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quinta-feira, 27 de fevereiro de 2020

FAZENDO PIADA DE MASCU

Inédito! Tentei (não com muito sucesso) iniciar minha carreira de comediante de stand-up. O maridão perguntou três vezes se eu queria mesmo manter a piada inicial no vídeo, e eu disse que sim. 
Melhor continuar com o emprego de professora, né?   
Mas vejam e digam o que acharam (a menos que vc seja um mascu, um inseto, e aí sua opinião não tem a menor importância pra humanidade). 

sexta-feira, 21 de fevereiro de 2020

GUEST POST: A VIOLÊNCIA DA EXTREMA DIREITA NÃO VAI EMBORA

 
Faça os nazistas temerem novamente, diz manifestante

Mais um terrorista de extrema-direita faz vítimas em nome da xenofobia, do racismo e da misoginia. O assassino ainda por cima se assumia incel. 
Erica C. Hassmann, brasileira que vive na Alemanha, acompanhou tudo isso.

Tinha tudo para ser uma noite tranquila de inverno na cidade de Hanau, a 25 km de Frankfurt, no Arena Bar e Café, onde amigos confraternizavam. Um homem armado tirou a vida de 9 pessoas e, não satisfeito, voltou para casa, matou a própria mãe e em seguida se matou.
O assassino, em seu canal na internet, disseminava vídeos antissemitas, racistas, misóginos. A plataforma parece não ter visto nenhum problema com o discurso violento, provavelmente com o argumento costumeiro que muitxs de nós recebemos quando denunciamos esse tipo de conteúdo nas redes sociais: "não encontramos nada que viole a politica de nosso site". A pergunta que fica é: as redes sociais estão a serviço de quem?
"O suspeito estava ativo nas redes antes do crime, publicou um vídeo, e ao contrário de outros assassinatos motivados pela extrema direita, ele provavelmente não fazia parte de nenhum grupo. No entanto, existem semelhanças que conectam R. a esses terroristas".
"Outros usuários baixaram o vídeo e o republicaram em seus canais do YouTube. As cópias permaneceram online até as onze horas e foram vistas centenas de vezes. O Google diz que agora foi criada um tipo de impressão digital que impede automaticamente novos envios".
R. "deixou um manifesto com 24 páginas; entre os escritos, um capítulo inteiro sobre as mulheres. Com 42 anos, escreveu que nunca teve uma namorada, não gostava de se sentir pressionado, vigiado, a paranoia era constante". 
"Nada indica que o assassino participava de grupos extremistas da Deep Web. Ele participava de fóruns fascistas mas era zombado pelos membros, que achavam que ele fazia um desserviço à causa".
A sexualidade parece ser um problema constante entre os terroristas, seja na Europa, nas Américas ou no Oriente Médio. Creio eu que o extremismo político ou religioso está profundamente ligado a desordens psicológicas de origem sexual. Freud explica.
Observem que a mídia alemã não publica o sobrenome do acusado. Isso é necessário para que familiares sejam protegidos da curiosidade popular e para que não haja interferência nas investigações. A lei é aplicada igualmente para todos.
Tive três experiências com a extrema direita alemã em quase 10 anos no país. 
A primeira quando quis um gatinho para nossa família. Vi um anúncio no jornal, entrei em contato com a cuidadora que estava doando os bichinhos, e fui até a casa dela. Chegando lá, minha reação foi de pavor, prontamente controlado por meu instinto de sobrevivência. Nas paredes do apartamento, flâmulas com suásticas e outros símbolos relacionados ao nazismo. Me perguntaram de onde eu era, eu disse que era brasileira e isso, no momento, me pareceu ser um salvo conduto, já que o olhar da jovem se tranquilizou. 
Ela me mostrou o gato que destinaria a mim e pediu meu endereço e telefone, dizendo que poderia fazer uma visita surpresa  para se certificar que o gato seria bem tratado. Até hoje não sei se era promessa ou ameaça, mas nunca apareceram, ufa! 
A segunda experiência foi em Munique, durante uma passeata neonazista. Havia por volta de 300 manifestantes extremistas, 500 policiais e uns 1000 manifestantes anti-fascistas. 
A terceira e última foi ano passado, na cidade em que moro, Rosenheim. A AfD (Alternativa para a Alemanha, partido de extrema direita do país) convocou um comício, a esquerda ficou sabendo e convocou uma passeata. Eu estava lá com minha camiseta que dava o recado em alemão: sou brasileira mas não votei em Bolsonaro. Usei uma bandana Lula Livre, as pessoas sorriam pra mim, vinham me cumprimentar, diziam que nunca poderiam imaginar que os brasileiros, pessoas que têm fama de serem gentis e alegres, elegeriam alguém tão tosco como Bolsonaro. 
Cartum austríaco sobre Brasil
O que me chocou nessa passeata é que a extrema direita em um momento deu o microfone para o líder dos anti-fascistas falar. Foi um bate bola de idéias pró e contra, sem ofensa pessoal, tudo dentro do mais extremo respeito.
Como estrangeira na Alemanha, percebo que o país ainda está vacinado contra a extrema direita por conta do que aconteceu durante a Segunda Guerra Mundial. 
Não há juiz, presidentx, procuradorx ou ministrx que protejam os fascistas ou que finjam que eles não existem. Os terroristas que atentaram contra a democracia no pós-guerra, sejam de direita ou esquerda, ou foram presos ou estão mortos.
Merkel colocou todas as instituições em alerta ontem, mandou reforçar o policiamento em locais mais sensíveis à ação dos marginais e declarou sem meias palavras que o maior inimigo da democracia alemã hoje é a extrema direita. 

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2020

O JOAQUIN PHOENIX DE CATANDUVA

Clique para ampliar

Todo mundo sabe que adorei o filme Coringa, e que discordo que ele represente fracassados como os mascus. Mas muitos incels viram o filme exatamente assim, e o cartunista Ricardo Coimbra decidiu tirar sarro da cara deles. 
A propósito, será que Coringa vai levar muitas outras estatuetas no domingo, além da de melhor ator? Participe do meu tradicional bolão do Oscar! 
Clique aqui para entrar no bolão grátis ou aqui para o bolão pago (tem que pagar R$ 25 numa das minhas duas contas -- Banco do Brasil, ag. 3653-6, cc 32853-7, ou Santander, ag. 3508, cc 010772760, ambas no nome de Dolores Aronovich Aguero, que sou eu --, e enviar o comprovante pro meu email lolaescreva@gmail.com e pro do Júlio jcaoalves@gmail.com). 
Eu tenho que fazer um vídeo pra chamar mais gente pro bolão, mas tá difícil com a minha casinha em ruínas. Vou fazer! E assim que der eu coloco o link aqui. Mas não deixem pro último dia (que é sexta à meia noite) pra entrar no bolão! Entrem já! E vejam o looongo vídeo (26 minutos), em que eu falo de várias coisas (previsões, chances de Democracia em Vertigem, se Era uma vez em Hollywood é misógino, e mais um convite pro bolão). 

sexta-feira, 24 de janeiro de 2020

A MISOGINIA GANHA ADEPTOS

Minha careta pra misoginia

Voltando com os vídeos no canal Fala Lola Fala! Este é o primeiro vídeo de 2020, que coloquei no ar ontem. Veja lá, por favor! Divulgue, se inscreva, comente. Tudo isso pra me motivar a fazer mais vídeos. 
O vídeo é sobre um assunto que me deixou pistola. Nunca tinha ouvido falar em Ricardo Ohara, um youtuber brasileiro de 41 anos descendente de japoneses que mora no Japão. Até que nesta semana li uma matéria da Carta Capital chamada "Sem querer, youtuber nipo-brasileiro vira ídolo dos misóginos na web". 
Sabe como? Espalharam a comovente história de que o youtuber era casado quando foi sozinho pro Japão em 2008 para trabalhar como um condenado pra pagar o curso de medicina da esposa, Laura. Assim que ela se formou, ela pediu o divórcio. Que interesseira nojenta, não é? Essas mulheres! 
Só que é tudo mentira. Pra começar, Laura, a ex-mulher, nunca cursou Medicina. Ela foi sozinha pro Japão, trabalhou como operária em fábricas durante 10 anos, juntou uma boa grana e voltou pro Brasil em 2007, segundo o advogado dela. Ricardo estava casado com ela quando se mudou pro Japão sozinho em 2008, pra recuperar dinheiro mal-investido no Brasil. Não sei quando eles se divorciaram, mas o advogado diz que a iniciativa não partiu dela. Ela tem uma nova família desde 2014. Ou seja, faz tempo. Tempo suficiente pra Ricardo esquecê-la e tocar sua vida, não?
Através de um advogado, Laura abriu um processo contra o Facebook pedindo para que comentários ofensivos contra ela sejam excluídos, e pediu os nomes dos autores das ameaças. Sim, porque ela passou a receber um monte de ameaças de morte. Fizeram doxxing com ela, descobriram seus dados individuais, privados, compartilharam nas redes. Um inquérito policial foi instaurado pra tentar descobrir quem está por trás disso. Ricardo é um dos investigados. Ele disse vagamente num dos vídeos que não tinha raiva da ex-esposa e não odiava mulheres. Mas a perseguição a Laura continua. Agora a nova narrativa dos misóginos é que Laura quer ferrar com Ricardo de novo! O advogado dela desmente, diz que ela não quer reparação financeira, só quer viver tranquilamente.
Essa é a narrativa de sempre dos misóginos: que as mulheres só querem sugar o dinheiro dos homens, que elas são todas vadias, que o mundo é misândrico (odeia homens) e matriarcal. Nesta mesma semana, vi três matérias à toa que desmentem as barbaridades que os misóginos espalham.
Uma das matérias é sobre o relatório deste ano da OXFAM que diz que, se o trabalho doméstico fosse remunerado, ele renderia mais de 10 trilhões de dólares por ano. Quem faz o trabalho doméstico? São justamente as meninas e mulheres que vivem em situação de pobreza, que estão lá na base da pirâmide econômica, que fazem gratuitamente as funções de lavar, cozinhar, limpar, cuidar das crianças, alimentar os homens. Imagina se elas recebessem dinheiro por esse trabalho. Vale a pena pensar também quem decidiu que ele não seria pago, nem valorizado.
Outra matéria -- essa tem a ver com o país onde Ricardo vive. No Japão, fora de casa, as mulheres trabalham tanto quanto os homens, mas ganham salários menores, divulgados abertamente: nas fábricas, por exemplo, mulheres recebem por hora entre 900 e 1.300 ienes (o que equivale a entre R$ 34 e R$ 49); homens, a partir de 1.300 (R$ 49). O Japão é o 3o país com a maior desigualdade salarial entre homens e mulheres, só perde pra Estônia e Coreia do Sul.
Outra matéria: brasileiras pagam mais imposto de renda do que brasileiros. Homens possuem maiores rendimentos isentos, e por isso pagam menos imposto de renda q as mulheres no Brasil. Ou seja: mulheres, além de trabalhar MAIS (pois trabalham fora de casa e fazem o serviço doméstico) e ganhar menos, ainda pagam mais impostos. Bacana, né? E ainda temos que ouvir o velho: feminismo pra quê?! Vocês já conquistaram tudo!
Sabe, esses dados todos não são fake news! Fake news é o que mascus fazem: inventam histórias pra poderem se fazer de pobres explorados do mundo. Cresçam e apareçam!
(Eu falo muito mais no vídeo. Vai lá!)

quinta-feira, 12 de dezembro de 2019

POR QUE NINGUÉM COMBATEU O ATIRADOR NO MASSACRE DE MONTREAL?

Um carinha chamado M. H. Murray fez uma thread curta em inglês na semana passada. Teve grande repercussão, e tomei a liberdade de traduzi-la. Vocês sabem de qual massacre ele está falando? Volto no final pra dizer. 

30 anos atrás, um homem entrou numa universidade em Montreal e matou 14 mulheres no que ele chamou de "uma guerra contra o feminismo". Ele entrou numa sala de aula e mandou os estudantes homens pra fora para que ele pudesse matar as mulheres. Em vez de se juntarem e combater o atirador, todos os homens saíram.
É fácil criticar quando você não está no cenário, mas... de acordo com os registros, nessa aula havia aproximadamente 50 homens (incluindo o professor) e só 9 mulheres. CINQUENTA. E nenhum desses homens decidiu lutar por aquelas mulheres.
Ainda que o massacre aponte para os perigos da misoginia, ele também fala da passividade geral da nossa cultura, da vida urbana... Há um sentido de "desde que não seja eu" que permite que humanos não tenham empatia nos momentos em que mais precisamos dela.
Num mundo em que as pessoas podem tirar vidas com um toque do dedo, não é suficiente só cuidar de si mesmo. Somos uma COMUNIDADE de humanos e se não conseguimos nos juntar e lutar uns pelos outros em momentos como esses... então quem somos nós?
As vítimas do massacre
Minhas menções estão cheias de gente (na maioria homens) interpretando de forma completamente errada o ponto deste tópico, ou me acusando de inventar essa história. Tudo que eu disse você encontra facilmente no Google. Isso não é sobre culpar homens. É sobre empatia. Pare de ser deliberadamente obtuso.
Também há muita gente me acusando de só tuitar sobre isso pra ganhar pontos com as moças... desculpe desapontá-los, mas eu sou gay. 

Lola aqui: 
Para quem não sabe, Murray está falando do massacre de Montreal, que agora completa três décadas, em que Marc Lepine, indignado por não ser capaz de ser aceito numa faculdade de engenharia, decidiu matar alunas mulheres que "roubaram" a vaga dele (notem que o sentimento de "merecimento": ele achava que a vaga era dele). 
Há um filme bastante bom sobre o massacre. Chama-se Polytechnique e é dirigido pelo conceituado Dennis Villeneuve (veja o trailer aqui; as fotos em preto e branco que ilustram este post são do filme). Assim como há um filme instigante (22 de Julho) sobre o maior massacre da história da Noruega, também realizado por um mascu nazista. 
Quanto ao comentário de Murray, 
não é verdade que o assassino disse que iria matar as mulheres ao expulsar os homens da sala. Se ele tivesse dito, será que as 60 pessoas presentes teriam tentado agir coletivamente para evitar o massacre?
Homenagem às vítimas
Pra mim, o mais chocante deste massacre (um dos primeiros do tipo misógino) não foi que os homens deixaram a sala sem lutar, mas que mesmo um país progressista como o Canadá levou anos para classificar a carnificina como um crime de ódio, não como um "incidente" ou uma "tragédia". Lepine gritava "Odeio feministas!" enquanto atirava nas alunas. O que mais alguém precisa fazer pra ser acusado de cometer um crime de ódio contra mulheres?

sexta-feira, 1 de novembro de 2019

COMO A DIREITA RADICALIZA UM CARINHA NORMAL NA INTERNET

Recebi um link para um excelente documentário de 41 minutos feito pelo canal Innuendo Studios, com legendas em português, sobre como radicalizar uma pessoa (quase sempre homem) "normal" e torná-la uma extremista patética da direita. Os alvos principais são homens brancos héteros que se sentem emasculados pela sociedade.
Vou compartilhar o que achei mais interessante com vocês, com alguns comentários meus baseados na minha experiência com esses grupos. Mas, por favor, vejam o vídeo, que realmente explica muito. 
Uma estratégia para recrutar homens "normais" (ou seja, não misóginos, racistas e neonazistas de saída) para se radicalizarem é criar fóruns e canais que o carinha encontre sem querer (por exemplo, um "inocente" canal criticando que superheróis brancos dos quadrinhos sejam interpretados por negros ou mulheres). Outra é se infiltrar nos canais que o carinha já acessa.
Uma tática relevante é que a direita não vende política como política (pois política não é legal, e nenhum político exceto o mito presta, lembram?), mas como um estilo de vida conservador. Ataques a feministas, negros, LGBT e outros grupos funcionam como portas de entrada. É o que a gente vive dizendo: misoginia é a porta de entrada na internet para drogas mais pesadas.
O carinha não está a princípio procurando neonazismo ou misoginia, mas uma cura para o seu mal- estar. Ele quer ser feliz, sentir-se melhor, porque se sente um m*rda.
Aí vem outra tática importante: isolar o alvo, fazer com que ele não ouça o contraditório. Isso é típico de lavagem cerebral. Tem muita gente da direita (ironicamente "pró-família") que recomenda cortar laços com a própria família.
O vídeo explica que a esquerda poderia explorar e se beneficiar desses problemas que o carinha sente, mas ele aprende versões racistas e machistas do problema: 
Sim, existe um problema dos trabalhadores serem mal pagos e explorados, mas a solução para combater isso não é criar e apoiar sindicatos, é expulsar imigrantes.
Sim, existe um problema de concentração de renda que deixa um pouquinho de gente com muito e a maioria com nada, e sabemos  que os ricos têm muito poder e influência, mas o problema não é o capitalismo. São os judeus (é só ver o que reaças falam de George Soros, um bilionário).
Sim, há solidão e raiva em ser um homem hoje, mas o problema não é a masculinidade tóxica que o patriarcado impõe, é as mulheres serem vadias. Isso é muito comum entre os mascus. Eles culpam as "mulheres modernas" e o feminismo pra tudo. Mas não são as mulheres nem o feminismo que defendem que o homem seja o provedor da casa. É o patriarcado, estúpido! Não são as mulheres nem o feminismo que exigem que o homem seja um garanhão. É o patriarcado! E aí os mascus, em vez de focarem sua raiva no sistema que os oprime, foca nas mulheres. São uns otários mesmo.
Logo os algoritmos das redes sociais percebem as tendências do carinha e param de recomendar qualquer conteúdo de esquerda. O alvo se afasta da "agenda esquerdista" (ou do marxismo cultural) que pode desprogramá-lo. Ele ficará cada vez mais isolado. 
Pode-se comparar a jornada do carinha ao radicalismo com as camadas de uma cebola. Cada fase se vende como a verdade final e absoluta e nega a validade das fases anteriores (as pessoas daquelas fases estavam dormindo, você está acordado). As fases seguintes (cada vez mais radicais) não existem e você não está sendo direcionado a elas, é apenas imaginação dos esquerdopatas.
Mas, na realidade, crer nessas "verdades absolutas" e cultivar o ódio não ajuda o carinha. Expulsar imigrantes não melhora a economia, e odiar mulheres não faz os homens menos solitários nem menos zangados. Só que a essa altura -- quando o carinha percebe que não está mais feliz, muito pelo contrário -- ele já está tão isolado, tão submerso naquele universo, que sua única alternativa é afundar ainda mais. Tomar a próxima pílula vermelha.
E tudo isso ocorre na base de muita, muita repetição. Através da repetição, as ideias mais radicais e absurdas parecem normais. E agora o carinha quer odiar. Ódio motiva, é um combustível. Ele sempre vai encontrar alguém para odiar. Ele vai a fóruns para ficar com raiva. É a mesma dinâmica de relacionamentos abusivos. 
Quando uma comunidade oferece ao carinha uma piada racista (que não é vendida como racista, e sim como irreverente, polêmica), ele vai ter que escolher entre rir com seus amigos ou não ser racista. O carinha solitário precisa de amigos, e rir de uma piada racista é pessoal. Não rir é político. Ficar numa comunidade que tem nazistas é pessoal, e sair dela é político. O pessoal é o que junta as pessoas, o político é o que as separa. Por isso que uma máxima do feminismo (cooptada pela esquerda de modo geral), "o pessoal é político", é das coisas mais ameaçadoras que podem ser ditas em fóruns de direita. 
O passo seguinte na radicalização é receber uma missão. Mas o vídeo diz que a alt-right (a extrema direita) não pode fazer isso, pois deixaria de ser uma mera hashtag inofensiva ou um grupo que se diz moderado. Entre os mascus, não há essa preocupação. Eles recrutam mesmo, diariamente. Um dos mantras deles é "O mundo te odeia, devolva esse ódio". Outro é "Leve a escória junto", para que rapazes que querem se suicidar cometam massacres e matem mulheres, negros, LGBT, antes de se matarem ou serem mortos pela polícia.
É uma máquina de produção de "lobos solitários". Porque os caras já estão furiosos e precisam desse ódio, e não tem o que fazer com ele. Nos EUA, onde o acesso a armas é mais fácil e incentivado, fazer com que esse carinha cometa um massacre armado é mais fácil. Aqui no Brasil, todos esses carinhas votaram no Bolso não apenas por se identificarem totalmente com suas ideias preconceituosas, mas pela promessa da liberação das armas de fogo. Certamente, diz o vídeo, a violência é a conclusão lógica para uma ideologia de ódio. 
Ou o carinha pode progredir na sua violência começando levemente, por exemplo, xingando pessoas no Twitter, daí se juntando a um grupo organizado que xinga coletivamente, daí compartilhando nudes e fazendo doxxing (descobrir e divulgar dados pessoais de alguém, para assim poder atacá-la), ligar pra elas, mandar fotos da entrada da casa de alguém, gravar vídeos contra elas, ameaçá-las (tudo isso e muito mais já foi feito contra mim, geralmente a mando de um líder mascu). Esses atos são competitivos (quem oprime mais? Quem conseguiu fazer com que a vítima deletasse sua conta?) e tornam o carinha mais aceito na comunidade. 
Se ele sair da comunidade, o vídeo diz, o carinha pode se sentir culpado pelos seus atos. Então o negócio é não deixá-lo sair. Ele tem que ser convencido que, se sair, a esquerda fará com ele o mesmo que ele fez com pessoas de esquerda. 
O cara fica cada vez mais paranoico e anti-sociável, faminto por algum tipo de conexão emocional (eu sinto que muitos dos mascus que me atacam querem que eu me torne amiga e confidente deles; eles fantasiam laços comigo, o que pra mim soa muito doentio), com medo de ser exposto ou denunciado. 
Não há muitas opções. Por isso mesmo aqueles que não tinham tendências suicidas desenvolvem essas tendências nos fóruns. 
O vídeo lembra que esses conservadores são minoritários e nem de longe representam a maioria dos homens (eu concordo!), e que, se você conhece um carinha assim, pode valer a pena falar com ele e tentar afastá-lo do mal, mas é péssimo gastar mais tempo com eles do que se gasta com pessoas que são vítimas de preconceitos de verdade. E, como o vídeo mostra, o seu valor como esquerdista não se baseia em mudar a cabeça de um carinha desses. 
É verdade, e eu nunca dialogo com mascus, porque isso seria dar-lhes a atenção e a conexão emocional que eles tanto desejam. Eu nunca vou mudar um neonazista como o Emerson (que foi preso e condenado em 2012, saiu da cadeia em 2013, depois foi preso nos EUA e deportado, e agora está foragido na Espanha), que sofreu abuso na infância e até hoje, aos 41 anos, tenta se vingar do mundo por conta desses abusos, um cara claramente perturbado e mitomaníaco que precisa de um terapeuta (mas que odeia psicólogas, tornando-o alvo fácil das garras de pastores e de líderes nazis), então eu nem tento. Mas fico feliz quando um texto meu impede que uma mulher se relacione com ele e tenha sua vida arruinada. 
O vídeo termina com razões que podem fazer o carinha sair da comunidade de ódio (ela pode deixar de existir, o carinha pode ser preso ou hospitalizado, ele pode entender que está sendo manipulado, ele pode conhecer alguém e se apaixonar, ou sair para tentar salvar seu relacionamento). Mas o que não funciona são os argumentos de um estranho que prova que todos os seus fatos estão errados e que sua ideologia é uma farsa. Fatos não funcionam porque fatos não ligam pros sentimentos do carinha. Ele queria pertencer, ser aceito. Foi isso que o aproximou do grupo de ódio.
Se existe uma verdade sobre tudo isso, é a seguinte: nenhum carinha sai de uma comunidade de ódio mais feliz do que entrou. Ele se afunda no ódio, só consegue pensar nisso. Vê seus projetos se paralisarem, vê sua vida estagnar. Um exemplo é o Kyo, apelido de André. 
Não sei quando ele começou a frequentar fóruns mascus, a princípio no Orkut, mas pelo menos desde 2010 ele era parceiro de Marcelo (que hoje está na cadeia, cumprindo uma sentença de 41 anos). 
É bem possível que ele tenha entrado nessa vida ainda menor de idade. Com 29 anos, quando decidiu se matar e foi convencido pelo chan que moderava a "levar a escória junto" (ele escolheu Luciana, uma moça que ele nunca tinha visto na vida e que sequer sabia de sua triste existência), ele estava no mesmo ponto de uma década atrás: continuava morando e sendo sustentando pelos pais numa cidade pequena que odiava, não trabalhava, não estudava, não namorava. 
Eu não tenho pena do Kyo, tenho pena da Luciana. Mas ele é um representante da vida que aguarda os caras que odeiam: nada além de ódio e miséria.
Sei que esses carinhas me odeiam e francamente não dou a mínima. Mas fica a sugestão: afastem-se dessas comunidades de ódio. 
Não confiem no meu prognóstico. É só olhar em volta e ver quem são seus "confrades" -- eles parecem felizes? Estão indo a algum lugar? Tem alguma esperança?