sexta-feira, 4 de agosto de 2017

CARTA ABERTA AOS BATEDORES DE PANELA

Publico orgulhosamente o texto do Bruno de Almeida Silva, estudante de Administração e funcionário público, que já havia colaborado com outro ótimo post faz uns meses. Volte sempre, Bruno! 

Queridos batedores de panela, venho através deste veículo perguntar: vocês estão vendo o que está acontecendo no Brasil (ou só têm olhos para a Venezuela?)? Entendem o que o atual presidente está fazendo? Vocês são mesmo contra a corrupção ou o problema era só a Dilma e o PT?
Vou me apropriar desse espaço para falar de algo que, no momento, foge do óbvio! Não, não vou nem gastar meu precioso tempo falando da "flexibilização" (novo nome para precarização!) das leis do trabalho, PEC do teto, "reforma" (outro pseudônimo, criado pelo golpista Michel Temer, para precarização) do ensino médio, reforma da previdência, desmonte da ciência e tecnologia brasileira ou da lei de terceirização sem limites. Daqui a uns dois ou três anos, quando vocês sentirem o gosto de fel dessas medidas, voltamos a falar sobre isso! Quero falar hoje sobre funcionalismo público brasileiro!
Inicialmente, minha carteirada: sou servidor público desde 2008. Concurseiro, prestei entre os anos de 2007 a 2010 23 concursos públicos. Fui aprovado em oito (Secretaria de Administração Penitenciária, Prefeitura de Caçapava, Universidade de Taubaté, Companhia Paulista de Obras, Agência Nacional de Petróleo, Prefeitura de Pindamonhangaba, Prefeitura de Tremembé e Ministério de Ciência e Tecnologia). Detenho cursos na área de gestão pública, contabilidade pública e auditoria pública. Sou gestor de RH no órgão que trabalho. Além disso, em minha família existem dois policiais e um auditor de renda. Portanto, tenho alguma experiência na área pública.
Bem, vamos aos fatos: no Brasil a cada 100 trabalhadores, 12 são servidores públicos (incluindo políticos, juízes, policiais, militares das forças armadas, médicos, professores, garis e lixeiros das esferas federais, estaduais e municipais). Em países desenvolvidos como EUA e Alemanha, a cada 100 trabalhadores, 21 são servidores públicos. Já em países como Noruega e Dinamarca (melhores IDH's do mundo), a cada 100 trabalhadores, 33 são servidores públicos. O Brasil tem pouco mais de 2 milhões de funcionários públicos. Dentre esses, pouco mais de 600 mil são os chamados "servidores nomeados" (não passaram em concurso público, geralmente são indicados por políticos). 
Perto de 39,2% de tudo o que o Estado Brasileiro arrecada é gasto com a folha de pagamento desse servidores. As maiores remunerações do serviço público brasileiro são: políticos, juízes, procuradores e os servidores nomeados (somam-se às remunerações: auxílios moradia, creche, terno, transporte, alimentação e mais um sem-número de penduricalhos). 
Cabe aqui um disclaimer: quando o Governo Federal presta informação de que gastou R$ 109 bilhões em 2016 com saúde, encontra-se nessa cifra toda a folha de pagamento de servidores que atuam na “pasta” ou Ministério da Saúde (médicos, enfermeiros, recepcionistas, farmacêuticos e faxineiros), manutenção de hospitais e UPA's (luz, água, produtos de limpeza e higiene, equipamentos médicos), gastos com subsídios de remédios, logística, investimentos em expansão e modernização das unidades de atendimento à população, gastos com os procedimentos médicos adotados no trato da população, vacinas, propaganda... enfim, tudo que se relaciona com o Ministério da Saúde está abarcado nessa cifra de R$ 109 bilhões. Tal lógica se aplica a todos os demais gastos do governo (educação, previdência, segurança pública).
No último ano, algo em torno de 50% de toda a arrecadação foi utilizada em gastos com a dívida pública. E a outra metade do que foi arrecadado, gasta com saúde, educação, segurança pública... Nosso governo paga um dos melhores juros do mundo aos seus especuladores. Somos a ilha da fantasia para especuladores estrangeiros. Notem que somos atrativos para especuladores e não investidores. Só para se ter uma ideia, fiz um teste nesse ano e adquiri em 23/01/2017 alguns títulos do tesouro (Tesouro Prefixado 2023 - LTN). O rendimento apurado até hoje (30/07/2017) foi de 14,41%.
Agora, analise: o governo, com a PEC do teto, vai impedir o aumento e/ou reajuste salarial de servidores públicos federais. As cláusulas limitantes aos Estados e municípios vai impor aos servidores públicos dessas esferas perdas salariais ainda mais impactantes. Se o serviço público se tornar desinteressante, dentro de alguns anos passaremos a perder nossos melhores profissionais. A maior parte do gasto com servidores públicos é feita com servidores que impactam pouco ou negativamente a vida do cidadão brasileiro médio. Se juízes, políticos, procuradores e servidores nomeados deixassem de receber tantos auxílios e vivessem como nós (gente normal!) vivemos (só com o nosso salário!), a folha de pagamento do Estado Brasileiro diminuiria muito. Se nosso governo negociasse os juros da dívida pública e/ou pagasse menos juros aos rentistas, seria possível investir mais em educação, saúde e segurança.
Por fim, algumas especulações: quando um policial ganha pouco e tem poucos recursos e treinamento, quem sofre? Quando uma professora ganha mal e a escola pública é mal estruturada, quem sofre? Quando falta médico no posto de saúde do bairro, quem sofre? Quando falta remédio na farmácia popular, quem sofre? Quando nossos pesquisadores e cientistas levam suas pesquisas para outros países e lá desenvolvem produtos revolucionários que geram patentes que encarecem esses mesmos produtos (acredite, isso acontece muito!), quem sofre? Quando só acessamos determinados tratamentos de saúde em outros países, quem sofre? Quando a cesta básica é super tributada para ajudar a pagar os gastos do governo, quem sofre? Quando nossos melhores profissionais deixam de atuar na gestão pública e passam a atuar a favor de corporações que são, em sua maioria, movidas pelo lucro, quem sofre? 
Se a sua resposta foi “gente pobre” para a maioria das perguntas acima, você acertou e errou ao mesmo tempo. Ninguém que ganha um ou dois salários mínimos consegue pagar segurança (seguros, condomínio, carro blindado, segurança particular), plano de saúde, remédios, escola para os filhos, luz, água, vestimenta e ainda comer no mesmo mês (se alguém conseguir, topo pagar para ter umas aulas!). 
Só mais um dado: a média salarial do brasileiro economicamente ativo é de R$ 1.853,00. Então querido batedor-de-panela, você ou pessoas da sua família provavelmente usam a segurança pública, a saúde pública e a educação pública. Em suma: somos todos “usuários” dos serviços do Estado!
Só para evitar falatórios deselegantes, deixo uma última informação: não me venha com essa de que que votou na Dilma, votou no Temer (dando a entender que com o Aécio seria diferente ou que a Dilma faria o que o Temer está fazendo) por dois motivos: 1) a plataforma de governo sob a qual a Dilma foi eleita não contemplava nada sobre o desmonte dos serviços públicos (quero frisar que votei em Dilma Rousseff, e se ela estivesse promovendo o desmonte do Estado Brasileiro, eu também a criticaria, pois sou de esquerda e acredito no welfare state); 2) o candidato do PSDB faria igual ou pior, tendo em vista os governos FHC e o fato de que os servidores do Estado de São Paulo, que mesmo atuando no estado responsável por 1/3 da arrecadação nacional, recebem um salário compatível com os salários praticados em outros estados da Federação e atuam em situações tão precárias quanto qualquer servidor público no Brasil.
Para terminar esse meu falatório: por favor, batedores de panela, voltem! Nunca achei que diria isso, mas precisamos de vocês! Na realidade, o “vocês do futuro” precisa do “vocês” de agora! Manifestem-se! Batam panelas! Quero ver a polícia prestar continência para vocês novamente! Quero ver gente no telhado do Palácio do Planalto! Quero ver aquela gente bonita tomando champanhe no meio da manifestação! Quero ver aquela multidão de pessoas com camisa da CBF na paulista! Não ligo se o pato da FIESP estar lá também! Para falar a verdade, do jeito que as coisas estão indo, relevo até a presença do “pixuleco”! Minha única restrição é a galerinha do PSDB e a garotada do MBL. E só são restrição porque se eles se criarem agora, num futuro próximo estaremos na mesma situação!
Como diria Fábio Jr: Volta! Vem viver outra vez ao meu lado!
PS: Escrevi este texto no domingo, antes da vergonhosa votação que decidiu que o presidente golpista não será investigado (sério, precisou uma votação para isso!). Essa votação é um salvo-conduto para todo o desmonte do aparato social que protege os brasileiros menos favorecidos. Parabéns mais uma vez, batedores de panela! Se a intenção era construir um Brasil melhor e menos corrupto, vocês falharam miseravelmente!

quinta-feira, 3 de agosto de 2017

MISÓGINOS ATACAM EDITORA DA MARVEL POR CAUSA DE UMA SELFIE COM MILKSHAKE

Aconteceu na semana passada, com grande repercussão agora.
Na última sexta de julho, uma editora da Marvel postou uma selfie com suas colegas, todas tomando um milkshake. Uma foto inocente que não deveria gerar nada além de "Que demais!" recebeu um monte de comentários machistas de caras patéticos que não aceitam que existam mulheres no mercado de quadrinhos. 
A gente sabe bem como é. Há uns dois anos, a jornalista Ana Freitas escreveu um texto perfeitamente ponderado sobre nerds e machismo. Ela passou os meses seguintes sendo atacada por nerds misóginos para provar que tinha razão.
Sobre o caso da editora da Marvel, um texto muito bacana foi publicado na Mary Sue, e a Ester, que "de dia trabalha criando estampas e desenvolvendo produtos pra sua loja pet, e à noite é uma feminista geek SJW que caça trolls no twitter, além de ser mãe de gatos, cachorros e da Gigi", se ofereceu para traduzi-lo. 
Antes de ler o artigo, saiba que, mais uma vez, os trolls perderam (mas eles estão acostumados, né?). O assédio e insultos que as editoras receberam se transformou numa super campanha, #MakeMineMilkshake (algo como "Faça meu milkshake"), em que inúmeras pessoas posaram com milkshake mostrando seu apoio às mulheres.
(No post, não vou colocar imagens dos insultos. Apenas da linda reação a eles).

Editora de quadrinhos da Marvel sofre assédio por postar selfie com colegas de trabalho (o problema do sexismo na indústria de quadrinhos).
Trolls não têm algo melhor para fazer
com suas vidas?
(A resposta é: não)
Na sexta-feira, 28 de julho, Heather Antos, editora de The Unbelievable Gwenpool, postou no Twitter uma adorável selfie com as colegas de trabalho. E então, como qualquer pessoa emocionalmente bem ajustada faria, um grupo de homens -- em sua maioria -- decidiu assediá-la por tweets e DM. Por causa de uma selfie das amigas tomando milkshakes. Os comentários incluíam muitos dos xingamentos usuais e misoginia: “falsas geek” [geek; gíria para pessoas peculiares ou excêntricas, fãs de tecnologia, eletrônica, jogos eletrônicos ou de tabuleiro, histórias em quadrinhos, livros, filmes, animes e séries],“a mais assustadora coleção de SJW estereotipados que alguém poderia imaginar”[SJW: social justice warrior, guerreiro da justiça social, termo pejorativo usado para se referir a pessoas que possuem visões socialmente progressistas, incluindo feminismo e direitos LGBT], “Caramba, não consigo imaginar por que as vendas da Marvel estão na merda”. Essas foram as mensagens públicas. Outros atacaram Antos através de DMs.
Heather Antos comentou o assédio na sua timeline: “A Internet é um lugar medonho, horrível e nojento. Como eu ouso publicar uma foto de minhas amigas na internet sem esperar ser intimidada, insultada, perseguida e transformada em alvo? Hoje acordei com uma enorme quantidade de tweets e DMs de lixo. Por ser uma mulher. Dos quadrinhos. Que publicou uma selfie com suas amigas tomando milkshake.”
Nós já sabemos que os trolls reagem de maneira monstruosa quando as mulheres defendem a diversidade. Chelsea Cain, a autora de Mockingbird, abandonou o Twitter após ousar escrever o seguinte, inócuo e agora deletado, tweet: “Por favor comprem a Mockingbird #8 esta quarta-feira. Envie para a @marvel a mensagem de que há espaço nos quadrinhos para histórias de super-heróis sobre mulheres adultas.”
Zainab Akhtar encerrou seu site de crítica de quadrinhos, indicado ao prêmio Eisner, o Comics and Cola, por causa de ataques racistas, sexistas e islamofóbicos. Anita Sarkeesian recebeu ameaças de bomba por investigar o sexismo nos vídeo games. Leslie Jones foi perseguida por racistas no Twitter e hackeada porque ousou interpretar uma mulher negra em Ghostbusters.
Quando esse tipo de assédio acontece, os advogados do diabo surgem do nada, dizendo que os assediadores estão reagindo a mudanças em seus personagens favoritos ou legitimamente criticando as posições políticas da mulher, ou então, simplesmente expressando suas opiniões. Esta é a sempre óbvia tentativa de proporcionar uma desculpa mais palatável para a misoginia desenfreada e/ou racismo. Mas o assédio em torno da selfie de Heather Antos torna ainda mais descaradamente óbvia qual é a verdadeira motivação. É assédio por existir. Por ousar sorrir e gostar de fazer quadrinhos quando se é mulher. É um assédio alimentado por pura raiva ao ver um monte de mulheres editando quadrinhos e se divertindo em seu trabalho.
Esta vai para todos os bebês-
chorões adultos que se sentiram
ameaçados por mulheres se
divertindo. Que vocês calem a
droga da sua boca
Quando falamos sobre o sexismo generalizado nos quadrinhos, é isso que queremos dizer. Queremos dizer que alguns "fãs" são tão misóginos e se sentem tão ameaçados pela ideia de mulheres na indústria, que uma selfie desencadeia esse comportamento. Essa raiva é ainda pior se você for uma mulher trans, ou uma mulher negra, ou uma mulher com deficiência. Não há nada que as mulheres possam fazer para se proteger -- modificar nosso comportamento, ignorar os trolls, ou ainda tentar conversar -- que possivelmente satisfaça ou pacifique essas pessoas que odeiam a nossa presença. Porque a única coisa que realmente os acalmaria seria deixarmos de existir, publicamente e com alegria, em espaços nerd.
E não, nós não vamos fazer isso.

quarta-feira, 2 de agosto de 2017

AS GANGUES VIRTUAIS QUE CONHEÇO MUITO BEM

A revista Veja desta semana traz uma reportagem de capa sobre gangues virtuais de candidatos a presidente, e me cita. Chama-se "Temporada de cachorro louco"; pode ser lida aqui.
Eu já fui entrevistada por todos os principais veículos da imprensa nacional, mas acho que pela Veja, foi a primeira vez. Vou contar como foi e comentar um pouquinho da matéria, que obviamente tem problemas. O principal é colocar no mesmo balaio os seguidores de Lula, Dória e Bolsonaro, se bem que o jornalista menciona o óbvio -- que o "exército virtual" ligado a Bolso é o "mais raivoso". Não há a menor dúvida disso.
Outro problema é que dá para comparar um site como o Jornalivre, mantido pelo MBL (Movimento Brasil Livre, que por sua vez é apadrinhado pelos bilionários irmãos Koch), especializado em publicar "fake news" para atacar pessoas de esquerda, com um site sério como o Tijolaço
E dizer que alguns blogs de esquerda são, ou eram, "patrocinados" por governos do PT é tão verdadeiro quanto admitir que toda a grande mídia, incluindo a Veja, é "patrocinada" pelo governo, já que é paga para veicular anúncios de órgãos do governo. Ligue a TV e veja quantos comerciais são de instituições governamentais. Agora imagine a receita das emissoras sem essa verba. Iriam à falência. A mesma coisa com as revistas e jornais. 
Durante anos reaças espalharam que eu sou bancada pelo PT (e também pelo Soros que, segundo eles, financia as feministas). Euzinha, que sequer sou filiada a algum partido, e cujo blog não tem anúncios. Nos últimos tempos eles desistiram e passaram a postar prints do meu salário como professora de universidade pública, que está disponível no Portal Transparência. Depois do golpe eles ficaram confusos, porque a "lógica" era que eu, por ser servidora pública, servia ao PT. Agora que o PT não é mais governo, eles não sabem exatamente a quem eu sirvo, mas ficam indignados se peço doações a minhas leitoras e leitores. 
Enfim. Na quinta passada, um repórter simpático da Veja (não o mesmo que assina a matéria) entrou em contato comigo para falar sobre os ataques e ameaças que eu "recebia". Eu gosto como todo mundo que me pergunta sobre isso usa o verbo no passado, como se não fosse algo atual e constante. 
Reaças negociando (clique para ampliar)
Uma das primeiras coisas que eu falei é que costumo diferenciar insultos de ameaças.
Insultos eu recebo diariamente, talvez dezenas de vezes por dia. É gente me chamando de gorda, baranga, mocreia, mal-amada, mau caráter, etc etc. Nada muito diferente do que é vivenciado pela maior parte das mulheres na net. As ofensas são quase sempre relacionadas à aparência ou vida sexual, típico das ofensas dirigidas às mulheres, principalmente às feministas
Eu chamo essa turma de 4a Série B, porque passar o tempo xingando uma mulher de "feia, boba, chata" é algo bem infantil mesmo. Suponho que, quando o moleque passa pra 5a série, ele deixa essas besteiras de lado. E chamo de série B porque imagino que a série A seja mais madura. 
Já as ameaças são um pouco mais pesadas. Infelizmente, elas também são praticamente diárias. Começaram em 2010 ou 2011 e desde então não pararam mais. 
São recompensas para quem me matar, avisos de que quando eu palestrar em tal lugar haverá um atentado, ameaças detalhadas de morte e estupro, divulgação do meu endereço residencial, fotos da fachada da minha casa, telefonemas... 
São literalmente milhares de ameaças. Fiz dez boletins de ocorrência, o primeiro em janeiro de 2012, mas o inquérito só foi aberto em abril deste ano, e sei lá se está havendo alguma investigação (na Polícia Federal está, porque o reitor da UFC recebeu um email dois dias antes do natal dizendo que, se eu não fosse exonerada, explosivos seriam detonados na universidade). 
Grande parte dessas ameaças vem de um grupinho de misóginos neonazistas, dois dos quais já foram presos e condenados em 2012 (mas soltos em 2013). Todo mundo sabe quem eles são, a polícia os conhece pelo primeiro nome, tamanho o volume de denúncias, mas, por algum mistério, toda a quadrilha continua livre. 
Dez minutos depois de eu citar a matéria da Veja, recebi esta ameaça
por email (clique para ampliar)
Em comum entre os dois grupos está a ideologia. Desde o começo do meu blog, há quase dez anos, praticamente todos os meus trolls seguem o mesmo padrão: são homens, brancos, héteros, machistas, racistas, homofóbicos, e de extrema direita. Eles não me odeiam porque eu sou a Lola (nem me conhecem, ainda bem!); me odeiam porque sou mulher, feminista, de esquerda, tenho voz, e não me calo. Os esforços são sempre para tentar me silenciar.
Entre os insultos da 4a Série B e as ameaças de morte, estupro, tortura e desmembramento (estendidas também ao meu marido e a minha mãe) vem várias atitudes que renderiam bons processos, como um cara fazer vídeo dizendo que eu sou sua mãe, que o abandonei quando ele era bebê para me dedicar à "essa causa maligna" (o feminismo), 
outro fazer vídeo jurando que eu abusei sexualmente dele no banheiro de um congresso escolar em Sergipe (onde nunca estive), um outro fazer vídeo afirmando que ele é meu aluno e que eu exigi sexo para não reprová-lo (certeza absoluta que o cara nunca pisou numa faculdade). 
E o que tudo isso tem a ver com Bolsonaro? Bom, adivinha em quem todos esses caras vão votar? Adivinha com quem eles se identificam?
Assim como nos EUA, onde um bando de fascistas se sentiram (e continuam se sentindo) representadíssimos por Trump, Bolso é o candidato que os trolls pediram a deus. Seus seguidores não adoram Bolsonaro apesar das falas preconceituosas que ele emite; eles o adoram por causa dessas falas. Eles se sentem legitimados -- se um político com repercussão nacional pode disparar todas essas asneiras e ainda ser eleito presidente (não, não pode, e não será), o céu é o limite pra eles, quase todos anônimos, escondidos por trás de fakes (esse pessoal anônimo é muito valente, legítimos Rambos dos teclados).
Tenho certeza que um candidato como Bolsonaro tem grupos organizados que atuam para atacar quem o critica. E não é que ele não está envolvido. Tá sim. 
Por exemplo: muito antes do Escola sem Partido virar modinha entre conservadores (em 2015) ou do vereador Fernando Holiday invadir escolas em SP para "fiscalizar" se os alunos estavam sendo doutrinados (em abril último), o gabinete de Bolsonaro na Câmara já fazia e divulgava vídeos difamatórios. Um deles, de 2012, editou a fala da psicóloga e professora Tatiana Lionço numa palestra para fazer com que ela parecesse pedófila. Na descrição do vídeo, o próprio Bolso opinava: "Quem acha que essa mulher deveria está (sic) na cadeia compartilha". Milhões compartilharam e atacaram Tatiana.
Sabe o que aconteceu com o nobre deputado e presidenciável por fazer um vídeo difamando professores? Nada, ué. Ele tem im(p)unidade parlamentar. 
Esses dias me contaram que um de seus filhos, Eduardo Bolsonaro, 
também deputado federal, tem como um de seus assessores contratados um sujeito conhecido pelo sua virulência. Há anos que o cara ataca com grande afinco em seu perfil no Twitter qualquer pessoa de esquerda. Será que o cara, depois de contratado por um deputado, atenuou seu discurso de ódio? Que nada. Imagino que ele foi contratado por conta desse discurso. 
Ele é um dos muitos que me atacam frequentemente no Twitter. Há vários. Que eles fazem parte de grupos organizados, não tenho dúvida. A dúvida é apenas se eles são pagos por políticos de direita ou se fazem isso voluntariamente, por devoção à causa. Um deles, que teve um tuíte reproduzido na matéria da Veja, se autointitula Inês Bolsonaro. Não sei quando surgiu, mas ele (obviamente não é uma mulher) me ataca no mínimo há um ano. Ininterruptamente.
No começo, confundi o perfil com o de uma outra reaça que também assina com sobrenome Bolsonaro e que está sendo investigada pelo Ministério Público por ter organizado uma invasão à UnB, em junho do ano passado. Bloqueei "Ines" imediatamente, como faço com qualquer reaça no Twitter, mas ele continuou indo atrás de praticamente todo tuíte que troco com alguém. Até aí, que se dane. O problema é atacar as pessoas que falam comigo no Twitter. Ou fazer perfis falsos no meu nome. Ou tuítes falsos, que nunca escrevi. 
No final do ano, "Ines" partiu pras ameaças: disse que eu não passaria do natal. E prometeu destruir minha vida.
E vem se empenhando. 
Já no início de janeiro, ele abriu uma conta com meu nome e foto no Curious Cat, e todo dia passa mensagens de cunho sexual para o pessoal daquela rede social, que pelo jeito é majoritariamente menor de idade. Quer dizer, eu sou uma mulher casada, 50 anos, professora universitária, sem o menor interesse sexual por adolescentes desde os meus 19 anos, e lá estou eu numa rede social que nunca havia ouvido falar implorando pra transar com pré-adolescentes.

Como eu já disse várias vezes, é uma luta desleal: eu sou uma pessoa de verdade, com rosto, nome completo, endereço de trabalho, e quem me ataca quase sempre é fake. 
Em julho, recebi um tuíte de um perfil (@casacaindo) que disse que queria me enviar informações sobre quem é esse Ines. Respondi para mandar pro meu email (e sem querer, distraída, dei o endereço errado; meu email não tem .com). O perfil me enviou fotos dizendo que Ines seria Paulo, de Santa Bárbara do Oeste, SP, e depois mudou pra Caio. Hoje um outro perfil me disse que Ines é sem dúvida Fabiano, apelido Byanu, auxiliar administrativo e morador do bairro Jardim Europa, em Sta. Bárbara.
Nem sei o que fazer com essa informação. Processar um reaça patético? Processar demora anos, custa dinheiro... Sei disso porque estou respondendo a três processos (dois dos mascus que foram presos e condenados em 2012). 
No final de julho Ines, ou Fabiano, pegou um pedaço de um filme de zumbis e o legendou para que "Lola" fosse uma moça gorda que vira zumbi, e no final é (re)morta com um arpão no olho. E, pra que não houvesse dúvida a qual "Lola" Ines/Fabiano se refere, ele fez vários tuítes com meu perfil. E pra mostrar como reaças agem em bando, o Jornalivre fez um post sobre o vídeo do Ines!
Sinceramente? Não dou a mínima. O que me comove é o esforço que eles fazem pra me atacar. Imagina só quanto tempo essa gente gasta pra todo dia me xingar. Sinal que eu importo muito pra eles. 
E se eu mereço tanta atenção de gentinha tão tacanha e ignorante, é sinal de que alguma coisa eu estou fazendo certo.