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domingo, 22 de setembro de 2019

FASCISTAS MATAM AGATHA, 8 ANOS

Na noite de sexta, no Rio, uma menina de 8 anos, Agatha Félix, morreu com um tiro nas costas dentro de uma Kombi. Ela estava ao lado do avô. 
Agatha morreu de "bala perdida", daquelas que quase sempre encontram pessoas pobres e negras. Não foi a única. Na realidade, ela foi a 16a criança vítima da violência armada na Grande Rio. Oito delas durante algum tipo de ação policial.
A PM disse que revidou a um ataque. Vizinhos contaram que não houve confronto algum: os policiais atiraram contra uma moto, mas a bala desviou e entrou na Kombi. 
O avô se revoltou: “Mais um na estatística. Vai chegar amanhã e dizer que morreu uma criança no confronto. Que confronto? Confronto com quem? Porque não tinha ninguém, não tinha ninguém. Ele atirou por atirar na kombi. Atirou na kombi e matou minha neta. Isso é confronto? A minha neta estava armada por acaso para poder levar um tiro?”
A família de Agatha recusou ajuda do governo para custear o enterro.
Moradores do Complexo do Alemão organizaram atos para protestar contra a morte de Agatha e policiais apareceram para fotografar e filmar quem estava organizando. É ditadura que se chama.
O governador do Rio, Wilson Witzel, eleito no surto fascista que levou Bolso ao poder federal, defende franco-atiradores e helicópteros blindados em ações policiais, mesmo que essas ações ponham em risco centenas de pessoas, incluindo crianças. Segundo reaças, assassinatos como o de Agatha são apenas efeitos colaterais. Resultado de um excelente trabalho policial. 
No mesmo dia em que o assassinato de Agatha mobilizou as redes, Eduardo Bolsonaro, que quer ser embaixador nos EUA, divulgou vídeo de uma criancinha armada. Ele disse: "brinquei de polícia e ladrão e não virei bandido". Há discordâncias.
Para Dudu, pai e irmãos que contratam funcionários fantasmas e ficam com seus salários não são bandidos. Milicianos que mandam matar Marielle Franco não são bandidos. Marombados que conseguiram se eleger quebrando placa de Marielle não são bandidos (desafio que eles vão a Paris e lá tentem vandalizar o jardim inaugurado em homenagem a ela). 
Fascistas que mandam polícia matar geral não são bandidos. Bandido é quem mora em favela e quem é de esquerda. 
Outras barbaridades que li ontem no Twitter foram um reaça reclamando: "Daqui a pouco vão dizer que foi a polícia que matou a menina" (ué, não foi?). E outro dizendo que estamos politizando a morte de uma criança. Porque, segundo ele, a polícia que mais mata no mundo matar uma menina negra e pobre não é um ato político. 
Como também não deve ser um ato político o silêncio ensurdecedor das autoridades responsáveis por esse genocídio. Bolso, que anunciou com pesar a morte de um músico misógino que se suicidou após espancar a amante grávida, não deu um pio sobre o assassinato de Agatha. Mas esses cidadãos de bem(ns) não se autointitulam defensores da família? Ou quando a família é pobre não conta?
Lembram do escândalo que reaças fizeram com um beijo numa história em quadrinhos? O escândalo foi pra salvar as crianças, juraram eles. Mas silêncio total dessa mesma gentalha quando uma criança de verdade é morta. 

segunda-feira, 15 de abril de 2019

LIBERDADE DE EXPRESSÃO SÓ PARA HUMORISTAS? E OS PROFESSORES?

Hoje pela manhã surgiu a informação que a professora Camila Marques, do Instituto Federal de Goiás, havia sido presa em sala de aula pela polícia, acusada por professores bolsonaristas de doutrinar alunos.
Não foi bem assim, mas quase. A polícia recebeu uma denúncia de que poderia haver um massacre no campus de Águas Lindas, e foi até lá. Segundo a professora, como a escola  fica na periferia e concentra alunos de baixa renda, a polícia costuma tratá-los com truculência. Ela decidiu filmar a ação, e a polícia não gostou. 
Os policiais pediram para que ela os acompanhasse à delegacia, como testemunha. Porém, no caminho, tiraram o celular das mãos de Camila e a algemaram. Outros três alunos menores de idade também foram conduzidos. 
Camila relatou o que aconteceu aqui e aqui, com mais detalhes. Como ela diz, sobre os grupos conservadores: "Eles estão se organizando para nos atacar, e nós vamos nos organizar e vamos nos manter firmes".
Clique para ampliar e
ler a nota do Andes
De fato é preciso tomar muito cuidado com a polícia entrando em instituições públicas já que, nas mãos deste governo, que quer criminalizar professores, ela se torna um instrumento muito eficaz de repressão. E, quando professores começarem a ser presos por manifestarem suas opiniões, através de projetos fascistas como o Escola Sem Partido, será que o pessoal vai defender o nosso direito à liberdade de expressão? Ou isso só vale pros humoristas? 

quarta-feira, 10 de abril de 2019

QUASE ONZE ANOS SEM ELOÁ

Anteontem vi na TV Record um programa sobre o caso Eloá, uma menina de 15 anos que em outubro de 2008 foi morta pelo ex-namorado Lindemberg. 
Creio que qualquer brasileiro com mais de vinte anos se lembra do caso, que paralisou o país. Lindemberg, 22 anos, invadiu o apartamento num conjunto habitacional em Santo André onde morava sua ex, Eloá Pimentel. Durante quatro dias, a manteve em cativeiro, dois deles com a amiga Nayara. Ele agredia e ameaçava Eloá, ela pedia calma pela janela, ele dizia para a polícia "Se ela tá passando por isso, é porque ela merece". E o Brasil acompanhava tudo ao vivo. 
O caso Eloá foi tão escabroso que virou case internacional nas faculdades de comunicação e de segurança pública. Num caso inédito, a polícia permitiu que uma refém libertada, Nayara, voltasse ao cativeiro -- uma menina de 14 anos foi enviada para negociar a rendição de Lindemberg. Ele não cumpriu a parte do acordo, e a pegou como refém novamente. No fim, ele atirou nela, na boca. Felizmente, Nayara sobreviveu.
A atuação da mídia foi tão desastrosa quanto a da polícia. Vários programas sensacionalistas telefonaram para o apartamento de Eloá e conseguiram falar ao vivo com o sequestrador. Ele, sabendo que o país inteiro estava assistindo, perguntava "Tá na televisão? É ao vivo?" 
O programa de Sonia Abrão dedicou inúmeras horas ao caso. Numa dessas horas, enquanto a tragédia ainda estava na metade, chamou um advogado, doutor Ademar, para "nos orientar assim sobre o que vai acontecer daqui pra frente". E o sujeito respondeu: 
“Bom, eu sou muito otimista, né? Eu espero que isso termine assim em pizza, né, e num casamento futuro entre ele e a namorada, a apaixonada dele, né? Ele tá passando uma fase momentânea, né, e ele tem a motivação de viver, porque um rapaz jovem, quando se apaixona muitas vezes se desequilibra, no caso radicaliza, mesmo. Mas isso vai terminar realmente em final feliz, graças a Deus, eu tenho plena certeza e convicção disto".
Aqui vai um adendo. Aliás, dois. Muitas vezes nas minhas palestras eu cito o caso Eloá, porque ele marcou o meu primeiro encontro indireto com mascus, quando meu blog não tinha nem um ano de idade e eu ainda não sabia da existência deles. Fiquei sabendo na época de comunidades hediondas no Orkut que saudaram Lindemberg como herói e celebravam o assassinato de uma menina de 15 anos. Uma delas era "Eloá virou presunto". 
Eu nem sabia que masculinistas brasileiros existiam (só vim a saber uns dois anos depois), mas já fiquei chocada com os comentários do fórum. Num deles, esses misóginos debatiam sobre a cor do caixão em que Eloá seria enterrada. Não podia ser branco, segundo eles, porque ela era uma vadia. Um deles concluiu: “Que se f*da a cor do caixão, o importante é que ela vai ser comida embaixo da terra”.
Sempre que eu lembro ao público das palestras o que o advogado disse no programa sensacionalista de TV ou conto o que a comunidade mascu no Orkut falava sobre Eloá, há um choque. As pessoas ficam genuinamente aterrorizadas. Não conseguem crer que homens possam realmente proferir essas palavras. 
O outro adendo é que, no início de 2015, meu blog deu um furo de reportagem ao denunciar o passado de stalker de um participante do Big Brother Brasil. Um produtor do programa da Sonia Abrão me ligou pedindo para ir a São Paulo ser entrevistada sobre o caso BBB. Respondi: "Sonia Abrão, aquela do programa que entrevistou o assassino de Eloá ao vivo? Não, obrigada". Ele nem tentou argumentar antes de eu desligar. Parecia acostumado com esse tipo de resposta. 
Mas voltando ao programa da Record anteontem. A reportagem não trouxe qualquer autocrítica da mídia sobre como agiu no caso Eloá. Houve críticas à polícia, mas não à mídia. Por que não?
Uma das críticas à polícia é por que um sniper no prédio em frente não recebeu a ordem de atirar em Lindemberg, já que ele frequentemente aparecia na janela. O coronel responsável pela operação justificou na época: "Era um garoto de 22 anos, sem antecedentes criminais, em uma crise amorosa". 
O que mais se viu foram comentários como esses. Ele era um bom rapaz, só estava passando por uma fase ruim porque Eloá não queria mais falar com ele. Ele era trabalhador, esforçado, um garoto. A culpa recaía toda sobre Eloá aos olhos da mídia, algo que o excelente documentário Quem Matou Eloá? (realizado pela ECA USP em 2015) mostra muito bem. 
O "bom rapaz" deu dois tiros em Eloá, um na cabeça, outro na virilha, numa ação bastante característica de misóginos em geral (eles atacam partes do corpo relacionadas à feminilidade). A mãe de Eloá doou sete de seus órgãos, que fizeram outras pessoas viverem. 
A reportagem da Record, apesar de limitadíssima na autocrítica, traz alguns dados interessantes que eu desconhecia. Por exemplo: Nayara foi indenizada pelo Estado em R$ 150 mil (a sentença é justa, mas o valor, a meu ver, não: a menina perdeu todos os dentes com o tiro, teve que reconstruir sua boca), mas a família de Eloá não recebeu um centavo. A Justiça não considerou que o Estado teve culpa na morte de Eloá, o que é absurdo. 
Lindemberg, que nunca manifestou arrependimento, foi condenado por júri popular a 96 anos de prisão. Sua defesa recorreu e a pena caiu para 39 anos. A defesa, ainda insatisfeita, recorreu novamente. Se a pena permanecer em 39 anos, Lindemberg já poderá pedir progressão de pena em regime aberto a partir de 2022. Ou seja, ele pode ficar menos de 14 anos na cadeia por matar uma menina e atirar em outra, não sem antes mantê-las em cativeiro durante dias.
Eloá e Nayara
Quero acreditar que bastante coisa mudou de 2008 pra cá. Desde 2015 temos um termo para substituir o ridículo "crime passional", que é feminicídio. Se a ação criminosa de Lindemberg acontecesse hoje, ele seria condenado também por feminicídio, o que aumentaria sua sentença. Quero acreditar que, se acontecesse hoje, tanta gente não trataria o assassino como um coitadinho apaixonado. E que, se acontecesse hoje, Eloá sairia daquele apartamento viva. 

segunda-feira, 4 de março de 2019

EI, POLÍCIA, LARGUE OS BRAÇOS DA ESQUERDA

Segunda-feira de carnaval, e eu em casa, sem viajar, sem sair 
(por opção própria. Desistimos de viajar no carnaval. 
As praias ficam barulhentas demais, com montes de paredões de som competindo entre si para ver quem mais inferniza a natureza e a vida dos outros).
Estava com preguiça pra fazer um post. Mas hoje cedo vi um vídeo que me deixou bastante indignada. Era do Lula saindo do velório de Arthur, seu neto de 7 anos. 
Lula está chorando e responde com um aceno às pessoas que o saúdam e gritam seu nome. E o delegado ou policial ou agente ao lado dele pega no seu braço e o obriga a baixá-lo. 
Que tipo de democracia é essa que uma pessoa não pode acenar? E depois tem gente que nega que Lula seja um preso político...
Não sei se o diálogo que foi divulgado depois tem relação à cena que vimos. 
Mas estava pensando em escrever sobre como o Brasil inteiro está cantando "Ei Bolsonaro, vai tomar no c*", 
que se tornou hino do carnaval, ou "Doutor, eu não me engano, o Bolsonaro é miliciano", ou tantas "homenagens" que estão sendo feitas por pessoas de todo o país a um presidente que acabou de completar dois meses de governo e já é tão detestado (e isso só tende a piorar. É ladeira daqui pra frente). Ou como hashtags do tipo #EiBolsominionVaiTomarTambém dominam os TT no Twitter há horas.
Mas eis que vejo um outro vídeo. De um rapaz preso numa delegacia que tem o braço quebrado por um policial. Vejam o vídeo. É horrível. Dá pra ouvir o estalo do osso se quebrando. 
Este é o relato de Pham Dal Bello, companheira de Geovani Doratiotto, presidente do diretório municipal do PT em Atibaia, SP.

É esta a tal nova era que os fascistas comemoram? Em que policiais podem quebrar o braço de um rapaz imobilizado numa delegacia? 
E o ministro Sérgio Moro ainda quer passar lei que permita que policiais façam o que quiserem sem serem responsabilizados...
Isso é revoltante demais! Não é só porque um fascista foi eleito que o fascismo foi automaticamente instaurado no país. Ou a ditadura militar já foi decretada e não se deram o trabalho de avisar a população?
UPDATE hoje: Quatro PMs foram afastados até a conclusão da investigação, disse o ouvidor da polícia. Vamos acompanhar o caso!

domingo, 12 de agosto de 2018

A MORTE DA PM E A PROIBIÇÃO DE UMA PEÇA

Tem um mascutroll insistindo pra que eu fale de uma policial militar que foi assassinada em SP. Óbvio que o troll não tem nenhum interesse em saber sobre a PM em si. É só mais uma oportunidade pro cara que parte de premissas erradas -- "vc odeia a polícia e é hipócrita porque só dá valor a mulheres que são feministas" -- me xingar.
Há inúmeros motivos pra eu não destacar algum assunto aqui no bloguinho. Eu posso não saber que o tal assunto aconteceu. Eu posso não ter tempo em escrever sobre isso. Eu posso achar que não tenho nada além do óbvio para acrescentar ao assunto. Eu posso não escrever sobre um assunto justamente porque um mascutroll me cobrou pra escrever, e eu não gostar de seguir ordens de um ser repulsivo. Eu posso sugerir que a pessoa comece o seu próprio blog e lá escreva sobre tudo que achar importante. 
O caso de que só fiquei sabendo através da insistência do mascutroll foi o seguinte: Juliane dos Santos Duarte, ou Dudu Duarte (há dúvidas se era uma mulher cis lésbica ou um homem trans hétero), policial militar, foi assassinada numa favela em SP. Seu corpo foi encontrado quatro dias depois. Como a maioria dos PMs mortos, ela estava fora de serviço. 
Fiquei sabendo dessa notícia muito por cima, porque passei boa parte da semana passada em Brasília, participando de um colóquio internacional incrível sobre análise do discurso, onde tive a honra de dar a conferência de encerramento. Quando voltei, vi na minha timeline do Twitter muita indignação com uma matéria da Folha de S. Paulo, que falava do "intenso dia de férias" da PM antes de ser baleada. 
Como bem explica o Intercept, Juliane foi morta duas vezes: pelos criminosos que a mataram e pela imprensa. De fato, ao ler a notícia da Folha, vem a pergunta: 
se a vítima tivesse sido um homem cis hétero, haveria tantos detalhes sobre o que ele bebia e com quem ele saiu? Qual a necessidade de descrever fisicamente a mulher com quem a PM flertou? Como escreveu o Intercept: "Dizer que a PM viveu seus últimos momentos de vida com 'bebida, beijos e dança', em uma narrativa com chave erótica, foi a escolha mais desrespeitosa possível ao tratar de uma policial militar morta brutalmente e que tinha direito de se divertir como bem entendesse em seus momentos de folga". 
É lamentável o assassinato da PM. Lamentável o tratamento de parte da mídia sobre o assunto. E lamentável também a estupidez do troll em querer ditar sobre o que devo escrever.
Depois eu vi que toda a direita fez comparações cretinas entre a repercussão dada à execução da PM com à da vereadora Marielle Franco. A execução de Marielle foi política! E só pros reaças saberem: Marielle (e tantos ativistas de Direitos Humanos) dava amparo a familiares de PMs assassinados e lutava contra esse tipo de crime. A narrativa de que ativistas não se importam com a morte de policiais é uma ficção. 
JESUS DISSE: VAI TER PEÇA SIM
Aliás, aproveitando o domingo e o post curto, tem uma outra notícia que eu queria registrar: no final de julho, no 28o Festival de Inverno de Garanhuns, foi apresentada a peça Jesus, Rainha do Céu. Um desembargador, atendendo ao pedido da Ordem dos Pastores Evangélicos de Garanhuns, havia proibido o espetáculo por "retratar Jesus indevidamente". Motivo: quem interpreta Jesus é Renata Carvalho, uma atriz trans.
Isso, que eu saiba, tem nome: censura. Mas Renata e o pessoal de Garanhuns foi forte. Fez o espetáculo com recursos próprios, sob chuva, sem iluminação, com som cortado, desafiando um batalhão da PM que fora enviado para impedir a peça. Um grande sucesso de desobediência civil. Uma catarse.
Renata afirmou: "Desde que a peça estreou, há dois anos, em Londrina, sofremos perseguições. Esse ódio se deve à construção social, à folclorização e à criminalização dos corpos trans. Por isso, lutamos por representatividade trans. Queremos estancar a sangria. No Brasil, a vida média de uma trans é de 27 anos". 
Por coincidência, 27 anos era a idade da PM Juliane -- ou Dudu -- quando foi assassinada.