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terça-feira, 26 de março de 2019

DEMITIDA DE EMISSORA POR NÃO EMAGRECER

Um caso recente causou bastante comoção. E isso é ótimo. Significa que o pessoal não está aceitando bem a situação. 
Michelle Sampaio, uma jornalista respeitada da Rede Vanguarda (afiliada da Rede Globo no Vale do Paraíba, SP) foi demitida da emissora por estar acima do peso, após 16 anos de casa. Michelle engordou 24 quilos durante a gravidez, e, depois de dois anos, não conseguiu eliminar tudo que queria. Ou o que a emissora queria. Enquanto estava tentando emagrecer, ficou nos bastidores. Ela disse no texto que publicou no seu Instagram respeitar "a posição da empresa". Não vai processar.
Ao blog de Mauricio Stycer, Michelle deu mais detalhes. Contou ter recebido ordens da direção para voltar ao seu peso. Não foi a primeira vez que a emissora fez esta cobrança. Em 2017 outra repórter, Marcela Mesquita, também não pôde aparecer na tela por estar fora do peso "ideal". Outra colega, Amanda Costa, narrou a mesma coisa.
Michelle também acrescentou: "Não acho que seja preconceito. Eles têm padrões. Acho apenas que poderiam ter me dado a chance de fazer o meu trabalho".
Ao ler a notícia, lembrei na hora do fantástico livro da Naomi Wolf, um clássico. O Mito da Beleza foi publicado em 1991, mas, quase três décadas depois, ele permanece atual. No livro, Naomi fala de como é comum um telejornal contar com uma dupla de apresentadores -- ele, muito mais velho, gordo, cabelo grisalho, bem fora do padrão de beleza; ela, eternamente jovem, magra e bela, ambos geralmente brancos. (Se você ainda não leu O Mito da Beleza, tá esperando o quê? Tem aqui, grátis, em português!).
Quase trinta anos depois, este é o padrão de apresentadores que ainda vemos.
No domingo à noite, a Globo negou que tenha despedido Michelle por causa do peso. Não convenceu muita gente.
Entendo perfeitamente que Michelle não queira processar a emissora. Ela já deve estar marcada apenas por ter exposto publicamente o motivo de sua demissão. Mas gostaria muito que ela lesse O Mito da Beleza para entender que os "padrões" configuram preconceito estrutural e enraizado. Padrões estão aí para serem quebrados. Só por ser um padrão não quer dizer que esse padrão não seja discriminatório e preconceituoso.
Ontem à tarde um jornalista da Fórum, Lucas Vasques, me ligou para ouvir algum posicionamento meu acerca do caso. 
Eu disse a ele basicamente o que escrevi aqui. Ele me contou que, nos anos 90, uma outra jornalista passou pelo que aconteceu com Michelle. Ela também não processou a emissora. A matéria de Lucas é bem reveladora.
É terrível que, tanto tempo depois, quase três décadas, tão pouco tenha mudado. Homens são avaliados por seu talento e credibilidade; mulheres, por sua aparência. 
A propósito, você deve ter visto imagens de Michelle enquanto lia este textinho. Como disse uma divertida leitora no Twitter, "Se essa moça é gorda, eu sou o Planeta Júpiter, com anéis e tudo".

terça-feira, 5 de fevereiro de 2019

A NOVA ERA DOS BOLSOMINIONS SAFADOS

Eis uma história para nos fazer sorrir.
Não sei se alguém lembra de um rapaz que, logo após as eleições, publicou uma foto no seu Facebook com uma arma, uma camiseta do Bolso, e a legenda "Está com medo petista safada? É a nova era!" Ou seja, uma mensagem que podia muito bem ser interpretada como ameaça.
Na época, a imagem causou polêmica, e internautas logo passaram a vasculhar a vida do bolsominion. De acordo com vários sites, seu perfil foi encontrado num aplicativo de encontro gay chamado "Scruff". Ainda segundo o que se noticiou na internet, Salomão tem, ou tinha, um blog em que defende "a família tradicional". 
No dia 30 de outubro o rapaz gravou um vídeo ao lado de sua mãe, mostrando a sua "arminha de espoleta" quebrada e pedindo desculpas. "Peço para acalmar, até, todas as partes, até porque ninguém vai ganhar nada com isso". 
Vídeo em que Salomão pede
desculpas
Mas em algum momento sua constatação de que "ninguém vai ganhar nada com isso" se perdeu, e ele decidiu processar a revista Fórum por danos morais e materiais. Numa matéria bastante inofensiva, a Fórum relatou o que Salomão havia feito nas últimas horas (foto com ameaça, aplicativo, vídeo ao lado da mãe). Na ação, Salomão alegou que a publicação (apenas uma entre muitas) assassinou sua reputação e lhe causou transtornos.
Ele perdeu a ação. Uma juíza de São Lourenço, MG, onde vive o bolsominion, concluiu que a Fórum não mentiu, apenas informou, "limitando-se a noticiar os fatos na forma como ocorreram". Mas a melhor parte foi a juíza dizer que foi o próprio autor quem assassinou sua reputação. Óbvio, né?
Pelo jeito, não contente com a exposição negativa do ano passado, Salomão decidiu repetir a dose no ano novo ao entrar com a ação. Agora tem um monte de gente rindo dele de novo. E o rapaz e sua mãe ainda devem ter perdido uma graninha pra pagar as custas.
Seria mais divertido se a gente não soubesse que é uma estratégia da direita tentar criminalizar a oposição e os movimentos sociais através de processos. Bolso e seu filho Eduardo entraram com uma ação contra a Fórum agora em janeiro, simplesmente porque a revista publicou uma foto de Lula Marques de 2017. Espero que percam. 

terça-feira, 4 de dezembro de 2018

NINGUÉM É MAIS VITIMISTA QUE REAÇA

E no entanto, ironicamente, são os reaças, esses bebês chorões, que chamam feministas e ativistas do movimento negro e LGBT de vitimistas. 
Outro dia o brasileiro de quase 40 anos mais infantil e imaturo que existe gravou um vídeo para chorar sobre como ele é perseguido pelas feministas e pela mídia. O reaça disfarçado de humorista ainda não se tocou que a mídia é ele. É ele que tem programa de televisão há anos, ele que tem voz ativa no rádio. Mas, no universo alternativo de Danilo Gentili, a mídia é toda de esquerda. Porque tá cheio de programa de TV feminista, né, babacão?
O castigo veio de ônibus.
E a ótima Maíra Colares desenhou pra você como funciona o vitimismo reaça.
É difícil de acreditar, eu sei, mas esta faixa de uma marcha reaça NÃO é montagem. Eles realmente acham que existe heterofobia, racismo inverso, misandria, e que a grande mídia é praticamente comunista.

segunda-feira, 12 de novembro de 2018

O PT MORREU?

Semana passada o MBL convocou um hiper mega blater super duper ato para celebrar o enterro do PT. Foi no ABC, numa das muitas universidades criadas pelo PT. Apareceram sete pessoas, incluindo a cinegrafista.
A multidão rivalizou com a do enterro festeiro realizado por outros reaças (todos homens brancos), numa foto que ficou conhecida como "método infalível para o controle da natalidade" (veja acima).
E a revista QuantoÉ? IstoÉ estampou na sua capa desta vez não a morte, mas a "banição" do PT. Inventaram uma palavra, já que o termo aceitável é banimento. 
Mas é isso mesmo, o PT morreu? Foi banido? Desapareceu? Isso é realidade ou torcida de quem não apenas não saber perder, mas tampouco sabe ganhar?
Vejamos. Pra começo de conversa, a morte do PT vive sendo decretada. Em 2005 um dos coronéis de Santa Catarina, Jorge Bornhausen (então do PFL, depois DEM) disse: "A gente vai se ver livre dessa raça por pelo menos trinta anos", referindo-se ao PT e à crise política. Errou por pouco. Lula se reelegeu em 2006 e fez sua sucessora em 2010, que se reelegeu em 2014. 
Um mês antes das jornadas de junho de 2013, o PT vivia um de seus melhores momentos. Sete em cada dez brasileiros julgavam que o governo Dilma era "ótimo ou bom" (em 2010, a aprovação era de 80%). Em 2014, ano em que a ONU retirou o Brasil do mapa da fome, o cenário era difícil, mas Dilma conseguiu ganhar de Aécio em votação apertada (vantagem de apenas 3 milhões de votos). E deu início a um governo ruim, com Joaquim Levy como ministro da Fazenda (ele estará no governo de Bolsonaro -- culpa do PT?). 
Em 2015 foi a vez de Luciana Genro (Psol) dizer que o PT havia morrido.
Com a vergonhosa votação do impeachment na Câmara dos Deputados, em maio de 2016 (aquela em que os corruptos liderados por Eduardo Cunha agradeceram a Deus e as suas famílias; um deles até homenageou um torturador!), o PT foi defenestrado. Isso obviamente influenciou as eleições municipais de 2016, em que o partido foi o maior derrotado (foi o ano em que Haddad não conseguiu ser reeleito prefeito de SP): o PT elegeu apenas 256 prefeitos, metade de 2012. MDB e PSDB, os partidos decisivos do golpe, foram os vitoriosos. 
Mais uma vez, decretou-se a morte do PT. Falou-se até que o partido poderia perder seu registro na Justiça. Um cientista político, assessor de Temer, decretou a morte do PT, mas não de todo o PT. Apenas do PT radical, polarizador, de confronto. 
Este ano, depois do primeiro turno das eleições de 2018, um coronel eleito deputado federal pelo partido de Bolso foi mais conciliador: "É uma pena que o PT ainda não tenha acabado. O PT ainda não morreu, mas está na UTI e vai morrer em breve".
Porém, olhando assim de longe, o PT parece continuar bem fortinho. Segue sendo o maior partido de esquerda da América Latina, por exemplo.
Além de ter a maior bancada na Câmara dos Deputados (56), o PT terá também a maior bancada feminina na Câmara. Foi o partido que mais elegeu mulheres para a Câmara: dez.
Pelo TSE, o PT é o segundo partido com maior número de eleitores filiados: 1,5 milhão (o MDB tem 2,3 milhões). O PT diz que o partido ultrapassou 2,2 milhões em junho. As filiações dispararam com a perseguição a Lula (que era o franco favorito para sagrar-se presidente).
O PT é o partido mais popular. Segundo pesquisa Ibope de agosto, quando se pergunta qual partido tem maior preferência ou simpatia, 29% dos entrevistados responderam PT. É quase o triplo da soma de todos os outros partidos que pontuaram (PSDB teve 5%, MDB 3%, PDT, PSB e PSOL, 1%).
Agora em 2018, o PT elegeu quatro governadores (todos no Nordeste), incluindo Fátima Bezerra (RN), única mulher a ser eleita governadora em 2018. 
Foi um governador a menos que em 2014, mas, ainda assim, é o partido com o maior número de governadores no país.
E vale lembrar que 47 milhões de eleitores escolheram Haddad para presidente (45% dos votos válidos, contra os 58 milhões de Bolso).
Diante desses números, é realmente sensato assinar o falecimento de um partido? Ou isso não passa de wishful thinking?
Porque, sei lá, quando eu morrer, quero morrer assim, em grande estilo.

terça-feira, 9 de outubro de 2018

SUA TIA NÃO É FASCISTA, ESTÁ SENDO MANIPULADA

Sua tia pode até não ser, mas alguns são: 
Eduardo Bolsonaro encontrou-se com Steve Bannon em agosto

Ontem este texto de Rafael Azzi viralizou no Facebook. Portanto, vou compartilhá-lo aqui.
Antes de começar a lê-lo, algumas informações complementares: das dez fake news com maior número de compartilhamentos na campanha até agora, dez (100%) são a favor de Bolsonaro ou contra seus adversários. Como uma campanha feita inteirinha em cima de mentiras descaradas não é impugnada? (pode-se fazer essa pergunta sobre Trump também). 
Como explicou o filósofo Vladimir Safatle, da USP, o que a campanha de Bolso fez, com muita competência, foi esvaziar a discussão: "a campanha sai do espaço público e se desloca para o ambiente virtual, difícil de ser partilhado pela sociedade. 
Nesse espaço, a produção contínua de imagens e vídeos falsos de forte apelo retórico, que podem ser partilhados, acabam dando o tom". Como exemplo, Safatle fala dos atos #EleNão, que tomaram as ruas no dia 29/9, levando centenas de milhares de pessoas às ruas. A mídia tradicional mal noticiou as manifestações, enquanto bolsobots se ocupavam de deturpá-las, usando imagens e vídeos que não tinham nada a ver com o #EleNão. 
A pesquisadora Maria Hermínia Tavares alerta que é Bolsonaro que pode fazer do Brasil uma Venezuela, e não o PT. 
Se você quer saber mais sobre o que são e como funcionam essas notícias falsas, leiam o ótimo texto da Annia Zzachi que publiquei semana passada. 
A jornalista Eliane Brum publicou um "manual" sobre como transformar luto em luta. 
Em tempo: Ontem o candidato do PT à presidência, Fernando Haddad, propôs a Bolsonaro um pacto de combate a fake news. Como o projeto de ditador respondeu? Chamando-o de "canalha". É óbvio que, se Bolso remover as mentiras de sua campanha, não sobra nada. 
Revista Fórum contextualizou melhor este texto do filósofo Rafael Azzi que reproduzo agora. 

Você se pergunta como um candidato com tão poucas qualidades e com tantos defeitos pode conseguir o apoio quase que incondicional de grande parte da população?
Você já tentou argumentar racionalmente com os eleitores deles, mas parece que eles estão absolutamente decididos e te tratam imediatamente como inimigo no mais leve aceno de contrariedade?
Até sua tia, que sempre foi fofa com você, agora ataca seus posts sobre política no facebook?
Pois bem, vou contar uma história.
O principal nome dessa história é um sujeito chamado Steve Bannon [Tem um documentário em inglês, Exposing Steve Bannon]. Bannon tinha uma visão de extrema direita nacionalista. Ele tinha um site no qual expressava seus pontos de vista que flertavam com o machismo, com a homofobia, com a xenofobia, etc. Porém, o site tinha pouca visibilidade e seu sonho era que suas ideias se espalhassem com mais força no mundo.
Para isso, Bannon contratou uma empresa chamada Cambridge Analytica. Essa empresa conseguiu dados do facebook de milhões de contas de perfis por todo mundo. Todo tipo de dado acumulado pelo facebook: curtidas, comentários, mensagens privadas. De posse desses dados e utilizando algoritmos, essa empresa poderia traçar perfis psicológicos detalhados dos indivíduos.
Tais perfis seriam então utilizados para verificar quais indivíduos estariam mais predispostos a receber as mensagens: aqueles com disposição de acreditar em teorias conspiratórias sobre o governo, por exemplo, ou que apresentavam algum sentimento de contrariedade difuso ao cenário político atual.
A estratégia seria fazer com que esse indivíduo suscetível a essas mensagens mudasse seu comportamento, se radicalizasse. Como as pessoas passaram a receber as notícias e a perceber o mundo principalmente através das redes sociais, não é difícil manipular essas informações. Se você pode controlar as informações a que uma pessoa tem acesso, você pode controlar a maneira com que ela percebe o mundo e, com isso, pode influenciar a maneira como se comporta e age.
Posts no facebook podem te fazer mais feliz ou triste, com raiva ou com medo. E os algoritmos sabem identificar as mudanças no seu comportamento pela análise dos padrões das suas postagens, curtidas, comentários.
Assim, indivíduos com perfis de direita e seu tradicional discurso "não gosto de impostos" foram radicalizados para perfis paranoicos em relação ao governo e a determinados grupos sociais. A manipulação poderia ser feita, por exemplo, através do medo: "o governo quer tirar suas armas". Esse tipo de mensagem estimula um sentimento de impotência e de não ser capaz de se defender. Estimula também um sentimento de "somos nós contra eles", o que fecha a pessoa para argumentos racionais.
Sites e blogs foram fabricados com notícias falsas para bombardear diretamente as pessoas influenciáveis a esse tipo de mensagem. Além disso, foi explorado também um sentimento anti-establishment, anti-mídia tradicional e anti "tudo isso que está aí". Quando as pessoas recebiam várias notícias de forma direta, e não viam essas notícias repercutirem na grande mídia, chegavam à conclusão de que a grande mídia mente e esconde a verdade que eles tem.
Se antes a mídia tradicional podia manipular a população, a manipulação teria que ser feita abertamente, aos olhos de todos. Agora, todos temos telas privadas que nos mandam mensagens diretamente. Ninguém sabe que tipo de informação a pessoa do lado está recebendo ou quais mensagens estão construindo sua percepção de realidade.
Com esse poder nas mãos, Bannon conseguiu popularizar a alt right (movimento de extrema direita americana) entre os jovens, que resultou nos protestos "unite the right" no ano passado em Charlottesville, Virgínia que tiveram a participação de supremacistas brancos. Bannon trabalhou na campanha presidencial de Donald Trump e foi estrategista de seu governo. A Cambridge Analytica trabalhou também no referendo do Brexit, que foi vencido principalmente por argumentos originados de fakenews.
Quando a manipulação veio à tona, Mark Zuckerberg foi chamado ao senado americano para depor. Pra quem entendeu o que houve, ficou claro que a democracia da nação mais importante do mundo havia sido hackeada. Mas os congressistas pouco entendimento tinham de mídia social; e quem estaria disposto a admitir que a democracia pode ser hackeada através da manipulação dos indivíduos?
Zuckerberg estava apenas pensando em estabelecer um modelo de negócios lucrativo com a venda de anúncios direcionados. A coleta de dados e a avaliação de perfil psicológico das pessoas tinham a intenção "inocente" de fazer as pessoas clicarem em anúncios pagos. Era apenas um modelo de negócios. Mas esse mesmo instrumento pode ser usado com finalidade política.
Ele se deu conta disso e sabia que as eleições brasileiras podiam estar em risco também. Somos uma das maiores democracias do mundo. O facebook tomou medidas ativas para evitar que as campanhas de desinformação e manipulações ocorressem em sua rede social. Muitas contas fake e páginas que compartilhavam informações falsas foram retiradas do facebook no período que antecede as eleições.
Mas não contavam com a capilarização e a popularização dos grupos de whatsapp. Whatsapp é um aplicativo de mensagens diretas entre indivíduos; por isso, não pode ser monitorado externamente. Não há como regular as fake news, portanto. Fazer um perfil fake no whatsapp também é bem mais fácil que em outras redes sociais e mais difícil de ser detectado.
Lembram do Steve Bannon, que sonhou com o retorno de uma extrema direita nacionalista forte mundialmente? Que tinha ideias que são classificadas como anti minorias, racistas e homofóbicas? E que usou um sentimento difuso anti "tudo que está aí", e um medo de os homens se sentirem indefesos para conquistar adeptos?
Pois bem, ele se encontrou em agosto com Eduardo Bolsonaro. Bolsonaro disse que o Bannon apoiaria a campanha do seu pai com suporte e "dicas de internet", essas coisas. Bannon é agora um "consultor eventual" da campanha. Era o candidato ideal pra ele, por compartilhava suas ideias, no cenário ideal: um país passando por uma grave crise econômica com a população desiludida com a sua classe política.
Logo depois de manifestações de mulheres nas ruas de todo o Brasil e do mundo contra Bolsonaro, o apoio do candidato subiu, entre o público feminino, de 18 para 24 por cento. Um aumento de 6 pontos depois de grande parte das mulheres se unir para demonstrar sua insatisfação com o candidato. 
[Discordo dessa correlação entre os atos #EleNao e o crescimento de Bolsonaro. Como mostra a cientista política Flávia Birolli, tal associação é reducionista. E o apoio dos evangélicos a Bolso no mesmo período, não abalou as intenções de voto?]
Isso acontece porque, de um lado, a grande mídia simplesmente ignorou as manifestações e, por outro, houve um ataque preciso às manifestações através dos grupos de whatsapp pró-Bolsonaro. Vídeos foram editados com cenas de outras manifestações, com mulheres mostrando os seios ou quebrando imagens sacras, mas utilizadas dessa vez para desmoralizar o movimento #elenão entre as mais conservadoras.
Além disso, Eduardo Bolsonaro veio a público logo após a manifestação e declarou: "As mulheres de direita são mais bonitas que as de esquerda. Elas não mostram os peitos e nem defecam nas ruas. As mulheres de direita têm mais higiene." Essa declaração pode parece pueril ou simplesmente estúpida mas é feita sob medida para estimular um sentimento de repulsa para com o "outro lado".
Isso não é nenhuma novidade. A máquina de propaganda do nazismo alemão associava os judeus a ratos. O discurso era que os judeus estavam infestando as cidades alemãs como os ratos. 
Esse é um discurso que associa o sentimento de repulsa e nojo a uma determinada população, o que faz com que o indivíduo queira se identificar com o lado "limpo" da história. Daí os 6 por cento das mulheres que passaram a se identificar com o Bolsonaro.
Agora é possível compreender porque é tão difícil usar argumentos racionais para dialogar com um eleitor do Bolsonaro? Agora você se dá conta do nível de manipulação emocional a que seus amigos e familiares estão expostos? Então a pergunta é: "o que fazer?"
Não adianta confrontá-los e acusá-los de massa de manobra. Isso só vai fazer com que eles se fechem e classifiquem você como um inimigo "do outro lado". Ser chamado de manipulado pode ser interpretado como ser chamado de burro, o que só vai gerar uma troca de insultos improdutiva.
Tenha empatia. Essas pessoas não são tolas ou malvadas; elas estão tendo suas emoções manipuladas e estão submetidas a uma percepção da realidade bastante diferente da sua.
Tente trazê-las aos poucos para a razão. Não ofereça seus argumentos racionais logo de cara, eles não vão funcionar com essas pessoas. A única maneira de mudar seu pensamento é fazer com que tais pessoas percebam sozinhas que não há argumentos que fundamentem suas crenças e as notícias veiculadas de maneira falsa.
Isso só pode ser feito com uma grande dose de paciência e de escuta. Peça para que a pessoa defenda racionalmente suas decisões políticas. Esteja aberto para ouvi-la, mas continue sempre perguntando mais e mais, até ela perceber que chegou num ponto em que não tem argumentos para responder.
Pergunte, por exemplo: "Por que você decidiu por esse candidato? Por que você acha que ele vai mudar as coisas? Você acha que ele está preparado? Você conhece as propostas dele? Conhece o histórico dele como político? Quais realizações ele fez antes que você aprova?"
Minha opinião: alguém que acredita
numa fake news desse calibre merece
mesmo ter um fascista como
presidente
Em muitos casos, a pessoa tentará mudar o discurso para falar mal de um outro partido ou do movimento feminista. Tal estratégia é esperada porque eles foram programados para achar que isso representa "o outro lado", os inimigos a combater.
Nesse caso, o caminho continua o mesmo: tentar trazer a pessoa para sua própria razão: "Por que você acha que esse partido é tão ruim assim? Sua vida melhorou ou piorou quando esse partido estava no poder? Como você conhece o movimento feminista? Você já participou de alguma reunião feminista ou conhece alguém envolvido nessa luta?"
Se perceber que a pessoa não está pronta para debater, simplesmente retire-se da discussão. Não agrida ou nem ofenda, comportamento que radicalizaria o pensamento de "somos nós contra eles". Tenha em mente que os discursos que essa pessoa acredita foram incutidos nela de maneira que houvesse uma verdadeira identificação emocional, se tornando uma espécie de segunda identidade. Não é de uma hora pra outra que se muda algo assim.
Duas das mais importantes democracias do mundo já foram hackeadas utilizando tais técnicas de manipulação. O alvo atual é o nosso país, com uma das mais importantes democracias do mundo. Não vamos deixar que essas forças nos joguem uns contra os outros, rasgando nosso tecido social de uma maneira irrecuperável.
P.S.: Por favor, pesquise extensamente sobre todo e qualquer assunto que expus aqui, e sobre o qual você esteja em dúvida. Não sou de nenhum partido. Sou filósofo e, como filósofo, me interesso pela verdade, pela ética e pelo verdadeiro debate de ideias.