Publico orgulhosamente o texto do Bruno de Almeida Silva, estudante de Administração e funcionário público, que já havia colaborado com outro ótimo post faz uns meses. Volte sempre, Bruno!
Queridos batedores de panela, venho através deste veículo perguntar: vocês estão vendo o que está acontecendo no Brasil (ou só têm olhos para a Venezuela?)? Entendem o que o atual presidente está fazendo? Vocês são mesmo contra a corrupção ou o problema era só a Dilma e o PT?
Vou me apropriar desse espaço para falar de algo que, no momento, foge do óbvio! Não, não vou nem gastar meu precioso tempo falando da "flexibilização" (novo nome para precarização!) das leis do trabalho, PEC do teto, "reforma" (outro pseudônimo, criado pelo golpista Michel Temer, para precarização) do ensino médio, reforma da previdência, desmonte da ciência e tecnologia brasileira ou da lei de terceirização sem limites. Daqui a uns dois ou três anos, quando vocês sentirem o gosto de fel dessas medidas, voltamos a falar sobre isso! Quero falar hoje sobre funcionalismo público brasileiro!
Inicialmente, minha carteirada: sou servidor público desde 2008. Concurseiro, prestei entre os anos de 2007 a 2010 23 concursos públicos. Fui aprovado em oito (Secretaria de Administração Penitenciária, Prefeitura de Caçapava, Universidade de Taubaté, Companhia Paulista de Obras, Agência Nacional de Petróleo, Prefeitura de Pindamonhangaba, Prefeitura de Tremembé e Ministério de Ciência e Tecnologia). Detenho cursos na área de gestão pública, contabilidade pública e auditoria pública. Sou gestor de RH no órgão que trabalho. Além disso, em minha família existem dois policiais e um auditor de renda. Portanto, tenho alguma experiência na área pública.
Bem, vamos aos fatos: no Brasil a cada 100 trabalhadores, 12 são servidores públicos (incluindo políticos, juízes, policiais, militares das forças armadas, médicos, professores, garis e lixeiros das esferas federais, estaduais e municipais). Em países desenvolvidos como EUA e Alemanha, a cada 100 trabalhadores, 21 são servidores públicos. Já em países como Noruega e Dinamarca (melhores IDH's do mundo), a cada 100 trabalhadores, 33 são servidores públicos. O Brasil tem pouco mais de 2 milhões de funcionários públicos. Dentre esses, pouco mais de 600 mil são os chamados "servidores nomeados" (não passaram em concurso público, geralmente são indicados por políticos).
Perto de 39,2% de tudo o que o Estado Brasileiro arrecada é gasto com a folha de pagamento desse servidores. As maiores remunerações do serviço público brasileiro são: políticos, juízes, procuradores e os servidores nomeados (somam-se às remunerações: auxílios moradia, creche, terno, transporte, alimentação e mais um sem-número de penduricalhos).
Cabe aqui um disclaimer: quando o Governo Federal presta informação de que gastou R$ 109 bilhões em 2016 com saúde, encontra-se nessa cifra toda a folha de pagamento de servidores que atuam na “pasta” ou Ministério da Saúde (médicos, enfermeiros, recepcionistas, farmacêuticos e faxineiros), manutenção de hospitais e UPA's (luz, água, produtos de limpeza e higiene, equipamentos médicos), gastos com subsídios de remédios, logística, investimentos em expansão e modernização das unidades de atendimento à população, gastos com os procedimentos médicos adotados no trato da população, vacinas, propaganda... enfim, tudo que se relaciona com o Ministério da Saúde está abarcado nessa cifra de R$ 109 bilhões. Tal lógica se aplica a todos os demais gastos do governo (educação, previdência, segurança pública).
No último ano, algo em torno de 50% de toda a arrecadação foi utilizada em gastos com a dívida pública. E a outra metade do que foi arrecadado, gasta com saúde, educação, segurança pública... Nosso governo paga um dos melhores juros do mundo aos seus especuladores. Somos a ilha da fantasia para especuladores estrangeiros. Notem que somos atrativos para especuladores e não investidores. Só para se ter uma ideia, fiz um teste nesse ano e adquiri em 23/01/2017 alguns títulos do tesouro (Tesouro Prefixado 2023 - LTN). O rendimento apurado até hoje (30/07/2017) foi de 14,41%.
Agora, analise: o governo, com a PEC do teto, vai impedir o aumento e/ou reajuste salarial de servidores públicos federais. As cláusulas limitantes aos Estados e municípios vai impor aos servidores públicos dessas esferas perdas salariais ainda mais impactantes. Se o serviço público se tornar desinteressante, dentro de alguns anos passaremos a perder nossos melhores profissionais. A maior parte do gasto com servidores públicos é feita com servidores que impactam pouco ou negativamente a vida do cidadão brasileiro médio. Se juízes, políticos, procuradores e servidores nomeados deixassem de receber tantos auxílios e vivessem como nós (gente normal!) vivemos (só com o nosso salário!), a folha de pagamento do Estado Brasileiro diminuiria muito. Se nosso governo negociasse os juros da dívida pública e/ou pagasse menos juros aos rentistas, seria possível investir mais em educação, saúde e segurança.
Por fim, algumas especulações: quando um policial ganha pouco e tem poucos recursos e treinamento, quem sofre? Quando uma professora ganha mal e a escola pública é mal estruturada, quem sofre? Quando falta médico no posto de saúde do bairro, quem sofre? Quando falta remédio na farmácia popular, quem sofre? Quando nossos pesquisadores e cientistas levam suas pesquisas para outros países e lá desenvolvem produtos revolucionários que geram patentes que encarecem esses mesmos produtos (acredite, isso acontece muito!), quem sofre? Quando só acessamos determinados tratamentos de saúde em outros países, quem sofre? Quando a cesta básica é super tributada para ajudar a pagar os gastos do governo, quem sofre? Quando nossos melhores profissionais deixam de atuar na gestão pública e passam a atuar a favor de corporações que são, em sua maioria, movidas pelo lucro, quem sofre?
Se a sua resposta foi “gente pobre” para a maioria das perguntas acima, você acertou e errou ao mesmo tempo. Ninguém que ganha um ou dois salários mínimos consegue pagar segurança (seguros, condomínio, carro blindado, segurança particular), plano de saúde, remédios, escola para os filhos, luz, água, vestimenta e ainda comer no mesmo mês (se alguém conseguir, topo pagar para ter umas aulas!).
Só mais um dado: a média salarial do brasileiro economicamente ativo é de R$ 1.853,00. Então querido batedor-de-panela, você ou pessoas da sua família provavelmente usam a segurança pública, a saúde pública e a educação pública. Em suma: somos todos “usuários” dos serviços do Estado!
Só para evitar falatórios deselegantes, deixo uma última informação: não me venha com essa de que que votou na Dilma, votou no Temer (dando a entender que com o Aécio seria diferente ou que a Dilma faria o que o Temer está fazendo) por dois motivos: 1) a plataforma de governo sob a qual a Dilma foi eleita não contemplava nada sobre o desmonte dos serviços públicos (quero frisar que votei em Dilma Rousseff, e se ela estivesse promovendo o desmonte do Estado Brasileiro, eu também a criticaria, pois sou de esquerda e acredito no welfare state); 2) o candidato do PSDB faria igual ou pior, tendo em vista os governos FHC e o fato de que os servidores do Estado de São Paulo, que mesmo atuando no estado responsável por 1/3 da arrecadação nacional, recebem um salário compatível com os salários praticados em outros estados da Federação e atuam em situações tão precárias quanto qualquer servidor público no Brasil.
Para terminar esse meu falatório: por favor, batedores de panela, voltem! Nunca achei que diria isso, mas precisamos de vocês! Na realidade, o “vocês do futuro” precisa do “vocês” de agora! Manifestem-se! Batam panelas! Quero ver a polícia prestar continência para vocês novamente! Quero ver gente no telhado do Palácio do Planalto! Quero ver aquela gente bonita tomando champanhe no meio da manifestação! Quero ver aquela multidão de pessoas com camisa da CBF na paulista! Não ligo se o pato da FIESP estar lá também! Para falar a verdade, do jeito que as coisas estão indo, relevo até a presença do “pixuleco”! Minha única restrição é a galerinha do PSDB e a garotada do MBL. E só são restrição porque se eles se criarem agora, num futuro próximo estaremos na mesma situação!
Como diria Fábio Jr: Volta! Vem viver outra vez ao meu lado!
PS: Escrevi este texto no domingo, antes da vergonhosa votação que decidiu que o presidente golpista não será investigado (sério, precisou uma votação para isso!). Essa votação é um salvo-conduto para todo o desmonte do aparato social que protege os brasileiros menos favorecidos. Parabéns mais uma vez, batedores de panela! Se a intenção era construir um Brasil melhor e menos corrupto, vocês falharam miseravelmente!






































