e revolta.
Eu estava passando por um momento difícil. Durante o fim de 2016, eu e meu companheiro havíamos nos separado. Fui passar uns dias na casa do meu melhor amigo, em São Paulo, para ver se ajudava. Ele morava com um amigo. Ambos são dirigentes nacionais de uma mesma organização política.
No penúltimo dia, comecei a beber no almoço. Eles foram para reuniões e eu, deprimida, bebi durante toda a tarde. À noite, bebemos em dois bares e ainda paramos em uma conveniência pra comprar mais bebida. Fiquei completamente embriagada. O cara que morava com meu amigo insistiu pra ficar comigo. Eu disse que não, duas vezes. Não tive o direito de decidir. Sem que eu tenha memória ou consciência do que se passou, acordei no seu quarto.
A sensação foi horrível. Me senti com vergonha e culpa por ter bebido tanto. Estava frágil e buscando qualquer coisa que pudesse me dar segurança. Convivi com o medo de ter contraído uma doença ou uma gravidez.
Eu havia bebido por cerca de 14 horas, ao menos 7 litros de cerveja, ou 350g de álcool. A estimativa é que a quantidade de álcool no meu sangue chegou a mais de 0,5 g/dL. Esse valor corresponde ao último estágio da embriaguez, onde podem ocorrer comprometimentos do sistema nervoso central e coma. Mesmo em estágios anteriores, além de amnésia alcoólica, já poderia apresentar estupor, perda de compreensão, de julgamento e de consciência.
Como muitas mulheres, não reconheci logo que foi estupro. Pra cair essa ficha doeu e demorou uns dias. Aprendemos a ver violência apenas no que ocorre entre desconhecidos, como um homem puxando a mulher pelos cabelos pra um canto escuro. Quando se trata de pessoas conhecidas, sempre duvidam da vítima. Mas o que aconteceu não foi sexo, foi estupro. Uma pessoa completamente embriagada não consegue oferecer resistência. Como não se tem discernimento, nesses casos não é possível consentir, tratando-se de um estupro de vulnerável (artigo 217-A do CP).
Depois de meses pra conseguir me reerguer dos danos psicológicos, fui conversar com meu “amigo”. Ele riu da minha cara, me xingou e disse que eu era uma mentirosa. Logo ele, que era a pessoa que eu amava como um irmão. A revolta me fez reagir. Busquei a DEAM em Brasília, o Ministério Público e a DEAM em São Paulo e registrei o BO.
Também fiz denúncia na organização deles: o MAIS, que hoje compõe o PSOL. Apesar de se dizerem feministas, eles inocentaram o cara e desconsideraram os elementos apresentados (prints, áudios, extratos bancários, laudo médico). O próprio agressor confessou que eu estava bêbada demais. Recorrerei ao PSOL, partido ao qual sou filiada, e às demais organizações para que esse tipo de violência não se perpetue em espaços que deveriam combatê-la.
Todos sabem que a incidência de crimes sexuais é muito alta e que a maioria dos agressores não são responsabilizados. Todos dizem que é preciso denunciar a violência sexual. Mas, quando denunciamos, somos atacadas, deslegitimadas e silenciadas. Até quando seremos tratadas como loucas, mentirosas e vingativas? Até quando nós mulheres sofreremos todo o tipo de traumas e danos psicológicos, sem nenhum tipo de reconhecimento da nossa dor e sem nenhuma reparação? Não temos tempo para esperar. É pela vida e pela segurança das mulheres. Não dá mais pra segurar o grito na garganta.
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(Eu, Lola). No final da semana passada, outra feminista (vou chamá-la de A., pois ela não quer ser identificada) me pediu para falar da repercussão do caso da Luiza. A. explicou: "O MAIS (Movimento por uma Alternativa Independente e Socialista) é uma organização formada por ex-militantes do PSTU. Estes militantes romperam com o PSTU por volta de um ano atrás e formaram uma organização política chamada MAIS, que em meados de 2017 entrou no PSOL como mais uma corrente lá dentro. Ou seja, o MAIS é uma corrente política que integra o PSOL mas que saiu de um processo de rompimento com o PSTU.
"Ao formarem esta nova organização, vieram com uma nova roupagem, uma nova linguagem visual, para atrair jovens e pessoas de setores de combate às opressões. Porém, a prática desta organização é a mesma de quando eles estavam dentro do PSTU: sistematicamente silenciam mulheres, menosprezam as pautas feministas (e claro, as pautas contra racismo e lgbtfobias). Desqualificam as pessoas que saem da organização, desqualificam os militantes que são mais questionadores, coloca no ostracismo quem questiona a direção, enfim, são muitas práticas cotidianas de apagamento da militância das mulheres. A parte mais perversa é que, obviamente, alguns desses militantes homens acabam sendo agressores, estupradores e assediadores, e esta face do machismo eles tentam esconder a todo custo.
"São muitas as mulheres (MUITAS, Lola, muitas mesmo) que conheci e saíram de ambas as organizações (PSTU e MAIS) muito agredidas, principalmente psicologicamente. Mas não se engane, há muitos casos de estupro que são silenciados, não chegam nem à justiça/ polícia e nem aos movimentos."

São palavras duras, as da A. Antes de continuar, queria só pedir para não matarem o mensageiro (no caso, eu, ou meu blog, onde essas denúncias estão sendo publicadas). Sou de esquerda, mas não sou filiada a nenhum partido (assim como sou feminista, mas não me apego a nenhuma corrente específica). Tenho imensa simpatia pelo PSOL, assim como a outros partidos de esquerda. E o blog fica à disposição para comentar as denúncias.

Continuando: na terça, o MAIS lançou uma nota em resposta às acusações de Luiza. A nota dizia que não houve estupro e nem agressão e que Luiza não estava embriagada. Num dos trechos, a nota diz: "Nenhuma das testemunhas confirma a versão de Luiza de que ela estava embriagada a ponto de perder o controle sobre seu corpo e suas decisões. Essas pessoas estavam presentes no bar e na casa onde o fato ocorreu, estão entre elas três mulheres (sendo uma delas negra) e um homossexual, todos conscientes e sensíveis ao debate de opressões".
A nota foi tão mal recebida que pouco depois foi apagada. Escreve A.: "Esta nota, Lola, foi o que fez eu e as outras mulheres nos juntarmos para escrever em defesa da Luiza e contra o posicionamento do MAIS. O caso da Luiza foi um estopim para nossa indignação e a nota que o MAIS soltou foi a coisa mais asquerosa que pude ler de uma organização de esquerda. E sim, Lola, foi escrita por mulheres mesmo. As mesmas mulheres que protegem estes homens". 
Na sexta, o MAIS retirou a nota e deixou este recado no lugar:
Publico aqui o texto que um grupo de mulheres divergentes, entre elas a A., escreveu:

Somos um grupo de mulheres com diferentes trajetórias políticas, de diversas cidades e ocupações. Aqui formou-se um grupo de mulheres que, apesar de inúmeras diferenças, há um ponto que nos une: somos ex-militantes organizadas nas mesmas fileiras que os protagonistas dessa nota e rompemos com nossa organização devido às inúmeras violências misóginas que sofremos dos nossos ex-camaradas. Conhecemos a fundo as práticas e métodos imorais de perseguição, calúnia e difamação por parte do MAIS e não nos identificamos porque temos medo de que nossa segurança esteja em risco.
No Brasil de um estupro a cada 11 minutos, conhecemos bem a realidade das mulheres que ousam realizar uma denúncia sobre a violência sofrida perante os meios legais: exposição, desconfiança, humilhação e não reconhecimento do crime que sofreu. O estupro, o crime que deslegitima no limite máximo o poder de consentimento da mulher, é tratado como inverdade por parte dos agentes do Estado, que deveriam garantir nossa integridade física e moral, pela sociedade no geral e, muitas vezes, por nosso círculo de amigos e família. 
Semana passada recebemos a notícia de uma denúncia feita por uma militante de esquerda, colocando o estupro que sofreu por parte de um militante do MAIS. Prontamente a denúncia foi combatida pela organização por meio de uma nota absurda, desmentindo a denúncia, expondo a vítima e se utilizando de diversas desculpas esfarrapadas e oportunistas para proteger o agressor. Infelizmente, a nota da organização não nos surpreendeu, considerando que acompanhamos por quase uma década repetidas situações como as do tipo.
Em primeiro lugar, é preciso dizer que, apesar de se colocar como uma nova organização, com novas práticas e novo nome, o MAIS nada mais é do que um conjunto de ativistas que já discutiram há muitos anos o debate das opressões, vindo da sua antiga organização. Entretanto, há diversos homens que constituem essa corrente que seguem reciclando suas práticas misóginas já antigas e conhecidas por diversos setores, e especialmente, por diversas mulheres que quebraram e abandonaram suas militâncias devido às violências que sofreram.
A tendência coloca em sua nota a formação de uma comissão que se propõe a analisar o caso exposto pela vítima, a partir de pessoas que são testemunhas do agressor, sem considerar as provas mandadas pela militante. Não há nenhuma chance de uma comissão isenta e sem influência, considerando que as pessoas que avaliam, são as pessoas que militam e defendem o agressor todos os dias. Há de se questionar ainda a recusa dessas provas, que são concretas.

É claro a todos os ativistas sinceros da esquerda a dificuldade e as barreiras que as mulheres que sofreram algum tipo de violência misógina têm que enfrentar para realizar uma denúncia. A primeira barreira é o constrangimento ao realizar uma denúncia. O MAIS ignora totalmente para fazer sua defesa: expõe, constrange, deslegitima o relato da militante. Para além disso, distorce o debate das opressões usando de maneira oportunista o papel de negros e homossexuais nessa discussão. Desta forma, fazem questão de destacar que dentre as testemunhas há uma mulher negra e um homem gay, para invalidar a denúncia da vítima.
A nota é assinada pelas Mulheres da Coordenação Nacional do MAIS e revela mais uma vez a prática oportunista de usar mulheres para legitimar suas violências, fracionando as mulheres dentro da própria organização e desestimulando as denúncias internas que tão bem conhecemos e já fizemos.
Ao realizar essas ações, o MAIS não só age em desacordo com a moral de uma organização de esquerda, mas se iguala aos governos que retiram os direitos das mulheres, que as expõem, que as matam todos os dias. Se igualam à polícia que duvida de relatos, desconfia de mulheres e tenta convencê-las de desistirem das denúncias de violência. Segue reproduzindo práticas que são combatidas por diversos ativistas que levam com seriedade a pauta das opressões.
Deixamos aqui nosso repúdio a nota do MAIS, que indica que não há limites para se defender homens misóginos da esquerda e destruírem mulheres. Repudiamos o ato reacionário do MAIS que ao tratar a violência contra a mulher com esses métodos, age como a justiça burguesa que deslegitima todos os dias as denúncias corajosas de tantas mulheres. Repudiamos aqui o oportunismo dos homens do MAIS que se utilizam de mulheres das suas fileiras como um escudo para lhes proteger, colocando-as contra mulheres que os denunciam.

Nos solidarizamos integralmente com a militante vítima da agressão e deixamos nosso apoio incondicional. Exigimos que a organização se retrate publicamente e afaste todos os agressores de suas fileiras, garantindo que as mulheres tenham um espaço seguro para militarem. Reivindicamos que as solicitações da vítima desse caso sejam atendidas pelo MAIS, com a reavaliação do caso por uma comissão independente, com os critérios estabelecidos pela vítima, de modo que esse caso não seja mais um de tantos outros.
Não há questionamentos a serem feitos: o corpo da mulher precisa deixar de ser um espaço público dentro da esquerda. Rompemos o silêncio e não nos calaremos mais.
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Luiza escreveu outros posts em resposta à nota do MAIS, como este, este e este.
Sexta-feira, dia 29/09, o Setorial de Mulheres do PSOL soltou uma nota se posicionando sobre a denúncia:


A Setorial Nacional de Mulheres do PSOL recebeu no dia 26/09 e acolheu grave denúncia de estupro feita por uma companheira, que tem sido tema de debate nos movimentos. O acusado é militante de uma organização que, recentemente, decidiu por seu ingresso em nosso Partido.
De imediato, queremos manifestar nossa solidariedade à companheira, e nos colocamos a sua inteira disposição. Compreendemos o quanto é difícil reconhecer-se como vítima de violência e abuso e, principalmente, levar adiante a denúncia deste tipo de violência.
Nossa luta contra o machismo e o conservadorismo se dá todos os dias, por isso mesmo quando este tipo de denúncia feita pela companheira ocorre em nossas fileiras as providências devem ser enérgicas.

Desde que tomamos ciência da denúncia, no dia 26/09, nos dispusemos a participar de uma comissão de mulheres composta por várias organizações, uma reivindicação tanto da companheira denunciante como da organização MAIS, para tratar o caso. No dia 03 de outubro também será realizada uma reunião auto-organizada das mulheres do PSOL DF, onde milita a filiada denunciante, com o intuito de debater a grave situação e acolhê-la. Além disso, ela foi aconselhada a enviar uma denúncia formal para a Comissão Nacional de Ética do partido, instância responsável pela apuração de todos os casos de denúncias de desvio moral, mesmo o caso tendo ocorrido um ano antes do militante denunciado ter ingressado no PSOL.
Lembramos que o 5º Congresso Nacional do PSOL, ocorrido em 2015, aprovou por consenso uma resolução orientando o tratamento de casos de violência contra a mulher pela Comissão de Ética. Entre os indicativos definidos em congresso para qualquer caso desse tipo estão a celeridade na apuração e a possibilidade de afastamento imediato do filiado acusado durante o decorrer do processo, além de elencar punições para os considerados culpados, sendo a máxima a expulsão do partido. À exceção do afastamento do acusado das instâncias, a fim de que não se prolonguem situações de sofrimento à denunciante, todas as demais medidas só poderão ser levadas a cabo após apuração que assegure à denunciante a possibilidade de colocar todos os elementos que já se dispôs a fazer e também assegure ao denunciado seu direito de defesa.

Em meio a esse conjunto de encaminhamentos, nos defrontamos com posições que não condizem com o acúmulo e com as lutas feministas que travamos ao longo da nossa história.
O estupro de uma mulher a cada 11 minutos, um crime abominável e repugnante, evidencia a cultura do estupro presente em nossa sociedade machista e patriarcal, que objetifica o corpo e a vida das mulheres. Como manifestação desta cultura, estão a tentativa de justificar ou relativizar as denúncias realizadas por mulheres que, além de serem vítimas, ainda são expostas e desacreditadas, gerando um ciclo que perpetua esta cultura e violência brutais. Felizmente, como resultado das lutas feministas que travamos na sociedade, as mulheres vítimas de estupro não estão mais obrigadas a fazer um boletim de ocorrência para poderem acessar todos os cuidados e garantias a que têm direito para, minimamente, mitigar as sequelas físicas e psicológicas resultantes desse crime. Esses avanços nos animam a continuar na luta.

O feminismo ocupa um lugar de centralidade para a construção de uma sociedade justa e igualitária. Por isso mesmo, o fortalecimento da auto-organização das mulheres e das agendas feministas cumprem papel fundamental no combate à opressão de gênero e à conquista de direitos que revertam este quadro de desigualdade entre homens e mulheres no Brasil. As violências sistêmicas contra as mulheres são manifestações desta desigualdade historicamente construída, que se relacionam em múltiplos sistemas de desigualdades, como raça, etnia, classe, orientação sexual e identidade de gênero.
Estamos juntas nesta luta. A solidariedade nos fortalece e como setorial de mulheres do PSOL, acompanharemos de perto o processo.
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Para A., esta é uma nota "melhor que a do MAIS, mas ainda aquém do necessário para tratar um tema tão sério como esse." Luiza escreveu: "Eu agradeço a solidariedade das mulheres do PSOL, mas cadê a resposta à nota do MAIS? Eu estou sendo exposta publicamente por meio de uma nota misógina feita pra me humilhar. Isso é uma das maiores violências já cometidas contra mulheres que denunciam dirigentes dentro da esquerda. E não tem resposta a esse absurdo e a exigência de retratação do MAIS pela nota? Inacreditável."
A. disse também: "Lola, eu gostaria de frisar duas coisas que achamos muito preocupante e que precisa ser debatido também. A primeira nota do MAIS começa da seguinte forma: 'No dia 26 de setembro, Luiza Oliveira postou em seu facebook uma denúncia gravíssima ao MAIS.' Eles entendem que a denúncia é feita contra a organização e não contra um militante deles. Esta postura é extremamente problemática, porém sintomática de uma organização que muitas vezes se porta como uma seita, que ao se deparar com críticas e posicionamentos diferentes aos deles, toma como um ataque que visa destruir o partido/organização. Isto é muito perigoso pois mostra que há pouco espaço para auto-crítica vindas de dentro ou fora do partido.

"O outro ponto problemático foi a postura que percebemos de alguns militantes e simpatizantes do MAIS, que passaram a condenar a auto-organização das mulheres e a mobilização surgida a partir da indignação causada pelos fatos narrados anteriormente. Alegavam que o problema se restringia apenas às organizações (MAIS e PSOL) e que as mulheres destes partidos "dariam conta" do problema, resolvendo-o internamente. Uma vez que a denúncia de estupro e o descaso com que eles trataram a denúncia vieram à público a partir da própria Luiza, nós, enquanto feministas, sentimos a obrigação de nos posicionarmos. Assim como tantas outras pessoas que também se indignaram e também se manifestaram. A cultura do estupro deve ser debatida por todos, em todas as esferas pertinentes e possíveis, pois só assim seremos capazes de mudar a sociedade e fazer com que o mundo seja um lugar melhor para todas as mulheres. E é por isso que apesar dos novos desdobramentos, mantemos nossas posições expostas na nossa nota, para rompermos o silêncio em todos os espaços, inclusive (ou principalmente?) dentro das organizações da esquerda."

domingo, 1 de outubro de 2017

A PREOCUPAÇÃO COM OS PREDADORES ERRADOS

Uma mulher tem uma chance em 262.265 de ser morta por um tubarão na sua vida.
Nessa mesma vida, ela tem uma chance em 6 de ser estuprada.
Um milhão de tubarões são abatidos todos os anos em nome da ameaça injustificada aos humanos. 
Em relação a acusações de estupro, apenas 16,3% dos estupradores denunciados vão para a cadeia.
Estamos nos preocupando com os predadores errados.