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terça-feira, 7 de maio de 2019

GUEST POST: O ANTI-MAPA DA PRIVACIDADE

O Idec (Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor) é uma ONG de defesa do consumidor que atua há 31 anos por relações de consumo mais justas e responsáveis. Desde 2011, a ONG tem lutado pela aprovação de uma Lei Geral de Proteção de Dados Pessoais no Brasil, produzindo pesquisas, matérias, eventos, oficinas e textos para o Congresso. 
Segundo a Laise, uma analista do Ipec, "Hoje é um dia importante porque deve ocorrer a votação no Congresso Nacional da Medida Provisória 869/18 que irá determinar o modelo da autoridade de proteção de dados brasileira e estamos de olho nisso! Nesse momento, é muito importante que os brasileiros entendam como essa nova  lei funciona e como isso impactará a vida de todos".
Publico aqui um texto explicando melhor a lei e a relevância de proteger nossos dados. Há vários links para se informar mais. 
Quantos aplicativos você tem no celular? Quantas vezes você já registrou seu CPF em farmácias ao comprar um medicamento? Quantos websites já instalaram “cookies” no seu computador para monitorar o que você faz online? O que fazem com a informação que coletam sobre você? Os nossos “rastros digitais” estão em toda parte, dentro e fora da internet. 
Quase todos os nossos movimentos são passíveis de rastreamento: cada compra, cada acesso, cada busca, cada rota. Os nossos rastros digitais estão em toda parte, dentro e fora da internet. Mas você sabe o que tem sido feito no Brasil para proteger os nossos dados?
Em agosto de 2018, o Brasil finalmente aprovou a Lei Geral de Proteção de Dados Pessoais, mas a luta ainda não acabou. A lei apenas entra em vigor em janeiro de 2020. Até que isso ocorra, seguimos vulneráveis. Hoje (07/05) mesmo, pode ocorrer no Congresso Nacional a votação da Medida Provisória 869/18 sobre o modelo da autoridade de proteção de dados brasileira.
Para que todos possam proteger seus dados, o Idec elaborou o ebook Anti-mapa da Privacidade, um material para ajudar todos a esconderem seus rastros, e o Mini-curso Online, com aulas super didáticas sobre como sua vida será impactada pela nova Lei de Dados Pessoais.  
Seguindo esses passos, vai ser muito mais difícil te rastrearem e extraírem ouro pelos seus rastros deixados.
Explore o especial para entender o que está em jogo com a desproteção de dados, conheça casos importantes e o histórico de luta que passamos para conseguir essa conquista, além de contar com uma biblioteca de conteúdos para se aprofundar no assunto.

terça-feira, 12 de junho de 2018

A FUGA DO FACEBOOK QUE TUDO VÊ

Esses dias abri um sorriso porque mascus estavam reclamando da dificuldade cada vez maior de manter perfis fakes no Facebook. 
Clique para ampliar
E, sem fakes, como fariam para viralizar os sites de ódio que criam? (eles precisam dos fakes para entrar em páginas progressistas e escrever "Viram que absurdo?", com link pro site de ódio. Aí o pessoal desavisado espalha, crente que tá ajudando, quando está apenas divulgando ódio -- e, de quebra, trazendo vírus pro seu computador. Por isso, nunca divulgue links de ódio. Só denuncie!).
Apesar de eu não ter FB, sei que muitas ativistas reclamam contra censuras ridículas de imagens de mastectomias, por exemplo. Sei também que o FB é uma empresa privada, e que é perigoso uma companhia ter tanto poder. Por outro lado, pra mim -- como alvo constante -- é muito bom que o FB finalmente esteja sendo mais enérgico para coibir o ódio (gostaria que o Twitter fizesse o mesmo). 
Foi algo assim que escrevi no Tw no fim de semana. Um seguidor antigo, que entende muito mais de internet do que eu, disse que não dá pra confiar no FB e me recomendou um artigo publicado recentemente por um site português, Guilhotina. É longo, mas traz muita informação, e por isso reproduzo-o aqui, com algumas pequenas adaptações pro nosso português. 

Entre 2009 e 2011, ecoou pelo mundo ocidental um número sem fim de artigos de opinião que atribuíam a redes sociais como o Facebook e o Twitter as responsabilidades pela onda de revoltas que atingiu partes do Oriente Médio e da América Latina. O tom desses artigos misturava triunfalismo tecnológico e civilizacional: “Vejam como os nossos valores superiores finalmente chegaram a estes povos incultos e imundos graças às maravilhas tecnológicas da Internet.”
No entender destes escribas, estas redes sociais haviam permitido a uma nova geração tecnologicamente apta coordenar-se para exigir democracia e liberdade contra regimes opressores. Deixemos por agora de lado que análises posteriores mais sérias sobre o fenômeno tenham revelado que o uso destas redes sociais para fins de protesto foi grandemente exagerado. Ou que a verdadeira história é que há uma enorme quantidade de jornalistas que, na realidade, não estando no terreno, não falando a língua e não conhecendo a história dos locais sobre os quais escrevem, simplesmente iam ao Twitter e Facebook para roubar fotos e vídeos e aldrabar uma coisa qualquer sobre o que se passava.
Façamos antes a pergunta – qual o verdadeiro potencial de redes sociais como o Facebook para fins políticos radicais?
Em Portugal, durante o período das manifestações anti-austeridade que começou em 2011, foi visível, em eventos como o Que Se Lixe a Troika e os Cercos ao Parlamento, a velocidade estonteante a que os eventos associados de Facebook cresciam, com milhares de novas pessoas a cada hora. Independentemente de tal não se traduzir necessariamente em participação nas ruas, era um forte sinal de que se conseguia escapar da “bolha” em que a participação política habitualmente se limita, e chegar a uma audiência maior. Foi em parte o testemunho por parte dos membros e membras da Guilhotina deste poder do Facebook de chegar às pessoas que nos fez investir na plataforma.
Várias pessoas que viriam a formar a Guilhotina já administravam uma variedade de páginas no Facebook. Fazer crescer a audiência no pré-2014 era um desafio vastamente inferior ao que é hoje. O tempo e conteúdo que no passado gerava milhares de “gostos”, hoje tem sorte se gerar centenas e chega a um número muito mais reduzido de pessoas.
Tendo em conta que a Guilhotina foi lançada em finais de 2013, esta alteração de dinâmica em 2014 foi-nos particularmente óbvia na lentidão com que a página crescia, apesar de contar agora com trabalho colectivo mais prolífico.
O que aconteceu em 2014?
Antes de 2012, uma publicação era igual a uma visualização, desde que alguém tivesse dado "like" na página. O Facebook introduziu então o “alcance orgânico”, que restringe a quantidade de pessoas que inicialmente vêem uma publicação para cerca de 16% da audiência total da página. Dependendo da quantidade de interações que a publicação angaria (comentários, partilhas e likes), o algoritmo do Facebook poderá decidir mostrá-la a mais gente ou não. Em 2014, a porcentagem de alcance orgânico caiu para 6,5%.
Se os 16% já eram um desafio, os 6,5% parecem ter sido um marco não apenas quantitativo mas também qualitativo na dificuldade em chegar à audiência. O alcance orgânico tem continuado a cair desde então, encontrando-se hoje entre os 1 a 2%, dependendo de vários fatores; por exemplo, páginas pequenas que estão começando recebem um maior alcance orgânico, que vai diminuindo conforme crescem. Os primeiros 2.000 likes são notoriamente mais fáceis de obter do que aquilo que se segue, provavelmente numa tentativa de não desencorajar aqueles que estão investindo na plataforma recentemente e fazê-los sentir que, chegando a um certo ponto, mais vale continuar, apesar do retorno reduzido.
O Facebook justificou o alcance orgânico com a necessidade de aumentar a seletividade dos conteúdos, cada vez mais abundantes, que chegavam aos usuários. Claro que se existisse uma genuína preocupação com os usuários, o Facebook podia perfeitamente oferecer-lhes mais ferramentas de seleção, ao invés de lhes retirar poder sobre o que vêem e dá-lo ao algoritmo. Na realidade, estas alterações serviram obviamente para reforçar junto dos anunciantes a necessidade de pagar o dízimo ao Mark para que lhes fosse permitido atingir à sua audiência –- ou, melhor dizendo, aos seus consumidores.
Para páginas políticas, sejam elas ligadas a movimentos, coletivos de informação ou outros –- que não contam com recursos financeiros milionários para se “promoverem” -– este foi obviamente um passo em direção à irrelevância, enquanto o capital viu reforçada a sua hegemonia, apesar de ter de passar a pagar o imposto Zuckerberg.
Traição do Facebook aos seus princípios de espalhar a livre comunicação?
De modo nenhum. Só um jornalista de tecnologia, com o cérebro esburacado devido à sobre-exposição a citações inspiradoras do Steve Jobs, poderia pensar tal coisa. O objetivo do Facebook sempre foi a extorsão via monopólio, como qualquer startup tecnológica que se preze.
O primeiro passo: identificar um novo espaço de mercado por explorar, recentemente criado pela disseminação de novas tecnologias. Segundo passo: angariar capital de investimento e entrar a todo vapor para dominar o novo espaço (neste caso, expandir o número de usuários da rede social), mesmo que para tal se perca dinheiro, o que no caso do Facebook aconteceu até 2009 –- ou seja, queimou dinheiro durante cerca de 4 anos e meio.
Mas isso é esperado, porque é neste ponto que se lançam as sementes do monopólio que virá. Se existisse a preocupação de crescer lucrativamente desde o início, este crescimento seria muito mais lento. E depois quem poderia prever o que aconteceria? E se um gigante já estabelecido como a Apple, Microsoft ou Google dissessem “Boa ideia, vou roubar”?
Não, é preciso garantir que quando chegar a hora da verdade, a utilização do produto seja tão disseminada que nem seja possível aos usuários considerarem uma alternativa, nem exista espaço para a competição crescer. Não entrar no Facebook? Mas como, agora que todos os nossos amigos e família só se comunicam por lá, agora que todos os eventos são filtrados por lá? Querem ser ostracizados? Entrem, é gratuito e sempre será. Ok, entraram e descobriram que é um tédio, e agora? Sair do Facebook? Todo mundo que conhecem está lá. Todos os interesses, todas as fotografias, todas as conversas. Impensável, suicídio social.
E é neste ponto, onde a vida sem o Facebook se torna inimaginável, onde este já estava no bom caminho de atingir os seus atuais 2.234 milhões de usuários (janeiro 2018) e capturar a maioria do mercado das redes sociais -– apesar de ter caído de um pico de cerca de quase 90% para 65% atualmente (abril 2018) -– é neste ponto que se erguem os muros.
Eis que chega o terceiro passo: exercer o poder de monopólio. Como a Google com a publicidade nos motores de busca (91% do mercado em abril de 2018) e a Microsoft com os sistemas operativos (81% nos computadores de escritório em abril de 2018), o Facebook reina incontestado no campo das redes sociais, e isso significa que é o Facebook que dita os preços e os termos. Daí a sua riqueza fabulosa, devido à competição dos anunciantes para conseguir chegar aos sumarentos consumidores no interior da rede social. O Facebook possui a vantagem, possivelmente ainda mais que a Google, de ser uma plataforma onde os próprios usuários fazem todo o trabalho de se auto-segmentar através de todas as informações íntimas que partilham com o Mark, pensando que partilham com amigos e família. Em termos de marketing, é uma dádiva sem preço poder conhecer os seus alvos com tal clareza, ou poder escolhê-los com tanta precisão.
Esta passagem do segundo passo –- expansão -– para o terceiro –- monopólio –- torna-se assim a marca de água das possibilidades políticas do Facebook, preso entre o momento onde precisa que todo mundo entre a bordo –- e portanto coloca menos restrições à comunicação -– e o momento onde atingiu a audiência necessária para começar a apertar com quem nele publica conteúdo, independentemente de ser comercial ou não.
Consequentemente, o Facebook é hoje um enorme centro comercial. Um local onde as pessoas se reúnem, conversam, namoram, realizam atividades lúdicas, mas em que todo este componente social não passa de uma isca para o verdadeiro objetivo de arrastar todo mundo para dentro de uma franquia qualquer e fazê-las consumir. As marcas pagam renda ao Facebook pelo direito a um espaço no todo-poderoso centro comercial mundial do Mark Zuckerberg.
E como um centro comercial, não é um espaço pensado para o livre debate político. Por trás da fachada brilhante estão os longos corredores de cimento que vão dar às salas de vigilância onde os seguranças podem seguir todos os nossos movimentos através de mil olhos no teto; onde os marqueteiros tomam nota de cada olhar, cada passo, cada compra; onde departamentos de contabilidade fazem as contas de quantos centavos vale cada um dos nossos reais.
Claro, como em qualquer centro comercial, os visitantes podem-se reunir tranquilamente para discutir as vantagens e desvantagens da ditadura do proletariado nos confortáveis sofás do Starbucks local. Mas experimentem começar a ser demasiado barulhentos, a distribuir panfletos, a organizar, e cedo aparecerão 4 seguranças e 2 polícias para perguntar qual é a ideia e por favor para dar no pé que o capital tem mais que fazer que aturar vocês.
O ambiente ideal desejado pelo Facebook é um de agressiva normalidade e centrismo, onde nem os consumidores se sentem importunados, nem os anunciantes precisam se preocupar com a possibilidade dos seus conteúdos aparecerem ao lado de cadáveres na Síria e Palestina.
A forma como o Facebook constrói esse ambiente, para além do já mencionado imposto para chegar à audiência, assenta também em mecanismos de censura opaca.
Mecanismos de censura
O primeiro destes é a pseudo-democracia da denúncia, usando a lógica de que se um suficiente número de pessoas sentirem que algo é ofensivo, provavelmente é. Os possíveis abusos de tal lógica são fáceis de prever, e é frequente tanto a extrema esquerda como a direita verem regularmente as suas páginas derrubadas como parte de guerras de denúncias mútuas.
Este cartum do Latuff derrubou várias
páginas de esquerda só por ter uma
suástica
Mas que 10 ou 10.000 racistas denunciem e derrubem uma página pelos direitos negros ou que 10 ou 10.000 machistas façam o mesmo a uma página feminista não torna o processo mais ou menos democrático, até porque a palavra final sobre algo ser removido ou não é dos censores do Facebook. O processo de denúncia apenas dá justificativa ao Facebook para se livrar de tudo aquilo que possa assustar consumidores e anunciantes. E sempre que uma página é derrubada de forma permanente, é preciso reconstruir quase do zero, garantindo que nunca se sai do gueto da pequena audiência.
Ao mesmo tempo, não é preciso grande ciência para adivinhar que, mesmo que reuníssemos 1 milhão de usuários para denunciar a Raytheon por fabricar armas usadas para matar civis inocentes, bem podíamos esperar sentados para que a sua página fosse derrubada.
Apesar da Guilhotina só por uma vez ter sofrido este tipo de censura, quando publicamos as fotografias dos violadores da Queima das Fitas em 2017, conhecemos também a experiência de uma página maior -– que não será nomeada devido a ter sido vendida e subsequentemente transformada num saco de lixo –- que era recorrentemente derrubada, especialmente quando publicava sobre a Turquia, país com um setor de trolls particularmente desenvolvido.
Um aparte sinistro: depois de um desses ataques, todos os administradores e ex-administradores da página tiveram suas contas bloqueados com a justificativa que tinham nomes de usuários incomuns e possivelmente falsos (o que não era de todo o caso), exigindo o envio ao Facebook de documentos de identificação oficial para que as contas fossem destrancadas.
Após a censura da denúncia, surge a censura dos vagos padrões de comunidade do Facebook, que são pau para toda a obra e dão uma cobertura moral à censura, visto que os conteúdos são sempre eliminados com o pretexto de proteger os usuários de algum tipo de trauma, tal como o gerado pela visualização de mamilos femininos. Obviamente que há conteúdos genuinamente censuráveis publicados por cérebros doentes, mas a expressão destas regras na política à esquerda é o impedimento de trazer à luz do dia a tradução no mundo real de conceitos como o racismo, imperialismo e machismo.
Filmaram a polícia matar um negro indefeso? Filmaram crianças destroçadas por bombas no Oriente Médio? Filmaram mulheres sendo apedrejadas na Arábia Saudita? Lamentamos mas publicar tal violência viola os padrões de comunidade, banidos todos. Mas só se forem um pequeno jornalista, ativista ou uma testemunha do momento. Se forem o New York Times, o Washington Post, a CNN ou a BBC, nenhuma atrocidade, por mais gráfica que seja, está fora do cardápio se ajudar a dar cobertura para lançar novas intervenções militares.
Este processo de deslegitimação de tudo quanto não são interesses do capital só acelera à medida que toda a estupidez à volta das fake news -– conjurada por Trump mas empoderada pela cúpula do Partido Democrata americano para justificar a derrota patética de Hillary Clinton –- descambou num processo de russofobia no Ocidente que está a servir de pretexto para impor um maior controle da informação. A Google tomou a iniciativa com a delistagem (remoção do motor de busca) ou deranking (dar menos prioridade no motor de busca, atirando os resultados para o fundo de uma longa lista) de uma série de sites independentes, especialmente aqueles com posturas anti-imperialistas e céticos das narrativas oficiais que apontam o dedo a Putin sempre que alguém entorna café em Washington.
Agora será o Facebook a estabelecer o seu próprio sistema de censura mais descarada, já tendo anunciado uma parceria com o Conselho Atlântico para decidir o que são notícias verdadeiras ou falsas.
O Conselho Atlântico, lembrem-se, é um think tank financiado por conhecidos campeões da paz, democracia e liberdade tais como: 
Emirados Árabes, Companhia Nacional de Petróleo de Abu Dhabi, Airbus, Carnegie Corporation, Chevron, Ministério do Negócios Estrangeiros do Reino Unido, NATO, Grupo Blackstone, Google, HSBC, Lockheed Martin, Raytheon, Rockefeller, Departamento de Estado dos EUA, ExxonMobil, JPMorgan Chase, Corporação Petrolífera Turca, Pfizer, Bank of America, Boeing, BP, Deloitte, Banco de Investimento Americano, Northrop Grumman, Shell, Statoil, quatro dos cinco ramos das Forças Armadas americanas (força aérea, exército, fuzileiros e marinha), Walmart e os Ministério da Defesa da Noruega, Suécia, Japão, Letônia e Lituânia. Uma pequena seleção dentre muitos, muitos outros grandes nomes do humanismo e progresso civilizacional.
Não que coisas peculiares dentro do âmbito dos interesses do imperialismo não tivessem já acontecido. Na Guilhotina denunciamos o desaparecimento pela calada da nossa publicação sobre os Capacetes Brancos, que só descobrimos por acaso quando a tentamos encontrar para deixar como referência noutra publicação. Nunca recebemos qualquer notificação de que o conteúdo havia sido removido no ano e quatro meses que passaram desde a sua publicação original. Fica a suspeita de que o motivo porque as ferramentas de pesquisa cronológica do Facebook foram ficando piores com o passar do tempo se deve à plataforma estar a pensar fazer edições ao passado. Esta publicação dos Capacetes Brancos foi reposta pouco tempo depois da primeira descoberta do seu desaparecimento, mas entretanto voltou a sumir.
Ou aquela vez em que o Facebook insistia que “houve um erro” quando tentávamos publicar sobre a invasão turca de Afrin que estava acontecendo no momento, mas permitia a publicação de tudo o resto. Experimentamos publicar as imagens da ofensiva turca com um texto diferente que não mencionava a Turquia, Erdogan, curdos, Afrin, etc e eis que o “erro” sumiu. 
Foi também por volta dessa época que muitas páginas ligadas à causa curda foram purgadas desta rede social. O momento midiático dos curdos como heróis e heroínas que combatem o ISIS havia passado, e era agora a hora do realpolitik e de dar espaço a um dos principais membros da NATO para poder levar a cabo uma limpezazinha étnica.
Enfim, não era esperado que uma plataforma da dimensão do Facebook conseguisse para sempre evitar jogar um papel mais ativo no campo da política, tendo em conta que o capital não pode permitir a poderes propagandísticos de tal dimensão andarem por aí à solta.
E o que significa tudo isto para nós?
A realidade é que é o Facebook não é abandonável, pelo menos por agora. Há infelizmente demasiada gente enfiada “lá dentro” para ser possível simplesmente virar as costas à plataforma. Mas é certamente verdade que a falsa promessa que um dia fez, de chegar a novas audiências, está praticamente morta e enterrada. Neste momento, investir no Facebook como plataforma é um erro. O Facebook, para quem não paga o imposto Zuckerberg, não passa de um sistema de lembretes para uma audiência que já nos conhece, e mesmo essa nos vê cada vez menos. Lembrete: publicamos um artigo novo. Lembrete: vai haver um evento assim ou assado. Lembrete: saiu o novo jornal Mapa.
E só vai ficar pior daqui pra frente. É portanto imperativo que todos os coletivos políticos que queiram ter voz a longo prazo criem as suas próprias plataformas online o mais brevemente possível, invistam em múltiplas redes sociais e pensem em novas formas de chegar a audiências no mundo real, enquanto continuamos a utilizar o Facebook de forma utilitária. Porque um dia desses alguém vai apertar a tecla que diz que somos todos fake news e será o fim da macacada no centro comercial do Mark.

quarta-feira, 6 de junho de 2018

MEU PRESENTE DE ANIVERSÁRIO VEIO ADIANTADO

Abrindo meu presente

Olá, pessoas queridas! Melhor eu contar logo, porque hoje passarei o dia todo no trabalho e virá alguém lembrar. Então: hoje é meu aniversário. Faço 51 anos.
Aquele slogan de "uma boa ideia" (agora sem acento) ainda existe? Bom, pra uma pessoa velhinha como eu, aniversário não vale muito. Minha mãe vai fazer uma torta de chocolate poderosa no domingo, e meio que será só essa a comemoração.
Na real, meu presente de aniversário veio adiantado este ano. Mês passado, 10 de maio, Marcelo Valle Silveira Mello foi preso pela Operação Bravata. Era tudo que eu queria, tirando a paz mundial e o fim da fome.
Marcelo me atormentou durante cinco anos ininterruptos, de maio de 2013, desde que ele saiu da prisão, a maio deste ano. E antes de 2013 também, mais especificamente em 2011 e no início de 2012. Olhando pra trás, vejo que 2012 foi um ano bastante calmo pra mim. Parecido com agora. Desde que Marcelo voltou à prisão, minha vida tem sido uma tranquilidade só (com exceção do trabalho de sempre). Até o número dos trolls aqui no blog caiu.
Claro que falta bastante gente da quadrilha dele ser presa, e claro que o chan que ele criou continua (às moscas, mas continua). E claro que mascus por lá seguem com algumas ameaças (tipo um dizendo que encomendou a morte do meu marido por R$ 20 mil, e que esse assassinato ocorrerá esta semana; outro criminoso, ou o mesmo, deixou fotos da fachada da minha casa e mapas do aeroporto de Fortaleza até o meu endereço, mostrando como é perto e como dá pra vir aqui, matar o maridão, minha mãe e eu, e retornar pra cidade de origem no mesmo dia). Mas é praticamente nada comparado ao que eu recebia antes.
E eu sabia que isso iria acontecer -- que assim que Marcelo fosse preso, a maior parte da sua quadrilha covarde sumiria, apavorada. 
Em alguns momentos durante esses anos todos eu pensava como sou forte, como aguentei tudo isso sem me abalar, sem fechar o blog, sem perder meu sono, minha sanidade, meu bom humor. 
Site de ódio no meu nome, em 2015.
Marcelo ainda colocou meu telefone e
endereço residenciais em cada post
Só teve uma vez nesses sete anos de perseguições que eu chorei por causa do blog. Foi em 2015, quando um site de ódio horroroso que Marcelo criou em meu nome viralizou. Não chorei por conta do site de ódio (confesso que até ri ao ler que "eu" havia realizado um aborto numa aluna numa sala de aula da UFC -- eu, professora de Letras!), mas porque, com o auxílio de reaças asquerosos mais famosos que Marcelo, como Olavão e Roger do Ultraje, que divulgaram o site mesmo sabendo que ele não era meu, ele viralizou. Tipo: você passa dez anos fazendo um blog feminista, o atualiza diariamente, se esforça para alcançar um número de leitorxs decentes, e um site hediondo e claramente fake é espalhado mais do que o seu blog de verdade. É ou não é de chorar?
Quando recebia emails de caras bem conhecidos na internet, assustados porque Marcelo e sua gangue atrelavam seu nome a sites de ódio, pedindo ajuda e conselhos, eu via como sou forte. Quando eu soube que um delegado da PF ficou muito abalado com as ameaças que sofreu da quadrilha, eu vi como sou forte. Porque eles não foram alvos nem de 1% do ódio dirigido a mim, e ainda assim estavam sem rumo.
Eu nunca entrei em pânico, nunca perdi o rumo. Sempre soube que o que misóginos querem é calar mulheres e fazer com que tenhamos medo deles. Se eles conseguissem isso, eles ganhavam. E eu não ia dar esse gostinho a eles.
Ainda entro no chan de vez em quando (mas pretendo encerrar esse capítulo nefasto da minha vida em breve) para ter notícias sobre os processos. Tem gente lá acompanhando cada habeas corpus negado, botando print de cada decisão do juiz. Foi assim que tive acesso a isso (clique para ampliar):
Ou seja, a defesa de Marcelo parece uma peça de humor. 
Como assim, ele "jamais divulgou conteúdos racistas ou incitou a violência na internet"?! Marcelo foi condenado por isso em 2009 e 2012! "Jamais" inclui esses anos também? "Nunca participou de nenhum delito"? Ele foi condenado no mínimo duas vezes por esses "delitos". "Sempre se pautou pela honestidade e pelo trabalho"? Melhor dispensar comentários sobre o cara de 32 anos que vivia da mesada da mãe.
"Inexiste motivo para a manutenção da prisão preventiva do paciente"? Ahã, inexiste. De fato, o único motivo existente pra que ele permaneça em prisão preventiva é que se ele sair voltará a fazer o mesmo que fazia antes (ameaçar pessoas de morte e estupro, criar sites de ódio com apologia a vários crimes, tentar incriminar seus desafetos, fazer terrorismo internacional etc). "O paciente não possui antecedentes criminais"? Mas ele não foi condenado duas vezes? "Sempre colaborou com as investigações"? Parece que a polícia pediu a Marcelo informações sobre outros membros da quadrilha, e ele passou senhas erradas, zombando dos agentes. Grande colaboração!
É tão surreal o negócio que os próprios mascus sanctos se perguntam se não é o próprio Marcelo escrevendo essas peças. Afinal, Marcelo estava cursando Direito numa faculdade particular em Curitiba (que ele mesmo chamava de "uniesquina", onde era odiado por todos seus colegas), e já se achava um grande advogado. Os dois processos que ele abriu contra mim no Juizado Especial em Curitiba eram risíveis, mas ele crente que estava arrasando.
Esses são alguns dos prints do início do ano passado, quando ele abriu o primeiro processo por danos morais. 
Em fevereiro 2017: "Quero que vc saiba que quem te fdeu fui eu"
Leiam lembrando que ele tinha certeza da impunidade, e que agora ele está preso.
Em fevereiro de 2017, quando a juíza aceitou que eu não teria que ir à Curitiba para me defender, Marcelo abandonou o processo -- não sem antes ordenar que seu animal de estimação, Goec (que alguns delegados acreditam ser Marcelo mesmo, ou mais de um membro da quadrilha compartilhando a mesma conta de email), fizesse doxxing e atacasse violentamente as duas advogadas que estavam me ajudando.
Ódio do Marcelo no domingo de Páscoa, 2018
Nas ações, redigidas pelo "nobre advogado" Marcelo, ele usava a lerdeza da justiça contra mim. Dizia que não era possível que eu tivesse registrado tantos boletins de ocorrência e a polícia não havia encontrado nada. Quando finalmente um inquérito foi aberto aqui em Fortaleza em abril do ano passado, reunindo vários dos BOs, Marcelo largou esse discurso. Agora a prova de que minhas acusações contra ele seriam infundadas era que eu estava respondendo a "vários processos".
Marcelo em Brasília, janeiro 2018: conversando com advogados de elite
Sua loucura e megalomania são tão enormes que, em alguns prints do chan, ele falava de "milhares" de processos que eu respondia. 
Marcelo em abril 2018: "Se nem o governo americano consegue me parar, quem [sic] dirá o brasileiro"
Dizia que sua missão na Terra era arruinar a minha vida e convencer toda e qualquer pessoa que já citei no blog (mesmo que eu não tenha citado pelo nome) a me processar. Que ele mesmo redigiria a ação de graça. E que, assim que se formasse e passasse na prova da OAB (ele tinha certeza que passaria -- eu gostaria de ter essa autoestima), ele iria abrir processos em alta escala, fazendo disso um negócio lucrativo (ele criaria sites de ódio, eu ou alguém o denunciaria, e ele processaria quem o denunciasse).
Estratégia de Marcelo em março 2018: "Processo meio mundo"
Até agora, respondi e respondo a três processos, pra ser mais exata.
O primeiro foi de Emerson, ex-comparsa de Marcelo, um psicopata também citado pela Operação Bravata (que só não foi preso agora porque não estava no Brasil), um neonazista que, assim como Marcelo, foi preso em 2012 pela Operação Intolerância e condenado a mais de 6 anos de prisão. Emerson, que fez mais de 50 vídeos me difamando, pediu 40 mil reais por danos morais. Não houve uma única audiência (houve várias desmarcadas) e Emerson aparentemente abandonou a ação. Mas meu processo contra ele segue, porque, já em 2015, entrei com reconvenção. Não vejo vantagem, sinceramente, em processar civilmente um mascu. Eles já são criminosos, não têm nada no nome deles, geralmente não estudam nem trabalham, quase sempre moram com os pais. Se eles forem condenados a pagar indenização, não pagarão e ficarão com o nome sujo. Pra quem já tem o nome sujo, qual a diferença?
Outro processo que respondo corre em segredo de justiça e não tem nada a ver com Marcelo, embora ele mentisse direto no chan de que foi por causa dele que o cara abriu o processo. Só não entendo como Marcelo ficou sabendo desse processo antes de mim.
Fevereiro 2017
E o terceiro processo era do próprio Marcelo, aberto em dezembro último, pela entrevista que dei à Ponte. Na ação, Marcelo me acusou de "encomendar" a matéria, como se eu tivesse algum tipo de poder sobre jornalistas, e como se eu alguma vez tivesse procurado um veículo, e não o contrário. 
Abril 2018
Ele também diz que por eu ser citada nas matérias como professora da UFC, eu estaria usando meu cargo para caluniá-lo. Ele sonhava com um processo administrativo contra mim. De vez em quando ele tinha uns surtos e abria dezenas de fios no seu chan falando dessa ação, e tentava deixar comentários no meu blog sobre o assunto.
Eu fiquei muito feliz que um dos processos da Polícia Federal contra Marcelo (parece que há vinte só no Paraná) me cita:  
"Deve-se destacar especialmente o contido no IPL nº 0115/2016/SR/DPF/CE (eproc nº 5065490-22.2016.4.04.7000), também apenso, em que resta demonstrada uma verdadeira caçada, uma perseguição impiedosa pontuada por um jogo pérfido e sádico promovido por MARCELO em face de Dolores Aronovich Aguero, professora da Universidade Federal do Ceará".
Pois é, foi essa perseguição que fez com que a deputada federal Luizianne Lins (PT-CE) fizesse um  projeto de lei atribuindo à PF a investigação de crimes misóginos na internet. Aprovada em tempo recorde (menos de dois anos) por unanimidade, a lei no. 13.642/2018, chamada de Lei Lola, foi sancionada por Temer em abril. Ainda precisamos conversar com a PF para ver como e onde denunciar e em que casos. A lei ainda está no comecinho, e uma coisa é aprovar a lei (uma vitória gigantesca), outra é aplicá-la, torná-la conhecida pela sociedade.
Para tanto, a deputada Luizianne está planejando oficinas, pra depois poder fazer uma cartilha com várias orientações. Terça que vem, dia 12 de junho, às 14:30, teremos uma audiência pública no Anexo II da Câmara dos Deputados para falar da aplicabilidade da lei. Se você é de Brasília e não tem nada melhor para fazer no Dia dos Namorados, venha! Eu estarei lá.
E, por favor, façam a sua parte: divulguem a Lei Lola. E divulguem pelo nome, não pelo número. Não é porque a lei leva um lindo nome sonoro como o meu ou é em minha homenagem que ela deve ser espalhada pelo nome, e sim porque, pra ela pegar (e é fundamental pras mulheres que a lei pegue!), ela tem que ser conhecida pelo nome. Imaginem se a gente tivesse falado da Lei no. 11.340/06 pelo número, em vez de Lei Maria da Penha -- será que teria se tornado um marco internacional na defesa dos direitos das mulheres?
Então, para meu outro presentão de aniversário este ano (não estou descartando chocolates, se vocês insistem), eu quero que a Lei Lola passe a ser aplicada e ajude muitas meninas e mulheres a se sentirem mais protegidas na internet. E que, quem sabe, homens e meninos passem a nos tratar com o respeito que todas nós merecemos. Obrigada!
É muita felicidade! Explode coração!