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sexta-feira, 31 de maio de 2013

GUEST POST: MINHA CERTIDÃO DE NASCIMENTO COMO SER HUMANO


Em Porto Alegre, dezenas de pessoas acamparam durante um mês e meio para impedir que pelo menos 115 árvores (que o jornal Zero Hora chama de vegetais) fossem derrubadas para a duplicação de uma via, uma das obras da Copa 2014. Na madrugada de quarta, duzentos policiais retiraram, com violência, esses manifestantes. 
Um deles, o psicólogo Samuel Eggers, me escreveu: "tu e teu blog são importantes na minha caminhada. Tenho a sorte de ser amigo e conviver com muitxs amigxs feministas, principalmente mulheres lindas por serem de luta, que volta e meia postam teus textos no facebook e me deram a oportunidade de aprender com as tuas lutas. 
"Pra mim, esse texto em anexo é tão teu quanto meu. Salvo eventuais machismos meus, é um texto tão ecológico e libertário quanto feminista, porque estamos todxs lutando em nome da mesma causa. E é em nome dessa causa em comum que te peço que o publique".
Este é um guest post que foge um pouco do estilo do blog, mas é importante porque narra o despertar de um ativista. Quero que todxs sejamos, cada qual a seu modo, ativistas. [Que horror, que horror. Veja o update no final].
Considerando a quantidade de omissões e mentiras descaradas que estão sendo divulgadas na grande mídia de Porto Alegre, decidi escrever meu relato a respeito dos acontecimentos da madrugada de quarta no gramado ao lado do prédio da Câmara de Vereadores, de onde o acampamento Ocupa Árvores e seus habitantes foram desalojados a pauladas pela Brigada Militar. 
Penso que sou capacitado pra falar sobre este assunto, porque eu fui um dos algemados. E por isso, descreverei os fatos da maneira mais direta, e talvez crua, que eu consigo imaginar.
Primeiro, eu não sei porque serei indiciado por “desacato ou desobediência à ordem policial”, e não sei porque o Zero Hora, maior jornal do Rio Grande do Sul, dá a entender na reportagem em seu site que apenas os manifestantes que resistiram à retirada das barracas foram algemados. Nosso crime, se realmente existe algum, foi termos montado nossas barracas em uma área de grande interesse para a especulação imobiliária e para as grandes empreiteiras, e nossa resistência talvez tenha sido nossa cara de sono e espanto.

Fomos acordados à pauladas e gritos para que nos deitássemos no chão e calássemos a boca, enquanto os policiais presentes se certificavam de que todos nós estávamos algemados. Também não entendo que tipo de resistência nós, os vinte e sete prisioneiros, sem treinamento ou equipamento militar, poderíamos oferecer contra todo o contingente policial que foi deslocado para nos conter. E não precisa acreditar em mim, basta olhar na notícia da Zero Hora as fotos e os batalhões envolvidos – 200 soldados da Brigada Militar, do Batalhão de Operações Especiais (BOE) e do Grupo de Ações Táticas Especiais (GATE), sem contar a polícia montada, que também estava lá.

Devemos ser um grupo bastante perigoso para justificar não apenas todo esse exército contra nós, como também o profundo desprezo e humilhação com que fomos tratados pelos soldados da operação. Fomos arrancados de nossas barracas, jogados no chão, algemados e, quando abríamos a boca para pedir qualquer coisa, não importasse com quanta cordialidade o fizéssemos, ou nos mandavam calar a matraca, ou sofríamos algum tipo de agressão. Talvez por ser homem, branco e aparentemente de classe média, eu tive tratamento VIP, e só tomei uns puxões pelas algemas, uns empurrões e muita cara feia, nada que valesse um exame de corpo-delito. Porém, aposto que não posso dizer o mesmo dos companheiros que são negros, moram na rua ou "parecem" ser pobres. E mesmo assim, apesar de terem pegado leve comigo, nunca me senti tão humilhado em toda minha vida.
Depois de termos sido empilhados em um camburão improvisado e levados para a 9ª Delegacia de Polícia, ao lado do Mercado Público, fomos submetidos a um chá de cadeira de algumas horas -– só que algemados, em pé e de cara contra a parede. Quem tentasse telefonar para algum familiar para avisar que estava preso tinha seu celular confiscado, quem tentasse registrar a cena com algum aparelho fotográfico era intimidado, e quem quer que falasse um ai tomava um empurrão. A mensagem que os soldados nos passavam era clara: obedeçam, ou vão apanhar. Às vezes, essa mensagem vinha de maneira clara, e em outras, sob um verniz de educação: “tô te pedindo numa boa”, “por gentileza”.
Por algum motivo que desconheço, fui premiado com uma revista completa por dois brigadianos homens, que me levaram, sozinho, para um banheiro ali no canto. Eu, muito ingênuo, perguntei se eu iria apanhar. Um dos policiais riu da minha cara, dizendo “olha as idéias que vocês tem, agora tira a calça.” Antes de me mandar baixar a cueca, ele me perguntou se eu tinha alguma droga comigo. E, enquanto eu passava por esse pente fino, tentava estabelecer um diálogo, saber por que diabos estava ali, qual era meu crime. Contudo, a conversa acabava rápido, por que tudo o que tinham para me dizer era “por que tu foi desobedecer as ordens por causa de umas árvores?” Voltei, então, para a sala de espera, novamente algemado, até que algum oficial tivesse a boa vontade de mandar retirá-las.
Após termos todos sidos fichados, passamos por uma última humilhação: recolher nossas coisas, jogadas de qualquer jeito e quebradas na caçamba de um caminhão. Mais uma vez, eu não tive problemas, pois tinha levado apenas uma mochila com alguns livros, e o maior risco que eu corria era de ir trabalhar sem um pé da meia. Para outros camaradas meus, que trabalham com artesanato, não são classe média ou que moram na rua, a perda foi muito maior – perderam suas poucas e preciosas roupas, seu sustento, seu lar. 
Fico imaginando que muita gente que vai ler esse meu texto vai pular direto para os comentários pra me chamar de vagabundo, dizer que eu tinha mais é que apanhar por não trabalhar e obedecer a lei, que mendigo é tudo drogado ou lixo humano e que é melhor eu calar o bico e tocar minha vida, parar de me meter onde não sou chamado. 
Pra essas pessoas, que provavelmente acham a frase “direitos humanos para humanos direitos” o máximo, posso apenas dizer: ainda bem que nada disso aconteceu com vocês. Ainda bem que quando um policial chega perto, vocês não sintam o sangue gelar, e ainda bem que vocês não sabem o que é perder tudo que você chama de vida assim, de uma hora para a outra, por puro capricho de um governante qualquer. 
Esta madrugada, acampamos no largo do Gasômetro para impedir que árvores fossem cortadas, mas nossa luta não é só isso. Eu não milito em causa própria, por glórias, atenção, dinheiro ou cargos. Eu luto porque quero viver em um mundo onde ninguém –- nem vocês, nem os moradores de rua, nem os soldados da Brigada –- precise passar por privação. Esta luta também é sua e estamos do mesmo lado. Só que você ainda não percebeu, porque não entende que a liberdade de um é a liberdade de todos.
Por fim, este dia nasceu triste e opressivo, mas também é um dia de alegria, pois sinto que hoje tive meu batismo de fogo. Quando fui algemado, eu era apenas um menino idealista, mas quem saiu da delegacia foi um ser humano. Entrei para o grupo de pessoas que foram presas porque ousaram desafiar a tirania e combater a injustiça. Finalmente, sinto-me um igual, não apenas diante de homens e mulheres como Gandhi, Emma Goldman e Thoreau, mas também daqueles camaradas que há muito tempo gritavam para que eu me somasse à luta. 
Se queriam me assustar com ameaças, e fazer com que eu me recolhesse para dentro do meu mundo, fracassaram, pois hoje descobri que não quero viver numa “democracia” em que eu tenha que me calar e seguir as ordens dos meus superiores. Jurei que farei tudo que estiver ao meu alcance para transformar o mundo onde eu quero que meus filhos cresçam. Guardarei um lugar aqui pra ti, no dia em que perceberes o mesmo, e seguirei lutando enquanto você não acorda.

Enquanto eu, Lola, estava editando este post, chegou um email de uma leitora: 
"Aqui estão acontecendo diversas manifestações em função do corte de árvores feito pela prefeitura para duplicar avenidas em nome da Copa e pela forma ilegal e covarde que nós fomos retirados do nosso acampamento Ocupa Árvores e presos pela Brigada Militar. No protesto, ouvi o seguinte diálogo entre duas mulheres que assistiam à marcha pela cidade: 'Mas contra o que eles estão protestando?'
'Dizem que é por causa do corte das árvores, mas eles parecem transtornados de ódio. É grito de ódio contra a polícia, o capital, o governo, a mídia, até contra quem tá parado olhando. Às vezes parece que é só raiva reprimida'.
Percebi que quando eu protesto eu realmente sou movida por ódios -- exatamente todos os ódios que ela citou, e ainda alguns outros. E admito que já cometi atos 'impensados' em momentos de grande raiva. Confesso também que estou, cada vez mais, de saco cheio desse mimimi de manifestação pacífica. 
Essa situação das árvores foi a gota d'água: fomos 100% pacíficxs nos protestos que imploravam pra Prefeitura desistir de cortar as árvores, e cortaram. Mas no início do ano, quando protestamos para baixar o preço da passagem de ônibus, a prefeitura baixou depois que os protestos deixaram de ser pacíficos!
Enfim, pacífico é passivo? Esse ódio é certo? Aliás, o que move um protesto se não for o ódio? Por que algumas pessoas ativistas são tão resistentes quanto à violência? Essa resistência não caracteriza medo? O medo não deveria ser algo contrário ao protesto?"
UPDATE em 13/9/13: Samuel Eggers, o rapaz que escreveu este guest post, foi assassinado ontem, 12/9, enquanto estava num congresso em Caxias do Sul. Segundo a notícia, vários tiros foram disparados de um GM Monza de cor escura. Segundo relato de testemunhas, os criminosos disseram que ele tinha que morrer. Foi uma execução. Estou paralisada. Que os criminosos sejam encontrados e condenados rapidamente. Muita força à família. É terrível saber que mataram uma pessoa que ajudava a fazer o mundo melhor

quarta-feira, 25 de julho de 2012

GUEST POST: SERÁ QUE É TÃO DIFÍCIL?

Infelizmente, eu não falo muito de ecologia aqui no blog, embora considere o assunto importantíssimo. Separar o lixo para coleta e reciclagem é uma forma bem pouco trabalhosa de ajudar o meio ambiente. A Shirley ensina como podemos fazer a nossa parte.

Esse guest post é um pedido de ajuda.
As pessoas falam muito em sustentabilidade, mas fazem pouco. Isso não é acusação, é fato. Eu mesma, falo muito e faço pouco. Acho que isso acontece porque falta informação sobre o papel de cada um nas questões da sustentabilidade.
Um exemplo claro é a destinação do lixo. Todo mundo fica chateado ao ler uma matéria sobre famílias que vivem nos lixões ou quando se depara com uma criança catando o lixo deixado na frente de prédios suntuosos, né? Mas, alguém já se perguntou o que pode fazer para evitar que essas cenas aconteçam?
Uma amiga minha fez isso e começou um movimento aqui na Região da Grande Vitória para mobilizar recicladores, poder público e a população para a questão do lixo.
Primeiro ela se uniu a outras pessoas e começou a pesquisar. Descobriu como os catadores trabalhavam e do que eles precisavam para desenvolver melhor o trabalho maravilhoso que já vinham fazendo. Sim, maravilhoso, porque ao dar destinação aos materiais recicláveis, os catadores ajudam a reduzir o volume de lixo direcionado aos aterros sanitários e, ainda, geram valor para suas comunidades.
A principal demanda dos catadores era bem simples: eles queriam que a população separasse o lixo seco (reciclável) do lixo úmido (não reciclável). A partir dessa constatação, esse grupo de pessoas desenvolveu um projeto para atrair a participação das prefeituras e dos moradores das cidades da Grande Vitória.
No site Separe seu lixo eles explicam a metodologia de separação em apenas dois grupos: lixo seco e lixo úmido. Trata-se de uma simplificação das primeiras propostas de separação de lixo que previam a segregação em cinco grupos (plásticos, vidros, papeis, metais e orgânicos), o que dificultava a adesão das pessoas e também a coleta seletiva.
Bom, lá no site tem bastante informação sobre isso. A estratégia já deu frutos, mas ainda são poucos.
De um lado, o poder público não dá prioridade ao assunto, como deveria.
Nem mesmo a aprovação da Lei 12.305, que formaliza a Política Nacional de Resíduos Sólidos, gerou mudança significativa.
Essa lei estabelece, entre outros itens, o prazo até agosto de 2012 para que as cidades brasileiras criem um Plano Municipal de Gestão Integrada de Resíduos Sólidos como condição para terem acesso a recursos da União. Ou seja, os prefeitos atuais e aqueles nos quais votaremos em outubro precisam agir e rápido. Ou correm o risco de ficar sem verbas federais.
Uma das ações principais é implantar coleta seletiva e promover a reciclagem dos materiais. Mas, estou convencida disso, eles só vão se mexer se nós, cidadãos, estivermos conscientes e tivermos força para cobrar.
Daí vem o outro lado: as pessoas têm preguiça até de falar em separação de lixo. A maioria alega que “não adianta separar, se depois tudo será misturado pelos lixeiros”. Bom, mais ou menos.
Na maioria das cidades brasileiras existem catadores de recicláveis que podem passar na sua casa e recolher o lixo seco. Nas cidades médias e grandes existe ao menos uma cooperativa de recicladores que pode recolher o lixo de um condomínio ou de uma rua se os moradores prometerem separar. É só ter um pouco de vontade que o seu lixo reciclável vai parar no lugar certo.
Mas o que desmonta esse raciocínio do “não adianta, blábláblá” é a constatação de que nas prefeituras que implantaram a coleta seletiva -– como Vitória (vejam aqui neste site), tem havido, primeiro, dificuldade de engajar a população na separação do lixo, e, segundo, quem se engaja não sabe separar direito e acaba contaminando os materiais.
Em média, 30% do material que chega aos recicladores da Grande Vitória vem contaminado com lixo úmido e não pode ser reciclado.
Ou seja, como disse lá no começo do texto, falta informação!
Então, eu decidi contribuir não só separando o meu lixo (o que faço há cerca de cinco anos), mas também ajudando esse grupo a alavancar o assunto na imprensa e entre os cidadãos. Minha tarefa é escrever sobre a separação do lixo para que eles possam publicar no site, no facebook, e no twitter.
Finalmente, o meu pedido, direcionado aos comentaristas do blog da Lola que moram ou moraram em países que já fazem, rotineiramente, a separação do lixo. Gostaria que vocês contassem para mim como se adaptaram, quais as dificuldades que sentiram, o que aprenderam, etc. Com esse material, eu vou redigir alguns textos contando essas histórias. A ideia é ajudar os brasileiros a enxergarem que não é tão difícil como parece.
Por favor, enviem as histórias para o e-mail separeseulixo@gmail.com. Se preferirem ficar anônimos, é só falar que eu não coloco o nome de vocês.
A todos os outros comentaristas, peço que leiam o material nos sites que indiquei e mandem-me perguntas ou sugestões.

segunda-feira, 16 de março de 2009

AS BORBOLETAS SABEM O QUE A MÍDIA NÃO ENSINA

Existem coisas fundamentais que não ensinam pra gente e coisas inúteis que somos condicionados a acreditar. Na minha época de escola, por exemplo, ninguém me mandava fechar a torneira enquanto escovava os dentes. Não me lembro como aprendi isso. Acho que não foi com os meus pais, não. Gostaria de crer que foi senso comum, que eu olhava pra água (potável!) indo pro ralo enquanto eu escovava meus dentinhos, e notava que as duas atividades não estavam relacionadas. Tipo, que eu poderia continuar escovando meus dentes mesmo com a torneira fechada. Imagino que hoje as escolas mencionem isso. Pelo menos, quando fiz estágio de pedagogia, vi um panfletinho dizendo que, com o que uma pessoa gasta de água escovando os dentes sem fechar a torneira, uma borboleta pode viver sua vida inteira. Acho uma analogia brilhante, porque nos ensina que não estamos sozinhos no universo. Toda vez que o maridão deixa a torneira aberta, grito pra ele: “Pensa nas borboletinhas!”.
Uma das maiores lições que aprendi na vida foi com mais de 26 anos. Eu estava visitando uma amiga em Floripa, e me ofereci pra lavar a louça da janta - algo que eu achava que fazia bem (e realmente é a única tarefa doméstica que eu sinto que faço bem. Jamais me ofereceria pra fazer a cama ou passar roupa, se você me entende). Lá estava eu, lavando a louça da minha amiga do único jeito que pensava ser possível. Ou seja, a torneira de um lado, abertona, e eu de outro, ensaboando e enxaguando os pratos. Minha amiga falou: “Puxa, é assim que você lava a louça? Detonando todas as reservas hidráulicas do planeta?”. Sinto pela falta de inteligência (eu ainda não tinha doutorado), mas eu não havia associado a possibilidade (obrigação?) de fechar a torneira enquanto escovo os dentes com a de fechar a torneira enquanto escovo os pratos. Foi uma das lições mais práticas que aprendi, já que lavar louça é algo que faço quase todo dia. E se minha amiga não tivesse me ensinado: eu teria aprendido sozinha? Não sei. A consciência ecológica hoje é muito maior que quinze anos atrás. Porém, a julgar pelo que vejo quando vou pros Jogos Abertos (faz uns três ou quatro anos que não vou; eu jogo xadrez e o pessoal pensa que sou mãe de alguma atleta), ninguém ensina essa lição. Sempre fico em alojamento, onde todo mundo come junto e lava seu próprio prato. Eu me revolto com a água desperdiçada. Ninguém fecha a torneira ao ensaboar os pratos! Às vezes eu tento conscientizar as pessoas (afinal, sou muito grata a minha amiga por ela ter me ajudado a evoluir). Algumas respondem: ah é, eu sei que é pra fechar a torneira, esqueci. Outras olham espantadas e perguntam se a atividade extenuante de fechar a torneira é realmente necessária. Ao explicar, já ouvi várias vezes: “Ah, mas nunca vai faltar água no Brasil!”. É uma total falta de cidadania, uma incapacidade de se ver como parte do país, do universo, do ecossistema. Não sei se é por jogar xadrez, mas felizmente minhas colegas de equipe costumam ser responsáveis, e vira e mexe a gente faz uma campanha de conscientização pra todo o alojamento.
A mídia nos ensina a ter uma necessidade insaciável de comprar coisas que não precisamos. Nos ensina que uma mulher deve se arrumar sempre, até pra ir à padaria, porque nunca se sabe quando o príncipe encantado vai aparecer. Nos ensina o que é ser uma boa mãe (dica: tem a ver com comprar mimos pro nosso pimpolho). Nos ensina a apimentar nossa vida sexual (dica: tem a ver com comprar lingerie). Nos ensina a preparar comida que vai fazer todo mundo dizer Hmmm! (dica: tem a ver com comprar ingredientes caros e ter uma cozinha equipada. Opa, tô começando a perceber um padrão aqui). Mas não nos ensina a fechar a torneira enquanto lavamos a louça, nem outras coisas práticas pro dia a dia. Coisas assim: aqui em casa tem muito cupim. E às vezes tem aquela revoada nojenta dos cupins alados (siriris, aleluias, sarará, sei lá o nome). Eles voam em torno da luz, perdem as asinhas, e depois cada casal se acasala e vive feliz para sempre, formando uma nova colônia dentro do nosso armário. Tem aquele truque infalível que imagino que você conheça. É só colocar uma bacia com um pouco d'água embaixo da luz que todos os bichinhos asquerosos e suas asinhas repulsivas caem na bacia. Quando acaba a orgia, basta jogar fora a água dessa bacia (de preferência na privada, economizando uma descarga). É limpo e eficiente. Pois bem, nunca vi isso na TV, revista ou jornal. Não lembro quem me ensinou, mas definitivamente não foi a mídia. Não, a mídia só ensina a comprar inseticida.
E voltando ao tópico de escovar os dentes: você sabe como é anúncio de Kolynos, Colgate e demais marcas, né? Vemos pessoas com os dentes mais brancos do mundo (daqueles que literalmente iluminam o ambiente) sorrindo sem parar. Chega um momento no comercial em que a modelo se prepara pra realizar o ato mais importante de sua existência (escovar os dentes, ué. Deve ser o ponto alto do dia!). Aí a câmera exibe, em detalhe, a modelo colocando metade da pasta de dente do tubo na escova. Aquele creminho que dá volta na escova, sabe? Que faz curvinha pra cima, porque não cabe em linha reta. E se a gente vê imagens assim todo dia, vai acreditar que aquela é a única forma de pôr pasta numa escova. Eu pelo menos nunca vi um comercial mostrando alguém pondo um tiquinho à toa de pasta. Não, tem que ser a pasta que faz curvinha pra cima. Isso sem falar que o furo da pasta dental já é enorme, tornando impossível colocar só um tiquinho de pasta. Mas pergunte a um dentista sem patrocínio da Colgate se é imprescindível colocar aquela quantidade absurda de pasta na escova. Um pouquinho de pasta já faz espuma, e quase tudo vai pro ralo mesmo.
Com papel higiênico, ficaria um tanto escatológico um comercial nos mostrar uma modelo (aliás, teria que ser um modelo, porque mulher delicada não faz cocô) usando metade do rolo cada vez que vai ao banheiro. Então o que faz a publicidade? Mostra uma criancinha com o bumbum de fora andando por um corredor, com uma trilha de papel higiênico (limpo, branco, virginal) atrás dela. Ou um cachorrinho abrindo um rolo inteiro, sem morder, rasgar ou babar, que cachorro não é dessas coisas. A intenção é a mesma: que a gente fique com a imagem de um rolo inteiro de papel higiênico (que estão cada vez menores, mas o preço segue igual) quando usar o banheiro. Essa imagem encravada na nossa cabeça é que vai determinar a quantidade de papel higiênico que usaremos. Mas as borboletas sabem que podem viver bem com muito menos.

P.S.: Sempre vale a pena ver (e rever) o excelente vídeo A História das Coisas (The Story of Stuff). Deveria ser passado em todas as escolas. Aqui, a versão dublada.

quarta-feira, 11 de junho de 2008

VARAL DE ROUPA, COISA DE POBRE

Quer ver como a América é um país todo estranho? Aqui montes de pessoas dirigem pick-ups, trocam de eletrodomésticos a toda hora, não se preocupam com reciclagem... e proíbem que varais de roupas sejam instalados nos quintais. É, você leu direito: varais de roupa. Sabe, quando a gente lava roupa e as põe pra secar ao sol? Esses varais são considerados sinais de pobreza. Significa que você não tem um secador de roupas, e não que você liga pra ecologia e quer gastar menos eletricidade, por isso não usa secador. Não tô falando de colocar roupa pra secar em varais pendurados em janela de apartamento. Aí sim pode lembrar cortiço, e a água cai no apê de baixo. Mas nos EUA a maior parte das pessoas mora em subúrbios, logo, em casas. Tá cheio de associações, em vários bairros e cidades, que não permitem o uso de varais. A justificativa é que isso é coisa de pobre e que desvaloriza a vizinhança inteira. E também que, imagina, você vai colocar cuecas e calcinhas no seu quintal? E se os filhos do vizinho virem suas peças íntimas? Pode traumatizá-los pro resto da vida! Eu ia dizer que americano tem sérios problemas, mas a realidade é que o problema é nosso. Não é à toa que os EUA gastam os recursos naturais do planeta muito, muito mais que qualquer outro país. O lindo é que eles acham que isso é normal, e que aquecimento global não existe (agora lembrei da minha discussão com o guia voluntário do zôo de Chicago). Enquanto isso, na Europa, Oceania, e nos países em desenvolvimento como o nosso, varal de roupa segue sendo comum. Coisa de pobre.