Hoje de manhã compareci a uma coletiva de imprensa para divulgação dos dados de uma grande pesquisa.
Coordenada pelo prof. José Raimundo Carvalho, do Programa de Pós-Graduação em Economia da UFC, em parceria com o Instituto Maria da Penha, a Pesquisa de Condições Socioeconômicas e Violência Doméstica e Familiar contra a Mulher entrevistou dez mil nordestinas nas suas nove capitais.
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Treinamento das entrevistadoras em Fortaleza |
Toda a pesquisa foi feita digitalmente, sem papel. Cada entrevistadora (só mulheres foram contratadas, entre 25 e 35 para cada estado) recebeu 40 horas de treinamento e um tablet conectado a uma nuvem de dados. Cada entrevista levou cerca de uma hora e meia.
O resultado é perturbador: quase 3 em cada 10 nordestinas entre 15 e 49 anos já foram vítimas de violência doméstica ao longo da vida.
Uma em cada 10 nordestinas sofreu pelo menos um episódio de violência doméstica nos últimos 12 meses (leia o relatório aqui). E isso que a pesquisa foi realizada apenas nas capitais nordestinas. Acredita-se que a violência no interior dos estados seja três a cinco vezes maior.
Consideram-se cinco tipos de violência doméstica: psicológica, moral, física, sexual e patrimonial. A pesquisa considerou três: emocional, física e sexual. Só pra exemplificar: em Fortaleza, 27% das entrevistadas já sofreram violência emocional, 19% já sofreram violência física, e 7% já sofreram violência sexual.
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Uma das perguntas, para medir a percepção social da violência contra a mulher (ou seja, desmistificando que este é um assunto apenas do casal), foi: "Até onde você saiba, nos últimos 12 meses, alguma mulher da sua vizinhança ou do seu círculo social foi morta pelo marido/ parceiro/ namorado ou ex?" 6% responderam que sim.
Àquelas que responderam sim, foi perguntado se essa mulher morta deixou algum filho ou filha órfão. Mais de 71% responderam que sim. Como o prof. Carvalho disse na palestra, uma das preocupações de Maria da Penha (que também estava lá) é com os órfãos da violência, pois pouco se fala ou sabe deles. A mãe é assassinada, e esses filhos (dois, em média) ficam com quem? Na grande maioria dos casos, ficam com a família do homicida.
O relatório que foi apresentado hoje é o segundo, e concentra-se na violência doméstica e seu impacto no mercado de trabalho e na produtividade das mulheres (leia aqui). Eu já sabia, através de uma pesquisa nacional da Fundação Perseu Abramo realizada com 5 mil brasileiras em 2010, que um em cada cinco dias que uma mulher falta ao trabalho é por causa da violência doméstica. Mas o prof. Carvalho revelou outros dados, de acordo com sua pesquisa. Uma mulher que sofre violência doméstica falta, em média, 18 dias por ano ao trabalho. Além dos prejuízos físicos e emocionais que essas mulheres têm, o prejuízo financeiro é de todo o país, de toda a sociedade. Calcula-se que, nos EUA, o custo mínimo da violência doméstica seja de 2 bilhões de dólares por ano (mínimo porque essa estatística não inclui gastos médicos nem investigações policiais). No Brasil, o custo é de um bilhão de reais por ano.
A mulher nordestina que sofre violência doméstica fica 22% menos tempo num emprego do que a mulher que não é vítima de violência. E quem sofre ganha em média 8 reais a hora, contra quem não sofre, cuja média salarial é de 9 reais a hora. Ou seja: a nordestina vítima da violência doméstica ganha 10% menos de salário, fica menos num emprego, e fica menos tempo trabalhando (já que precisa procurar emprego).
Fortaleza tem a maior disparidade do nordeste entre o salário que recebe uma mulher que é vítima da violência e uma que não é vítima: 34% de diferença. Uma trabalhadora de Fortaleza que sofre violência recebe apenas R$ 6 a hora, em média.
A pesquisa também fez um recorte racial, e constatou que a mulher nordestina negra que sofre violência tem o pior salário. E, como é típico do nosso racismo, uma branca que sofre violência ganha mais que uma negra que não sofre violência. A nordestina negra que é vítima de violência tem o pior salário de todas.
O prof. Carvalho reforçou que a violência doméstica acontece em todas as camadas sociais e é um problema universal. Porém, a prevalência maior é entre a população mais pobre.
Um dado interessante foi sobre a ocupação com maior prevalência de violência doméstica: trabalhadoras nos serviços de embelezamento (cabeleireiras, por exemplo) e cuidados pessoais. 26% das trabalhadoras nesta ocupação sofrem violência doméstica. Entre as empregadas domésticas, o número cai para 16%.
É muito bom termos dados da nossa região. Para combater um problema, é preciso saber que ele existe e com que frequência acontece.
uma lei conhecida e aprovada por 98% das mulheres brasileiras. Mas sabemos que só uma lei não resolve a praga da violência doméstica. É preciso mudar a cultura.