terça-feira, 26 de setembro de 2017

GRITO GLOBAL PELO ABORTO LEGAL

Esta quinta, 28 de setembro, marca o Dia Mundial da Luta pela Legalização do Aborto. 
Como todas nós sabemos, vivemos um período de imensos retrocessos, com o golpe ainda em curso. Um desses retrocessos é a votação da Proposta de Emenda à Constituição 181/2015. De autoria de Aécio Neves, a PEC, que inicialmente tinha boas intenções -- ampliar licença maternidade em casos de partos prematuros -- foi desvirtuada para incluir no texto algo que a bancada religiosa tenta inserir há tempos: o princípio da inviolabilidade da vida. Desde a concepção, um embrião passaria a ter os mesmos direitos que um recém-nascido. 
Se isso for aprovado, o próximo passo dos fundamentalistas cristãos é proibir o aborto em todos os casos, inclusive em gravidez decorrente de estupro. Por conta dessa estratégia enganosa (aprovar uma coisa quando se está votando outra), ativistas estão chamando a manobra de "Cavalo de Troia". 
Como diz Jurema Werneck, diretora da Anistia Internacional Brasil, "A manobra de inserir o Cavalo de Troia nesta proposta é uma forma de empurrar útero adentro a implantação do Estatuto do Nascituro, que acaba por estabelecer uma hierarquia de importância de certas vidas sobre outras, instituindo o embrião como entidade jurídica que tem mais importância do que a mulher que o gesta. Uma proposta assim vai aumentar ainda mais a vulnerabilidade de meninas e mulheres, num país onde a cada 11 minutos uma mulher é estuprada, segundo o Fórum Brasileiro de Segurança Pública. Isso é inaceitável do ponto de vista da legislação nacional e internacional de direitos humanos."
Não podemos permitir mais esta aberração! A votação da PEC 181 na Comissão Especial da Câmara, prevista para setembro, foi adiada e ficou para a semana que vem. Temos que continuar pressionando para que a PEC retorne ao seu texto original, que trata da ampliação da licença gestante para mulheres com filhos prematuros. 
Se você é a favor que uma mulher estuprada tenha o direito de realizar um aborto legal, se você é a favor que uma gestante que corre risco de morrer se prosseguir com a gravidez possa abortar, você precisa se posicionar. 
A mobilização pró-legalização do aborto é grande. Há mais de 114 organizações signatárias do Alerta Feminista. Nas principais capitais do país acontecem, desde a semana passada, aulas públicas, rodas de conversa em bairros populares e debates em espaços universitários. Além do mais, há marchas marcadas por todo o país.
Acontece também, pela segunda vez, a Virada Feminista Online. São mais de 24 horas falando sobre aborto, ao vivo. A abertura será às 23h30 de hoje, seguindo com transmissões ininterruptas até zero hora de quinta. No contexto de conservadorismo é preciso amplificar as reflexões, denúncias e debates que serão transmitidos. Acesse o link, curta, comente e convide amigos e amigas para participar.
Espalhe as tags #ViradaFeminista, #AbortoLegal, #NemMortasNemPresas, #GritoGlobal, e #VivaseLivresNosQueremos, #PrecisamosFalarSobreAborto o máximo possível. Conscientize as pessoas sobre o que está acontecendo. Publico texto da Frente Nacional contra a Criminalização das Mulheres e pela Legalização do Aborto. 

Chamado à Ação
Enfrentamos um contexto global de ataques das forças conservadoras que tentam impor políticas que restringem, ameaçam e, muitas vezes, anulam direitos conquistados. No Brasil não é diferente. Bancadas religiosas nas casas legislativas (federal, estaduais e municipais) trabalham pelo desmonte de leis e políticas de equidade racial e de gênero, e que violam princípios de direitos humanos em especial das mulheres, da população negra e indígena e da população LGBTT.
Neste contexto as mulheres recebem ataques a sua liberdade e autonomia reprodutiva, sendo a prática do aborto um alvo privilegiado, mesmo nos casos em que esta prática é permitida por lei. O risco iminente é a aprovação da PEC 181 na Comissão Especial da Câmara. Esta PEC anula o direito ao aborto legal hoje vigente no Brasil. Se a Comissão Especial vier a aprovar a PEC 181, esta seguirá para votação no plenário da Câmara, uma ameaça inqualificável. As mulheres grávidas perderão o direito de optar por um aborto para salvar a própria vida; perderão o direito de optar por um aborto caso a gravidez seja decorrente de um estupro; e ficarão impedidas de abortar nos casos de gravidez de feto anencefálico, malformação que torna inviável a vida após o nascimento.
Obrigar mulheres a manter uma gravidez indesejada é uma gravíssima violação dos direitos das mulheres à autodeterminação sobre suas vidas.
Entendemos que nenhuma mulher deve ser presa, punida, maltratada ou humilhada por ter feito um aborto.
Contra a criminalização das mulheres e pela legalização do aborto no Brasil!
#NemMortasNemPresas!
#Vivaselivresnosqueremos!
Dia 28 de setembro vamos, mais uma vez, tomar as ruas e fazer ecoar nossa voz!

segunda-feira, 25 de setembro de 2017

ESCOLA SEM PARTIDO É NOTA DEZ EM MATÉRIA DE ATRASO

Você precisa se posicionar agora, antes que seja tarde demais. O ódio contra professoras e professores só cresce, e obviamente tem o dedo do hiper retrógrado projeto da Lei da Mordaça no meio (que por sua vez conta com o apoio de todos os políticos reaças e do MBL. Virou uma das principais bandeiras da direita).
"Confusão" não é bem
a palavra, né, jornal?
E a caça às bruxas dos conservadores não se limita a professorxs. Semana passada, em Tubarão, SC, alunxs do ensino médio (não crianças) estavam apresentando um projeto sobre diversidade, em que mostravam um vídeo de Pablo Vittar e falavam sobre uma personagem trans numa novela. Um homem, assessor da Câmara de Vereadores da cidade, invadiu a escola e tentou censurar os alunos baseando-se no Plano Municipal de Educação, que proíbe o termo gênero, orientação sexual, ou sinônimos (não se pode nem pronunciar essas palavras na escola!). E, óbvio, é o assessor quem se faz de vítima e promete que vai processar todo mundo. 
Clique para ampliar
e se horrorizar
Recomendo este texto do ano passado de um site chamado Professores contra o Escola sem Partido. Tem uns prints impressionantes que reproduzo aqui, como este ao lado, de um cara oferecendo 50 reais para estudantes que enviarem vídeos de "professores doutrinando alunos durante e dentro da sala de aula de qualquer curso". A intenção é "denunciar" e "desmascarar" esses professores. Ou seja, jogar o vídeo nas redes para que milhares de reaças acéfalos possam xingar e perseguir os professores (se for professora, então, melhor ainda, porque aí os comentários já vem carregados de misoginia. Se for professor/a negro, é senha para os fascistas exercitarem seu racismo).
Mas não fica só nisso de exigir que a opinião pública execre professores. Num artigo publicado na Gazeta do Povo em 2015, Miguel Nagib, criador do Escola sem Partido, "confessou" que nunca havia ouvido falar na importante teórica Judith Butler, que palestrou na UFBA naquele ano, e deixou transparentes suas ameaças:
A perseguição jurídica a ativistas de movimentos sociais e a tentativa de criminalização já vem acontecendo faz tempo (eu, por exemplo, respondo a quatro processos, três deles de masculinistas que me ameaçam e difamam há anos). 
Mas prometer "dezenas de processos" a professores por lecionar em sala de aula? Distribuir modelos de notificação extrajudicial? Se isso não for censura e intimidação, eu não sei o que é.
São tempos difíceis. Tempos em que Paulo Freire, referência em educação no mundo todo, é demonizado por reaças no Brasil. Em que qualquer politiquinho, qualquer ator pornô, se torna especialista em educação.
E se você acha que são apenas questões de gênero e educação sexual que ficarão fora das aulas se passar essa aberração, você se engana. 
Ameaça bastante explícita a profs
Como bem lembrou a Sociedade Brasileira de Física no final de agosto, o Escola sem Partido é um perigo também contra o ensino de ciências nas escolas (nos EUA há escolas que vetam o ensino da teoria da evolução das espécies, por exemplo). Segundo a SBF, "O que nos garante que uma teoria tal como a do Big Bang não possa ser vetada futuramente em escolas, por contradizer valores religiosos, que obviamente devem ser respeitados, mas que não podem se impor sobre outras formas de ver o mundo?"
Se você acha que estou exagerando, veja um trecinho deste filme americano em que um professor é preso por ensinar evolução das espécies numa escola pública. Inherit the Wind é de 1960, mas parece bastante atual no nosso cenário atual de total retrocesso no Brasil. 
É uma época bicuda em que todos nós precisamos nos posicionar. Por isso fiquei decepcionada ao ver o vlogueiro e biólogo Pirula, tido como um formador de opinião bastante coerente em meio aos Olavões e Nandos Mouras da vida, fazendo um vídeo com o MBL. A entrevista (não vou por o link aqui, mas Pirula é entrevistado por dois portas-vozes do movimento censor e golpista) é embaraçosa por si só, já que Pirula tenta não responder perguntas para "não se comprometer" (nessas horas eu vejo como nós feministas somos corajosas).
Não estou falando de se negar a debater ou de acabar com tentativas de diálogo (se bem que é impossível conversar com trolls). Estou falando de gravar vídeo amigo com reaças. Se não por tudo que o MBL significa em matéria de atraso, pelo menos que seja porque o movimento é um dos principais patrocinadores do Escola sem Partido. Como um biólogo consegue rir e tentar encontrar pontos em comum com um grupelho que empurra um projeto que pode acabar com o ensino de ciências nas escolas?
Talvez o pior é que reaças mentem adoidado. Tanto o Escola sem Partido quando a bancada evangélica (unidos até a medula) dizem representar os interesses da população brasileira, mas simplesmente não é verdade. Uma pesquisa do Ibope realizada em fevereiro apontou que 84% dos entrevistados concordam totalmente ou em parte que professores discutam sobre a igualdade entre os sexos com os alunos. 88% são a favor de aulas de educação sexual. A maior resistência detectada em toda a pesquisa foi na pergunta sobre se deve ser abordado em sala de aula o direito de cada pessoa viver livremente sua sexualidade. "Apenas" 59% dos evangélicos entrevistados concordam. Quer dizer, é a maioria! Nem entre os evangélicos a ideologia da Escola sem Partido é unanimidade.
Quando o Senado abriu consulta pública sobre o Programa Escola sem Partido, proposta pelo senador conservador Magno Malta, foi uma lavada de votos contra. É a enquete com o maior número de votos do Senado. Agora, com ampla campanha de páginas e sites reaças, eles conseguiram equilibrar a votação. Da última vez que chequei, havia 204 mil votos contra a proposição da Lei da Mordaça, perdão, Escola sem Partido, e 196 mil a favor. Você ainda pode votar
Ah, tem outra coisa: a censura e perseguição a professores defendidas abertamente pelo Escola sem Partido não são exclusividade daquele projeto. Há outros. Um exemplo é o projeto de um vereador evangélico de Curitiba que quer que todo texto, livro, vídeo ou áudio que seja mostrado em sala de aula obtenha "a anuência expressa de cada família". Em outras palavras, são os pais que devem decidir tudo que seus filhos verão na escola. E se um pai for contra a escola ensinar a sua filha de 14 anos que DSTs existem e que deve-se usar camisinha sempre, pronto, isso não poderá ser pauta na escola.
E logo logo, nesse retrocesso em que vivemos, a perseguição chegará também às universidades. A hora de barrar esses obscurantismos moralistas é agora. Já!

domingo, 24 de setembro de 2017

PAI FEMINISTA, PRESENTE!

Regras para namorar a minha filha:
1. Eu não faço as regras
2. Você não faz as regras
Eu criança e meu amado pai
3. Ela faz as regras
4. O corpo é dela, as regras são dela

Observação: Se vier com essa besteira de que feminista não tem pai, nem tente que eu corto. 

sexta-feira, 22 de setembro de 2017

"O DESESPERO DE SER CHAMADA DE MACHISTA E NÃO SABER O QUE DIZER"

A T. me enviou esta dúvida: 

Estou te mandando email porque preciso da opinião de uma profissional, hahaha.
Seguinte, sou de São Paulo, fazendo intercâmbio aqui na Nova Zelândia. Convivendo com o pessoal daqui comecei com umas neuras que me fizeram questionar a autenticidade da minha visão feminista. A Nova Zelândia é um país, teoricamente, muito menos sexista que o Brasil (o culto ao corpo não é tão forte, homem não mexe com mulher na rua e afins)... Aqui às vezes há até uma cobrança pra que a mulher aja como o homem. 
Há uma certa imposição pra que ela seja livre, que tome a frente quando se interessa por alguém, que tenha um bom emprego e seja independente financeiramente. Acredito que haja uma certa hipocrisia aí, porque em uma festa da empresa em que eu trabalho, o pessoal, meio alegre com todo o vinho de graça, começou uma discussão de que homem nunca vai ser igual mulher e mulher nunca pode ser igual homem e que faz parte da sociedade muitas vezes dar um emprego pra uma mulher levando em consideração também se ela tiver um belo par de peitos. 
Fiquei chocada, me perguntando: "Tá, e cadê essa sociedade não-machista da qual vcs tanto se gabam, hein queridinhos?" Mas não estava a fim de discutir com babaca me julgando, só levantei e fui embora pra minha casa. Um cara daqui acabou indo comigo e tal, ele também já tava meio alto e ficava me secando o tempo todo. A gente acabou ficando, mas só isso, porque eu falei que não tava a fim de companhia naquela noite. 
A gente nem trocou telefone nem nada, ele voltou pra casa, a gente nem se viu no trabalho no dia seguinte, mas à noite ele me adicionou no facebook, pediu desculpas por estar sendo tão direto e me chamou pra tomar um drink. Aceitei de boa, ficamos no bar conversando até tarde mas nada rolou até ele tomar a iniciativa. 
Ele me convidou pra ir pra casa dele e eu fui. Depois ele me perguntou se essa história de o homem ser o "decision maker" [tomador das decisões] era bem consolidada no Brasil, porque ele esperava que eu tomasse a iniciativa, que eu sugerisse que a gente dormisse junto e afins e não que ele tivesse que sugerir as coisas, tentar me beijar e o escambau e eu apenas seguir o fluxo... Fiquei pensando nisso porque me deixou muito confusa. 
Será que eu sou machista por curtir um cara que, depois de várias trocas de olhares, me agarre na balada e não o contrário? Será que eu sou machista por esperar ele fazer a sugestão "Que tal irmos em tal lugar?", eu curtir a ideia e aceitar? Até que ponto eu não sentir a necessidade de dizer "Fulano vamos ali, fulano faz isso, fulano eu quero isso, fulano blá blá blá..." e curtir quando os caras dão sugestões e curtem uma conversa pra gente chegar num consenso é apenas uma opção minha e não um sintoma de sexismo da minha parte? 
Me mande suas reflexões, Lola, porque estou cansada de questionar minha autenticidade. Minha atitude em relação à abordagem dos homens e o fato de eu ser uma cientista, trabalhando em uma empresa onde a maioria é homem e eu insisto em ser vaidosa, usando maquiagem todo dia, com roupas bem femininas, pra eles são sintomas de uma mocinha machista.
Help!

Meus comentários: Querida T., não se preocupe tanto, e não se cobre tanto. Não, você não é machista por insistir em ser vaidosa. Você não é machista se de vez em quando querer que um rapaz tome a iniciativa da paquera contigo. Não tenho nem certeza se você é machista se quiser que todos os caras tomem a iniciativa, mas aí é uma camisa de força: você se acostuma a não poder iniciar a paquera, e isso é bem ruim.
Não preciso nem falar que um monte de homens são super hipócritas no que se refere à criticar a falta de iniciativa das mulheres, né? Eles dizem querer que a gente tome a frente e inicie a paquera, mas, quando fazemos isso, nos chamam de vadia pra baixo. E pelo jeito isso acontece em todo lugar, até na Nova Zelândia!
Agora me lembrei da minha juventude. Era eu quem queria sexo sem compromisso, sem a menor vontade de ter um relacionamento romântico. Eu procurava homens que queriam isso também, e não é o que todo mundo diz, que são os homens que querem sexo sem compromisso, enquanto a mulherada tá louca pra casar? Então. Nos primeiros encontros tudo bem, parecia que eu e meu amante realmente queríamos a mesma coisa. 
Mas logo logo ele passava a se sentir usado, a perguntar "É só isso?", a querer sair mais, e mais publicamente. Eu percebi que aquele papo de "homem só quer sexo sem compromisso" era só isso -- papo.
E parece que a gente coleciona exemplos desse tipo, não? 

quinta-feira, 21 de setembro de 2017

FOI A DIREITA QUE CRIOU O POLITICAMENTE CORRETO

Publico hoje uma entrevista que dei a um grande jornal em junho. Como o jornal não utilizou a entrevista, e como ela levou um tempinho pra responder, e como ficou bacana, talvez vocês queiram lê-la.

Pergunta: Você concorda com o termo “politicamente correto” (PC)? O que é ser politicamente correto?
É mais fácil falar sobre o que é ser politicamente incorreto: é um eufemismo para ser abertamente preconceituoso. Politicamente incorreto virou sinônimo de “Senta que vamos voltar no tempo e defender os discursos mais retrógrados possíveis”. Quando leio que um livro, filme, peça, humor, autor, qualquer coisa, é politicamente incorreto, já sei que vou ouvir opiniões machistas, racistas e homofóbicas, seguidas por um revisionismo histórico que coloca o homem branco hétero como o verdadeiro alvo de preconceito e discriminação através dos tempos. Nunca falha.
Não conheço muita gente que se assuma politicamente correta, pois o termo é usado para acusar, insultar. O “politicamente” já é bastante suspeito, faz parecer que a pessoa está tentando ser correta, mesmo sem sê-lo, ou seja, está sendo falsa. Já os politicamente incorretos batem no peito e se vangloriam da sua incorreção com grande orgulho. Eles pintam a si mesmos como revolucionários transgressores e pintam os politicamente corretos como carolas moralistas, o que é uma enorme ironia.
Quando surgiu? Houve alguma transformação no seu significado desde então?
A expressão como vem sendo usada hoje tem cerca de um quarto de século. Nos anos 1960, o termo já era utilizado por pessoas de esquerda, na maior parte das vezes ironicamente, contra exageros dogmáticos dos próprios movimentos. Foram os think tanks da direita americana que se apropriaram da expressão no início dos anos 90 para condenar o fervor com que as universidades tratavam certas lutas. A direita passou a chamar ativistas de intolerantes, os “novos fascistas", e adotou o termo “pc” como um projeto da esquerda para controlar corações e mentes -- algo que precisava ser urgentemente combatido. 
O divertido, além das teorias da conspiração, é que, para a direita, só um lado é político, só um lado é ideológico. Ideologia e doutrinação nunca é o que eles fazem, é o que fazem contra eles. Podemos traçar um paralelo entre a criação do termo “politicamente correto” com a mais recente “ideologia de gênero”, também uma “ideologia” criada pela direita para vilanizar toda uma linha de pensamento e área de pesquisa que visa desconstruir e questionar questões de gênero. A direita tem a mania de transformar problematizações em conspirações, questionamentos em censura.
Ele é real? Está presente nos dias de hoje? Em que situações?
Não gosto do termo “pc” porque ele é sempre pejorativo, foi criado para ser pejorativo. Mas existe na esquerda a preocupação de pensar a linguagem para que ela seja mais inclusiva, para que ela deixe de ofender grupos historicamente oprimidos. A linguagem é uma construção social em constante mudança. Termos são incorporados, abandonados, modificados, todo santo dia. A gente tem força e poder para mudar a forma como nos comunicamos. A gente pode deixar de usar um tipo de vocábulo porque ele é ofensivo a um grupo, só que isso exige reflexão, criatividade, e esforço. 
Se eu posso, através da escolha das minhas palavras, impedir que um grupo continue sendo marginalizado, eu vou tentar tomar mais cuidado. Por exemplo, faz apenas alguns anos que aprendi que o correto é dizer “homossexualidade”, e não “homossexualismo”, porque o sufixo -ismo neste caso pode remeter à doença, e porque não dizemos “heterossexualismo”, e sim “heterossexualidade”. Patinei nas primeiras vezes, mas aprendi. 
Outro exemplo é que podemos usar insultos “politicamente corretos” contra mulheres, usando ofensas unissex, digamos, e não aquelas que se referem a sua sexualidade (vagaba, piranha, vaca, galinha, vadia, mal comida etc) ou a sua aparência (mocreia, dragão, baranga). Afinal, “piranho” e “barango” não existem, são termos que só existem para ofender mulheres. Não estou subtraindo da língua a necessidade de ofender (que é real). Mas podemos escolher melhor os insultos para que eles não sejam machistas e homofóbicos. Não é fácil, porque tantos dos nossos palavrões são machistas ou capacitistas (chamar alguém de “retardado”, por exemplo), mas é possível.
Virou moda dizer que parte dos ataques a questões sociais sensíveis surgiu como reação à “ditadura do PC”: esse discurso se sustenta?
Claro que não. Não existe “ditadura do PC”. Existe o que a direita vê como uma conspiração dos “globalistas” ou dos “multiculturalistas” ou dos “marxistas culturais” em censurar o pensamento preconceituoso que os próprios conservadores veem como de direita. As pessoas sempre foram preconceituosas, e continuam sendo. 
Não há reação nenhuma nisso, muito menos transgressão. Os conservadores só deram um nome mais bonito para os seus preconceitos, “politicamente incorreto”. Mas o humor que fazem é idêntico ao que seus tataravôs faziam. Não tem nada de moderno. Como diz Laerte em um de seus muitos quadrinhos geniais, o politicamente incorreto é o consolo do prisioneiro. Quem está enclausurado nos seus preconceitos nunca será verdadeiramente livre. Reação é deixar de ser preconceituoso.
Trump é tido por muitos como politicamente incorreto. Temos algo parecido no Brasil? Qual é o perigo de se posicionar assim? O que seria um exemplo de discurso PC?
Num debate presidencial, Trump disse que o grande problema dos EUA era o politicamente correto. E disse depois que sua vitória foi uma reação contra os excessos do politicamente correto. Aqui no Brasil temos Jair Bolsonaro, o “nosso” Trump, que sempre xinga grupos historicamente oprimidos e ativistas que lutam por esses grupos. O perigo desse discurso é espalhar ignorância. Bolsonaro disse numa entrevista à atriz e ativista LGBT Ellen Page, por exemplo, que o número de gays havia aumentado no mundo (o que já é uma mentira) e que o motivo era que mais mulheres trabalhavam fora de casa, e assim não tinham tempo de educar corretamente os filhos. Quer dizer, essa besteira repercute internacionalmente, é vergonhoso. 
Já há estudos que mostram que só ter candidatos “politicamente incorretos” (ou abertamente preconceituosos), ainda que eles não ganhem (e Bolsonaro nunca será presidente, pode anotar), já aumenta o bullying nas escolas e a hostilidade na internet. Um seguidor dessas criaturas reacionárias observa atentamente seus ídolos e conclui que, se um candidato a presidente pode elogiar um torturador ou dizer para uma mulher que ela “não merece ser estuprada” (como se alguém merecesse), então ele, um mero anônimo nas redes sociais, também pode.
O discurso politicamente correto está presente também nas redes sociais? De que forma?
Não acho que esteja presente, mas muita gente hoje pensa um pouco antes de falar, para não repetir velhos preconceitos. É um aprendizado. Você aprende que deve dizer “a travesti”, não “o travesti”, e nunca “traveco”. Não é preciso ser exatamente um gênio para não chamar uma feminista de feminazi. Mas outras coisas são mais sutis e demandam reflexão. Tipo: chamar uma mulher de “histérica”. Se você sabe que essa expressão sempre foi designada para atacar mulheres, se você sabe que a palavra vem de “hister”, que significa útero, se você sabe que mulheres através dos tempos foram/são desqualificadas por serem vistas como irracionais e descontroladas, talvez você aposente o termo. Talvez não. É uma escolha, não uma imposição.
Ser politicamente correto aprimora ou empobrece a qualidade do seu discurso?
Pensar antes de falar pode ser estressante e difícil, mas aprimora o nosso discurso. Repetir preconceitos milenares sem pensar é que é empobrecedor. O mundo seria mesmo tão horrível, como juram alguns conservadores que acham que o politicamente correto está indo longe demais, se não pudéssemos mais chamar uma gorda de baleia, um gay de viado, um negro de macaco? Quer dizer, poder, pode, mas você pode ser chamado de babaca se usar esses termos cotidianamente na sua linguagem. 
Como ativista, já ouvi inúmeras vezes de quem se opõe ao meu ativismo que o politicamente correto é a pior praga da humanidade. Não é a fome, a guerra, a violência, a cultura do estupro (que eles sequer acham que existe) -- terrível mesmo é o politicamente correto. Mas devo dizer que nos últimos anos o termo “politicamente correto” tem caído em desuso, a meu ver. 
Hoje os que se opõem a quem combate preconceitos nos chamam pejorativamente de SJW, ou Social Justice Warrior (guerreiro da justiça social). E, novamente, para esses conservadores, o problema não é o machismo, o racismo ou a homofobia. O problema é quem luta contra o machismo, o racismo, a homofobia. Eles parecem crer que, se a gente não falasse mais em racismo, ele simplesmente desapareceria, como num passe de mágica.