sexta-feira, 7 de julho de 2017

LÓGICA DOS INIMIGOS: ESTOU SENDO PROCESSADA, PRECISO DEIXAR DE VIVER

Eu ia postar aqui um texto cheio de dicas fantásticas sobre Cuba que uma professora mandou pra mim (eu e o maridão vamos pra Cuba em dezembro), mas vou deixar pra semana que vem.
É que tem um troll chato (qual troll não é?), ou mais de um, enchendo o útero. Em geral não respondo esses crapulentos, mas se eu publicar um texto sobre viagem, os energúmenos lotarão a caixa de comentários xingando que eu tenha a ousadia de querer viajar mesmo sendo processada, e xingarão leitoras e leitores que doam pra este bloguinho. Como se a gente tivesse que deixar de viver por estar respondendo a processo!
O líder da quadrilha mascu (que está me processando) passou anos dizendo no seu chan que não iria me processar porque eu não tinha onde cair morta, que eu vivia na miséria, num barraco, que eu gastava todo meu dinheiro com comida e sustentando meu marido
(que, segundo mascus, esses especialistas em trabalho -- praticamente todos são sustentados pelas mamis -- não trabalha, pois como alguém poderia viver dando aula e jogando xadrez? Maridão vive disso há 45 anos), e sei lá mais o quê. O mascu disse que chegou a consultar um advogado para me investigar e o profissional afirmou que eu era pobre de marré, marré, marré.
Juro que eu preferia quando ele pensava assim. Mas, infelizmente, como esse criminoso (que espero que volte pra prisão em breve) passa os dias ociosos procurando informações sobre mim, ele chegou num parecer de um juiz sobre um processo que nem eu tinha visto. É um desses processos antigos, coletivos. Acho que abrimos em 2008, quando vivíamos em Joinville. É de quem tinha linha telefônica nos anos 90 (quando elas valiam ouro; lembro que teve uma época que eu pagava aluguel de telefone) e vendeu a linha sem receber pelas ações. Nem sei como está esse processo. Tenho fé que algum dia a gente ganhe 2 mil reais de indenização, se tanto. 
Mas o mascu descobriu que, ano passado ou retrasado, um juiz dessa ação negou gratuidade de justiça a mim (sabiam que até o Aécio conseguiu gratuidade?) pedida por um advogado que nem conheço (porque a ação é coletiva), porque, segundo informações, eu possuía um "grande montante em tesouro direto, ações e aplicações financeiras". O que pode ser considerado um "grande montante" varia muito, mesmo para um juiz, imagino, mas para o mascu o parecer do juiz foi suficiente: de um dia pro outro eu passei de "gorda porca que não tem onde cair morta" para "rica burguesa esquerda caviar". E uns meses depois ele entrou com um processo contra mim (foi uma grande decepção pra ele quando a juíza determinou que eu não teria que ir pra Curitiba responder; agora ele abandonou a ação no Juizado Especial e entrou ou vai entrar com outra na Vara Comum, exigindo indenização de 60 mil a 100 mil reais, dependendo do seu humor no dia). 
Tem uma coisa que as pessoas não percebem: entrar com um processo não significa que a pessoa vai ganhar. O cara de esquerda pedindo 300 mil reais de mim deve saber que não existe jurisprudência de uma professora ser condenada nesse valor. Só pra efeito de comparação, os parentes de vítimas do voo 1907 da Gol foram indenizados pela justiça pela morte de seus familiares em 100 mil reais. E, que eu saiba, eu não matei ninguém.
A situação é tão surreal que ontem o mascu em questão postou no seu chan um email que mandou (ou disse ter mandado) ao cara de esquerda. Seria bonito ver um homem de esquerda que se dizia feminista se juntar ao maior criminoso da internet (que, além de toda a misoginia que lhe é peculiar, tem a honra de ter sido o primeiro condenado por racismo cibernético no Brasil). O mascu escreveu que tinha "fontes confiáveis" de que eu estaria me desfazendo dos meus bens para não ter que pagar indenização, e que ambos deveriam entrar com uma cautelar para bloquear qualquer movimentação.
Ha ha, eu ri alto quando li isso! "Fontes confiáveis" = seu (segunda sílaba de mascu). Esses caras se confundem. Acham que eu sou uma criminosa como eles. Por que eu tiraria meu dinheiro, dinheiro que ganhei legalmente, através de salário que recebo desde que comecei a trabalhar, aos 18 anos, tudo declarado em imposto de renda, para colocar numa conta em outro nome, por causa de processos que eu acredito que não vou perder -- e, se perder, sei que posso contar com a colaboração de muitas leitoras e leitores que apreciam o meu trabalho e sabem que não fiz nada de errado?
Eu e meu marido juntamos dinheiro há muitas décadas, desde que começamos a trabalhar, por dois motivos principais: primeiro que gastamos pouco (não ter filhos ajuda), não somos consumistas, não temos sonhos de consumo, nos lixamos pra roupas de marca ou símbolos de status, e segundo que somos pão duros, não temos criatividade pra gastar, somos pessoas simples e gostamos de levar a vida desse jeito. Nunca tivemos qualquer dívida, só compramos à vista e se tivermos dinheiro. Eu sequer tenho cartão de crédito (nem celular).
Gosto muito do tema finanças pessoais e já publiquei diversos posts sobre isso. Eu também repetia mantras que os gurus falam: "Não importa o que você ganha, importa o que você gasta" (e o que você guarda). E isso é em parte verdade. Mas se você aplicar todo mês 10% de um salário muito baixo, você nunca vai chegar a um montante alto. E foi mais ou menos o que eu e o maridão fizemos a vida toda. Só desde 2010, quando passei a dar aulas numa universidade federal, que passei a ter um salário maior, que nos possibilita guardar mais.
E pra que poupar? É da nossa índole. Não queremos ser pegos em emergências sem ter como nos manter. Não vivemos num mundo socialista. No capitalismo selvagem tupiniquim, precisamos ter nosso próprio dinheiro. Cortei nosso plano de saúde porque ficou inviável quando o maridão fez 59 anos (ano passado). Agora voltamos a depender do SUS, como dependemos a vida toda. 
Um dia, talvez daqui a cinco ou seis ou sete anos, eu e o maridão gostaríamos de nos aposentar. Apesar de termos décadas de contribuição (eu paguei carnê do INSS até durante os seis anos em que fiz mestrado e doutorado, com bolsa), com as novas regras desse governo golpista, teríamos que trabalhar vários anos a mais para poder pensar nisso. Então, queremos nos aposentar sem depender do governo. Só com os nossos recursos. 
A regra é simples, é aquela dos 4%. Se você tiver seu dinheiro aplicado num lugar que não seja caderneta de poupança, que cubra a inflação e renda alguma coisa, você pode tirar 4% daquele montante por ano. Ou seja, se você pretende viver com 40 mil por ano (o que dá 3.330 por mês), você precisa ter um milhão aplicado. Quer viver com 80 mil por ano? Tem que ter dois milhões (nem trabalho com hipóteses maiores porque acho quase impossível um assalariado conseguir juntar mais do que isso, mesmo estando em dois -- nosso caso --, e mesmo guardando a vida toda -- nosso caso também). 
Até pouco tempo, meu plano era me aposentar e viver numa capital nordestina (do Nordeste não sairemos nunca mais, obrigada). Talvez numa capital menor que Fortaleza (de repente João Pessoa, Maceió, Aracaju). Mas depois pensei melhor e vi que gosto muito de praia, e que, numa cidade grande, vamos pouquíssimo à praia. 
Portanto, no momento meu plano é morar numa cidade praiana, no Nordeste, óbvio, que fique mais ou menos próxima (uma hora, uma hora e meia) de uma capital. Talvez morar numa casa a dois ou três quarteirões da praia. Eu gostaria de ir à praia todo dia, ou quase, mas não pode ser qualquer praia. O que eu gosto mesmo é de água. Posso ficar horas na água. Minhas praias preferidas são as que têm encontro de rio com mar, aí eu posso ficar no mar (desde que sem ondas de afogar Lolinhas) e no rio. Até abri um arquivo no computador com o nome "Cidades para morar depois de parar de trabalhar". Por enquanto há apenas uma forte candidata, dica de uma leitora: Pitimbu, na Paraíba. E gostei muito de Tabuba, Alagoas, pra onde a Nanda nos levou. Aceito (muitas) outras sugestões. 
O problema não é trabalhar. A gente gosta de trabalhar, é até meio workaholic, adora o que faz. O problema é o tempo. A gente gostaria de ter tempo para fazer coisas (como viajar um pouco e ir à praia e fazer hidroginástica) que não pode fazer porque nosso tempo de trabalho consome tudo. 
Por enquanto este é o meu sonho (é também o do maridão, mas menos. Ele não ama água tanto quanto eu. Se dependesse dele, ele viajaria pelo mundo jogando xadrez, e nosso dinheiro definitivamente não dá pra isso). Não sei se continuará sendo nosso sonho daqui a 2 ou 3 anos. Mas é um plano.
O que já está definido é o que faremos com os nossos bens (uma casa, um Fiat Mille, aplicações em tesouro direto e CDB -- ações não mais, porque só perdemos dinheiro nos fundos de ações desde que entramos, em 2008). Como não temos herdeiros, podemos devolver tudo pra sociedade. Daqui a 25, 30 anos (tomara!), quando não estivermos mais vivos, a casa onde viveremos será doada para a universidade local (depende de onde morarmos. Se ainda tivermos esta casa aqui em Fortaleza em que moramos, ela fica pra UFC). Aí a universidade decide o que fazer com ela. Se sobrar dinheiro nos nossos fundos, a ideia é instituir algumas bolsas de estudos anuais para alunxs carentes e/ou para coletivos feministas e, se possível, para alguma instituição que cuida de animais de rua também. 
(Vou seguir o conselho de uma professora argentina que trabalha na UFBA e que conheci há dois anos. Ela também não tem filhos e já registrou em cartório planos para herança -- vai doar tudo que tem pra universidade). 
De resto, já deixei claro num post que meu blog, assim como a maioria, não dá dinheiro, não recebe verbas de qualquer espécie, não tem propaganda, mas que ele leva um tempão para ser feito e eu aceito doações. E não vejo nada de errado em pedir contribuições. 
Ontem recebi bastante apoio. Uma leitora arretada me mandou um email querendo começar um kickante ou vaquinha virtual, algo como "Ajude a Lola a derrotar um pilantra misógino". As pessoas vão contribuindo e se eu perder algum processo, o dinheiro é usado pra cobrir as indenizações. Se eu não perder, o dinheiro arrecadado vai para alguma ONG feminista (que ainda precisa ser definida -- sugestões?). 
Achei uma excelente ideia, mas antes preciso receber as intimações. Sei que estou sendo processada por três caras, mas, no momento, só tenho uma audiência marcada, para o dia 9 de outubro, em Fortaleza. E o mascu autor do processo está preso. Pra vocês terem uma ideia.

quinta-feira, 6 de julho de 2017

RACISMO NA UFJF: E SE FOSSE COM SEU PAI?

Um caso revoltante de racismo ocorreu no domingo na Universidade Federal de Juiz de Fora: o pai de 64 anos de uma aluna do Instituto de Artes e Design foi abordado por guardas armados da universidade e acusado de roubar o próprio carro. 
Por quê? Porque o senhor é negro e usava capuz. A UFJF -- que tem um Departamento de Ações Afirmativas que frequentemente realiza campanhas contra o racismo -- se pronunciou ontem, dizendo que vai apurar a denúncia.
Fica a pergunta: e se fosse com seu pai? Você não ficaria indignadx?

Segue carta aberta à Universidade Federal de Juiz de Fora:
Por que as respostas da UFJF não tem sido satisfatórias?
Apesar de a petição online [assine!] ter sido publicada no último domingo, as movimentações para a denúncia do caso de racismo que aconteceu no IAD no dia 2 de junho estão acontecendo desde o dia seguinte do ocorrido, quando a estudante I. R. entrou em contato com o Coletivo Descolônia. Desde então tem sido realizados esforços para que a estudante e seu pai sejam amparados juridicamente e psicologicamente, além disso, estratégias de ação estão sendo traçadas não só para que a família seja reparada, mas para que o fato não volte a acontecer com outras pessoas negras na Universidade Federal de Juiz de Fora, diante disso, especificamos nossas demandas:
1.      Que o relato da violência seja levado ao Fórum de Segurança da Universidade que, conforme a resolução 21/2016, artigo 2º incisos II, III e IV deve acompanhar permanentemente as condições de segurança no campus levando em conta os depoimentos de membros da comunidade.
2.      Seja convocada reunião extraordinária deliberativa do Fórum de Segurança da UFJF (artigo 4º, resolução 21/2016) para a construção de políticas de segurança institucional em bases antirracistas e atentas para a diversidade sexual e de gênero, com a participação de especialistas, movimentos sociais e comunidade.
Estudantes da UFJF fizeram
campanha "Ah branco, dá um
tempo" em maio 2015
Até agora, não houve nenhum pronunciamento de gestores/as da UFJF nos meios de comunicação oficiais, apenas mensagens enviadas por funcionários/as da instituição pelo inbox de usuários/as do facebook que tem apoiado a campanha e comentários em publicações em grupos da rede social. Destacamos que se trata de um caso de interesse de toda comunidade, uma vez que 1) envolve a guarda patrimonial armada de uma universidade federal que presta muitos serviços à comunidade juizforana, não obstante a mesma não ter autorização para o uso de armas de fogo (como consta no artigo 6º da lei 10826 de 2003); 
Campanha da UFJF
contra o racismo
2) a principal vítima da situação vexatória é um senhor de 64 anos, o que configura uma violação ao estatuto do idoso (Lei 10741/2003, artigos 4º e 10; 3) é um caso de racismo institucional que ocorreu num estacionamento onde o serviço de monitoramento de câmeras não está em funcionamento, conforme resposta que a própria instituição deu à estudante quando a mesma solicitou imagens das câmeras que lá estão instaladas para a averiguação do fato, ou seja: nós, pessoas negras, estudantes ou não, estamos à mercê de abordagens violentas por parte de guardas patrimoniais armados e despreparados na universidade sem que existam registros? Isso é, no mínimo contraditório com documentos da instituição que defendem que a segurança não corrobore com a opressão de grupos minoritários e adote em sua prática o princípio da não violência. 
Sendo assim, exigimos que gestores/as da instituição respeitem o princípio da publicidade expresso no artigo 37 da Constituição Federal e ofereçam a resposta à comunidade de forma ampla, transparente e responsável. Não podemos esperar menos da instituição, tendo em vista sua visibilidade por conta das Ações Afirmativas é necessário que a mesma se responsabilize nos casos de descumprimento aos princípios expressos no Plano de Desenvolvimento Institucional e defendidos pela Diretoria de Ações Afirmativas.
UFJF foi acusada de racismo
por uma mensagem de fim
de ano, em 2015
Nesse período em que temos nos movimentado, tivemos notícias sobre a redução do corpo de funcionários/as terceirizados/as que atuam no setor de segurança, o que pode criar riscos não só para a comunidade frequentadora da UFJF, mas para os/as próprios/as guardas patrimoniais. Questionamos a instituição sobre a veracidade desta notícia e assinalamos que a precarização do trabalho terceirizado também deve ser uma pauta priorizada pela instituição, coletivos e sindicatos comprometidos com a causa trabalhadora.
Diante de tudo o que apresentamos, não é possível que o caso seja tratado como um mero mal entendido. A questão é estrutural, ocorre como consequência do racismo institucional, da precarização do trabalho terceirizado, da permissividade com a violência constatada pelo porte de armas de fogo e do desrespeito ao sistema de proteção à pessoa idosa.
Continuamos perguntando: por que a guarda patrimonial faz uso de armas de fogo? Por que o treinamento destes/as funcionários/as não tem observado as discussões sobre a diversidade feitas em eventos da Diretoria de Ações Afirmativas? À comunidade anestesiada perguntamos: e se fosse com seu pai?
#UFJFissoéracismo #VidasNegrasImportam #ContraAPrecarizaçãoDoTrabalhoTerceirizado #ESeFosseComSeuPai?

quarta-feira, 5 de julho de 2017

POR QUE NÃO DENUNCIOU?

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Ontem chegou até mim no Twitter este quadrinho fantástico do cartunista chileno Guillermo Galindo, mais conhecido como MalaImagen
Em espanhol (clique para ampliar)
Traduzi e pedi para um leitor antigo e querido colocar o português nos balões, e ei-lo. 
Acredito que muitas mulheres que passaram por qualquer tipo de violência vão se identificar. Nós feministas somos constantemente chamadas de vitimistas e linchadoras quando denunciamos a violência sofrida por mulheres. 
Se você denuncia, você está errada. Se você não denuncia, você também está errada. A pergunta "Por que você não denunciou?" é apenas uma das táticas de culpar a vítima. Equivale a tirar o foco do agressor (ele sim o culpado) e jogá-lo na vítima. 
Por que não denunciou antes? Bom, quem disse que não denunciou? (como mostra o quadrinho do MalaImagen, ou este, da incrível Maira Colares, que vai pelo mesmo caminho). Nós denunciamos, mas muita gente não acredita, nos xinga, diz que estamos inventando, vem com perguntas como "Mas o que você fez para merecer isso?", nos trata como criminosas. 
E quando denunciamos mas não temos como provar a denúncia? (e não conseguir provar não quer dizer que não aconteceu). Aí o agressor pode processar a vítima e/ou a feminista que denuncia. Isso acontece com frequência cada vez maior. É a criminalização dos movimentos sociais.
Estou sendo processada por ter dado voz a uma denúncia, quase 3 anos atrás. O sujeito está pedindo a quantia exorbitante -- sério, nunca vi pedirem isso de uma professora (de uma feminista, então, nem se fala) -- de 300 mil reais de indenização. Não posso falar muito, porque, pra piorar, o caso está em segredo de justiça. E também porque não conheço os detalhes, pois ainda não recebi a ação. 
Pra quem pode ajudar, tenho duas contas (uma no Banco do Brasil, agência 3653-6, conta 32853-7; outra no Santander, agência 3508, conta 010772760), e o PayPal aí do lado. Os processos ainda vão longe, imagino, mas agradeço desde já.
É meu terceiro processo na vida. Os outros dois são de mascus, misóginos que eu (e muitas outras pessoas) denunciei. E me orgulho de ter ajudado a colocar na cadeia dois caras que defendiam estupro e pedofilia e ameaçavam (por que no passado?) mulheres e negros e pessoas LGBT e prometiam atentados a uma universidade pública.
Eu sou uma pessoa ética, que nunca mente, que nunca cometeu crime algum. Quem erra é quem me processa. Me processam simplesmente porque eu os denunciei.
Quando vejo o quadrinho do MalaImagen, os processos me vem à mente, principalmente esse último. Por que não denunciamos, não é mesmo?

terça-feira, 4 de julho de 2017

LEONARDO DO MASTERCHEF PROTESTA CONTRA RACISMO

Anteontem Leonardo, um dos participantes mais talentosos do Masterchef, escreveu um texto (que reproduzo abaixo) na sua página no FB, após receber uma repugnante mensagem racista.  
Pode-se não gostar dele, achá-lo arrogante, mas ele fala com muita autoridade sobre o racismo que vive. Ele também diz algo interessantíssimo (que eu li semana passada num ótimo artigo da Gerda Lerner sobre a criação do patriarcado e que em breve vou compartilhar com vocês, prometo) sobre ser visto como arrogante. O que passa como arrogância num negro (ou numa mulher) é visto como auto-confiança e amor próprio num branco. 
Ele tem toda razão: não é só a mensagem de racismo explícita que ele recebeu (e certamente os outros participantes negros também) que é preconceituosa. O jeito como encaramos os (poucos) participantes negros no programa também é racista. Somos compreensivos com os erros e defeitos dos brancos (que nunca representam todos os brancos), e cobramos muito mais dos negros. Parabéns pela postura, Leonardo!

Com licença, precisamos falar sobre preconceito.
Durante essa madrugada recebi uma imagem que continha essas mesmas pessoas com a seguinte mensagem: "vocês são um lixo, eu tenho nojo de todos vocês, tenho pena de quem já comeu ou come qqr me@&a que vcs fazem, eu torço todos os dias pra vc ser humilhado e eliminado volta pra senzala embuste lixo". Se doeu? Não, nem um pouco. Durante toda a minha vida eu fui perseguido nos corredores dos supermercados, tive minhas notas de dinheiro reviradas e conferidas pelo caixa do supermercado 40 mil vezes, fui desprezado pelo vendedor por achar que eu não poderia comprar algo, e várias outras situações que qualquer outro cidadão negro já passou. 
Isso tudo contribuiu pra postura que eu adoto hoje, tudo isso que vocês chamam de arrogância, prepotência ou qualquer outro rótulo que não cabe num participante branco, se chama auto-confiança, auto-afirmação, foco, são coisas que pessoas como nós precisam ter muito pra poder sobreviver porque não recebem isso de outras pessoas.
Mas essa imagem me permitiu refletir um pouco sobre esse cenário asqueroso de racismo oculto que vivemos todos os dias. Foram alguns minutos olhando os participantes da foto e fazendo uma rápida busca na internet, e pronto: o participante negro que reclama não conhecer ingrediente "é pobre, chorão, se fazendo de vítima, insuportável". Uma outra participante qualquer com a mesma atitude "não é obrigada a conhecer tudo". A participante negra que quer dominar sua praça na prova em grupo "tá se achando, a macaca". 
O outro participante branco que além de cuidar da praça dele ainda quer se meter na praça do outro "tá preocupado com o resultado da equipe". O participante negro que foi eliminado e ficou puto "não sabe perder, ridículo, chorão, volta pra Bahia". A participante branca "não deveria ter saído". A participante negra que apresentou dificuldades em algumas provas, não se saiu tão bem e voltou na repescagem é "imunda, corta esse cabelo nojento, deveria voltar pro buraco de onde não deveria ter saído". O participante branco na mesma situação é "tão fofo, meu crush". 
A participante negra que chorou em uma prova ou outra por resultados bons ou não é "chorona, insuportável, horrorosa, deveria ter saído". A participante branca chorando "é sensível, tadinha". Os participantes negros auto-confiantes e determinados são arrogantes, prepotentes e um milhão de outros xingamentos, os participantes brancos confiantes e determinados sim, esses realmente são confiantes e determinados.
Não usar xingamentos explícitos ou falar sobre cor da pele não te faz uma pessoa livre de preconceitos, suas atitudes sim são capazes de falar sobre você.
E quando eu faço alguma coisa no programa que não agrada gente como vocês, tenho cada vez mais certeza que estou no caminho certo. Muito obrigado por me acordar de madrugada com uma porcaria dessas, mas que foi capaz de mostrar o quanto somos diferentes, graças a deus.

segunda-feira, 3 de julho de 2017

11 MENTIRAS BATIDAS SOBRE FEMINISMO QUE PRECISAM SER DELETADAS

Eu nem me lembrava de ter sido entrevistada para esta matéria do Lucas, que foi publicada há dois anos no site M de Mulher. E infelizmente continua super atual. 

As feministas odeiam os homens, feminismo é o contrário de machismo… Calma, pessoal, sentem aqui para termos uma conversinha importante.
Ao ser questionada pela revista norte-americana Time se era feminista ou não, Shailene Woodley, estrela em ascensão e protagonista dos sucessos A Culpa é das Estrelas e Divergente, deu a seguinte resposta: “Não sou porque amo os homens, e penso que a ideia de ‘elevar as mulheres ao poder, e tomar o poder dos homens’ nunca vai funcionar. É preciso equilíbrio”.
Equivocada por distorcer a real luta do feminismo, a fala, claro, ganhou repercussão global e nos faz questionar: você sabe mesmo o que é feminismo? Abaixo, com o auxílio de Lola Aronovich, professora do Departamento de Letras Estrangeiras na Universidade Federal do Ceará (UFC) [agora meu departamento é o de Estudos da Língua Inglesa, suas Literaturas e Tradução] e autora do blog Escreva Lola Escreva, e de Bia Cardoso, pedagoga e coordenadora do Blogueiras Feministas, mostramos que muitas das coisas que te falaram sobre o feminismo não passam de mentiras. Vamos lá:
1. O feminismo é uma ditadura.
Oi? Não. O feminismo é um movimento de luta para a emancipação das mulheres. O que o feminismo pede são direitos iguais. Para homens e mulheres. Uma feminista é uma pessoa que acredita na igualdade social, política e econômica, como definiu a escritora nigeriana Chimamanda Ngozi Adiche. Mas mais do que isso, como explica Lola: “Hoje em dia, o feminismo é o combate a todas as opressões, não só de gênero, mas também de raça, orientação sexual, classe…” Você concorda com isso? Se a resposta é sim, bem, você é uma feminista.
2. Feminismo é o contrário de machismo.
Mentira. Diferente do feminismo, que é um movimento social e político organizado, o machismo não é um movimento e, sim, uma estrutura da sociedade que oprime as pessoas, assim como o racismo.
3. O feminismo só é bom para as mulheres.
Como uma sociedade igualitária pode ser vantajosa apenas para um dos lados? Em um famoso discurso durante o lançamento da campanha #HeForShe Emma Watson, embaixadora da Boa Vontade da ONU Mulheres e atriz, explicou essa questão: “[Atualmente] homens também não têm o benefício da igualdade. Não queremos falar sobre homens sendo aprisionados pelos estereótipos de gênero, mas eles estão.
Quando eles estiverem livres, as coisas vão mudar para as mulheres como consequência. Se homens não têm que ser agressivos, mulheres não serão obrigadas a serem submissas. Se homens não têm a necessidade de controlar, mulheres não precisarão ser controladas. Tanto homens quanto mulheres deveriam ser livres para serem sensíveis. Tanto homens e mulheres deveriam ser livres para serem fortes”.
4. Feminismo tem apenas um significado. 
Não. Ele é formado por diversas correntes, com diferentes visões, como qualquer outro movimento. “O que o feminismo não é é o que o senso comum muitas vezes diz: um bando de barangas mal amadas”, pontua Lola. A editora da RookieMag, revista online voltada ao público adolescente, Tavi Gevinson, em seu discurso no TEDxTeen, também compartilha da ideia: “Muitas garotas acham que para ser feministas elas precisam viver de forma coerente com suas crenças, nunca estar inseguras, nunca ter dúvidas, ter sempre as respostas… Mas isso não é verdade e as coisas ficaram fáceis quando eu entendi que feminismo não é um livro de regras, mas uma discussão, uma conversa, um processo”.
5. Toda feminista odeia os homens. 
Mentira. Lola explica que, na verdade, muito poucas feministas odeiam homens: “É só uma corrente ínfima do feminismo que diz que tudo bem odiar homens se a mulher passou por uma experiência traumática”. Mas é uma dúvida comum e, até pouco tempo atrás, a cantora Taylor Swift pensava assim também… “Como adolescente, eu não entendia que dizer que você é uma feminista é dizer que você quer que mulheres e homens tenham direitos iguais. O que parecia para mim, na maneira com que era expressado na cultura era de que você odeia homem. E agora, acho que muitas garotas estão tendo um ‘despertar feminista’ porque estão entendendo o que a palavra significa. Por muito tempo fizeram parecer como algo que você protesta contra o sexo oposto. Não é nada disso,” disse em entrevista ao The Guardian.
6. Homens não podem ser feministas. 
Como explicado no tópico 4, o feminismo é bom para todo mundo, mas essa questão de designar um homem como feminista ainda é polêmica. “A verdade é que ainda não existe consenso ou uma resposta correta”, afirma Bia Cardoso. Para Lola, os homens não só podem, como devem ser feministas, eles apenas não podem querer o protagonismo: “Seria como se um branco quisesse liderar um movimento negro. Os homens devem usar o seu lugar de privilégio no mundo para poder influenciar outros homens”.
7. Para ser feminista é preciso ser ativista.
Claro que não! Para ser feminista você não precisa estar nas ruas. Só o fato de você concordar com os ideais da causa e tentar praticá-los no seu dia a dia já faz de você uma. “A Beyoncé obviamente nunca participou de uma Marcha das Vadias, mas isso não a impediu de colocar, por exemplo, a palavra 'feminista' no palco do VMA. Marketing ou não, quanto mais se falar de feminismo melhor”, explica Bia. O que Lola completa: “Você pode definir ativismo como orientar e educar outras pessoas. Logo, se você mudar a cabeça de alguém, você pode estar fazendo ativismo”.
8. Passar make e usar roupas sensuais faz de você menos feminista.
Errado. O feminismo não é contra a maquiagem e muito menos contra o seu vestido curto, que você tem o direito de usar sem sofrer nenhum constrangimento ou assédio. São escolhas que só dizem respeito a você, assim como não passar maquiagem ou não se depilar. “O problema, na verdade, é a indústria da beleza que fomenta um padrão irreal, inalcançável”, comenta Bia.
9. Donas de casa não podem ser feministas.
Quem disse? A ideia do feminismo é você ser você do jeito que quiser. “A dona de casa é o primeiro papel da mulher dentro da sociedade e precisa ser valorizada”, avalia Bia. Se você é feliz assim, continue assim. Escolher cuidar do lar não faz de você menos feminista. “É sempre bom lembrar que não é o feminismo que desvaloriza o trabalho doméstico -- é o machismo”, pontua Lola. Mas Chimamanda, ainda em seu discurso “We Should All Be Feminists”, atenta para uma questão: “É esperado de mim que eu faça escolhas sempre pensando que o casamento é o mais importante. Ele pode ser… uma fonte de alegria e amor e respeito mútuo. Mas por que nós ensinamos as garotas a sonhar com o casamento e não ensinamos os garotos o mesmo?”
10. Para ser feminista você não pode deixar o homem pagar a conta ou abrir a porta do carro.
Aceitar gentilezas de um homem ou de qualquer outra pessoa não faz você menos feminista. Mas, veja bem, pagar a conta, abrir a porta do carro, comprar flores… Você também pode fazer todas essas coisas, assim como segurar a bolsa de um desconhecido no metrô ou ônibus. O feminismo prega que você pode tudo, pode inclusive ser presidente de uma grande empresa, caso queira.
11. O feminismo divide as mulheres.
Como um movimento que prega a igualdade pode ser excludente? O que pode existir são pessoas que não entenderam o verdadeiro significado da palavra e que não se deram conta de que o machismo é o verdadeiro vilão, que ele criou a rivalidade entre as mulheres. “Acho muito bom que as mulheres passem a se apoiar e esqueçam essa ideia de que mulher é invejosa. Não são. Isso é uma ideia que colocaram… Por exemplo, a mídia é toda voltada para quem é a mais bonita, a melhor mãe… Você não vê essa competição em relação aos homens”, finaliza Bia.

domingo, 2 de julho de 2017

PRECISAMOS COMBATER A HETEROFOBIA

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Começou assim: por sei lá que cargas d'água, uma tag pregando orgulho hétero ficou nos trending topics do Twitter o dia todo. Eu só disse que a orientação sexual de alguém tem que ser muito frágil pra comemorar algo pelo qual nunca se foi atacado na vida. Aí o rapaz respondeu. E um outro rapaz respondeu ao rapaz. E a gente riu muito.