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quinta-feira, 4 de julho de 2019

MMS E MÃES DE AUTISTAS, UM TERRENO FÉRTIL

Aqui a segunda parte do excelente texto de Andréa Werner (veja também seu vídeo). E, claro, não deixe de ler a primeira parte deste artigo escrito especialmente para o blog.

Apesar da teoria da mãe geladeira ter ficado para trás com as novas descobertas da genética, a culpabilização materna continua.
Tudo começa na hora do diagnóstico, que nunca é fácil. Em um primeiro momento, temos a mãe preocupada com o desenvolvimento do filho de 2 anos, época em que os sintomas costumam se manifestar com mais força. A criança apresenta um atraso na fala e a mãe questiona o pediatra. 
A resposta mais comum é "seu filho não fala por falta de estímulo". Ou o famoso "você dá tudo na mão dele". A essa lista, somam-se várias outras explicações nada científicas: você teve depressão pós parto, voltou a trabalhar quando ele ainda era muito novinho, ele é filho único e mimado, você não dá limites. Culpa da mãe.
Lembro quando meu próprio filho foi diagnosticado, um mês antes de completar 2 aninhos. O neuropediatra me disse "isso é genético, nada de culpa aí". Pois eu já conheci mães que se sentem culpadas até pela genética, principalmente porque é comum a descoberta de que um ou ambos os pais também têm "um pezinho lá no autismo" após o diagnóstico da criança.
E, onde a pseudociência encontra a culpa e a desinformação, rola negócio. 
O "modus operandi" da seita do MMS é entrar nos países se infiltrando em grupos de diversas doenças e condições nas redes sociais. À primeira visão de alguém desesperado, surge o vendedor de milagres oferecendo a solução perfeita "que a indústria farmacêutica tenta ocultar, porque não dá lucro". Pode não dar lucro para a indústria farmacêutica, mas está dando para muita gente!
No caso de mães de autistas -- após 2 meses de ativismo intenso contra o MMS que incluiu infiltração em grupos do Facebook -- notei um padrão. Os charlatões criam o problema enfiando o dedo na ferida da culpa: "mãe, você intoxicou seu filho até durante a gravidez, quando tomou vacinas e remédios. Continuou intoxicando quando ele nasceu ao vaciná-lo e dar antibióticos. E é por isso que ele ficou autista". 
A ferida dói, sangra. Afinal, no fundo, aquela mãe sempre desconfiou que tinha alguma culpa nisso tudo. Ser mãe é ter culpa. Ser mãe de criança atípica é ter culpa em dobro.  
Em seguida, o charlatão oferece a solução: "tenho aqui o MMS". Segue-se aí uma sucessão de mentiras -- como a de que Rivera e Kalcker são "doutores e cientistas" -- e mais uma dúzia de links de vídeos no youtube. Todos com testemunhos lacrimosos de curas. 
E, para terminar, o processo padrão pelo qual todo culto passa: afastar a pessoa de quem pode esclarecê-la. "Não conte para o médico do seu filho que está dando isso, porque a medicina é toda comprada pelas grandes farmacêuticas". Quando questionados sobre evidências científicas que corroboram o uso do MMS, apelam para papers que citam a segurança do dióxido de cloro na purificação da água -- sem, no entanto, qualquer menção a seu uso terapêutico -- ou para o Google Academics, onde você encontra até teses de mestrado e doutorado sobre absolutamente qualquer coisa.
Por fim, tiram qualquer responsabilidade de si mesmos ou do produto. Se a criança passou mal, são duas explicações possíveis: ou é "sintoma de que o detox está funcionando", ou foi a mãe que fez o protocolo de foram errada. Ponto pra culpa materna de novo.
É frequente que as mães comecem a relatar melhoras absurdas nos filhos após o início do uso do MMS. Observo que isso vem de dois fatores: um é a própria vontade da mãe de ver uma melhora, já que ela sabe que o método é ilegal e apresenta riscos. O segundo fator é que a criança autista que está se sentindo mal, muitas vezes se recolhe, fica quietinha, até dorme mais. E isso é visto como sinal de melhora.
O ciclo não tem fim
Uma das maiores dificuldades de qualquer TV ou jornal que tenha feito matérias recentemente sobre o MMS foi encontrar mães dispostas a falar que "deu errado". Elas existem aos montes, mas não querem, em hipótese alguma, aparecer. 
Desde o início da campanha #foramms, recebemos dezenas de relatos de amigos e parentes de crianças e adolescentes que usaram o produto e convulsionaram, tiveram feridas sérias no trato gastrointestinal, ou até vieram a falecer de septicemia após perfuração no intestino ou até falência renal. Amigos ou parentes. Nunca as mães.
Aparecer significa assumir a culpa por ter sido enganada. Aparecer significa assumir a culpa de ter colocado a vida do filho em risco por uma cura que não existe. Aparecer pode significar até mesmo o fim de um casamento ou a perda da guarda da criança. Mais culpa. 
Enquanto isso, os charlatãos se aproveitam disso para dizer que "não há casos de sequelas ou morte, já que só vemos depoimentos de melhoras e curas". Como bem definiu Carlos Orsi, do Questão de Ciência, "quem não sara não liga para agradecer. Ou, numa formulação mais radical –- os mortos não falam. Todo curandeiro, seja ele sincero ou charlatão, recebe retorno predominantemente positivo".
Quebrando o ciclo
Andréa Werner menciona algumas das
doenças que o MMS jura que cura
Comecei o ativismo em 2012, escrevendo no blog Lagarta Vira Pupa. A consciência da "perda de privilégios" e da cadeia de opressões que atinge as pessoas com deficiência ficou muito clara pra mim desde o princípio. E o silenciamento das mães de pessoas com deficiência através do discurso paternalista do "você é especial e foi escolhida por Deus para esta missão" se escancarou ao conversar com tantas mulheres que chegaram até mim pelo blog.
O Estado vira as costas. Mal há diagnóstico. Não há políticas públicas para que essas crianças e adolescentes tenham terapias na qualidade e na intensidade necessárias. As escolas não estão preparadas para acolher qualquer tipo de diferença na forma de aprender.
A sociedade também vira as costas. O marido vai embora porque "especial é a mulher, ele não tem estrutura pra lidar com aquilo". Aquela mãe também passa a ser "especial demais" pra ser parte do grupo de amigas. Aquela criança é "especial demais" para ser chamada para a festinha de aniversário do coleguinha. Que fiquem as duas juntas: a mãe especial que tem esta missão e, portanto, nunca terá depressão, nunca reclamará da falta de suporte. A criança ou adolescente especial que é praticamente um anjo: não precisa de cidadania, direitos legais, acesso à educação, à saúde e ao lazer.
Machismo estrutural que impõe a culpa, mais a falta de políticas públicas, mais a falta de educação científica. Essa equação só pode gerar muito dinheiro no bolso dos vendedores de milagres.
Menos "mãe especial",
mais acolhimento
É preciso quebrar o ciclo. Não só através do investimento em políticas públicas e educação. Mas o feminismo atual também precisa abraçar estas mulheres que se encontram em posição de vulnerabilidade por tantos fatores. É acolher, empoderar e mostrar que "mãezinha especial" é um prêmio de consolação que ninguém deveria querer. E que é possível se livrar da culpa através do conhecimento. Este é o caminho.

quarta-feira, 3 de julho de 2019

AUTISMO E MMS: COMO A CULPA MATERNA VEM SENDO EXPLORADA POR CHARLATÕES

Autismo não tem cura, mas pessoas inescrupulosas vêm vendendo o MMS (uma solução mineral "milagrosa" que nada mais é que uma substância química equivalente à água sanitária) para mães e pais de crianças autistas.
A guerreira Andréa Werner
A jornalista, escritora e ativista Andréa Werner, mãe de um menino com autismo, é uma heroína (veja seu ótimo vídeo sobre MMS). Ela foi atrás de quem está vendendo este veneno. Sem medo, ela apareceu numa matéria do Fantástico no final de maio contando sua investigação. Este é um texto que ela escreveu especialmente aqui para o blog. Como é longo, vou dividi-lo em duas partes. A outra está aqui.
Leia, divulgue, comente! As pessoas precisam saber mais sobre este golpe. A campanha se chama #foramms

"Os perigos do pensamento mágico. Que se somam aos sempre presentes perigos do machismo, que exigem que toda mãe seja uma santa e opere milagres -- e, se necessário, que não se furte a ser uma mártir" (Ana Nunes Nogueira, em seu livro Cartas de Beirute).
Ter um filho com algum tipo de deficiência muda completamente o rumo da vida de qualquer mãe. E falo de vida em seu sentido mais amplo: social, emocional, laboral.
No lado emocional, o sentimento de perda do filho idealizado se alia ao da incapacidade de lidar com a criança real.
No lado social, há a sensação de perda de lugar em um grupo hegemônico: o das mãe de crianças típicas. A partir de agora, tudo será mais difícil. O simples ato de matricular a criança em uma escola pode ser tornar uma briga hercúlea. É, de certa forma, uma perda de privilégios.   
Não só homens costumam abandonar
crianças com doenças graves, mas
costumam abandonar também as
parceiras quando elas adoecem
E, olhando pela perspectiva laboral, muitas abrem mão de suas carreiras para poder acompanhar o filho mais de perto e levá-lo às terapias. A maioria, no entanto, não pode se dar a esse "luxo", principalmente em um cenário em que o abandono paterno é epidêmico. Uma pesquisa do Instituto Baresi, de 2012, mostrou que 78% das mulheres são abandonadas pelos maridos após o nascimento de uma criança com uma doença rara grave. Essas mulheres se tornam, ao mesmo tempo, as únicas cuidadoras e mantenedoras da criança, já que os pais, muitas vezes, só pagam a pensão sob judicialização. E há as que suportam relacionamentos claramente abusivos porque sabem que o filho demanda cuidados extras, e não querem correr o risco de passar pela novela do ex-marido que não paga pensão.
Mas eu gostaria agora de voltar, especificamente, ao fator emocional. Não dá pra falar de autismo sem falar de culpa materna.
O autismo é um transtorno do neurodesenvolvimento de origem majoritariamente genética que atinge cerca de 1 em cada 59 crianças nos Estados Unidos, segundo a estimativa mais recente do CDC (Centro de Controle de Doenças). É extremamente comum, principalmente se comparado com a Síndrome de Down, por exemplo, cuja incidência é de 1 em 700. E a história do autismo está intimamente ligada à saga da culpabilização materna.
É claro que há autistas desde a época das cavernas, mas essa condição só foi descrita no século XX, quando foi considerada como “retardo mental” ou “psicose infantil”. Em 1943, o psiquiatra Leo Kanner surgiu com uma hipótese que chamamos até hoje de "teoria da mãe geladeira". Ele sugeriu que as crianças apresentavam tendência ao isolamento e comportamentos repetitivos por "falta de calor materno". A "brilhante conclusão" foi tirada ao observar a dificuldade que as mães de crianças autistas tinham de brincar com elas. O que era consequência virou causa.
O avanço da neurociência veio derrubar o mito: existem, atualmente, mais de 800 genes identificados que estão ligados ao autismo. Então a culpabilização materna parou, certo? Errado. Ela continua firme e forte, mas com uma roupagem diferente. Ou várias. E os "vendedores de milagres" sabem exatamente como explorá-la.
MMS e autismo
O ex-cientologista americano Jim Humble afirma ter descoberto um composto que cura virtualmente toda doença existente, seja ela proveniente de bactérias, vírus, ou o que quer que seja. 
Esse composto foi chamado por ele de MMS -- Mineral Miracle Solution (Solução Mineral Milagrosa). Ele diz, em vídeos, que descobriu o MMS ao "curar" seus amigos que contraíram malária na Amazônia. Ele também declara que "tratou com sucesso" mais de 700 casos de HIV. E, por fim, ele afirma ser um Deus que veio da galáxia de Andrômeda e criou seu próprio culto: a Gênesis II, igreja da saúde e da cura, onde o MMS é um sacramento.
MMS nada mais é do que dióxido de cloro, um alvejante potente usado na indústria de papel para descolorir polpa de madeira. Também é usado no tratamento da água, mas em proporções realmente mínimas por sua força e toxicidade. Ele é obtido através da mistura de uma solução de 28% de clorito de sódio com uma de 4% de ácido clorídrico. Há "protocolos" diferentes com o MMS para tratar cada tipo de doença, mas normalmente a orientação é dilui-lo e ir tomando aos poucos de hora em hora.
A popularização do MMS como "cura do autismo" veio através da também americana Kerri Rivera, corretora de imóveis e homeopata, que escreveu o livro Curando os sintomas conhecidos como autismo, onde ela detalha todo um protocolo que inclui dietas restritas, desintoxicação e desparasitação feita por "enemas". Kerri orienta os pais a inserirem o dióxido de cloro diluído pelo reto das crianças. O resultado é que as crianças expelem muito muco e pedaços do revestimento intestinal, o que ela descreve como "vermes que causam os sintomas de autismo".
Ela saiu dos Estados Unidos após sofrer diversos processos, já morou no México e, atualmente, está na Alemanha. Mas ainda comanda grupos de pais onde cobra por orientação sobre como usar o MMS e vende produtos de sua lojinha virtual relacionados ao protocolo. Apesar disso tudo, ela deixa claro em seu site que não se responsabiliza por absolutamente nada que venha a acontecer com a criança.
Outro charlatão que se aproveitou da onda foi o alemão Andreas Kalcker. Apesar de se intitular "doutor", Kalcker apenas tem um curso de "filosofia da medicina alternativa". Ele também defende protocolos de uso do MMS que incluem enemas e é defensor da ideia -- já totalmente desacreditada pela ciência -- de que vacinas causam autismo.

Aqui a continuação deste texto de Andréa Werner. Ela explica como mães de autistas são alvos fáceis de golpistas. 

quarta-feira, 2 de maio de 2018

PARIR NÃO É PARAR

Janaina Silva é atriz, cantora e compositora no projeto Azul Celeste, pesquisadora da educação e infância, ativista na coletiva Parir Não é Parar. E mãe. 
Republico aqui o texto que ela escreveu no seu Instagram. As imagens usadas para ilustrar o post eu peguei lá também. Sua luta também é minha, Janaina. Apesar de eu não ter filhos. Não é preciso ser mãe para empatizar com a sua revolta.

DENÚNCIA DE DISCRIMINAÇÃO DE GÊNERO E CONSTRANGIMENTO DE MENOR: 
"Essa criança está atrapalhando a minha aula. Dou aula para maiores de 18 anos e não vou aceitar criança na sala. Você deveria estar em casa cuidando dela e ao invés disso trouxe essa criança pra jogar em mim a sua responsabilidade. Não vou aceitar. E não me olha com essa cara!" 
Minha filha de quatro anos de idade e eu ouvimos isso do professor doutor cheio dos livros publicados Jorge Cláudio Ribeiro no início da aula de Introdução ao Pensamento Teológico III no curso de Pedagogia da PUC SP, campus Monte Alegre na última sexta-feira, 27. 
Há quase quatro anos minha filha me acompanha em grande parte das aulas na universidade. Não há rede de apoio nem política pra acolher a mulher que pariu e precisa continuar seus estudos, suas pesquisas, sua prática e expressão. Estrutura precária, falta de acolhimento e situações desagradáveis enfrentamos cotidianamente. Na cidade e na comunidade acadêmica que elitiza os espaços, não pensa a criança e que segrega mulher. Sobretudo as pretas, as indígenas, as periféricas, as bolsistas, como eu. 
Mas foi a primeira vez que vivenciamos uma situação de discriminação tão descarada. E gratuita. Minha filha conhece a sala de aula de adulto e suas limitações. Na maioria das vezes levamos papel, estojo de cores, livros e jogos de montar, sentamos no chão no fundo da sala e eu tento pegar os conteúdos enquanto ela tenta se distrair. Se vai demorar muito ou se há pouca empatia com a nossa presença, coloco vídeo no celular e ela assiste calada e com fone de ouvido. 
Sexta-feira foi assim. Minha filha tava bem quietinha e calada, do jeito que o adulto gosta, enquanto o professor começava a aula. Era a segunda vez que eu tava ali, depois de um semestre quase inteiro. Eu venho estourando de falta e de cansaço da luta real num processo mediado por uma justiça machista e seletiva, seguido de dias em casa tratando da saúde da minha filha de doenças pegas nessa cidade poluída e entupida. Testemunhando discursos racistas fascistas classistas machistas em todos os espaços, lidando com a ignorância e a falta de empatia inclusive entre as minhas e os meus. Na família e também na classe artística.
Cotidianamente, dentro da academia, testemunhando falas e conduções carregadas de preconceito, tendo de me posicionar ao ver mulheres sendo silenciadas em espaços de produção de pensamento. Não é fácil conseguir falar. Eu reconheço o privilégio na minha capacidade e no meu lugar de fala. Costumo prevenir a opressão já colocando a boca e a cria nos espaços, por mim e pelas outras. Só que na última sexta-feira eu cheguei ali cansada. Deitada no silêncio como forma de resistir no dia. Vindo de uma sequência de lutas ali, pra continuar estudando. 
Ontem a misoginia mostrou os dentes na face de um professor e eu não tive força pra falar. Fechei os olhos e só consegui balbuciar que íamos ficar e que assim que ele fizesse a chamada, sairíamos dali pra fazer uma denúncia. Foi o que fiz. Mas ficar custou uma dor muito grande com cada palavra de ofensa entrando pelos poros e fazendo a cabeça girar. Custou o constrangimento pavoroso da minha filha. Corpo e cabeça de criança constrangida por adulto é marca grave. Custou ver o silêncio cortante de uma sala inteiramente feita de mulheres. Várias classes e visões. Mas todas, mulheres e criança, sendo oprimidas por um macho misógino dentro de uma sala de aula num curso de pedagogia falando sobre transcendência dos padrões e cura das relações humanas. 
Eu tava ali cansada, Minha resistência foi calada.  O patriarcado tem hora fere que tira a fala e paralisa a cara da gente de perplexidade. Hoje amanheço ainda cansada mas mais forte pra dar a resposta. O professor tá denunciado na ouvidoria da PUC e no que depender da minha força e criatividade, ainda que passe impune, sob a guarda de uma estrutura tão machista quanto ele, não passará sem constrangimento. 
Não leia nem livro nem publicação de Jorge Claudio Ribeiro. Esse aí discrimina mulher e criança em sala de aula. Não nos querem nos espaços. Veem as crianças como problema a ser resolvido, pela mãe. Mas terão de conviver com a gente. Terão de nos aceitar e não permaneceremos caladas. Eu lido todos os dias com as contradições implicadas nessa frase que eu inscrevi no mundo no auge da minha indignação com um sistema que oprime a maternidade. Foi quando o feminismo me deu a mão. Mas um feminismo que tá na margem bem pra lá da fronteira depois da são paulo classe média branca zona oeste. O feminismo com cria nas ancas e todo o peso de ser a real puta que pariu nesse sistema. 
Eu escrevi parir não é parar e todo dia coloco um ponto de interrogação diante da frase. Pra achar uma luz no vale das sombras. Eu venho de um legado de mulheres que apanharam muito e não puderam falar. Mulheres que seguem botando a vida e a boca no mundo e abrindo espaço com muita luta. Meu único legado é a voz. A minha voz não vai se calar. Não vão passar as merdas de tratamento que vocês nos dão nos espaços que vocês dominam oprimindo os nossos. Não vou deixar passar e hoje escrevo isso aqui num ato de transformar dor em luta. Sei que não tô sozinha, nem na dor nem na luta. 
Muitas mulheres passam por situação semelhante todos os dias, nos diversos espaços. MULHERES COM CRIAS! Não desistam de ocupar os espaços! NÃO AO ENCARCERAMENTO DE MULHERES E CRIANÇAS! EU CHAMO AS MANAS COM CRIAS PARA OCUPAREM COMIGO A SALA DO CURSO DESSE PROFESSOR NA PRÓXIMA SEXTA-FEIRA, 9H30 DA MANHA NO CAMPUS MONTE ALEGRE DA PUC. UM CRIANÇAÇO. A REVOLTA DOS ERE. UM ATO DE FORTALECIMENTO. POR MIM, POR NOS, POR TODAS. Por favor, mulheres com ou sem cria, que já passaram por situação semelhante ou não. Pessoas todas dessa rede: ajudem a fazer esse texto andar e chegar em outras. Acontece todo dia em todo canto e não pode mais acontecer. Não vão nos calar.

sexta-feira, 23 de março de 2018

SOBRE OS HOMENS QUE ABANDONAM SEUS FILHOS

Recebi este email da M.:

Lola, faz algum tempo que eu quero tirar um tempo para contar a minha história.
Conheço seu blog há pelo menos uns três anos e desde então me considero feminista.
Achava que eu já tinha um pensamento relativamente superior à cultura machista em  que estamos inseridas, já vinha difundindo ideias feministas em minhas redes sociais e tudo o mais. Eis que me encontrei em uma situação que eu nunca me imaginaria e provei do meu próprio machismo (que eu desconhecia), conservadorismo e auto-preconceito: fiquei grávida solteira e de um homem casado.
No final do ano retrasado, comecei a ficar com R., um colega de trabalho. Já trabalhávamos juntos há algum tempo e trocávamos alguns olhares, porém nunca achei que fossemos de fato ficar, já que eu abominava a ideia de envolvimento com um cara casado e nunca vi com bons olhos quem o faz. Houve uma festa de encerramento do nosso trabalho e, naquela noite, bebemos muito (não que justifique) e acabamos nos beijando pela primeira vez.
Transamos cerca de quatro ou cinco vezes no total. Em duas dessas vezes, não usamos preservativo, porém eu tomava pílula regularmente e sempre confiei cegamente nisso, já que até então nunca tinha tido problemas. Acontece que eu estava tomando antibiótico para uma infecção e nem imaginei que o efeito da pílula pudesse ser cortado.
No início do ano passado, na pausa do anticoncepcional, minha menstruação estava atrasada há alguns dias e eu achava que pudesse ser devido a estresse no trabalho. Quando fiz o teste de farmácia, achava improbabilíssimo que o positivo fosse possível. Pimba.
Pronto,  eu estava esperando um filho de um cara casado que eu estava ficando há apenas um mês. Contei a R. e ele, claro, propôs aborto, ideia que eu cogitei seriamente até cerca de 14 semanas. Se por um lado, a circunstância era uma das piores possíveis, por outro, ter um filho sempre foi um sonho e eu já tinha quase 30 anos.
Tive todo o apoio da minha família e decidi ter o filho. Disse a R. que ele não precisava participar da vida desse filho se não quisesse, que eu já estava me sentindo culpada o bastante, e que eu preferia arcar sozinha com os cuidados e sustento do meu filho a causar qualquer tipo de problema pra ele em seu casamento e sua família. Ele disse que respeitava a minha decisão.
Afastei-me imediatamente. O sentimento de culpa era muito grande, eu me martirizava. Graças a Deus, nesse mesmo período ele foi transferido de setor no trabalho, o que fez com que não ficássemos nos vendo em nosso dia a dia.
Eventualmente, eu o chamava no Whatsapp, nos momentos em que o sentimento de angústia era grande. Ele dizia para eu não me culpar, que foi uma escolha de ambos a não utilização do preservativo, pra eu focar no lado bom da notícia. Ao mesmo tempo, ele ficava cada vez mais frio e distante.
Combinou comigo várias vezes de conversarmos pessoalmente sobre o bebê, e me enrolou em todas, realmente nunca mais nos vimos depois que eu descobri a gravidez. R. sempre tinha uma desculpa para desmarcar.
Nunca me ajudou financeiramente com absolutamente nada. Arquei sozinha com todas as despesas do pré-natal. Não perguntava sequer se eu estava precisando de alguma coisa, de uma assistência emocional que fosse.
O silêncio e a ausência dele durante a gravidez me perturbavam, por mais sincero que fosse o meu desejo de me manter distante. Eu pensava a todo momento no meu filho crescendo sem pai, imaginava o que diria a ele quando ele me indagasse sobre o pai dele.  Cheguei a me imaginar dizendo para o meu filho que o pai dele tinha virado "uma estrelinha do céu", mas concluí que não seria justo mentir. Meu filho teria direito de saber sua origem, sua história. Sentia-me suja, colocando no mundo um filho fruto de um ato de traição. Me senti duplamente culpada: por "destruir uma família" caso a mulher dele descobrisse a traição, e também a responsável por fazer uma criança crescer sem pai. Achei que fosse ficar louca, Lola.
Perguntei a ele se ele tinha dúvidas que o filho era dele, ele respondeu que não, e que encontraria uma solução para a situação, já que ele também não se sentia confortável com a ideia de ignorar um filho. Ele é pai de outros dois filhos.
Meu bebê nasceu. Mandei a foto para R. ainda na maternidade, ele viu, disse ser lindo, mas não foi conhecê-lo. Disse que estava cansado, sobrecarregado de trabalho, enfim, deu desculpas ridículas. Chorei absurdamente. Chorei mais ainda quando a funcionária do cartório foi lá para registrar o meu bebê. Disse a ela que, naquele primeiro momento, ele seria registrado somente em meu nome. Eu estava desolada, Lola.
Um mês depois, R. o registrou. Ele me pedia conselhos sobre como contar para a esposa dele, e eu não sabia o que pensar ou sentir.
Mais um mês se passou, e ela descobriu da pior maneira possível: leu conversas nossa no Whatsapp e viu foto do menino. Senti um alívio, por um lado.
Ele me contou que ela tinha descoberto e quis combinar comigo uma versão da história diferente da real. Concordei. Ele me bloqueou desde então e nunca mais entrou em contato.
Ela entrou em contato comigo algumas semanas depois e pediu para conversarmos pessoalmente. Fui. Não consegui mentir. Achei que ela tinha o direito de saber a verdade, que era o mínimo que eu poderia fazer àquela altura.
Ela me tratou de forma civilizada e respeitosa, mas me acusou de desfazer a sua família e seu casamento, chorou, contou que estava sobrevivendo à base de medicamentos e terapia desde que descobriu a traição, que sentia-se insegura, humilhada e sem autoestima. Disse que não admitia a possibilidade de continuar casada com ele e imaginá-lo em contato comigo por motivo da criança, por mais consciente que fosse dos direitos do meu filho, que não era culpado de nada. Eu me senti muito mal, Lola. Compreendi perfeitamente. Ela sentia-se muito mal. Por fim, ela perdoou o marido apesar de todo o sentimento de humilhação e seguem juntos, pelo que me consta nas redes sociais. Ele está totalmente ausente da vida do meu filho e eu honestamente entendo muito a mulher dele.
As mais prejudicadas nessa história fomos eu e ela (além do meu filho, claro): R., o genitor, quase não sofreu consequências. Eu demorei ainda quase 6 meses para entrar na justiça pelos direitos alimentícios do meu filho (procurei um advogado agora na última sexta-feira), porque minha família me convenceu de que eu não podia ser omissa a esse direito do meu filho, que era a obrigação mínima que o pai dele tinha que cumprir, já que não procura saber nem se a criança está viva. Se não fosse minha família me pressionar, acho que eu teria deixado pra lá, porque fico pensando que ele ganha pouco e tem as despesas com a família dele.
Imagino que a pensão será cerca de uns R$ 300, que mal dá para o leite e fraldas.
Incrível como eu empatizei com R. a todo momento, senti mais dó dele e de sua família do que de mim, que tive que aguentar tudo sozinha, que vou criar e educar sozinha um filho, alimentar, levar à escola, médico etc. E ainda aturar as pessoas eternamente me indagando sobre o pai. 
Fora a vergonha que eu senti de ter engravidado solteira, sem sequer estar namorando. As pessoas me perguntavam sobre o pai e eu não tinha coragem de dizer a verdade, tamanho era o meu medo de ser julgada. Mentia, dizia que o pai da criança era um amigo de longa data. No trabalho, eu morria de medo de o menino nascer/crescer a cara de R. e os colegas de trabalho acabarem constatando que ele era o pai. Até hoje, ninguém imagina (eu acho), apesar da certidão de nascimento ser um documento público. Tenho poucos amigos íntimos, pessoas alheias ao nosso ambiente de trabalho, que sabem da verdade. 
Durante a gravidez, com aquele barrigão, eu tinha a sensação neurótica de que todos automaticamente olhavam para meu dedo e viam que eu era solteira e me julgavam. Pior, tinha a sensação de que algumas pessoas no serviço imaginavam quem era o pai, apesar de nosso relacionamento ter sido muito breve e discreto. 
Enfim, Lola, foi uma loucura. Até hoje, apesar de amar imensamente o meu filho, me pergunto se o mais sensato não teria sido ter abortado.
Eu desconhecia tanto machismo em mim mesma, reflexo de nossa cultura social com certeza. Foi difícil. Está sendo difícil ainda.
Se não fosse o feminismo pra me orientar, acho que eu já teria pirado. Tudo isso pra desabafar e dizer que seu trabalho é maravilhoso e importantíssimo, Lola, não pare com o blog. Foi através dele que eu conheci e aprendi com o feminismo. Muitas pessoas, como eu, acompanham sem participação ativa nos comentários.
Desculpe-me tamanho desabafo. Se você quiser fazer um guest post, fique à vontade, só peço que preserve meu nome.
Um abraço apertado de quem muito te admira e te agradece, de coração, por toda a informação e empoderamento, que estão sendo de fundamental importância para mim.

Minha resposta: Obrigada por todo o carinho, M.! Nessas horas de bloguinho aparentemente meio abandonado, é bom ouvir um "continue com o trabalho".
Querida, não sei se faz você se sentir melhor saber que a sua situação é muito comum. Não sei os dados de casos como o seu (de pais que registraram o filho mas não participam da vida dele), mas 5,5 milhões de crianças no Brasil não têm o pai no registro. E esses dados são de 2011, ou seja, devem ser maiores hoje. É um número espantoso: 30% das crianças brasileiras não têm o nome do pai no registro.
Como diz uma das maiores especialistas em reconhecimento paterno, a socióloga Ana Liési Thurler, da UnB, isso é um reflexo claro do machismo: "A deserção da paternidade -- materializada em registros civis de nascimento sem filiação paterna estabelecida -- é uma prática não-democrática e sexista que, no século XXI, nos dá notícias do patriarca de idos tempos, que controlava sua descendência acolhendo ou repudiando os filhos, arbitrariamente".
Então imagina só: mesmo na sua situação dolorosa, vc é uma privilegiada. "Pelo menos ele registrou". "Pelo menos sua família te apoia". Imagino que você já tenha ouvido isso.
Filhos fora do casamento são muito comuns. E vc tem sim que buscar seus direitos, não por você, mas pelo seu filho. Mesmo que a pensão que vc consiga seja uma mixaria, seu filho ainda tem direito a ela.
Acho que quase todo mundo conhece algum caso de um pai que tem "duas famílias". E esses são os caras bonzinhos, que fazem filhos fora do casamento, mas às vezes registram e dão assistência a eles.
É um absurdo como a nossa sociedade julga e condena as mulheres que engravidam, que abortam, que têm o filho, que de repente não veem a maternidade como a coisa mais importante de suas vidas, mas absolve totalmente os homens que fazem exatamente a mesma coisa. É muita hipocrisia.
E isso sem falar nos caras que têm filhos com a mulher do casamento, aí por algum motivo o casamento acaba, e o cara casa de novo e "esquece" os filhos.
Enfim, querida, são tantas situações em que crianças, por um motivo ou por outro, crescem sem pai, que não vale a pena vc se culpar por isso. Acontece. É hiper comum.
Muito provavelmente, mesmo que R. seja forçado a pagar pensão, ele não vai participar da vida do seu filho. Quando chegar a hora, creio eu, você terá que falar a verdade pro seu filho. E explicar como isso é frequente e como não é nada que ele (ou vc) deve se envergonhar.
Não adianta nada pensar agora se não teria sido melhor ter abortado. Vc não abortou, foi decisão sua (decisão que ironicamente é aplaudida pelos mesmos conservadores que te condenam por você ser "mãe solteira"), não dá pra voltar atrás, e duvido que vc, amando imensamente seu filho, gostaria de ter abortado. Eu imagino como deve ser difícil ser julgada o tempo todo, mas você precisa ser forte, desenvolver uma casca grossa, uma atitude "dane-se o que eles pensam", e tocar a vida adiante, desta vez com orgulho de ser mãe solo, de conseguir criar um ser sozinha, apesar de todos os obstáculos. Essa autoconfiança é algo que o feminismo pode te proporcionar.
Lembre-se também que o fato de você ter um filho não quer dizer que você não terá outros relacionamentos, talvez um casamento mais pra frente com outra pessoa, talvez outro filho. Isso também é muito comum. A vida continua. "A fila anda", não é o que dizem?
Tudo de bom pra vc e pro seu filho. Vai dar tudo certo, vc vai ver!
E esses dias vi um vídeo maravilhoso da Renata Correa sobre "Como Não ser um Machista Babaca". Tem tudo a ver com com vc se sente!