Ato de solidariedade a Jean ontem, em SP
Hoje ficou escancarado pro mundo que Lula é um preso político. A gente já sabia -- fizeram de tudo para que ele, favorito, não pudesse concorrer às eleições no ano passado --, mas desta vez não restou nenhuma dúvida.
Seu irmão mais velho, Vavá, morreu, vítima de câncer. O velório foi hoje à tarde em São Bernardo do Campo. É um direito de um preso ir ao velório de mãe, pai, irmão, cônjuge e filho, mas a justiça negou, alegando que as aeronaves estavam sendo usadas em Brumadinho. O PT sugeriu pagar um avião para levar Lula e os policiais que o acompanhariam para o enterro. Afinal, até durante a ditadura militar, em 1980, quando Lula esteve preso, ele pôde deixar a prisão para ir ao enterro da mãe.
Enquanto isso, um dos filhos de Bolsonaro encarregou-se de espalhar fake news sobre Lula, dizendo que ele não foi ao enterro de dois meio irmãos em 2004 e 2005, como se fosse a mesma coisa. Lula teve cerca de 20 meio-irmãos por parte de pai, mas não tinha contato com eles. Já Vavá era muito próximo. Pra completar, as teorias conspiratórias da extrema-direita narram que o ex-presidente teria mandado matar seu irmão querido, para poder fazer um comício no enterro.
Quanto medo os reaças têm do Lula, não?
Parece que vivemos mesmo num Estado de exceção. Ontem na Faculdade de Direito da USP houve um belo ato de solidariedade a Jean Wyllys, que na semana passada anunciou que vai abrir mão do seu terceiro mandato como deputado federal e deixar o Brasil em função das inúmeras ameaças de morte que tem recebido.
O ato contou com a presença de Boulos, Haddad, Manu, e Laerte, entre outros. Duas deputadas estaduais recém-eleitas pelo Psol, Erica Malunguinho e Erika Hilton, ambas de SP, fizeram discursos importantes referentes ao Dia Nacional da Visibilidade Trans, que foi ontem. Malunguinho afirmou estar aliviada com a decisão de Jean, já que "permanecer vivo é o nosso maior ato de resistência".
No sábado, o Ministério da Justiça de Sérgio Moro divulgou nota dizendo que não há omissão por parte das autoridades e que as ameaças vêm sendo investigadas, e deu como exemplo a prisão de Marcelo Valle Silveira Mello, do grupo Homens Sanctos. Bastante gente de esquerda disse que foi desculpa esfarrapada de Moro e que ele se referia à Operação Intolerância, de 2012. Mas teve gente do Psol que ficou contente, já que foi a primeira vez que o Ministério da Justiça revelou o nome do principal acusado das ameaças de Jean.
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Marcelo e Emerson em janeiro 2016, em Curitiba |
Como eu já disse, uma boa parte das ameaças que Jean recebe vem da mesma quadrilha que me persegue. Nós dois éramos alvos preferenciais de Marcelo desde 2011. A Operação Bravata, deflagrada em maio do ano passado, só prendeu Marcelo, o líder do grupo. Há outros membros que continuam soltos. Em dezembro Marcelo foi condenado a 41 anos de cadeia por vários crimes, inclusive alguns que datam de 2011 e pelos quais ele não havia sido responsabilizado na época. Mas ele deve estar recorrendo, e o processo corre em segredo de justiça, provavelmente porque um de seus muitos crimes envolve pornografia infantil.
Depois da nota de Moro, Jean, por meio de sua assessoria, mostrou dois novos emails com ameaças a seus familiares. Um email, da "corporação Comando Virtual Marcelo Valle", dizia que Jean podia estar seguro exilado na Europa, mas seus irmãos, não. E colocava os dados pessoais desses irmãos. Os emails decerto vinham com o endereço goec@protonmail e eram assinados por Emerson. Ou seja, o mesmo padrão das ameaças enviadas por email desde o final de 2016.
As fake news dos bolsominions sobre a saída de Jean continuam a todo vapor, mas suponho que, a esta altura, os babacas não mais duvidam que as ameaças existem e são terríveis. O Psol já anunciou que processará um monte de gente, a começar pelos caluniadores mais graúdos e influentes.
Hoje o partido lançou um manifesto internacional que reproduzo aqui. Para ver as mais de 500 assinaturas (euzinha entre elas), veja aqui.
QUEREMOS JEAN WYLLYS VIVO!
Recebemos, com muita tristeza, a decisão de Jean Wyllys de deixar o país e seu mandato como Deputado Federal. Diante da omissão do Estado brasileiro em garantir segurança e proteção a Jean, esta medida radical é consequência das inúmeras ameaças recebidas e de uma cultura violenta que despreza a vida de LGBTIs brasileiras.
O Brasil é o país em que mais morrem LGBTIs em crimes de ódio, que persegue negras e negros e onde o feminicídio de mulheres cis e trans bate recordes. Já nestes primeiros dias de 2019, choramos o assassinato de Quelly da Silva, travesti assassinada com requintes de crueldade. Outra adolescente, também travesti, foi apedrejada e perdeu 8 dentes. Um mulher lésbica foi assassinada e depois estuprada enquanto trabalhava. Seguimos sem justiça para Marielle Franco. A situação é aterrorizante.
Nosso país é também um dos que mais perseguem defensoras e defensores de Direitos Humanos em todo o mundo. A decisão de Jean Wyllys, em defesa de sua vida, é compreensível e tem nossa ampla solidariedade. É sinal de que a democracia no Brasil está em risco e que a violência ganhou contornos absolutamente inadmissíveis.
Repudiamos a postura de representantes do Judiciário, Legislativo e do Executivo que minimizam a gravidade da situação em que se encontra Jean Wyllys e que, em tom jocoso, assinalam carta branca aos perpetradores destes crimes. Isto apenas amplia a perseguição a LGBTIs, mulheres, negras e negros e aos defensores e defensoras de Direitos Humanos.
Estamos ao lado de Jean Wyllys e o queremos vivo.
A democracia no Brasil está em risco. É fundamental ampla solidariedade a todos os que resistem e defendem os Direitos Humanos.