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terça-feira, 14 de maio de 2019

PELA EDUCAÇÃO, CONTRA O GOVERNO FASCISTA, VAMOS ÀS RUAS

Design Ativista fez vários cartazes maravilhosos para serem usados nos protestos

Como prometido, o governo fascista declarou guerra contra a educação, principalmente contra as universidades e institutos federais. Isso já era esperado, pois durante a campanha eleitoral Bolso havia elencado os professores como seus principais inimigos (da próxima vez, aprendam: se de um lado temos um professor, e do outro um paraquedista, votem no professor). 
O sinistro da Educação, Abraham Weintraub, outro olavete desqualificado sem a menor condição de ser ministro de qualquer governo, veio substituir o patético Vélez, e já chegou aprontando. Primeiro mirou nas faculdades de Sociologia e Filosofia. Depois anunciou que três universidades -- UFBA, UFF e UnB -- tiveram 30% do seu orçamento anual bloqueado. Não explicou direito a razão, mas disse que era pra punir a "balbúrdia" de instituições que faziam "eventos ridículos" com "sem-terra e gente pelada dentro do campus". Ou seja, o motivo era ideológico. Alguém deve ter avisado o estrupício que ele não podia fazer isso, pois a Constituição Federal não permite, e ele teve que voltar atrás, declarando que o corte seria para todas as instituições federais. 
Em seguida, afirmou que o governo queria dar preferência à educação básica em vez da educação superior. E, no mesmo dia, descobriu-se que o MEC estava cortando R$ 2,4 bilhões da educação básica também.
Junto com seu presidente, ele tentou ser mais didático, usando barrinhas de chocolate para explicar que o corte, opa, ele não gosta dessa palavra, prefere contingenciamento ou bloqueio, não era de 30%, mas de 3,5%. Como ele não pode mexer ou deixar de pagar os salários dos servidores públicos (coisa que eles devem estar salivando pra fazer), cortaram as despesas não obrigatórias, o que inclui água, luz, segurança, manutenção, limpeza, aquisição de materiais. Aí você se pergunta: como uma universidade pode funcionar sem água e energia?
Na explicação, o sinistro que gosta de mostrar cicatriz no ombro disse: "A gente só está dizendo que três chocolatinhos e meio, desses 100... a gente não está falando que está cortado. A gente só está pedindo para deixar pra comer depois de setembro. Isso é segurar um pouco". Ao seu lado, o panaca que ocupa a presidência comeu os chocolatinhos que deviam ser segurados até setembro.
Além disso, a Capes (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior) suspendeu 3,500 bolsas de pós-graduação. Mestrandos e doutorandos que contavam com essas bolsas para sobreviver estão desesperados. 
E, ao que parece, essa total devastação que agrada muito um governo que quer sucatear a educação pública para poder privatizá-la é só o começo. Não estão descartados novos cortes. Para jornalistas e professores, Weintraub oferece uma chantagem: se a reforma da previdência for aprovada, aí, quem sabe, os cortes serão repensados. 
Isso é claramente uma farsa, uma mentira, assim como era mentira a promessa de que, assim que se tirasse a Dilma, a economia automaticamente melhoraria. Recomendo muito esta palestra da professora de economia da UFRJ, Denise Lobato Gentil, que afirma não haver qualquer relação entre a aprovação da reforma e a melhora do cenário econômico. Ela mostra que os donos do poder já colocaram em prática todos os truques da planilha neoliberal e mesmo assim não houve a queda do desemprego nem o crescimento da economia. 
Este desgoverno corrupto e incompetente, que não consegue passar uma única informação, continua investindo pesado nas fake news. Quem faz parte de grupos no Whatsapp está sendo bombardeado por mentiras tentando mostrar que universidades públicas são inúteis, só formam maconheiros e vagabundos, só servem à elite, e são espaços em que o patrimônio é dilapidado, e os alunos, doutrinados. 
Um levantamento indica que após os cortes no MEC, o envio de imagens de estudantes nus cresceu 950% em grupos de WhatsApp em 24 horas. Em outras palavras: Bolso e sua quadrilha estão usando o mesmo expediente que usaram pra fraudar as eleições (disparo de fake news no Whats) para enganar o povo sobre a "imoralidade" das universidades.
Um exemplo eficaz de fake news que viralizou foi a imagem de um prédio completamente pichado atribuído à USP, pra dizer que estudantes alienados e sem valores não têm respeito pelo patrimônio público. Mas a foto não é da USP, e sim de um prédio abandonado no centro de SP, em 2010, que agora já está limpinho. Quando não é uma mentira escancarada como esta, é a utilização de um fato isolado (tipo um aluno que ficou nu durante uma aula durante 20 minutos) para passar a imagem de que este é um comportamento recorrente nas universidades. Nós que somos professores e alunos do ensino superior gratuito rimos quando ouvimos as fantasias que os reaças fazem do nosso dia a dia. Pô, são tantas orgias, tantas drogas, tanto sexo e rock'n'roll, e ninguém nunca me convidou?! (se bem que no meu caso eu costumo realizar abortos em alunas durante a aula, pelo que contam por aí). 
Diante de todos esses ataques, vários reitores já avisaram que as universidades podem fechar já em agosto ou setembro, porque não terão como pagar a luz ou honrar contratos com terceirizados. Um representante afirmou que as instituições tentarão manter o mesmo número de vagas para alunos no ano que vem, mas que dependem de negociações com um sinistro intransigente. Quem é visto como um possível interlocutor é o ministro da Ciência e Tecnologia, Marcos Pontes. 
Em muitas cidades está havendo uma grande divulgação do que as universidades fazem de fato. Este é um exemplo, já que não podemos perder pra narrativa de que o ensino superior, responsável por ensino, pesquisa e extensão, deveria ser para os poucos que podem pagar.
Mas não tem jeito: este cenário devastador faz parte de um projeto de governo da extrema direita. Precisamos lutar. Senão, os donos do poder privatizam tudo e transformam as universidades em estacionamentos. Amanhã haverá uma greve nacional. Os locais e horários dos protestos em cada capital estão aqui.
Num momento de tantos retrocessos em que precisamos provar que universidade pública é necessária 
(pense em algum outro país que tenha que provar isso; ainda mais quando estamos falando do Brasil, onde 95% da pesquisa é realizada pela universidade pública), uma greve por tempo indeterminado não parece ser boa opção. É melhor estabelecer datas de protesto. E amanhã será um dia decisivo.
Os estudantes fizeram mobilizações marcantes na semana passada, e acenderam o pavio para uma resistência mais ativa. As escolas particulares também estarão presentes, assim como pais de alunos. Pense: a quem interessa o desmonte da educação pública? 
Vamos às ruas lutar!

sábado, 4 de maio de 2019

GOVERNO QUER ACABAR COM CURSOS DE FILOSOFIA E SOCIOLOGIA

A ideia de acabar com Filosofia e Sociologia é que o Brasil já tem um grande filósofo (Olavo); logo, por que precisaria de qualquer outro?

Foi por isso que não assinei petição pedindo a saída do Vélez como ministro do MEC -- eu sabia que viria um cara ainda pior. E veio.
O atual sinistro, Abraham Weintraub, tem declarado guerra à educação brasileira nos últimos dias (pois é; neste governo, o responsável pela pasta é quem mais luta contra a área que deveria promover). Primeiro ele incentivou alunos a filmarem professores em sala de aula. Depois, disse que repasses para cursos como Filosofia e Sociologia devem ser reduzidos para "respeitar os pagadores de impostos". Por último, mentiu dizendo que puniria três universidades que faziam "balbúrdia", cortando suas verbas, e em seguida congelou os gastos de todas as instituições federais de ensino em 30%. Pra completar o show, ainda fez chantagem: disse que, se a reforma da previdência passasse, talvez os cortes seriam revistos. 
O cenário é gravíssimo, e iremos tratar mais disso em outros posts. Várias universidades e institutos federais já anunciaram que, se o governo não voltar atrás, elas fecharão as portas antes do final do ano, o que deve fazer salivar a irmã de Paulo Guedes, Elizabeth, que é presidente da Associação das Universidades Particulares. Imagina só a fortuna que as faculdades privadas vão ganhar (como se já não ganhassem muito agora) se as públicas acabarem! 
Reproduzo aqui hoje a nota do Departamento de Filosofia da UFSC sobre o que o sinistro e o presidente dos ignorantes disseram em pronunciamento:

Nós, professoras e professores do Departamento de Filosofia da Universidade Federal de Santa Catarina, vimos manifestar nosso repúdio às declarações recentes do Sr. Presidente da República e do Sr. Ministro da Educação sobre a “descentralização de investimentos em faculdades de Filosofia e Sociologia (humanas) (sic)”, com o objetivo de “focar em áreas que gerem retorno imediato ao contribuinte, como: veterinária, engenharia e medicina”.
O Departamento de Filosofia da UFSC, composto por um corpo docente de professores doutores e doutoras, participantes ativos da comunidade filosófica, no Brasil e no exterior, oferece dois cursos de graduação em caráter presencial, um curso de graduação em caráter EaD, um curso de mestrado e um curso de doutorado, todos dentre os melhores do país. O curso de doutorado já formou mais de uma centena de doutores e doutoras, nas suas três áreas: Epistemologia e Lógica, Ontologia e Ética e Filosofia Política, aí incluídos alunos e alunas provenientes de cursos como Direito, Biologia, Matemática, Engenharia e etc, inclusive alunos provenientes de outros países da América Latina e da Europa.
Consideramos que as declarações das autoridades mencionadas ignoram as inúmeras contribuições, diretas e indiretas, da Filosofia em geral e de nosso Departamento em particular, para a sociedade (incluindo aí os “contribuintes”):
1) Ignoram o fato de que muitas discussões filosóficas têm implicações diretas em outras áreas do Conhecimento. Por exemplo, é impossível pensar em modelos pedagógicos sem suposições sobre a natureza do “conhecimento”; de modo análogo, é impossível pensar sobre educação científica sem suposições filosóficas de fundo sobre a natureza da ciência; é impossível pensar sobre a Medicina sem considerar pressupostos sobre o que é a vida, pensar sobre a Veterinária sem assumir pressupostos sobre a nossa relação com outros seres vivos e etc.
2) Ignoram o caráter instrumental de muitas das competências que são intensamente treinadas nos cursos de Filosofia: definir conceitos, avaliar formas de argumentos, desafiar metáforas, etc. Um curso de Filosofia é um curso onde se cultivam de modo enfático e explícito, práticas de pensamento rigorosas, que têm alimentado, desde há muito, toda a atividade científica.
3) Ignoram as contribuições da Filosofia no que diz respeito ao bom comportamento intelectual e ético como, por exemplo, as discussões sobre comportamento virtuoso e sobre valores.
Bolso, ao anunciar o novo sinistro do
MEC no Twitter, inventou que ele
era doutor. Weintraub é apenas mestre
4) Ignoram a importância prática da compreensão menos superficial e dogmática de inúmeros conceitos que impactam nossa cultura, tais como os de “verdade”, de “racionalidade”, de “natureza”, de “ética”, de “democracia”, de “arte”, todos conceitos associados a um longo processo histórico de construção de ideias, um processo que é esclarecido pela História da Filosofia, que ocupa um lugar central em uma história do pensamento humano.
De modo igualmente grave, ao sugerir que um curso de Filosofia é um curso a ser financiado diretamente por quem se interessa pelo assunto, ignora-se o fato de que um grande número de estudantes matriculados nesses curso são alunos de baixa renda, o fato de muitos ex-alunos terem ascendido socialmente por conta das ferramentas intelectuais que adquiriram ao longo do curso. Ignora-se o fato de que cursos de filosofia, em seus diversos níveis, colaboram com a requalificação de professores, não apenas os de Filosofia, mas das mais diversas áreas. Ignora-se, por fim, o valor e o interesse da inclusão de indivíduos de todos os estratos econômicos na discussão sobre valores socialmente importantes, não apenas aqueles socialmente privilegiados.
Este Departamento convida todas as pessoas interessadas a conhecer nossas atividades, a participarem das inúmeras atividades por nós realizadas (palestras, simpósios, colóquios, defesas de mestrado e doutorado, etc), a visitarem os sites da graduação e da pós-graduação, a acessarem os currículos e planos de aula dos cursos, a assistir aos vídeos e a ler textos disponibilizados por nossos e nossas docentes,  para daí formarem seu próprio juízo sobre o alcance de nossa contribuição à Universidade e à comunidade em geral.       
Por fim, convidamos a todos os interessados em Filosofia, em Educação, em Ciências, em Artes, em Direito, em Economia, em Engenharia, em Teologia – ou, para resumir, todos os que reconhecem o valor do pensamento reflexivo -– a manifestarem seu repúdio à descabida experiência proposta pelo Governo Federal, uma experiência que não vem sustentada por uma avaliação de impactos financeiros, que não se coaduna com as ideias mais básicas de uma concepção liberal-igualitária de cidadania democrática e que foi rejeitada por todas as poucas sociedades democráticas que consideraram concretizá-la. Convida ainda a todos os interessados no pensamento livre e plural a manifestarem-se contrariamente a qualquer ação contra a autonomia universitária e contra a pluralidade de pensamento.

quinta-feira, 7 de março de 2019

COMEÇANDO O PÓS-DOUTORADO!

No Museu da Gente Sergipana, em janeiro (não vai ser lá!)

Pessoas queridas, faz tempo que quero escrever este post contando um pouco da minha vida, que é monótona mas eu gosto, e que só contém alguns mínimos segredos porque, infelizmente, tem gente que me persegue. 
Faz tempo que não falo de mim. Acho que não fiz uma grande retrospectiva do ano passado e muito menos anunciei as resoluções do ano novo. Não contei as novidades. E senti essa necessidade ainda maior quando vi, no Twitter, uma leitora falar pra outra que tentou se inscrever numa disciplina minha na pós este ano, e eu não estava oferecendo nenhuma.
Imagino que todas as minhas amadas alunas e alunos da UFC já saibam, mas quem não está regularmente lá não tem como saber, a não ser que eu diga aqui: estou afastada da UFC este ano, pois estou fazendo pós-doutorado. 
Pós-doc, pra quem não sabe, é algo que vários professores e pesquisadores fazem depois do doutorado (meio óbvio, né?). 
Tirinha mais relacionada
a recém-doutorxs
Não é um curso (você não cursa disciplinas, como faz no mestrado e doutorado), você não tem um orientador, mas um supervisor, você não recebe um título (em algumas universidades estaduais há um aumento salarial depois do pós-doc, mas não é o caso das federais), e a atividade costuma ser mais curta (de um a dois anos). Mas é uma grande oportunidade de se aperfeiçoar na sua área, de se atualizar, de conhecer outros pesquisadores, e de produzir e publicar pesquisas importantes.
Minha defesa em 2009
Este ano, em junho, vai fazer dez anos que concluí o doutorado na UFSC. No meu departamento, em geral podem se afastar dois docentes por semestre (gera substituto). A gente estava dando prioridade para aqueles professores que ainda não eram doutores. Agora que todos os quinze têm doutorado, fizemos um rodízio planejado para ver quem sai pro pós-doc. 
Eu já tinha quase desistido do pós-doc. Em geral, vários pós-docs são realizados no exterior, mas como ultimamente não há bolsas, e o nosso salário é razoável no Brasil mas não vale muito lá fora, essa deixou de ser uma opção pra mim. Além do mais, minha mãe mora conosco, e não temos como deixá-la sozinha agora que ela se aproxima dos 84 anos (ela está bem e continua independente, mas não se sente confortável em ficar sozinha em casa). 
Foi conversando com um colega meu ano passado que vi que você não precisa necessariamente morar em outra cidade ou estado para fazer o pós-doc. Pode continuar morando em Fortaleza e se deslocar quantas vezes for preciso. Então comecei a investigar quem eu gostaria de ter como supervisora. Pedi sugestões pra Susana Funck, que não tive o prazer de conhecer pessoalmente (ela se aposentou da UFC quando eu entrei, em 2003, e voltou a trabalhar quando eu saí, em 2009; agora já tem uns anos que se aposentou definitivamente), e ela me recomendou vários nomes. O bom de trabalhar com gênero é que é uma área incrivelmente multidisciplinar. Eu poderia ter como supervisora alguém da Sociologia, Antropologia, Comunicação, História etc. Entrei em contato com algumas pessoas, mas a que mais gostei foi a Ildney Cavalcanti.
Conheci a Ildney (ainda não pessoalmente) ano retrasado, quando eu estava montando a disciplina Utopias e Distopias Feministas, que dei na pós-graduação ano passado (você pode ver todo o cronograma dos dois semestres, com todos os links pros textos, aqui e aqui). O nome da Ildney aparecia direto, e incluí vários artigos dela na disciplina. Ela é uma referência internacional na área de ficção científica e distopias! 
Em meados do ano passado mandei um email pra ela pedindo se ela podia me enviar um de seus artigos (que não encontrei na internet). E ela foi super generosa e gentil, e passamos a conversar. Descobri que ela havia sido mestranda da Susana na UFSC (eta mundo pequeno!). Ildney foi tão receptiva que logo pensei: tenho que fazer o pós-doc com ela! O resto foi a correria de bolar um projeto e aprová-lo em todas as instâncias. Não pedi bolsa nem nada (porque não tem mesmo); como professora afastada, continuo recebendo salário. 
Então é isso: vou fazer pós-doc na Universidade Federal de Alagoas, em Maceió! O plano é pesquisar e publicar artigos (alguns em co-autoria com a Ildney), e, espero, um livro sobre como trabalhar com gênero através da literatura e cinema. Pra mim é fundamental encontrar tempo para escrever, e ter a supervisão de uma pesquisadora ultra-competente, já que nem meu mestrado nem meu doutorado tinha relação com gênero. 
Também vou lecionar uma disciplina na pós na UFAL. E as outras coisas (orientações, bancas, palestras etc) continuam normalmente.
Semana que vem já temos nosso primeiro evento: uma mesa-redonda para comemorar o Dia Internacional da Mulher. Será no dia 13 (quarta-feira), das 16:30 às 19h, na Fale da UFAL (auditório Heliônia Ceres). O poster está quase pronto! Você que é de Maceió, venha acompanhar esta mesa: Lutas de Mulheres e Culturas de Resistência. Estou muito ansiosa!
Por coincidência, pouco depois de fechar essa mesa na UFAL, recebi um convite para dar uma aula inaugural no mestrado em Ensino, Linguagem e Sociedade da Universidade Estadual da Bahia, campus Caetité. Será minha primeira vez no sertão baiano! Como estarei em Maceió, será um tiquinho menos longe chegar lá (mas ainda assim é looonge!). Mas quem for de Caetité ou região, venha!
E dia 21 de março estarei na UnB compondo uma mesa com a Sabrina Fernandes, que além de doutora é youtuber da Tese Onze. Ela que me avisou que estaríamos na mesma mesa. Ainda não sei o os detalhes. E dia 28 tenho uma mesa na UFC também. E duas bancas na mesma semana. Por enquanto é isso pra março.
Mas é isso. Ainda quero fazer outro post sobre outras novidades (não acadêmicas) na minha vida. Nada de mais. E em fevereiro de 2020 eu volto à UFC com energias renovadas. 
Ah, fica o convite pra participar do curso de extensão Discutindo gênero através de cinema e literatura. Eu não estou coordenando (não pode quando se está afastada), mas uma aluna querida de longa data, Janaína Lisboa (doutoranda na UECE) vai tocar o curso, junto com meu colega Carlos Augusto Viana. A primeira aula é já na terça que vem, e você pode se inscrever enviando um email pra Jana (janalisboatradutora@gmail.com). 
Pra quem vive em capitais próximas de Maceió (tipo Recife, João Pessoa, e Aracaju) e outras cidades da região, me chame pra palestrar aí. Vou estar por perto! E pra quem é de Maceió e quiser me paparicar me levando pra conhecer alguma praia e/ou sorveteria, não precisa nem chamar duas vezes! 

terça-feira, 20 de novembro de 2018

NAS ESCOLAS, NAS UNIVERSIDADES: MAIS DO QUE NUNCA, É PRECISO SER ANTIRRACISTA

Pedi pro meu amigo Henrique Marques Samyn escrever um texto para o Dia da Consciência Negra no ano passado e pedi pra que ele repetisse a dose este ano. Quem poderia imaginar que estaríamos pior em 2018 que em 2017?
Pelo menos, apesar do cenário político tétrico, o Letras Pretas, belíssimo projeto que ele começou com suas alunas cotistas, continua a todo vapor. O blog e a página já tem mais de um ano e, durante esse tempo, publicou mais de um texto por semana sobre literatura e identidade negra. 
Henrique é professor de Literatura Portuguesa na UERJ, doutor em Literatura Comparada, com pós-doutorado em Literatura Portuguesa. 
O atual cenário político brasileiro apresenta desafios com os quais nós, professores e professoras, estamos ainda aprendendo a lidar. 
Nas últimas semanas, vimos vir à tona estratégias para enfrentar as ameaças à autonomia docente e à liberdade de cátedra decorrentes do assim chamado projeto “Escola sem Partido” –- projeto que, como bem sabemos, não passa de uma tentativa de partidarização (à direita) dos ambientes letivos. Não obstante, isso representa apenas parte dos problemas, considerando o cenário mais amplo de sucateamento do ensino público e desvalorização de docentes.
Não é preciso –- ou não deveria ser preciso –- ressaltar que essa conjuntura é particularmente ameaçadora para os grupos minoritários. Se a presença de fascistas nas escolas e universidades brasileiras está longe de ser algo inédito, em tempos recentes eles vêm encontrando um cenário propício para a manifestação de discursos de ódio, sentindo-se encorajados a empreender atos de violência, simbólicos e físicos, contra quaisquer pessoas percebidas como “desviantes”.
No que tange às pessoas negras, se essa situação encerra um significativo risco de retrocessos –- sobretudo no que tange aos ataques às políticas de ações afirmativas e ao recrudescimento de ataques racistas -–, por outro lado vem evidenciando quão pouco avançamos em relação a questões muito elementares. 
Ainda que hoje em dia se fale mais abertamente em racismo -– muitas vezes de forma forçosa, em espaços nos quais ainda se fazem presentes práticas e discursos excludentes –-, e ainda que haja docentes que se dedicam ao ensino da História e da Cultura Afro-Brasileira, há que se perguntar: será que fazemos o suficiente? 
Pode haver a melhor das intenções em espalhar pelas escolas cartazes afirmando que “somos todos iguais” ou que “alma não tem cor”, mas conceder visibilidade a esse tipo de clichês certamente não terá efeitos reais para favorecer a inclusão de alunas negras e alunos negros; trata-se, ademais, de uma ótima estratégia para reforçar discursos em torno da “meritocracia” ou da “democracia racial” -– mitos que operam como elementos basilares para a sustentação da desigualdade na sociedade brasileira. 
Similarmente, há quem creia que falar superficialmente em “tolerância religiosa” é o bastante para gerar um ambiente inclusivo, quando sabemos quantos privilégios são dispensados às religiões cristãs e como as religiões de matriz africana continuam a ser estigmatizadas. 
Nas universidades, pode haver alguma boa vontade em incluir nas ementas o estudo de obras de autoras negras e autores negros, ou em recorrer a conceitos como epistemicídio e lugar de fala, mas qual a real eficácia disso para transformar as relações de poder e produzir novas formas de conhecimento? Há realmente a disposição para propor uma revisão epistemológica ou um questionamento radical dos cânones, de modo a contestar pressupostos racistas ainda vigentes? Há espaço para que alunas negras e alunos negros compartilhem suas experiências, para que participem ativamente desse necessário processo de reconstrução e revisão de saberes? Num momento em que finalmente há mais pesquisadoras negras e pesquisadores negros, são oferecidas as condições para que participem frequentemente de atividades e eventos acadêmicos, sem que lhes seja imposta a condição de só falar como sujeitos racializados, em ocasiões específicas?
É preciso evitar soluções fáceis. Combater o bullying racista nas escolas não significa reforçar meia dúzia de frases feitas por ocasião do 13 de Maio ou do Dia da Consciência Negra; passar de vez em quando um filme (talvez seguido de um debate recheado de clichês e lugares-comuns); imprimir imagens de “personalidades negras” e espalhar pelas salas e corredores; ou dizer às meninas que elas são “negras bonitas” (desde que estejam com o cabelo alisado e não dancem funk). 
Combater o racismo na universidade não significa apenas incluir na ementa duas ou três referências de autoras negras ou autores negros, incorporar ao discurso novos conceitos sem repensar as práticas a partir deles ou mesmo se arvorar em defesa das cotas, quando se insiste em tratar cotistas como incompetentes ou despreparados.
Se no cenário adverso que atualmente enfrentamos, e que certamente pouco mudará nos próximos anos, será preciso criar novas estratégias para combater o avanço de setores reacionários, que isso também faculte um questionamento de práticas e discursos vigentes cuja eficácia é, no mínimo, discutível. Precisamente por sua inocuidade, essas práticas e esses discursos podem ser facilmente apropriados com propósitos antiprogressistas, levando a retrocessos ainda mais catastróficos. Mais do que nunca, é preciso ir além. Mais do que nunca, não basta não ser racista: é preciso ser antirracista.