Mural no Egito. Aqui é muito diferente?
Um texto interessante escrito por Malaka Gharib sobre um estudo também interessante. Agradeço muito ao rapaz que o traduziu.
Esraa Yousria Saleh andava pela rua El Hussein, uma movimentada rua no centro do Cairo, Egito. Local reconhecido por seus souvenirs e bugigangas. Saleh, então, foi surpreendida por um homem nos seus 20 anos que fez contato visual com ela. Ele se achou no direito de segui-la, cercá-la e abruptamente jogar um hálito quente no seu ouvido, dizendo: “Eu quero colocar tudo dentro de você.”
Saleh, 28, uma feminista e ativista que mora no Egito, ficou furiosa. Por que aquele homem sentiu que poderia olhá-la, segui-la, dizer aquelas palavras pra ela?
Um estudo feito em maio pela Promundo, grupo internacional de pesquisa, e a ONU Mulher, lança uma nova luz sobre as motivações de homens, como aquele assediador do Cairo, para assediar mulheres nas ruas de áreas no Oriente Médio: Egito, Líbano, Marrocos e nos territórios Palestinos.
“Nós sabemos muito sobre as mulheres e meninas, mas relativamente pouco sobre os homens e meninos” quando é sobre assédio, diz Shereen El Feki, co-autora do relatório e autora de Sex and the Citadel: Intimate Life in a Changing Arab World (Sexo e a Cidadela: A Vida Íntima num Mundo Árabe em Transformação).
O relatório descobriu que dos 4,830 homens entrevistados, 31% no Líbano, 64% no Egito, admitiram assediar sexualmente mulheres e meninas em público, o que vai de encarar a stalkear (perseguir) a estupro.
Claro que o assédio em público é um fenômeno masculino mundial. Estudos já mostraram que a vasta maioria das mulheres em cidades do Brasil, Índia, Tailândia, e Reino Unido estão sujeitas à violência em público. Os Estados Unidos não estão imunes -- 65% das 2 mil mulheres entrevistadas disseram ter sofrido assédio nas ruas, de acordo com um estudo de 2014 conduzido pela GfK For Stop Street Harassment, grupo ativista que luta para por fim a comportamento.
Mas há particularidades sobre o assédio que ocorre no Oriente Médio, segundo a Promundo. Na Palestina, Marrocos e Egito, jovens com ensino médio são mais propensos a cometer esses abusos do que seus pares mais velhos e com menos educação formal.
Os pesquisadores ficaram surpresos com essa descoberta.
Geralmente, homens que terminaram o ensino médio ou a faculdade são mais esclarecidos nas atitudes respeitosas com as mulheres do que aqueles com menos ou nenhuma educação formal, afirma Barker, que tem estudado a masculinidade e igualdade de gêneros em mais de 20 países. Barker e El Feki teorizam que os fatores que contribuem para esse comportamento na região sejam as altas taxas de desemprego, instabilidade política e pressão social para que não falhem no sustento de suas famílias. Metade dos homens relataram que se sentem estressados, deprimidos e envergonhados de encararem seus familiares. Talvez assediar mulheres seja uma maneira de exercer seu poder, sugere Barker.
Esses jovens “têm aspirações elevadas para si, mas não são capazes de alcançá-las”, dizem. “Então eles assediam mulheres para colocá-las no seu lugar. Eles acham que o mundo deve algo a eles”.
Num lugar como o Egito rural, a situação é fácil de entender, diz El Feki. “Isso traduz o tédio de ser um homem jovem lá”, diz ela.
Esses jovens não conseguem trabalho. Não podem se dar ao luxo de casar. Estão condenados a viver com seus pais. Não há nada para se fazer. “Eles estão num estado suspenso da adolescência”, afirma ela.
O assédio é uma maneira dos jovens “se divertirem”, opina El Feki. Quando os homens entrevistados nessa pesquisa foram perguntados por que assediam mulheres em público, a vasta maioria, 90% em alguns lugares, disse que faz por diversão e excitação.
Obviamente, não é como as mulheres enxergam isso. “Não é divertido de jeito nenhum”, diz Saleh. “É um pesadelo!”
Holly Kearl, diretora executiva do Stop Street Harassment e autora do Stop Global Street Harassment: Growing Activism Around The World (Pare com o Assédio na Rua: O Ativismo Crescente no Mundo) diz que não fica surpresa. “Eu já vi essa ‘lógica’ sendo apontada em outros estudos: ‘Estou entediado. Estou me integrando com meus amigos homens. Só estamos nos divertindo’”, diz Kearl. “Homens não pensam sobre como as mulheres se sentem”.
Os pesquisadores no Promundo suspeitam que as motivações levantadas no estudo do Oriente Médio não são exclusivas da região. “Sabemos que o assédio a mulheres nas ruas é um problema em todo o mundo e que há dinâmicas semelhantes em jogo”, diz Brian Heilman, um membro do Promundo que ajudou a escrever o relatório. “Nós conseguimos ter um horizonte mais rico de detalhes sobre o que é assédio nessa região por meio desse levantamento”. Esse relatório é o primeiro do grupo feito para estudar o assédio na rua pela perspectiva dos homens.
Mulheres podem sofrer uma larga escala de efeitos psicológicos ocasionados pelo assédio nas ruas, diz Kearl. Estudos comprovam que, para sobreviventes de violência sexual, o assédio nas ruas pode ser traumático e doloroso. Isso faz com que se sintam inseguras, e como resultado, as leva a restringir seus deslocamentos.
Saleh, por exemplo, parou de usar o metrô no centro do Cairo. Ela passou a usar o Uber para evitar outro incidente como o ocorrido na rua El Hussein. “Mas às vezes eu fico sem dinheiro e então sou novamente forçada a usar o transporte público”, diz ela.
Grupos no Oriente Médio, como o HarassMap no Egito e o HarassTracker no Líbano, usam dados cruzados de GPS e testemunho de incidentes para manter as mulheres alertas e minimamente seguras nas ruas. Em 2010, a ONU lançou a campanha Safe Cities and Safe Public Spaces (Cidades Seguras e Espaços Públicos Seguros) mundialmente para evitar o assédio nas ruas em mais de 20 cidades no mundo, por meio de ações educativas e intervenções.
“Infelizmente, não sabemos o que funciona a longo prazo”, diz Kearl. “É difícil ver quais ações estão funcionando numa escala maior.” Ela sugere que o problema deve ser tratado nas escolas, com ações contra o assédio, envolvendo todos os gêneros.
Talvez assim meninos e homens pudessem entender que sua “diversão” tem consequências: “É como se houvesse uma mão entrando no meu estômago e agarrando meu intestino", diz Saleh. "É como querer vomitar, mas não poder".
 |
Mulheres em Cairo protestam contra
assédio sexual nas ruas: "Sou como a
sua irmã" e "As ruas e a praça são dos
homens e das mulheres", dizem
cartazes |
Nota da Lola: Um artigo do Slate sobre o mesmo estudo aponta outros dados, como, por exemplo, que mulheres vestidas "provocadamente" merecem ser assediadas. Infelizmente, muitas mulheres também acreditam nisso. Mais da metade das mulheres entrevistadas no Marrocos disseram que mulheres que saem à noite "estão pedindo para serem assediadas". Além disso, muitos dos homens entrevistados nesses locais creem que as mulheres gostam de serem assediadas.