Eu ia postar aqui um texto cheio de dicas fantásticas sobre Cuba que uma professora mandou pra mim (eu e o maridão vamos pra Cuba em dezembro), mas vou deixar pra semana que vem.
É que tem um troll chato (qual troll não é?), ou mais de um, enchendo o útero. Em geral não respondo esses crapulentos, mas se eu publicar um texto sobre viagem, os energúmenos lotarão a caixa de comentários xingando que eu tenha a ousadia de querer viajar mesmo sendo processada, e xingarão leitoras e leitores que doam pra este bloguinho. Como se a gente tivesse que deixar de viver por estar respondendo a processo!
O líder da quadrilha mascu (que está me processando) passou anos dizendo no seu chan que não iria me processar porque eu não tinha onde cair morta, que eu vivia na miséria, num barraco, que eu gastava todo meu dinheiro com comida e sustentando meu marido
(que, segundo mascus, esses especialistas em trabalho -- praticamente todos são sustentados pelas mamis -- não trabalha, pois como alguém poderia viver dando aula e jogando xadrez? Maridão vive disso há 45 anos), e sei lá mais o quê. O mascu disse que chegou a consultar um advogado para me investigar e o profissional afirmou que eu era pobre de marré, marré, marré.
Juro que eu preferia quando ele pensava assim. Mas, infelizmente, como esse criminoso (que espero que volte pra prisão em breve) passa os dias ociosos procurando informações sobre mim, ele chegou num parecer de um juiz sobre um processo que nem eu tinha visto. É um desses processos antigos, coletivos. Acho que abrimos em 2008, quando vivíamos em Joinville. É de quem tinha linha telefônica nos anos 90 (quando elas valiam ouro; lembro que teve uma época que eu pagava aluguel de telefone) e vendeu a linha sem receber pelas ações. Nem sei como está esse processo. Tenho fé que algum dia a gente ganhe 2 mil reais de indenização, se tanto.
Mas o mascu descobriu que, ano passado ou retrasado, um juiz dessa ação negou gratuidade de justiça a mim (sabiam que até o Aécio conseguiu gratuidade?) pedida por um advogado que nem conheço (porque a ação é coletiva), porque, segundo informações, eu possuía um "grande montante em tesouro direto, ações e aplicações financeiras". O que pode ser considerado um "grande montante" varia muito, mesmo para um juiz, imagino, mas para o mascu o parecer do juiz foi suficiente: de um dia pro outro eu passei de "gorda porca que não tem onde cair morta" para "rica burguesa esquerda caviar". E uns meses depois ele entrou com um processo contra mim (foi uma grande decepção pra ele quando a juíza determinou que eu não teria que ir pra Curitiba responder; agora ele abandonou a ação no Juizado Especial e entrou ou vai entrar com outra na Vara Comum, exigindo indenização de 60 mil a 100 mil reais, dependendo do seu humor no dia).
Tem uma coisa que as pessoas não percebem: entrar com um processo não significa que a pessoa vai ganhar. O cara de esquerda pedindo 300 mil reais de mim deve saber que não existe jurisprudência de uma professora ser condenada nesse valor. Só pra efeito de comparação, os parentes de vítimas do voo 1907 da Gol foram indenizados pela justiça pela morte de seus familiares em 100 mil reais. E, que eu saiba, eu não matei ninguém.
A situação é tão surreal que ontem o mascu em questão postou no seu chan um email que mandou (ou disse ter mandado) ao cara de esquerda. Seria bonito ver um homem de esquerda que se dizia feminista se juntar ao maior criminoso da internet (que, além de toda a misoginia que lhe é peculiar, tem a honra de ter sido o primeiro condenado por racismo cibernético no Brasil). O mascu escreveu que tinha "fontes confiáveis" de que eu estaria me desfazendo dos meus bens para não ter que pagar indenização, e que ambos deveriam entrar com uma cautelar para bloquear qualquer movimentação.
Ha ha, eu ri alto quando li isso! "Fontes confiáveis" = seu (segunda sílaba de mascu). Esses caras se confundem. Acham que eu sou uma criminosa como eles. Por que eu tiraria meu dinheiro, dinheiro que ganhei legalmente, através de salário que recebo desde que comecei a trabalhar, aos 18 anos, tudo declarado em imposto de renda, para colocar numa conta em outro nome, por causa de processos que eu acredito que não vou perder -- e, se perder, sei que posso contar com a colaboração de muitas leitoras e leitores que apreciam o meu trabalho e sabem que não fiz nada de errado?
Eu e meu marido juntamos dinheiro há muitas décadas, desde que começamos a trabalhar, por dois motivos principais: primeiro que gastamos pouco (não ter filhos ajuda), não somos consumistas, não temos sonhos de consumo, nos lixamos pra roupas de marca ou símbolos de status, e segundo que somos pão duros, não temos criatividade pra gastar, somos pessoas simples e gostamos de levar a vida desse jeito. Nunca tivemos qualquer dívida, só compramos à vista e se tivermos dinheiro. Eu sequer tenho cartão de crédito (nem celular).
Gosto muito do tema finanças pessoais e já publiquei diversos posts sobre isso. Eu também repetia mantras que os gurus falam: "Não importa o que você ganha, importa o que você gasta" (e o que você guarda). E isso é em parte verdade. Mas se você aplicar todo mês 10% de um salário muito baixo, você nunca vai chegar a um montante alto. E foi mais ou menos o que eu e o maridão fizemos a vida toda. Só desde 2010, quando passei a dar aulas numa universidade federal, que passei a ter um salário maior, que nos possibilita guardar mais.
E pra que poupar? É da nossa índole. Não queremos ser pegos em emergências sem ter como nos manter. Não vivemos num mundo socialista. No capitalismo selvagem tupiniquim, precisamos ter nosso próprio dinheiro. Cortei nosso plano de saúde porque ficou inviável quando o maridão fez 59 anos (ano passado). Agora voltamos a depender do SUS, como dependemos a vida toda.
Um dia, talvez daqui a cinco ou seis ou sete anos, eu e o maridão gostaríamos de nos aposentar. Apesar de termos décadas de contribuição (eu paguei carnê do INSS até durante os seis anos em que fiz mestrado e doutorado, com bolsa), com as novas regras desse governo golpista, teríamos que trabalhar vários anos a mais para poder pensar nisso. Então, queremos nos aposentar sem depender do governo. Só com os nossos recursos.
A regra é simples, é aquela dos 4%. Se você tiver seu dinheiro aplicado num lugar que não seja caderneta de poupança, que cubra a inflação e renda alguma coisa, você pode tirar 4% daquele montante por ano. Ou seja, se você pretende viver com 40 mil por ano (o que dá 3.330 por mês), você precisa ter um milhão aplicado. Quer viver com 80 mil por ano? Tem que ter dois milhões (nem trabalho com hipóteses maiores porque acho quase impossível um assalariado conseguir juntar mais do que isso, mesmo estando em dois -- nosso caso --, e mesmo guardando a vida toda -- nosso caso também).
Até pouco tempo, meu plano era me aposentar e viver numa capital nordestina (do Nordeste não sairemos nunca mais, obrigada). Talvez numa capital menor que Fortaleza (de repente João Pessoa, Maceió, Aracaju). Mas depois pensei melhor e vi que gosto muito de praia, e que, numa cidade grande, vamos pouquíssimo à praia.
Portanto, no momento meu plano é morar numa cidade praiana, no Nordeste, óbvio, que fique mais ou menos próxima (uma hora, uma hora e meia) de uma capital. Talvez morar numa casa a dois ou três quarteirões da praia. Eu gostaria de ir à praia todo dia, ou quase, mas não pode ser qualquer praia. O que eu gosto mesmo é de água. Posso ficar horas na água. Minhas praias preferidas são as que têm encontro de rio com mar, aí eu posso ficar no mar (desde que sem ondas de afogar Lolinhas) e no rio. Até abri um arquivo no computador com o nome "Cidades para morar depois de parar de trabalhar". Por enquanto há apenas uma forte candidata, dica de uma leitora: Pitimbu, na Paraíba. E gostei muito de Tabuba, Alagoas, pra onde a Nanda nos levou. Aceito (muitas) outras sugestões.
O problema não é trabalhar. A gente gosta de trabalhar, é até meio workaholic, adora o que faz. O problema é o tempo. A gente gostaria de ter tempo para fazer coisas (como viajar um pouco e ir à praia e fazer hidroginástica) que não pode fazer porque nosso tempo de trabalho consome tudo.
Por enquanto este é o meu sonho (é também o do maridão, mas menos. Ele não ama água tanto quanto eu. Se dependesse dele, ele viajaria pelo mundo jogando xadrez, e nosso dinheiro definitivamente não dá pra isso). Não sei se continuará sendo nosso sonho daqui a 2 ou 3 anos. Mas é um plano.
O que já está definido é o que faremos com os nossos bens (uma casa, um Fiat Mille, aplicações em tesouro direto e CDB -- ações não mais, porque só perdemos dinheiro nos fundos de ações desde que entramos, em 2008). Como não temos herdeiros, podemos devolver tudo pra sociedade. Daqui a 25, 30 anos (tomara!), quando não estivermos mais vivos, a casa onde viveremos será doada para a universidade local (depende de onde morarmos. Se ainda tivermos esta casa aqui em Fortaleza em que moramos, ela fica pra UFC). Aí a universidade decide o que fazer com ela. Se sobrar dinheiro nos nossos fundos, a ideia é instituir algumas bolsas de estudos anuais para alunxs carentes e/ou para coletivos feministas e, se possível, para alguma instituição que cuida de animais de rua também.
(Vou seguir o conselho de uma professora argentina que trabalha na UFBA e que conheci há dois anos. Ela também não tem filhos e já registrou em cartório planos para herança -- vai doar tudo que tem pra universidade).
De resto, já deixei claro num post que meu blog, assim como a maioria, não dá dinheiro, não recebe verbas de qualquer espécie, não tem propaganda, mas que ele leva um tempão para ser feito e eu aceito doações. E não vejo nada de errado em pedir contribuições.
Ontem recebi bastante apoio. Uma leitora arretada me mandou um email querendo começar um kickante ou vaquinha virtual, algo como "Ajude a Lola a derrotar um pilantra misógino". As pessoas vão contribuindo e se eu perder algum processo, o dinheiro é usado pra cobrir as indenizações. Se eu não perder, o dinheiro arrecadado vai para alguma ONG feminista (que ainda precisa ser definida -- sugestões?).
Achei uma excelente ideia, mas antes preciso receber as intimações. Sei que estou sendo processada por três caras, mas, no momento, só tenho uma audiência marcada, para o dia 9 de outubro, em Fortaleza. E o mascu autor do processo está preso. Pra vocês terem uma ideia.












































