Este é mais um caso de feminicídio... que não está sendo tratado pela polícia e, até pouco, pela mídia, como feminicídio. Precisamos fazer barulho para que este caso hediondo seja caracterizado pelo nome: feminicídio.
Mayara Amaral, de 27 anos, era uma de nós. Feminista, professora, pesquisadora e musicista, ela desapareceu na última segunda. No dia seguinte, seu corpo foi encontrado carbonizado numa estrada em Campo Grande, Mato Grosso do Sul. Antes, ela foi morta a marteladas num motel por dois homens, um deles também músico, com quem ela estava envolvida. Antes de atearem fogo ao corpo dela, eles chegaram a enterrá-la num quintal, mas mudaram de ideia.
Quer dizer: Mayara foi estuprada, morta a marteladas, enterrada e queimada por três homens, um dos quais um "caso", e não foi feminicídio? A polícia realmente vai acreditar que o trio fez tudo isso para roubar um carro velho que custava mil reais?
O delegado Tiago Macedo, responsável pela investigação, parece crer na versão dos assassinos -- de que Mayara quis estar no motel com eles (pra quê o martelo, então?), que eles a roubaram, e que só aí alguma coisa deu errado, e eles a mataram. A declaração do delegado é perturbadora: ele não apenas descarta o feminicídio, mas o próprio homicídio de uma mulher que foi assassinada. Eis o que ele disse ao Campo Grande News:
"Ao que tudo indica até o momento, não houve homicídio. O que aconteceu ali é que o autor, verificando a possibilidade de cometer um roubo, atraiu a vítima e teve como resultado deste crime, que é um crime contra o patrimônio, a morte da vítima. Nós verificamos que existe uma tendência das pessoas afirmarem que porque uma mulher morreu é feminicídio, mas isso não corresponde ao ordenamento jurídico".
Temos a polícia e a mídia para defender os assassinos e condenar Mayara. E temos o senso comum, que julga a musicista por ela ter ido a um motel com um dos homens. Como se isso fosse algum tipo de justificativa!
Reproduzo o importante relato de Pauliane Amaral, irmã de Mayara. Pauliane publicou o texto na sua página no FB anteontem. Como a polícia ainda não ouviu a família, o relato de Pauliane é fundamental para que o assassinado da sua irmã (nossa irmã!) seja visto como feminicídio.
Afinal, não foi uma mulher que foi assassinada aleatoriamente por dois estranhos, e depois queimada por mais um. Foi uma mulher que foi estuprada por dois homens, um dos quais era conhecido. Mayara foi morta por ser mulher.
Não ficará assim. Haverá protestos. Ouça Mayara, e leia o texto da Rede Sonora - Música e Feminismos sobre o caso, e o depoimento de Pauliane.
QUEM É MAYARA AMARAL?
Minha irmã caçula, mulher, violonista com mestrado pela UFG e uma dissertação incrível sobre mulheres compositoras para violão. Desde quarta Mayara Amaral também é vítima de uma violência que parece cada vez mais banal na nossa sociedade. Crime de ódio contra as mulheres, contra um gênero considerado frágil e, para alguns, inferior e digno de ter sua vida tirada apenas por ser jovem, talentosa, bonita… por ser mulher.
Mais uma vez a sociedade falhou e uma mulher, uma jovem professora de música de 27 anos, foi outra vítima da barbárie de homens que não podem nem serem considerados humanos. Foram três, três homens contra uma jovem mulher.
Um deles, Luis Alberto Bastos Barbosa, 29 anos, por quem ela estava cegamente apaixonada, atraiu-a para um motel, levando consigo um martelo na mochila. Lá, ele encontrou um de seus comparsas.
Em uma das matérias que noticiaram o crime, os suspeitos dizem que mantiveram relações sexuais com minha irmã com o consentimento dela. Para que o martelo então, se era consentido?
Estranhamente, em nenhuma das matérias aparece a palavra ESTUPRO, apesar de todas as evidências.
Às vezes tenho a sensação de que setores da imprensa estão tomando como verdade a palavra desses assassinos. O tratamento que dão ao caso me indigna profundamente.
Quando escrevem que Mayara era a “mulher achada carbonizada” que foi ensaiar com a banda, ela está em uma foto como uma menina. Quando a suspeita envolvia “namorado” hiper-sexualizam a imagem dela. Quando a notícia fala que a cena do crime é um motel, minha irmã aparece vulnerável, molhada na praia.
Quando falam da inspiração de Mayara, associam-na com a história do pai e avô e a foto muda: é ela com o violão, porém com sua face cortada. Esse tipo de tratamento não representa quem minha irmã foi. Isso é desumanização. Por favor, tenham cuidado, colegas jornalistas.
Para nossa tristeza, grande parte das notícias dão bastante voz aos assassinos e fazem coro à falsa ideia de que os acusados só queriam roubar um carro. Um carro que foi vendido por mil reais. Mil reais. Um Gol quadrado, ano 1992. Se eles quisessem só roubá-la, não precisariam atraí-la para um motel.
Um dos assassinos, Luís, de família rica, vai tentar se livrar de uma condenação alegando privação momentânea dos sentidos por conta de uso de drogas. Não bastando matar a minha irmã, da forma que fizeram, agora querem destruir sua reputação. Eis a versão do monstro: minha irmã consentiu em ser violada por eles, elas decidiram roubá-la, ela reagiu fisicamente e eles, sob o efeito de drogas, golpearam-na com o martelo – e ela morreu por acidente.
Pela memória da minha irmã, e pela de outras mulheres que passaram por esta mesma violência, não propaguem essa mentira! Confio que a Polícia e o Ministério Público não aceitarão esta narrativa covarde, e peço a solidariedade e vigilância de todos para que a justiça seja feita.
Na delegacia disseram à minha mãe que uma outra jovem já havia registrado uma denúncia contra Luís por tentativa de abuso sexual… Investiguem! Se essa informação proceder, este é mais um crime pelo qual ele deve responder. E uma prova de como a justiça tem tratado as queixas feitas por nós, mulheres. Se naquela ocasião ele tivesse sido punido exemplarmente, talvez minha irmã não tivesse sofrido este destino.
Foi tudo premeditado: ela foi estuprada por dois desumanos.
O terceiro comparsa – não menos monstruoso – ajudou a levar o corpo da minha irmã para um lugar ermo, e lá atearam fogo nela, como se a brutalidade das marteladas no crânio já não fosse crueldade demais. Minha irmã foi encontrada com o corpo ainda em chamas, apenas de calcinha e uma de suas mãos foi a única parte de seu corpo que sobrou para que meu pai fizesse o reconhecimento no IML. “Parece que ela fazia uma nota com os dedos”, disse meu pai pelo telefone.
A confirmação veio logo depois, com o resultado do exame de DNA. Era ela mesmo e eu gritei um choro sufocado.
Eu vou dedicar o meu luto à memória da minha irmã, e a não permitir que ela seja vilipendiada pela versão imunda de seus algozes. Como tantas outras vítimas de violência, a Mayara merece JUSTIÇA – não que isso vá diminuir nossa dor, mas porque só isso pode ajudar a curar uma sociedade doente, e a proteger outras mulheres do mesmo destino.
UPDATE em 1/8: Polícia de Campo Grande diz que em nenhum momento descartou a hipótese do feminicídio no caso de Mayara, mas que as evidências apontam para latrocínio (roubo seguido de morte). Família de Mayara diz em entrevista que não condena a polícia e que concorda com a tipificação do crime como latrocínio, não feminicídio. Pauliane editou seu texto e retirou dele a palavra feminicídio.
UPDATE em 5/8: Em entrevista, Luís Alberto Bastos Barbosa diz que agiu sozinho, e que só encontrarão as digitais dele no martelo. A delegada Gabriela Stainer confirma: Ronaldo não aparece nas imagens das câmeras do motel. Além disso, Luís conta que estava só quando ateou fogo no corpo de Mayara, e que Ronaldo e Anderson só foram chamados para se livrar do carro (pelo qual pagaram mil reais). Pela entrevista, pode-se ver que o roubo nunca foi sua motivação. Ele diz: "Fui movido pelo ódio porque tínhamos discutido e ela debochou da minha namorada. Chamei-a de vagabunda e ela me bateu. Tive um ataque de fúria, tinha bebido e cheirado". Ou seja, femicídio. Mas no Brasil a pena para quem mata para roubar um carro é maior que a de quem acaba brutalmente com a vida de uma mulher.
Ontem, em SP, aconteceu o ato de protesto Nós por Nós: ato contra o feminicídio e em memória de Mayara. Há também manifestações marcadas para Goiânia, Natal, Curitiba e Rio de Janeiro.