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terça-feira, 26 de dezembro de 2017

QUANDO A FICÇÃO SE TORNA FANTASIOSA DEMAIS

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segunda-feira, 4 de julho de 2016

GUEST POST: AS MULHERES NA SEXTA TEMPORADA DE GAME OF THRONES

Quarta publiquei um excelente guest post da Ana sobre a sexta temporada de Game of Thrones, e agora publico outro, este da Letícia.
Letícia Leal tem 34 anos, mora em Brasília e é fã de livros de fantasia. Ela fala com propriedade de uma série que, sem sombra de dúvida, foi alterada por causa das feministas e nossas críticas. E, surpresa: a série ficou muito melhor! Como várias leitoras apontaram, as personagens femininas poderosas (tipo, todas) salvaram GoT. Fala aí, Letícia!

Nunca escrevi sobre séries, mas quando a Lola propôs um texto sobre a 6ª temporada de Game of Thrones achei que poderia tentar discorrer sobre o assunto, tendo em vista que sou fã dos livros e da série e já tinha pensado sobre o desenvolvimento das suas personagens femininas ao final desta temporada do programa da HBO. (Atenção: o texto é repleto de spoilers!)
Aqui faz-se necessário separar dois universos distintos. Ao final do quinto livro nenhuma das personagens femininas está nas mesmas condições de liderança da série. Todas estão lutando para encontrar seu caminho de uma forma ou de outra. 
Pois bem, talvez porque já aconteceria nos livros de qualquer forma, talvez pela grande repercussão da violência contra mulher nas temporadas anteriores, a verdade é que os produtores da série decidiram empoderar suas protagonistas, e tornar protagonistas algumas personagens que no livro nem pareciam desejar esse papel.
Na sexta temporada do programa da HBO, Daenerys Targaryen se consagrou a mais forte da história e a futura detentora do Trono de Ferro, quando matou, sozinha, sem dragões ou exército, todos os lideres Dothraki.
A personagem desenvolveu uma confiança que ainda está para ser vista nos livros e provou ser a conquistadora que muitos duvidavam que ela conseguisse ser, além de domar de uma vez por todas seus dragões e fazer discursos insuflados, que na maioria das vezes são protagonizados por personagens masculinos em filmes ou livros de fantasia. 
Em Dorne as víboras resolveram matar o Regente e tomar o poder para si. Aqui preciso dizer que esse foi o núcleo que mais se distanciou dos livros, e isso irritou a maioria dos fãs. Duas das maiores comentaristas de Game of Thrones do Brasil, indignadas, disseram que as víboras não precisavam ser “feminazis”, isso mesmo, você leu certo, “feminazi”, adjetivo sendo usado por mulheres com milhares de seguidores no youtube.
As mulheres de Dorne que (bem diferente do livro) resolveram agir, porque estavam cansadas da pasmaceira de um líder muito tranquilo para o gosto delas, foram comparadas a nazistas, pra variar. 
Já eu adorei a escolha dos produtores. Foi diferente, mas para mim fez sentido. Ellaria Sand desejava vingar Oberyn, e Doran Martell estava no caminho. Mais uma vez, a trama no livro é bem mais elaborada, mas sempre é, e na série eu achei divertido.
Em Bravos Arya Stark fez um treinamento relâmpago (num processo muito mais acelerado que nos livros), se fez assassina e resolveu vingar sua família, tudo na mesma temporada, fazendo suas próprias tortas com as vísceras dos filhos de Walder Frey, um dos mandantes do “casamento vermelho”. 
Com certeza uma das melhores cenas da temporada, mas aqui a trama ser empoderadora não foi muita surpresa, já que a personagem sempre foi forte, mesmo assim, ter acelerado tanto sua história foi mais uma das boas escolhas dos produtores no sentido de tornar essa temporada uma temporada das mulheres.
No núcleo Greyjoy assistimos Theon jurar lealdade à irmã, Yara Greyjoy, numa casa extremamente machista. De certa forma foi também a redenção do personagem. Aqui reflito sobre como Theon ter se tornado um ser humano melhor, depois de toda sua tortura e degradação, fez dele uma figura avessa ao machismo das Ilhas de Ferro, ou pelo menos ao machismo que deixava sua irmã, mesmo apta, fora da linha sucessória. 
Essa força que ele deu a Yara foi um dos motivos que a fez fugir com os principais navios da ilha e buscar a aliança com Daenerys, e nos proporcionou um excelente diálogo e o começo da melhor aliança de todos os tempos.
Já em Porto Real, o final da temporada selou o protagonismo feminino ao colocar, sentada no Trono de Ferro, Cersei Lannister, uma mulher, que apesar de ter matado uma das melhores personagens femininas, Margaery Tyrell, e causado a morte de seu último filho, vingou sua caminhada da vergonha e se tornou rainha de Westeros, depois de queimar centenas de pessoas.
Em Winterfell, Sansa Stark, por sua vez, foi sem dúvida a melhor personagem da temporada. Seu crescimento foi espetacular, e provavelmente teve relação com ter sido a protagonista da cena de estupro da quinta temporada. Ter vingado a violência sofrida, com um sorriso no rosto, foi muito legal, pelo menos na minha humilde opinião.
Lembro que durante a quinta temporada da série, diversas fãs se revoltaram com as escolhas extremamente misóginas dos criadores do programa -- a principal delas, o estupro de Sansa Stark em sua noite de núpcias. Como Sansa nunca chegou a Winterfell nos livros, terem criado toda uma história só para que ocorresse uma cena de estupro não parecia razoável para essas fãs.  
Concordo com as críticas, e apesar da maioria dos fãs e George R. R. Martin, autor dos livros, terem defendido os produtores, as reclamações parecem ter sido a razão das ótimas escolhas dessa temporada.
Aqui teço algumas considerações finais:
O prazer das protagonistas supracitadas estava na busca e conquista de poder e/ou vingança, e não em romances ou casamentos. Todas essas mulheres eram personagens inteiras cujos desejos não estavam de forma alguma ligados a ter maridos e filhos. A própria Sansa não se interessou na proposta tentadora do Mindinho, o que demonstra que nem mesmo casar com alguém detentor de poder a seduz. 
A vilã e a heroína nesse momento da história são mulheres. No livro o autor busca o tempo todo contextualizar a loucura da Cersei. Achei bastante sensato que os produtores do programa deixaram essa parte ambígua. A Cersei da série não é de forma alguma uma pessoa evidentemente louca, o que a deixa, a meu ver, mais real e perigosa. A mulher que amamos odiar.
Daenerys em seu diálogo com Daario Naharis, no décimo episódio da sexta temporada, assim como em seu diálogo com Yara Greyjoy, é categoricamente feminista. Ela deixa bem claro que não recebe ordens de ninguém e que acredita que um vasto número de grandes MULHERES poderiam sucedê-la, sempre deixando clara a expressão “women” e não “men”, quando trata de posições de poder.
Com a aliança feminina entre Daenerys, Yara, Ellaria e, a melhor de todas, Olenna Tyrell, que perdeu quase toda sua família na explosão causada por Cersei, não há chance para a vilã. 
É altamente provável que a guerra que está por vir e, portanto, a série, será protagonizada por mulheres, fato de forma alguma comum nesse universo de fantasia. 
E não nos esqueçamos da abrangência desse programa, com fãs no mundo todo, que deverão assistir um confronto entre mulheres extremamente fortes na sétima temporada.
Nos sites que tratam do assunto li várias pessoas falando que foi a temporada das mulheres loucas. 
Claro, afinal elas conseguiram seu protagonismo com muitas mortes e demonstraram prazer em suas conquistas, mas quando são homens liderando assassinatos e genocídios, eles não são considerados dementes, são líderes que fazem o necessário para conseguir ou manter o poder, exemplificando, mais uma vez, como o olhar de cada um molda a mensagem que chega ao interlocutor.
Eu assisti a tudo considerando completamente normal o que essas mulheres precisaram fazer para conquistar seu protagonismo num mundo sangrento e machista. Não vi loucura em momento algum, e talvez até houvesse. 
Enquanto assistia, o feminismo de diversos diálogos não foi percebido por mim, que noto sempre machismo. Não sei explicar bem o porquê, talvez porque feminismo é para mim o normal e só a misoginia me salta aos olhos. 
Só agora, relembrando os diversos momentos citados acima, percebo a diferença grandiosa entre essa temporada e as anteriores. 
Importante citar ainda a cena de nu frontal masculino e a considerável diminuição de cenas com nu feminino. 
Essa combinação de escolhas ajudou a fazer dessa temporada a melhor de Game of Thrones até o momento.

quarta-feira, 29 de junho de 2016

COMO A SEXTA TEMPORADA DE GAME OF THRONES TACOU FOGO NO PATRIARCADO

Eu sabia que tinha que publicar alguma coisa sobre o final da sexta temporada da série Game of Thrones
Mas também sabia que não estou apta para tal tarefa. Gosto da série, embora não guarde o nome de nenhum personagem. Como achei que os dois últimos episódios foram de arrepiar (inclusive feministicamente falando), pedi pras minhas queridas leitoras escreverem sobre a série.
Duas me mandaram excelentes textos. Um eu vou publicar hoje, o outro daqui a uns dias. Tem spoilers, lógico. 
Este é de autoria de Ana Carolina Nicolau, criadora e crítica do Take 148. Super obrigada, Ana!

Um ano se passou desde que Sansa Stark foi estuprada pelo marido na quinta temporada de Game of Thrones. O sádico Ramsay Bolton a violenta em sua noite de núpcias, enquanto Theon, psicologicamente destruído, é forçado a assistir o ato. A cena tinha quase tudo de errado, a começar pelo fato de que o personagem mais importante presente no quarto era Theon. 
Sansa não era somente roubada de seu corpo, de sua identidade e sua mente; ela estava era roubada de seu protagonismo, se tornando uma coadjuvante em sua própria narrativa. Aquele momento era todo sobre Theon: o tipo de maldade a que Ramsay submetia Theon e como era sofrido para Theon ver alguém, que considerava de sua família, ser machucada. Sansa era só o instrumento de tortura da vez. 
O estupro de Sansa deixou transparente algo dito ao longo de seus cinco anos: Game of Thrones tinha um problema com mulheres. A violência era sempre um espetáculo, a prostituição vendida como diversão e os inúmeros peitos eram recebidos com empolgação pela audiência majoritariamente masculina da HBO. 
O retrato da mulher como sexo frágil sempre foi justificado pelo argumento de que “na época era assim” -- o que não faz nenhum sentido quando estamos falando de uma série ficcional passada em um universo ficcional com dragões, gente voltando da morte, e viagens no tempo e, mais do que tudo, um universo com poder de reinventar, recontar e recriar todos os aspectos das sociedades que o inspiravam.
Mas algo aconteceu na estreia da sexta temporada que marcava o início da mudança de tom da série. Talvez porque os produtores David Benioff e D. B. Weiss finalmente ouviram as críticas, talvez porque era a primeira vez que a série navegava sem âncora da obra original de George R. R. Martin, talvez porque o ano seria cheio de mimos aos fãs, e isso era o que os fãs queriam.  
Nesse episódio, intitulado "The Red Woman", Ellaria Sand enfiou uma adaga no coração de Doran Martell, tomando à força o trono de Dorne. Isso sozinho já significava que as mulheres estavam prontas para atacar e retomar o protagonismo que foi negado a elas nas temporadas anteriores. Mas as ações de Ellaria ainda foram acompanhadas por Brienne destroçando um grupo de capangas para salvar Sansa, Daenerys (fluente em dothraki) recusando-se a casar servir de objeto sexual para Khal Moro e Melisandre -- uma personagem sempre fetichizada -- revelando-se uma senhora com centenas de anos, com um corpo tão velho quanto nu, curvado, enrugado, uma imagem do envelhecimento que a série nunca havia se arriscado antes.
Desse ponto em diante, todas as principais personagens femininas tomaram alguma decisão imprescindível, sem a qual a história não poderia seguir. 
Depois de ter passado a temporada inteira recolhida, Cersei libera sua enorme sede de vingança -- calmamente arquitetada -- e explode metade de Porto Real, incluindo seu agressor, o Alto Pardal. Tudo para sentar-se no Trono de Ferro, não por ligações de sangue, mas pelo direito adquirido à força. 
As escolhas de Cersei dificilmente seriam consideradas exemplos de caráter, mas são exemplos de coragem e fazem dela um dos personagens mais eloquentes da série. Mesmo na competição entre os vilões, dos quais se destacam seu próprio filho Joffrey e Ramsay Bolton, Cersei é a mais bem construída. Depois de séculos de história de Westeros dominados por machos, é gritante que a única pessoa que teve coragem de colocar o mundo abaixo fosse uma mulher.
Mesmo que Daenerys tenha mantido um posto de liderança consistentemente durante a série, ela também foi estuprada por seu marido no primeiro dia de seu casamento e julgada várias vezes como uma governante incompetente pelo simples fato de ser mulher. 
Embora algumas dessas vezes os juízes estivessem certos sobre a competência de Daenerys, principalmente porque sua jornada é uma pela conquista da experiência antes de partir para Westeros, quando a Mãe dos Dragões foi sequestrada novamente pelos Dothraki, ela não era mais a inocente khaleesi da primeira temporada. Não bastava mais ser simplesmente resgatada -- muito menos por dois caras --, era necessário usar seu apetite por fogo para criar um dos momentos mais emblemáticos da série, quando Daenerys transforma os chefes Dothrakis em cinzas e faz o povo jurar lealdade a ela.
E então há Sansa, que talvez tenha sido o ponto de partida de tudo isso, recobrando parte de sua autoconfiança e fazendo de seu agressor comida para cachorro. 
Com o enredo de Sansa durante esse ano, Game of Thrones finalmente abordou a violência de forma pertinente, com alguns dos diálogos mais poderosos do roteiro. Quando Ramsay estava prestes a ser comido pelos cachorros, alguns episódios depois de Sansa explicar a Mindinho como ela “ainda podia sentir Ramsay em cada parte de seu corpo”, ele ainda é selvagem o suficiente para anunciar o trágico destino de Sansa: “Você não pode me matar, eu sou parte de você agora”. 
Mas até as palavras perversas de Ramsay se tornam mais fáceis de engolir quando percebemos que, mesmo eternamente traumatizada e permanentemente marcada por essa experiência, Sansa é forte o suficiente para reconstruir sua vida e se tornar uma herdeira respeitada do sobrenome Stark, e uma importante peça no tabuleiro político de Winterfell. 
Jon Snow foi coroado Rei do Norte, mas só porque Sansa está sentada ao seu lado, depois de ter salvado sua vida na guerra contra Ramsay por causa de suas próprias alianças. E Jon não é só uma criação de Sansa, mas ele não seria mais do que um corpo se não fosse Melisandre para trazê-lo de volta à vida, e não seria mais que um bastardo ignorado se não fosse Lyanna Mormont, a comandante de 10 anos que convence uma sala cheia de homens a confiar o reino a ele. 
E a trajetória das mulheres nessa temporada não é só sobre a retomada do poder político, mas também o poder de ser dona de sua própria vontade. Podemos reclamar de como a história de Arya foi desenvolvida em círculos, mas os problemas de narrativa não mudam o fato de que ela é uma adolescente completamente confiante, orgulhosa de sua identidade, que saiu em busca de vingança por sua família -- um papel comumente reservado aos homens -- sabendo manejar uma espada como poucos nos sete reinos. 
E Yara Greyjoy, que nunca foi uma personagem amável, surpreendeu a todos ao reivindicar o posto de Rainha das Ilhas de Ferro, ao se aliar com Daenerys para tal, e ainda se assumir lésbica, em pleno controle de seus desejos sexuais, sem qualquer receio de que alguém pudesse questioná-la (é melhor não cruzar seu caminho). 
Até a pobre Margaery Tyrell, antes de ser explodida por Cersei, dá um jeito de manipular o Alto Pardal para que ela e seu irmão Loras possam escapar de suas penas. Margaery ainda se mostra muito mais esperta que ele ao perceber, antes de todo mundo, que Cersei planeja não deixar o julgamento acontecer, mesmo que isso não fosse o suficiente para salvar sua vida. E honrando o nome da família, a avó de Margaery, Olenna, agora a única sobrevivente do clã, declara apoio a Daenerys para colocar os Tyrell de volta no mapa do poder.
A sexta temporada de Game of Thrones criou espaço para as mulheres brilharem, e elas fizeram isso sem pedir permissão ou desculpas, o que não significa que elas sejam heroínas perfeitas. 
São seres humanos tridimensionais, complicados, cheios de falhas, que erram e tomam decisões ruins. Mas, mais importante, finalmente elas parecem reais. E pelos índices recordistas de audiência desse ano, ninguém pode dizer que histórias protagonizadas por mulheres não dão dinheiro, não atraem público ou não... sei lá... se tornam uma das maiores séries da história da televisão. Afinal, estamos dizendo isso faz só um século, quem poderia imaginar?