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terça-feira, 12 de dezembro de 2017

POR QUE TEM MULHERES QUE INSISTEM EM ATACAR A IRMÃ?

A J. me enviou este email: 

Acompanho teu blog faz teeempo, e sou feminista faz tempo também, para falar a verdade, desde pequena. Minha mãe é feminista, lutou pelas causas aqui no Brasil e nos EUA também quando era jovem, e meu pai, mesmo sendo homem, é um homem feminista, apoia todas as causas, e foi assim que ele conheceu minha mãe!
Bom, Lola... Acredito que aparência não tenha nada a ver com feminismo, mas vamos lá.
Eu sou super, super vaidosa, não exageradamente, mas gosto de moda. Gosto de estar bonita para MIM MESMA, mesmo assim, não malho, nem nada. Isso veio comigo desde pequena, sempre amei me vestir, me maquiar, mas nunca nada dentro dos padrões da sociedade. Tenho 22 anos, tenho um namorado, o único da minha vida, só comecei a namorar ano passado e foi consequência, porque nunca me importei com namoros, nem sexo, nada disso. Enfim. Sou modelo fotográfica.
Quando não estou diante das lentes, eu me visto e me produzo para mim mesma.
E vamos lá: vamos imaginar o seguinte exemplo, que acontece e MUITO. Quase todo dia.
Estou eu, feliz que comprei um casaco novo. Coloco ele, coloco a calça, faço a maquiagem, o cabelo, e saio com meus pais, ou namorado, ou amigos. Estou eu lá, feliz de estar saindo, querendo ter um momento bom...
Aí no shopping ou na rua, topo com algumas mulheres (sempre estão em grupo), e elas começam a me olhar super feio. Com inveja, fazem tentativas de me rebaixar fazendo cara de deboche, ou até mesmo rindo na minha cara.
Eu não quero ser arrogante, mas onde eu passo, todo homem me olha. Recebo cantadas nojentas e algumas menos nojentas, daquelas que o cara passa por você e fala ''Olha essa loira aí, hein''. E não, não gosto do assédio masculino, mas tive de aprender a conviver com ele.
Acontece que quando os homens me olham, elas parecem ficar com ainda mais recalque.
Lola, é uma inveja... Sempre sofri com isso. Ando de cabeça baixa, para tentar diminuir o assédio dos homens, mas também para as outras mulheres não verem meu rosto. Já cheguei no cúmulo de mudar o trajeto que eu fazia em algum lugar só para não passar perto desse tipo de mulher.
Muitas mulheres me elogiam, dizem que eu pareço uma boneca. Nessas eu vejo a bondade vindo delas. Mas e essas que agridem? Que tentam rebaixar?
Qual seu pensamento sobre isso e seu conselho para mim?
As mulheres deveriam ser irmãs, não é? Deveriam se apoiar, não é? Por que tem umas que não podem ver uma mais bem vestida, com um cabelo bonito, e já querem rebaixar? E eu não me cuido e me visto para outras mulheres nem homens. Mas sim, para MIM! Me olho no espelho e estou feliz como estou, como de tudo, não me coloco em dietas, amo meu corpo, e meu namorado (que sempre me acompanha nos protestos feministas e é um exemplo de homem, como meu pai) gosta do meu corpo magro, mas natural, sem exageros, como ele é, não entro nessa neura de ter de entrar num padrão de magreza ou de mulher super musculosa.
Mas me responda, por favor, Lola. Por que tem mulher que é assim? Inveja, tenta rebaixar? Ri da outra, como se a outra fosse uma palhaça?
E aquelas meninas em escolas que são agredidas por serem consideradas belas? O que você pensa sobre isso?
Quando mulheres apoiam outras
mulheres, coisas incríveis podem
acontecer
Eu sofro com isso, Lola. Eu saio para ir no supermercado, e já tem duas ali juntinhas que começam a me medir de cima pra baixo e ficam dando risadinha. Já não consigo mais sair de casa porque sempre tem uma menina, ainda mais meninas jovens, 14, 15 anos, com os ficantezinhos, todas iguaizinhas num padrão, que ficam me olhando torto, feio, tentando debochar.
Eu tenho vontade de ir até essas mulheres e falar: ''Por que você está rindo? Me olhando feio? Eu sou uma mulher, como você! Não sabe respeitar a outra?''
Por que tem mulheres que insistem em atacar a irmã? As mulheres deveriam estar juntas por uma causa, se apoiarem. A sociedade já é tão difícil. Por quê, Lola?
Meus comentários: Querida J., a resposta óbvia é que nós, mulheres, fazemos parte desta sociedade machista. Os preconceitos que aprendemos desde bebês não afetam só os homens, afetam a gente também. Não estamos imunes. Ninguém está. A gente se pergunta: como pode existir mulher machista? Como pode ter negro racista? Gay homofóbico? Ou mesmo pobre de direita? Aquela frase famosa da Simone faz todo sentido: "O opressor não seria tão forte se não tivesse cúmplices entre os próprios oprimidos". Há cúmplices de sobra!
A gente também aprende que mulheres não podem ser amigas de verdade, que sempre vamos competir com a outra pela atenção de um homem, que mulheres são traiçoeiras e mentirosas, sempre dispostas a roubar o namorado ou marido alheio. Imagina o que é crescer acreditando nessas besteiras! Ao mesmo tempo, a gente aprende que o que mais vale na vida é a aceitação dos homens, que a opinião dele é mais importante, que devemos nos comportar direitinho (sem rebeldias feministas!) para ganharmos sua afeição e, com isso, sua proteção. E proteção contra quem? Não contra as mulheres, que duvido muito que alguma que te olhe feio na rua irá te atacar. Infelizmente não posso garantir o mesmo dos homens.
Tem muita mulher que passa a ser fiscal da aparência de outras mulheres, da sua sexualidade, do seu comportamento. Assim como tem menina que te olha feio e ri de você por te achar bonita, tem muitas que fazem isso com quem acham feia. Elas não têm sororidade, não sentem que estão no mesmo barco, não veem que isso acontece também com elas. Ou talvez aconteça e elas querem se vingar em outra mulher, vai saber. 
Você apontou que isso só costuma acontecer (ou acontece mais) quando elas estão em grupo. Imagino que dói, mas não é nem pessoal. É um jeito dessas meninas se unirem como grupo atacando alguém fora do grupo. É uma estratégia baixa e que geralmente funciona. Se funciona com países (que escolhem um inimigo imaginário para se unirem contra ele), como não vai funcionar com grupinhos muito menores?
É triste, mas julgar a aparência de outras mulheres (que estão fora ou dentro do padrão) não é incomum nem entre feministas. Ou seja, insistem em atacar a irmã. Quiçá não vejam aquela mulher como irmã. 
Falar é mais fácil que fazer, e vale pra todas as pessoas, homens e mulheres, mulheres feministas e não feministas: dane-se o que elas pensam da sua aparência, das suas roupas, do seu comportamento. Não ande com cabeça baixa. Cabeça erguida. Não desvie o olhar. Fitar de volta é considerado desafiar (faça isso e observe quantos homens que estavam te "cantando" passam a desviar o olhar assim que você devolve a ação). Se já estão falando mal de você mesmo, que te achem logo convencida e arrogante.
Lógico que essa atitude do "Vai encarar?" tem que ser segura. Você tem que acreditar no que está fazendo. E não é simples ignorar a opinião alheia, nunca é. Mas tente, querida. E continue se indignando por ter que fazer a pergunta do título. 

sexta-feira, 3 de novembro de 2017

O MACHISMO NÃO POUPA AS ANTIFEMINISTAS

Existem mulheres machistas sim. Anti-feministas, validadoras do machismo, moças que buscam acima de tudo a aprovação masculina. Elas interiorizaram que mulheres são inferiores, que mulher não presta, que mulher é um bicho traiçoeiro mesmo, e querem provar para homens misóginos que obviamente também acreditam nisso que elas são diferentes, que elas sim são decentes e dignas de respeito. 
Como eu já disse algumas vezes, ser anti-feminista não salva mulher alguma de ser alvo do machismo. Para os misóginos, as mulheres machistas são sempre, acima de tudo, vadias. Porque são mulheres. Se bem que é muito comum um misógino se derreter e se apaixonar perdidamente por qualquer mulher que lhe dê atenção, mas isso é outra história.
É terrível que existam mulheres que sejam contra mulheres, mas que las hay, las hay. Vou ilustrar um pouquinho. Eu sequer conhecia a existência dessa mulher, fiquei sabendo através do romance de Sinclair Lewis, It Can't Happen Here. Na primeira metade do século 20, muito antes de Trump e seus trumpminions, já havia quem gritasse "América primeiro!" Uma dessas pessoas se chamava Elizabeth Dilling, intitulada por um jornal nazista de "a Fuhrer fêmea". Dilling odiava negros, comunistas, e judeus. E, pra piorar, ela era contra as mulheres votarem ou participarem da vida política. Como exercer sororidade com uma mulher dessas?
Cartum de 1907 satiriza
mulheres que entregaram
petição contra o sufrágio
feminino: "Salvem-nos de
nós mesmas!"
Não que Dilling fosse a única mulher contra as mulheres na política. Longe disso. No início do século passado, enquanto as feministas e socialistas lutavam por igualdade de gênero e pelo direito ao voto universal, havia mulheres da elite lutando contra. A Associação Nacional Contra o Sufrágio Feminino, por exemplo, data de 1911, e era liderada por "senhoras da sociedade". Ainda hoje há mulheres reaças que pedem, em tudo quanto é eleição, que o voto feminino seja revogado porque mulheres costumam cobrar uma participação maior do Estado (como exigir, por exemplo, creches públicas e gratuitas. Malditas comunas!). A escritora Ann Coulter é uma dessas. 
Sei que é difícil acreditar, mas há mulheres que se detestam tanto que estão dispostas a tudo para fazer parte de grupos machistas. Sério: quanto você tem que se odiar para querer ser aceita por quem te odeia? A quadrilha misógina que me ataca há anos tem sempre duas ou três garotas implorando aprovação. Uma delas começou quando ainda era menor de idade. Neonazista e interessada em pedofilia, ela logo se identificou com o fórum. 
Um resumo da lista de coisas que ela realizou na tentativa desesperada de ser aceita: mandou inúmeros nudes e vídeos pros mascus (num deles, ela enfiava uma cruz na vagina; todas as imagens foram amplamente divulgadas por eles); gravou um vídeo dizendo que havia sido estuprada por um deles -- e gostado; gravou áudio dizendo que havia sido estuprada por um desafeto deles -- e não gostado; fez vídeo dizendo ser minha filha.
Carta de suicídio fake
Em janeiro, ela estava sendo tão perseguida por mascus que simulou o próprio suicídio, com direito à carta de despedida e tudo. Não colou por muito tempo. Ela chegou a pedir ajuda a feministas para denunciar os mascus. Uma professora (também perseguida por mascus) trocou inúmeras mensagens com ela e se ofereceu a pagar-lhe um advogado. A gente enviou o nome e telefone de um agente da Abin que talvez pudesse auxiliá-la. O que a menina fez? Passou tudo pra quadrilha. Foi recompensada: atualmente é moderadora de um chan misógino.
Não desejo nada de mal para essa garota, é óbvio. Torço para que ela sobreviva e faça terapia e amadureça, antes que seja tarde demais (porque creio que está correndo risco quem entra num chan misógino e escreve "Sei que vocês me odeiam, mas estou em Curitiba e não tenho onde passar a noite. Alguém que promete não me matar pode me ceder um quarto?"). Mas minha sororidade com uma moça com tanta vontade de se autodestruir (levando outras mulheres junto) se esgotou faz meses.
Eu não gosto do termo biscoiteira de macho, que é como algumas feministas apelidam mulheres que querem ganhar (simbolicamente falando) aprovação dos homens. Mas todas nós conhecemos essas mulheres. Se bobear, algumas de nós já fomos essas mulheres, antes do feminismo nos libertar.
É muito difícil, eu bem sei, exercer sororidade com quem nos boicota a toda hora e com quem faz alianças com nossos inimigos (que não são os homens, mas os homens misóginos). E mesmo assim eu tento. Quem sabe um dia essas mulheres machistas consigam se orgulhar de serem mulheres? E ainda melhor: mulheres livres?

quarta-feira, 30 de agosto de 2017

"SE EU FOSSE MÃE DE MENINA"

Marcela Paula, professora, negra e feminista, escreveu na sua página no FB:

Mulheres são seres humanos
completos, não mães em
potencial. Maternidade é
uma opção
ESTE NÃO É UM TEXTO DE CRÍTICA A NINGUÉM! É APENAS O COMPARTILHAR DE SENTIMENTOS SOBRE A VIDA.
A maternidade nunca foi uma questão real para mim. De fato, nunca pertenceu ao meu desejo, no sentido psicanalítico mesmo.
Mas, por favor, NÃO ME CONFUNDAM com essas pessoas CHILD FREE! JAMAIS! 
Esse grupo pra mim é abominável, porque é simplesmente mais um grupo determinado a oprimir outro que historicamente sempre esteve em desvantagem. 
CHILD FREE NÃO É SOBRE MATERNIDADE.
CHILD FREE É SOBRE DESQUALIFICAÇÃO E OPRESSÃO À CONDIÇÃO INFANTE. 
Sem filhos mas não alguém que
odeia criança
[Nota da Lola: Eu vejo childfree como um termo simples usado por pessoas que não têm filhos. Eu, por exemplo, sou child free. Mas creio que Marcela conhece grupos child free que estendem essa opção a odiar crianças, ou a locais públicos que proíbem a presença de crianças].
Feito o esclarecimento anterior, mesmo não tendo o desejo de ser mãe, a maternidade é uma questão para mim. E para todas as mulheres.
Por isso, às vezes me pego a pensar: "E se eu fosse mãe?"
Na maioria das vezes paro para pensar nisso quando leio algo do tipo "Ser mãe de menina é..." ou "Ser mãe de menino é...", seguido de afirmações doces ou engraçadas.
Sempre que leio tais frases sinto um arrepio, porque não vejo nada de doce ou engraçado no mundo em que vivo e, consequentemente, onde criaria as crianças.
Eu sempre penso, "Se eu fosse mãe de menina...":
Eu sentiria MUITO MEDO, um medo GIGANTE, pois o mundo é mau, especialmente com as mulheres, principalmente com as mulheres negras;
Eu temeria pela sua saúde, pois o atendimento de saúde à população negra costuma ser negligenciado, mesmo quando pagamos caro por ele;
Eu temeria o contato dela com todo e qualquer ser do sexo masculino (criança, adolescente, adulto jovem, de meia idade ou idoso), incluindo o pai e qualquer parente, por mais próximo e íntimo que fosse. Sim, eu temeria. Não posso vir aqui compartilhar reflexões e angústias de maneira cínica ou hipócrita;
Eu temeria pela sua escolarização. Por todos os apelidos, maus tratos, abuso emocional, conflito de identidade, dúvidas, solidão e incompreensão. Pelo menos 12 anos de angústia, cansaço, dor e luta. Com sorte, uma professora negra e consciente aqui, um professor crítico e empático ali. Ah, e a decepção de descobrir que aqueles professores que se fazem de combativos e militantes acham que questões de raça e gênero são menores, porque, segundo eles, tiram o foco da questão de classe;
Eu temeria que ela fosse engolida pelos padrões estéticos bombardeados pela mídia e se desconectasse dela mesma, de buscar saber de si, cuidar de si e não entendesse que, de verdade, as pessoas lindas são as que veem o mundo para além do seus próprios umbigos e que acreditam em igualdade, afeto amoroso, paz, empatia e solidariedade;
Eu temeria a objetificação do seu corpo, e temeria mais ainda não conseguir tratar desse assunto de maneira a permitir que se sentisse livre e sem medo do seu próprio corpo e do seu existir;
Eu a colocaria para fazer artes marciais desde bem pequena. 
Defesa pessoal é item de primeira necessidade para qualquer mulher; 
Eu a estimularia a brincar com todo tipo de brinquedo: de fogão e panela (afinal de contas todo mundo deveria cozinhar) a carrinho de rolimã, e com todo tipo de pessoa que a respeitasse e lhe tivesse afeto amoroso;
Eu a estimularia a conviver e respeitar todo tipo de animal, humano ou não humano, compreendendo que não se pode tomar ou manipular 
(em todos os sentidos possíveis) a vida de outro ser;
Eu tentaria demonstrar que a espiritualidade está para além da religião, mas, também, que as religiões podem ser espaços de identidade, resistência, solidariedade, ou o contrário. Ou seja, religiosidade é um estado de (poder) ser, religião é um estado de ser e fazer política (em seus sentidos mais amplos e complexos);
Eu a ensinaria a amar e não ter vergonha do avô carteiro, da avó técnica de enfermagem, da bisa trabalhadora doméstica que aprendeu a ler adulta, no Mobral, da outra bisa que, entre tantas atividades, foi merendeira de escola pública, da tia que cursou Relações Internacionais, Arquivologia, mas é apaixonada e trabalha com estética; tampouco da mãe professora, como diziam antigamente "professora primária", daquelas que puxam fila de criança todos os dias;
Antes de ler qualquer conto de fadas, contaria nossas histórias. A história da bisa que fugiu da violência doméstica, levando as duas filhas e nenhum documento além das Certidão de Batismo, voltando a usar o nome de solteira e renomeando as filhas da mesma forma; 
Contaria do avô, que chegou a servir o Exército sem saber ler e escrever e, após sair de lá, concluiu o ensino fundamental e o ensino médio em 5 anos;
São tantas histórias que demoraria anos pra terminar o serviço. Também lhe ensinaria que a história não é linear, que a vida é um vai e vem embolado, mas que pra alguns é mais difícil: mulheres, negras/os, indígenas, ciganos/as, homossexuais, transgêneros, pobres, moradores de favela e bairros populares, pequenos trabalhadores rurais, animais não humanos, migrantes, refugiados e tantos outros de quem me lembrasse;
Eu me disporia a aprender com ela e a ser com ela.
E aí fico pensando na tal frase "Ser mãe de menina é..." e só consigo imaginar que se fosse mãe eu diria que:
"Ser mãe de menina é ter medo sempre, acordar todos os dias e se vestir de coragem".
(Essa postagem é para as amigas/ companheiras que são mães e, justamente por isso, vestem-se de coragem todos os dias).

terça-feira, 25 de julho de 2017

VOCÊ NÃO PRECISA COMPETIR COM OUTRAS MULHERES PARA SE AMAR

E eu insisto: mulher bonita é a que luta.

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017

LUTANDO POR NÓS

Mural da artista Panmela Castro (Anarkia Boladona) na Barnard College

Hoje de manhã fui à Delegacia da Mulher fazer um novo boletim de ocorrência.
Foi o décimo. As ameaças são diárias, mas não tem como registrar um BO a cada ameaça dos mascus sanctos. Então só registro umas poucas
Tem tanta coisa que eu gostaria de poder contar pra vocês, mas não posso, porque corro o risco de comprometer as investigações.
O que posso contar é que eu estava lá, com meu advogado, relatando o caso para uma escrivã, quando se aproximou uma outra escrivã, que me atendeu em setembro. E ela me reconheceu, se lembrou de mim. Disse: "Lola! Tudo bem com você?" Me abraçou. E disse pra outra escrivã: "Ela luta por nós, mulheres". 
Só por isso já valeu a pena ter ido à delegacia hoje. 

quinta-feira, 9 de junho de 2016

GUEST POST: SORORIDADE E ACOLHIMENTO DE MULHERES EM SITUAÇÃO DE DOR AMOROSA

Katiuscia da Costa Pinheiro é feminista e professora do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Maranhão. O texto que ela escreveu trata da dificuldade de muitas mulheres, inclusive feministas, de acolher outras mulheres em relacionamento abusivo sem culpá-las por isso.

O conceito de sororidade tem meandros que exige de nós bem mais que uma noção simplista de empatia. É necessário entender que não existe acolhimento sem o escrutínio de alguns privilégios que não se resumem aos de classe e raça, por exemplo.
Muitas são as condições que fragilizam as mulheres, dentre elas as questões amorosas/ emocionais com seus companheiros/ maridos/ namorados. Existe o conforto emocional de estar em uma relação amorosa usufruindo das benesses sociais e psicológicas que “ter um homem” agrega às mulheres.
O acolhimento de uma amiga ou companheira que está passando por uma situação de sofrimento em uma relação amorosa, principalmente se for um relacionamento abusivo, tem que ser feito levando-se em conta as possibilidades da mulher lidar com esse sofrimento e a compreensão de que os desdobramentos dessa dor não estão totalmente sob o controle dessa mulher.
A questão é que por vezes a amiga que “acolhe” essa mulher vive uma situação de estar confortavelmente com o “homem perfeito” (muitas vezes por camuflar seus conflitos existenciais e os do próprio casal) e negligencia a precariedade emocional e até de saúde psicológica da amiga em situação de conflito amoroso.
Essas amigas enebriadas pela embriaguez do status social de ter este suposto príncipe encantado “acolhem” a que sofre, desmerecendo as peculiaridades de sua dor.
Uma das formas de fazer isso é mencionar que a mulher poderia ter reagido de outra forma à dor que o companheiro/ namorado/ marido lhe infligiu, não aceitando comportamentos como, por exemplo, a introspecção, a reclusão e rotulando essas atitudes como mera inveja, ou seja, incapacidade de estar perto da suposta felicidade das amigas.
Essa visão nivela por baixo o sofrimento alheio cuja complexidade não pode deixar de ser considerada, principalmente quando se trata de quadros próximos à depressão, por exemplo.
Acrescentar explicações como a “inveja” puxa o gatilho dos estereótipos que rondam as mulheres como meramente competitivas entre si e amesquinha a compreensão do quadro psicológico da mulher na situação de sofrimento amoroso que precisou se afastar das amigas por estar incomodada com os arrotos de vida amorosa perfeita delas. Assim como uma mãe que perdeu um filho recentemente não se sentiria bem numa festa de aniversário de crianças. Ela não tem inveja da festa, nem do filhx da outra, apenas tudo aquilo faz-lhe lembrar do que perdeu.
Em vez de acolher a amiga que está sofrendo e compreender suas reais motivações, preferem estereotipá-la como ingrata por não aceitar a “ajuda” que supostamente têm para oferecer (contanto que ela assuma que “errou” se recolhendo numa concha!). Ou pior: estigmatizam como fraqueza a reação da mulher porque no fundo se negam a admitir que ninguém tem total controle sobre sua dor e que há mecanismos psíquicos que ultrapassam nossa racionalidade. E se negam a fazer isso porque camuflam suas próprias misérias amorosas...
Estas mulheres “superiores”, além de quererem pautar de que forma deve-se sofrer a dor amorosa, ainda desdenham da suposta falta de força perante as agruras da situação conflituosa pela qual se está passando, ainda que passar por uma opressão não signifique concordar com ela e muito menos apoiá-la. Sem contar que muitas vezes se está ali todo tempo tensionando face ao companheiro/ marido/ namorado que está oprimindo...
Resumo da ópera: a mulher se afastou das amigas que vivem felizes com seus amados perfeitos, logo ela está com inveja e não suportou a felicidade da amiga! E essa mulher em sofrimento, em vez de ser acolhida, vai ser rechaçada. E ainda dizem: “Você poderia ter agido de outra forma!”. Não! Ela não poderia! Ela fez o que suas forças lhe permitiram. Mas para quem se acha imbatível os limites do outro nunca existem!
E, para piorar, se a mulher que sofre for feminista, aí ela será criticada ao extremo por uma suposta incoerência: afinal, está sofrendo por um homem! Como se ser feminista garantisse um escudo contra toda e qualquer violência ou abuso. Ou ainda te desse poderes para frear ou adivinhar o que vem do outro... 
E se você comenta algum aspecto da relação desse tipo de amiga a única reação que ela tem é afirmar: “Quem é você para falar algo, se teu homem é pior que o meu?” Desta forma se entra num raciocínio competitivo e infértil quanto a qualquer diálogo e que despreza a sororidade, pois age como um cão de guarda sempre alerta para proteger seu “tesouro”. Compreende qualquer comentário como desejo de desmonte da imagem de seu homem. Aff!
E aí somente uma mulher que nunca tivesse sofrido uma violência machista na vida poderia comentar algo sobre a relação de uma amiga, o que significaria na prática uma total impossibilidade de qualquer reflexão ou comentário construtivo, pois essa mulher incólume ao machismo simplesmente não existe! 
Tudo que desejo é que essas amigas cartesianas com seus companheiros/ namorados/ maridos perfeitos fiquem bem longe de mim! Quando eu estiver sofrendo por amor (porque quem nunca, né?), lembrarei bastante de não pedir a ajuda delas e de não incomodá-las em suas vidas controladas e acima de qualquer dor. Porque se existe algo de que eu esteja cheia nessa vida é de semi-deusas!