Mostrando postagens com marcador privilégio. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador privilégio. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 27 de maio de 2016

DEZ FORMAS COMO O PRIVILÉGIO MASCULINO APARECE NA IGREJA

Pastores e membros

Faz pouco tempo publiquei um excelente guest post de uma leitora que é cristã e feminista, e não vê conflito algum nisso. 
Quando fui ilustrar o post, descobri que a teologia feminista não tem nada de novo. Muitas mulheres religiosas são feministas e combatem o machismo dentro de suas igrejas. Encontrei este belo texto da cristã (acho que batista) Gail Wallace e pedi para a maravilhosa Elis traduzi-lo. Sei que o texto está longe da realidade da maior parte dos leitorxs aqui do blog, mas acho que vale a pena mostrar que existem pessoas que discutem gênero dentro das igrejas.

Realize seus sonhos, diz mãe ao filho.
Realizes nossos sonhos, diz pai à
filha
“Você é um homem branco americano com formação superior. O mundo está à sua disposição -- nunca se esqueça disso!”
Andei pensando muito no privilégio masculino ultimamente. Bem, não só ultimamente. Eu ouvi esse diálogo em um Starbucks em Washington, D.C. há mais de um ano e ele ainda me persegue. O dicionário Oxford define privilégio como “um direito, vantagem ou imunidade especial concedido ou disponibilizado apenas para uma pessoa ou grupo”. Falando de forma simples, privilégio tem a ver com como os grupos na sociedade acomodam e tratam você.
"Qual o problema?" pergunta o homem.
"É a mesma distância!"
Acredito que muitos cristãos estão se conscientizando mais quanto aos privilégios raciais e de classe, mas não vejo o mesmo nível de conscientização com relação ao privilégio masculino.
Nos últimos meses, tive muitas conversas com amigos que não concordam que eles são “privilegiados” em suas comunidades de fé e que as mulheres, como resultado, estão em desvantagem. Eu vinha orando e refletindo profundamente sobre como superar esse impasse quando me deparei com a Lista de identificação do privilégio masculino. Há muitas dessas listas por aí, mas essa tinha muitos exemplos que eu acredito que se aplicam também ao contexto das igrejas. Eu reescrevi alguns através do meu ponto de vista como uma mulher na igreja evangélica conservadora.
1. O privilégio masculino é refletido no momento em que um homem se pergunta por que as pessoas ainda discutem gênero.
E é refletido ainda mais se ele se sentir ofendido ou impaciente quando outra pessoa chamar atenção para o privilégio e questioná-lo. “Devemos olhar além do gênero” é uma frase dita frequentemente por pessoas para quem o gênero não é uma questão ou uma negociação diária.
Privilégio masculino não existe
2. Privilégio masculino significa nunca ter sua inteligência ou suas qualificações questionadas por causa do seu gênero.
Provavelmente, as pessoas não irão presumir que você não sabe lidar com dinheiro, que você é enganado com mais facilidade ou que sua capacidade de tomar decisões importantes depende do período do mês,
3. Se quiser se candidatar a uma posição na equipe pastoral, você pode ter certeza de que seu gênero não será um problema.
Na realidade, a menos que se trate de um ministério voltado para crianças ou mulheres, as circunstâncias estão a seu favor. Quanto mais prestigiado o cargo (pense em algo como "pastor presidente"), mais as chances estão a seu favor. A decisão de contratá-lo não será influenciada por pressuposições sobre você ter ou não filhos pequenos em casa ou sobre você poder querer começar uma família em breve.
4. Se você fizer o mesmo trabalho que uma mulher, provavelmente as pessoas vão achar que você fez um trabalho melhor mesmo que os resultados tenham sido iguais.
E se fizer um sermão de domingo, você pode ter certeza de que todas as pessoas do seu gênero não passarão por um julgamento (e você não precisará se preocupar quanto a onde colocar o equipamento de microfone ou qual mensagem suas roupas passam).
Todo mundo aqui? Ok, vamos votar!
5. Os grupos de dirigentes da sua igreja e sua denominação serão compostos em sua maioria por pessoas do seu gênero.
As chances são de 10:1 de que o pastor presidente, pastor auxiliar e evangelista também sejam homens. Sempre que participar de um culto, você verá pessoas de seu próprio gênero representadas amplamente à frente.
6. Como homem, é mais provável que as pessoas lhe confiem responsabilidades, ainda que você seja novo na igreja.
Provavelmente, pedirão sua opinião sobre questões importantes da igreja. As pessoas vão ouvir o que você tem a dizer e sua opinião será levada a sério. (Se você for casado, é mais provável que peçam que sua esposa participe dos ministérios para crianças ou traga lanches.)
7. Quando participar de reuniões na igreja, você pode ser emotivo ou assertivo sem ser visto de forma negativa.
É mais provável que os homens do grupo façam contato visual com você e, em média, você não será interrompido por mulheres que participam da reunião tanto quanto as mulheres são interrompidas pelos homens. Provavelmente, você não se preocupará se precisar ir até seu carro no estacionamento da igreja sozinho tarde da noite.
8. Personagens bíblicos masculinos serão retratados como personagens principais e exemplos positivos 90% das vezes no currículo educacional.
Personagens masculinos terão destaque na maioria das aulas dos currículos das crianças, dos currículos dos grupos de jovens, no sermão de domingo, nos pequenos grupos de estudo... vocês entenderam.
C. S. Lewis: de todos os homens
maus, homens maus religiosos
são os piores
9. Você pode ter certeza de que a linguagem usada em todos os aspectos da adoração coletiva o incluirão de forma clara.
Isso vale para qualquer parte das escrituras que for lida (independentemente da tradução usada), das citações mencionadas e das canções de adoração escolhidas. Não será esperado que você traduza ou interprete quando os pronomes de gênero se aplicam ou não a você.
A representação errada de Deus
como masculino têm ferido
mulheres em todas as áreas de
suas vidas
10. Deus será representado como homem e descrito em termos masculinos 90% das vezes.
Eu sei que há situações na vida em que os homens também ficam em desvantagem, e sei que o fato de o privilégio masculino existir não significa que a vida dos homens é livre de problemas. Mas a realidade é que, quando um grupo é privilegiado em detrimento do outro, o outro grupo sofre e nós não estamos vivendo completamente a mensagem do evangelho. 
Embora seja um incentivo ver cada vez mais homens defendendo a inclusão total das mulheres na igreja, ainda temos um longo caminho pela frente. Eu acredito que, na maior parte, os homens têm boas intenções com relação a suas irmãs em Cristo.
Mas, irmãos, até que vocês reconheçam seus privilégios masculinos e o impacto que ele tem sobre nós, é difícil ter um diálogo produtivo sobre o que podemos fazer para que o Reino aqui na terra seja mais parecido com o Reino dos Céus.

sexta-feira, 8 de abril de 2016

GUEST POST: "MEUS PAIS TRATAM MEU IRMÃO MUITO MELHOR QUE EU"

Relato da B.: 

Conheci o seu blog recentemente, mas sem dúvida vou acompanhar agora. Li casos de pessoa que enviam as suas histórias de vida para você e resolvi fazer o mesmo. Talvez o que mais quero seja desabafar, sair desse sufoco que me prende.
Fui criada por uma família machista e percebia isso mesmo antes de compreender de fato o machismo. Tenho um irmão quatro anos mais velho. Não posso dizer que ele não é esforçado quanto à carreira profissional, tenho orgulho de ser irmã dele. Entretanto, é o tratamento em casa com que não concordo. Meu irmão sempre foi mimado pelos meus pais e minha vó pelo simples fato de... ser homem. 
Aos 25 anos ele não coloca comida no prato, não arruma a cama, não seca o banheiro após o banho. Tudo isso e muito mais eu fui ensinada a fazer desde pequena. Claro, sem falar nas "aulas" de culinária e em como lavar roupa. O argumento era o mesmo: você precisa saber disso para quando casar. 
Sempre fui tratada de forma diferente. Meus pais investiram o básico na minha educação, enquanto meu irmão fazia cursos. Aos 14 anos eu tive que chorar e implorar para que eles pagassem um curso para mim -- o mesmo curso que meu irmão fez. Eu queria estudar, começar a pensar e construir a minha vida.
Sempre fui uma menina quieta. Meus hobbies eram ler, ouvir música e conversar com minhas amigas. Não bebo, não fumo, nunca usei e nem quero saber de drogas. Nunca tirei notas ruins. Me esforçava ao máximo nos estudos para dar orgulho aos meus pais, mas nunca ganhei um parabéns. Raramente conversavam comigo sobre a escola, somente quando eu os procurava. 
Sempre me senti inferior ao meu irmão. Não que eu me considere incapaz, pelo contrário. Estudo na mesma universidade pública que ele se formou. Estou no último ano de graduação e com planos de mestrado. Faço iniciação científica e me dedico. 
Mas, apesar disso, eu sempre fico à sombra. Inúmeras vezes meus pais exaltaram o meu irmão falando da faculdade, dos estudos, enquanto eu nem era mencionada.
Isso sempre me machucava, como se eu não fizesse o bastante para merecer aquela atenção. Em busca disto, eu me submetia a tudo que eles queriam. Anulava as minhas vontades, a minha tão sonhada autonomia. Veja bem, ainda moro com os meus pais e eles me ajudam sim, mas recebo uma bolsa com a qual pago meu transporte e meus gastos com roupas e demais necessidades. Com meus atuais 21 anos, me sinto mais uma posse do que uma filha.
Estudo e sempre que possível ajudo em casa com os serviços. Também tenho minhas responsabilidades com a iniciação e a faculdade. Meu irmão não faz nada. Não me surpreende, já que não foi criado para ajudar, mas para ser servido. 
Certo dia eu estava doente, com dores no corpo, ânsia de vômito e forte dor de cabeça. Minha mãe me mandou arrumar a casa, pois era quase hora do almoço. 
Enquanto isso, meu irmão estava deitado assistindo televisão. Aquilo me doeu. Só não dói mais do que perguntar a razão disto e receber um "Porque voce é mulher" como resposta. Ressalto que meu irmão agride minha mãe e avó verbalmente. São gritos porque a comida não está do jeito que ele gosta ou se fazem muito barulho enquanto ele está dormindo. Essa falta de respeito me incomoda tanto que já briguei com ele em defesa dos meus pais. Mas depois fui reprendida por esta atitude.
Tudo isso se intensificou agora que eu e ele estamos namorando (com outras pessoas, óbvio!). Momento algum expuseram regras para o relacionamento dele. Quanto a mim, a lista se estende a cada dia. Implicaram com um short que usei no dia que meu namorado veio em casa. Implicam se eu fico sozinha com o meu namorado na sala à noite. Se eu saio com ele. 
O meu relacionamento é feliz. Encontrei um homem que me trata como nunca fui tratada. Me respeita, apoia meus sonhos, nunca me agrediu, seja fisicamente ou verbalmente. Temos planos de nos casar e montar uma família. 
Tenho muita vergonha do que minha família faz para o meu namorado. Eles parecem não acreditar que ele gosta de mim, acham que ele somente quer me usar fisicamente. Para minha família, se souberem que eu tenho relações sexuais com o meu namorado seria a maior desgraça. Já disseram que se isto acontecer, serei obrigada a casar para "abafar" frente a sociedade. Já falaram em me levar em um médico para "verificar a minha virgindade". Bati o pé, disse o quanto isso é um absurdo, mas minha voz não faz diferença.
Eu tento me impor, expressar minha voz, mas me dói muito receber este tratamento de quem me deu a vida.
Me sinto sufocada. Sem vontade de levantar da cama e conviver com tudo isso. Tenho certeza que, se não fosse o meu namorado e o apoio que recebo das minhas amigas, eu já teria tirado a minha vida. 
Muitas foram as vezes que pensei nisto, na paz que a morte poderia me trazer. Sei que tenho traumas psicológicos. Tomo medicação para ansiedade e depressão desde os 18 anos, mas não é o remédio que tem me mantido firme. É o apoio daqueles que sei que me amam. É a possibilidade de me ver livre disso.

Meus comentários: Querida B., força! O que você passa, essa injustiça que você sente, ainda é comum em muitas famílias. Em linhas gerais, chama-se privilégio masculino. Seus pais acreditam na lenga-lenga de que homens são superiores às mulheres, e tratam você e seu irmão de acordo com essas crenças. 
Mas tente se impor, sim! Sei que é difícil, mas tente. Aguente firme. Você já é maior de idade e pode sair de casa quando quiser, embora seja melhor (economicamente, pelo menos) esperar até terminar a graduação. 
Mas se não der mais pra suportar, tente dividir um apê com uma amiga, ou morar numa república, ou se juntar com seu namorado, se vocês dois não acharem que estão precipitando as coisas. Nada de pensar em suicídio! 
A essa altura do campeonato, seus pais dificilmente vão mudar. E seu irmão, infelizmente, é um caso perdido. Vai ser um estorvo pra mulher que aceitar se casar com ele. Não vai mexer um dedo em casa, porque aprendeu, durante 25 anos, que tarefas domésticas não são masculinas. E ele vai provavelmente ensinar os filhos a agirem igual. E assim o machismo se perpetua. 

segunda-feira, 28 de dezembro de 2015

MULHERES DEVEM SE APOSENTAR ANTES DOS HOMENS?

Até agora não aconteceu nada que justifique a manchete ao lado, mas a mera proposta de fixar a idade da aposentadoria em 65 anos (35 anos de contribuição) tanto pra homens quanto pra mulheres já atiçou os ânimos de inúmeros misóginos, daqueles que bradam: "Vocês feminazis só querem os privilégios!"
Os caras que falam essas besteiras nem se tocam que trabalhadores rurais também podem se aposentar antes, e sem terem contribuído. Isso também é privilégio? Ou existem razões para que a aposentadoria deles seja diferente da dos trabalhadores urbanos?
Num mundo ideal e igualitário, realmente não existiriam motivos pras mulheres se aposentarem cinco anos antes. Mas falta muito pra chegar neste mundo. Pra começar, hoje, como está, mulheres ganham muito menos que homens. Quer dizer, se você, homem, não acha 30% "muito menos", experimente encolher o seu holerite em um terço. É sério, esses dados não estão em discussão. Não é achismo, não é "Ahn, não conheço nenhuma empresa que pague menos às funcionárias" (como se a gente soubesse o salário de alguém no nosso local de trabalho!). É estatística.
Uma brasileira recebe 62% do que ganha um brasileiro com o mesmo nível de escolaridade. Entre 42 países analisados pela Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico, o Brasil ocupa, ao lado do Chile, o primeiro lugar no ranking de disparidade de gênero no que se refere a salários. Mesmo num país muito mais igual que o nosso, a Finlândia, a renda média dos homens é 40 mil dólares por ano. A das mulheres, é 32.500.
Ainda que mulheres já sejam 53,5% dos mestres no Brasil, elas ganham, em média, R$ 5.438 (dados de 2013), enquanto os mestres homens recebem R$ 7.557.
E sim, até na mesma área essa diferença persiste. Por exemplo, um mestre em Letras ou Linguística no Brasil recebe, em média, R$ 4.660 -- se for homem. Se for mulher, uma mestre exatamente na mesma área ganha R$ 4 mil. Essa absurda diferença ocorre em todas as áreas!
Mas o principal motivo para mulheres (o que deveria incluir mulheres trans) poderem se aposentar antes nem é a flagrante injustiça salarial. É a jornada dupla e tripla de trabalho. 
Hoje a maior parte das mulheres trabalha fora de casa. Já somos metade da força de trabalho no país. A mudança econômica foi gritante, mas a cultural, ainda não. Os homens ainda não fazem a sua parte: não participam das tarefas domésticas, não cuidam das crianças ou dos idosos. Infelizmente, o tempo que os homens dedicam aos afazeres da casa aumentou em quase nada na última década -- ridículos 8 minutos a mais por semana.
Assim, o que temos? Aquele velho clichê do cara que chega exausto do serviço e, em vez de trocar a fralda do filho, lavar a roupa ou preparar o jantar, estica-se no sofá pra ver TV. E a esposa, que também voltou exausta do serviço, precisa fazer tudo isso.
As mulheres fazem 52% do trabalho global. Homens fazem 48%. Mas os homens ainda são a maioria no trabalho remunerado. Pois é, a mesma sociedade que determinou que mulheres podem se aposentar cinco anos mais cedo também determinou que mulheres devem cuidar do trabalho doméstico -- sem qualquer tipo de remuneração.
E sabem aquele outro "privilégio" da mulher que tanto é citado, a licença maternidade? Esta licença é fundamental para toda a sociedade, e existe na grande maioria dos países (ironicamente, o país mais rico do mundo, os EUA, não concede licença maternidade paga!). Lógico que foi o feminismo que exigiu e alcançou a licença maternidade. O que poucos sabem é que as feministas lutam também por licença paternidade! Porque, no mundo que queremos, cuidar da casa e dos filhos deve ser obrigação dos homens também.
Em alguns países do mundo, como Alemanha e Inglaterra, a idade da aposentadoria foi equiparada. Em vários outros, no entanto, a diferença ainda persiste: na China e Rússia, a idade mínima para mulheres é de 55 anos, e, para homens, 60. Na Argentina, é de 60 anos para mulheres e 65 para homens. Áustria e Suíça também permitem que mulheres se aposentem antes. A França deixa que mulheres com filhos contribuam por menos tempo. 
Os governos de todo o mundo querem aumentar a idade da aposentadoria, porque as pessoas vivem mais e a previdência social é sempre contestada.
Há quem alegue que, pelo fato das brasileiras viverem oito anos em média a mais que os homens, e por terem menos filhos hoje do que há algumas décadas, a idade da aposentadoria deveria ser a mesma. Esses dois fatores são de fato verdade. Mas a jornada dupla de trabalho também é. 
E se você acha que a diferença salarial se resolve na aposentadoria, pense de novo! As mulheres continuam ganhando menos depois de aposentadas, claro. Pra citar um dado dos EUA, 2,9 milhões de mulheres idosas viviam em situação de pobreza em 2013, mais que o dobro do número de homens. Além do mais, 45% das mulheres com mais de 75 anos vivem sozinhas, o que pode deixá-las desamparadas.
Portanto, mulher se aposentar antes é um pouco como cotas para negros no Enem -- não é privilégio, é compensação! Se as mulheres ganhassem o mesmo que os homens, se não precisassem arcar com todo o serviço doméstico sozinhas, ou se os negros e pardos não fossem maioria na população mas minoria nas universidades públicas, não haveria necessidade alguma de compensação.
Até que não haja igualdade, a resposta para a pergunta "Mulheres devem se aposentar antes?" é: por enquanto, sim.


Mais um dado fascinante: mulheres gastam mais que homens. Um estudo em Nova York avaliou 800 produtos em 35 categorias diferentes e constatou que produtos feitos "pra mulheres" custam 42% a mais que aqueles feitos "pra homens". 
Desodorante feminino custa mais que masculino, por exemplo. Roupas femininas são mais caras. Um shampoo pra homem em NY custa em média US$ 5,68. Pra mulher, 8,39, uma diferença de 48% a mais (sem falar que absorventes que as mulheres precisam usar durante a maior parte da vida são caros pra caramba). 
Se colocar essas diferenças na ponta do lápis, elas formam uma bolada de dinheiro. Como diz a reportagem, é um imposto secreto que as mulheres pagam pra quase qualquer coisa. A matéria ainda diz: gênero é uma construção social. E é uma construção cara. 
Ou seja: ganhamos menos, pagamos mais. Mas igualdade, segundo muitos, é que a gente se aposente na mesma idade. 

UPDATE: Esta matéria da BBC, publicada um ano depois deste post no meu blog, traz várias colocações interessantes. Entre elas, que a aposentadoria mais tarde para mulheres faria com que tivessem menos filhos, o que provocaria ainda mais o envelhecimento da população.

domingo, 13 de setembro de 2015

MERITOCRACIA: O PROBLEMA É O NAUFRÁGIO

Nos comentários do guest post "Por que eles e não eu?", muito se falou de meritocracia. Ao responder a um dos muitos "Estado mínimo, eu quero dois" (para quem o problema não é a miséria, mas o Estado, o esquerdismo, o marxismo cultural, o foro de SP e o caribe a quatro), Donadio deu uma excelente resposta sobre meritocracia.

Olha, você está em um navio, o navio afunda a dois quilômetros da costa... quem se salva? Os melhores nadadores, certo? Mérito deles, não é?
Mas o problema não é esse, é o naufrágio. Os reaças acham o naufrágio maravilhoso, por que dá aos melhores a oportunidade de serem melhores (e livra o mundo dos "piores", isto é, aqueles que não sabem nadar ou não têm energia para nadar dois quilômetros).
Clique para ampliar, e
veja o cartum inteiro do
ilustrador australiano aqui
Mérito, mérito, mérito, todo mundo têm. A questão é saber por que é que um exerce o seu mérito a partir de uma situação de relativo conforto (sim, passar em concurso para AGU [Advogado da União] ou diplomata ainda é difícil, mesmo se você estudou no Sion [escola particular tradicional em SP] e sempre teve empregada doméstica para te poupar de arrumar a cama) e outros têm de exercer o seu mérito a partir de uma situação de absoluto desprivilégio (e, vamos e venhamos, dependendo de onde você vem, e da cor da sua pele, simplesmente ter um emprego de gari e se manter honesto e livre de encontros desagradáveis com a polícia demanda mais mérito do que ser juiz ou professor da Sorbonne para outros cuja vida sempre foi mais fácil). 
Enfim, por que é que o navio de alguns afunda na praia, e o de outros afunda no meio do mar? E por que é que o prêmio para quem se salva nadando desde o meio do mar não é maior do que o de quem se salva nadando vinte metros?

E um comentário do Rafael Cherem de brinde:

Parece que todo mundo sabe a cor de seu gato favorito, a discussão fica em torno como ele caça o rato.
Há um fato estatístico que não pode ser ignorado e toda pesquisa séria aponta isso: somos um país terrivelmente desigual, aliás, nem precisa de pesquisa, uma olhada na rua basta. E aí vem gente aqui dizendo que desigualdade é bom, é natural, até a natureza é desigual. Ok. Ok. Que riqueza se cria e não se distribui, ok, ok. Mas a concentração de riqueza é um fato, ou acham natural que 1% da população está com a maior parte da riqueza? 
Não é, é fruto de uma história de 600 anos de patrimonialismo, de sermos uma terra de fidalgos, que lançou parte de sua população produtiva na pobreza após a abolição, que acabou com sua educação pública, que prioriza o capital especulativo e que replica esse estado de coisas ad eternum. Às vezes, a histeria anti-comunista beira o ridículo, parece para alguns que a desigualdade é fruto de anos e anos de politicas socialistas. Sinto informá-los, mas é justamente o contrário.