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quinta-feira, 25 de julho de 2019

FOME NÃO É PROBLEMA NO BRASIL

Arte incrível do Cris Vector
Enquanto o presidente dos milicianos diz que a fome não é um problema no Brasil ("falar que se passa fome no Brasil é uma grande mentira", afirmou o mentecapto), o país vive um retrocesso imenso. Depois de uma redução jamais vista na desigualdade social, estamos de volta à miséria. Em dois anos, quase 2 milhões de pessoas passaram a linha da pobreza extrema (segundo o IBGE, quem ganha menos de R$ 7, ou US$ 1,90, por dia). 
Se alguém duvida, basta ir às ruas e ver como explodiu a população de rua em todos os cantos do Brasil. "Como pode ser um problema da pessoa se a cada dia tem mais e mais gente na rua?", pergunta um morador de rua entrevistado pela excelente reportagem
Recomendo também o artigo maravilhoso da antropóloga Rosana Pinheiro-Machado para entender o que aconteceu com o país. Tem volta?

sexta-feira, 31 de maio de 2019

CRIANÇAS AINDA POR FORA DA "UBERIZAÇÃO DO TRABALHO"


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Adorei esse diálogo. Tudo bem, pode não ter acontecido. Mas quem convive com crianças e ouve o que elas têm a dizer sabe que é totalmente plausível!
Esses dias saiu uma excelente reportagem da BBC sobre a dura vida dos entregadores de iFood, Rappi etc em SP: 
eles trabalham doze horas diárias e pedalam até 80 kms por dia. Motociclistas costumam ganhar o dobro que ciclistas. Quase 12% tem curso superior completo ou pós. 97% é homem. 
Mesmo assim, é claro que a uberização do trabalho é ainda pior pras mulheres.
Mas o que uma criança entende disso? Estar perto de uma pizza quentinha parece mesmo melhor que ser "médico de dente". 
Que essas crianças se mantenham inocentes por muito tempo. Ou que, até que elas cresçam, o que costuma se chamar hoje de "uberização do trabalho" (o emprego cada vez mais precarizado, sem carteira assinada ou direitos trabalhistas) já tenha desaparecido. 
Difícil. A tendência é que, em países pobres como o nosso, os empregos só fiquem piores. E, pra jogar a pá de cal, quem está no poder quer acabar com as universidades. 
O que vai sobrar? Como disse a perspicaz Manuela D'Ávila numa palestra em Fortaleza em março, "Lá fora nos países ricos eles criam o Uber. Aqui nós dirigimos o Uber". E o iFood, Rappi etc. 
E o capitalismo tenta vender isso como grande oportunidade de empreendedorismo, não como trabalho barato. 

quinta-feira, 25 de abril de 2019

GUEST POST: A PRECARIZAÇÃO DA DOCÊNCIA

Ontem o Dennis fez uma thread muito boa no Twitter sobre como o ensino particular vem explorando cada vez mais os professores. 
Meu marido, que é professor de xadrez, também está passando por isso, e conheço mais uma penca de professores na mesma situação, tanto na escola e no ensino médio quanto na faculdade. Sabemos que está havendo uma precarização de todo o emprego no Brasil -- estão tentando vender a retirada de direitos trabalhistas como uma "oportunidade para o trabalhador empreender" --, e isso é muito acentuado na rede privada de ensino. 
Publico aqui o texto de Dennis Almeida, bacharelado e licenciado em História pela USP. Ele está dando aulas de Literatura na rede particular de SP, depois de um tempinho em Minas, onde nasceu. 

Hoje fui a um colégio e depois de fazer todo o processo seletivo, me avisaram que a contratação era mediante MEI (Micro Empresa Individual). Disseram que isto seria ótimo para mim e para a escola. Será mesmo? Segue um depoimento no calor desta experiência pela qual eu passei e sei que muitos colegas passam.
As condições que apresentaram: eu abro uma MEI, pago por ela o imposto de renda referente aos ganhos neste colégio, e escolho se contribuo para o INSS ou se invisto o dinheiro que iria para este fim de outra maneira. Tudo isso em um plano de banco de horas, com 9 aulas por semana.
O valor seria de R$ 42 a aula dada, e o salário mensal seria o número de aulas dadas a cada mês, e só. Sem hora-atividade, sem descanso semanal remunerado, sem dissídio, 13º e nem férias. Tem até lema para isso: aula dada, aula paga (cópia de um slogan de rede de ensino).
Preciso trabalhar, e estou com dificuldades de fechar o mês. Não está fácil para ninguém! Mas recusei-me a aceitar esta “oportunidade de deixar de depender de migalhas do governo e passar a empreender com o meu conhecimento”. Por princípios, por revolta, por ter um mínimo de dignidade, eu disse obrigado, mas não!
Este papo de MEI está começando a aparecer nas escolas e faculdades particulares, sorrateiramente, embrulhado em uma embalagem do culto empreendedor. “Deixe de depender da previdência, escolha a maneira de investir e gastar o seu dinheiro, seja livre!” e outras historinhas pra boi dormir.
Como professores, temos de nos unir contra a precarização da nossa profissão (em mais um nível, pois já somos precarizados). Já estamos sendo demitidos por sermos acusados de doutrinação por pais que se organizam em grupos de WhatsApp e usam o valor da mensalidade para intimidar os mantenedores, que entre perder uma ou algumas mensalidades ou trocar o profissional, não veem problemas em nós demitir.
Sem as garantias da CLT, as coisas ficam ainda piores. A intimidação será maior ainda, em uma realidade em que a classe docente é vista como inimiga. Não é uma situação nova, apenas recrudesceu.
Sei que para muitos que não são professores, e já trabalham em uma realidade em que já são profissionais liberais, isso pode parecer exagero, mas o professor não pode trabalhar assim, pois a nossa função não é agradar aos pais, alunos ou mesmo ao dono da escola, mas ensinar. E aprender, tanto quanto ensinar, não tem de ser agradável, apenas necessário.
Intimidar professores deste modo é equivalente a intimidar um médico a dar apenas diagnósticos favoráveis para não perder a clientela. Imagine não ter o seu tratamento, que pode lhe salvar, apenas porque não aceita o fato que está doente.
Por isso, se você for professor, evite ao máximo aceitar essas condições de trabalho. Esta situação não te traz vantagens, nem te fortalece. Apenas te fragiliza enquanto profissional, além de fragilizar a sua classe de trabalho. Abrir mão dos seus direitos trabalhistas te deixará desprotegido contra este e outros tipos de abusos que possa sofrer na escola.
E se você não for professor, tenha empatia pelos professores. Queremos, tanto quanto bons salários, poder trabalhar sem medo de sermos demitidos por algo que dissemos ou, pior, acharam que dissemos. Só queremos dar a melhor aula possível, fazer um bom trabalho, sermos úteis de alguma forma para os nossos alunos com o pouco a mais que sabemos.
Pode ser que nem sempre concordemos em tudo, mas tente ao menos confiar no trabalho do professor quanto confia no trabalho de outros profissionais.

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2019

QUEM SOBROU PARA CRITICAR O DECADENTE NEOLIBERALISMO?

"Toda manhã eu acordo do lado errado do capitalismo"

Publico um guest post do João Paulo Jales dos Santos, estudante do curso de Ciências Sociais da UERN, e colaborador frequente aqui do blog.

O site Five Thirty Eight mensura que a popularidade de Donald Trump está com cerca de 16% de saldo negativo. A impopularidade do presidente, que já estava alta, subiu aproximadamente 6% desde que o inconsequente levou a cabo a ideia de querer no orçamento federal do ano fiscal a inclusão de uma quantia para construir um muro na fronteira com o México. Uma proposta de campanha, completamente infundada, ainda mais se levando em conta que Trump afirmava, para seu eleitorado, que seria o México que pagaria pelo muro. 
Como o México pagaria por esse muro? Como Trump obrigaria o México a custear o muro? O presidente não tinha resposta alguma, apenas dizia que o México pagaria. A retórica alucinante funcionou durante a campanha, mas para ser viável na gestão, até aqui, não teve êxito. Sendo Trump o presidente mais impopular da história moderna neste período de governo, a promessa de um orçamento para o muro foi apenas uma tentativa de fazer com que o presidente mobilizasse sua base eleitoral, e pudesse entregar concretamente uma promessa que fora das mais importantes de sua campanha, depois que perdeu a maioria na Casa dos Representantes. 
Mas Trump foi derrotado na tentativa de custear o muro, e na queda de braço, a oradora (presidente) da Casa dos Representantes, Nancy Pelosi, saiu vencedora. The Donald, o ‘machão’ que proferiu “Grab them by the pussy. You can do anything” ("pegue-as pela b*ceta. Você pode fazer qualquer coisa"), perdeu para uma mulher. Uma derrota pública, que certamente deve ter deixado o magnata-presidente irritadíssimo. Trump, por sinal, é o exímio típico homem branco medíocre, que só chegou onde está graças aos privilégios que homens brancos héteros desfrutam no patriarcado. 
Pelosi, experiente líder, provou que a indicação do partido para que ela se mantivesse como líder da bancada democrata na Casa, e consequentemente se tornasse oradora, foi uma decisão acertada. Ela há tempos sofre imenso desgaste popular, graças a ataques ininterruptos da direita, que a tornaram uma espécie de razão de viver para os reacionários republicanos, exemplo similar do que ocorre com os antipetistas no Brasil.  
Pelosi, deputada do 12º distrito da Califórnia, correspondente à cidade de São Francisco, mostrou que num momento delicado da vida política americana, sua experiencia política foi imprescindível. Trump enfrentou uma política pragmática e conhecedora dos escaninhos de Washington, que não teme enfrentamento, e que ao ser confrontada, costuma responder prontamente à altura o ataque recebido. O estado de onde vem Pelosi é um caso particular das mudanças políticas, demográficas e culturais que vem remodelando as escolhas partidárias da sociedade americana. 
Outrora bastião republicano, assim como alguns estados do Nordeste americano, a Califórnia é hoje uma sólida fortaleza democrata. Foi exercendo mandatos no estado que Ronald Reagan e Richard Nixon chegaram à Presidência. Situação histórica semelhante ao estado sulista da Geórgia, filão partidário nas fileiras democrata durante décadas, que alçou Jimmy Carter à Presidência em 1976, e que veio posteriormente se tornar um confiável território republicano, como outros muitos estados sulistas, que eram máquinas automáticas de depositar votos em candidatos democratas. Mas enquanto na Geórgia, progressivamente, os republicanos vêm perdendo a liderança que exercem no estado desde os anos 2000, na Califórnia, o definhamento do GOP (partido republicano) parece não ter fim. 
A Geórgia, situada no Sul profundo, também começa a experimentar um tipo de mudança de comportamento eleitoral que ocorre em todo o território americano. A classe média alta do país, que migrou maciçamente para os subúrbios dos grandes centros urbanos a partir da década de 60, quando as grandes cidades foram ficando cada vez mais cosmopolitas, e que antes era fiel eleitora do GOP, começa a virar a mesa da cena política-eleitoral, se tornando, em sua maioria, um importante grupo constituinte da coalização democrata. Com altos níveis de escolaridade e renda, há ainda uma significativa parcela suburbana da classe média alta que vota no GOP, mas que nem de longe representa os percentuais de votos que os republicanos amealhavam no passado. 
O voto classista médio alto nos democratas é um caso que era inimaginável décadas atrás. Convém aguardar as próximas eleições para se afirmar com mais precisão a fidelização da classe média alta em torno do partido democrata, afinal, se socialmente se enxergam como liberais, economicamente, os integrantes da classe afirmam serem moderadamente conservadores. De todo modo, o fenômeno político deve impactar significativamente os rumos políticos dos Estados Unidos, numa virada que igualmente corresponde à mensurada entre os eleitores menos escolarizados, antes adeptos aos democratas, mas reduzindo sua preferência em torno do partido nos últimos anos. 
A enorme maioria dos
professores nos EUA são
democratas. A ilustração
mostra o símbolo demo-
crata, o burro, e o repu-
blicano, o elefante
A preferência de uma classe altamente escolarizada por políticos liberais enche de orgulho o ego da maioria dos acadêmicos progressistas. Os acadêmicos, idealizados de um eleitorado culto, politicamente e esteticamente sofisticados, veem a ascensão da preferência da classe média alta em prol dos democratas como um alívio; afinal, a votação em liberais por parte de um segmento mais rico e educado, sempre foi uma idealização acadêmica. Enquanto se alegram com a chegada de uma classe outrora republicana, os cânones liberais acadêmicos pouco se importam com a perda de apoio com uma classe que formava a espinha dorsal do partido democrata, a classe trabalhadora, também conhecida como a coalização do New Deal, formada a partir das políticas sociais dos mandatos do democrata Franklin Delano Roosevelt. Não surpreende essa falta de preocupação, pois o aburguesamento e uma dose alta de elitismo na academia são recorrentes. 
Se encaminhando para o término da 2ª década do século XXI, é estupefaciente o compromisso da esquerda no que tange o status quo neoliberal. Antes frequente e contumaz crítica do status quo capitalista, a esquerda cedeu esse lugar para a extrema direita, que é quem prega uma ruptura da ordem burguesa. Se antes a defesa da classe trabalhadora e dos pobres cabia ao movimento esquerdista, hoje quem se coloca como defensora do operariado são os segmentos da extrema direita. Basta olhar para a Europa: na França, Alemanha, Grã-Bretanha, Áustria, Holanda, Polônia, Itália, e Hungria, nações em que a direita reacionária chegou ao poder, são os políticos reacionários e os teóricos e adeptos conspiracionistas que conclamam a população a se rebelar contra o status quo. 
Na infame campanha do Brexit, enquanto os reacionários e alguns expoentes do partido conservador pregavam o voto pela saída da União Europeia, a maioria dos políticos trabalhistas faziam campanha pela permanência britânica na União Europeia. Certamente, a posição marcada pela esquerda britânica ao defender um voto pela permanência delimitou um espaço numa arena política da defesa de valores universalistas e humanistas, já que no lado da extrema direita se pregava racismo, xenofobia, islamofobia, ódio e mentiras sem limites. 
No entanto, o que se analisa é a posição da esquerda num espaço que antes lhe pertencia, a crítica ao status quo. A esquerda aburguesada muito pouco critica o status quo capitalista-burguês. Os políticos de esquerda fazem defesa de valores progressistas e humanistas, desde que os avanços civilizatórios dessas ideias não corroam o ordenamento neoliberal. À direita e à esquerda, os lesados pelas constantes crises do neoliberalismo são mais defendidos pelos extremistas reacionários. 
A direita, que antes ainda vendia o liberalismo para o indivíduo das massas, agora se compromete tão somente com o liberalismo para o 1% mais rico. A esquerda, defensora das classes trabalhadora e média baixa, se deslocou para um liberalismo social, e basicamente busca mais defender os valores progressistas dos direitos individuais libertários, em detrimento dos valores marxistas e socialistas. A crítica de muitos da esquerda ao neoliberalismo resvalou num imenso vazio de lugar-comum. 
As grandes massas, que foram as grandes perdedoras das políticas neoliberais, submetidas às humilhações inerentes do reacionarismo capitalista, e largadas pelas centro-esquerda e direta, se tornaram fáceis e maleáveis adeptas da retórica nazifascista. A ascensão da extrema direita na Europa, nas Américas e em outras partes do globo se deve justamente a isso. De proletários à pequena e média burguesia, a extrema direita constrói uma coalização heterogênea, a partir dos escombros do neoliberalismo. Como a manutenção do status quo do ordenamento global capitalista é defendida à direita e à esquerda, pe compreensível, então, a ojeriza popular às elites tradicionais. 
Interessante a leitura de um artigo de autoria de um importante nome da direita americana, Tucker Carlson, intitulado "Mitt Rommey apoia o status quo. Mas para todas as outras pessoas, é enfurecedor", em que o articulista faz algo impensável vindo de um direitista: critica os rumos do atual estágio avançado do neoliberalismo. Sob uma perspectiva conservadora, Carlson aponta soluções à direita para um profundo cenário de depressão social e econômica que atinge o âmago da middle America. Se os caminhos defendidos por Carlson diferem dos apontados pelos socialistas de seu país para solucionar e superar a crescente desigualdade social e de oportunidades e a exponencial geração de miséria do status quo, o argumento crítico de Carlson a esse status que só se preocupa com o bem-estar do 1% mais rico converge para uma preocupação dos socialistas americanos. 
O artigo de Carlson gerou polêmica nas hóstias conservadoras, mas ao menos serviu para mostrar que há alguns expoentes da direita americana que já começam a se preocupar com o atual estado de coisas liberal. O avanço das políticas neoliberais está num estágio tão crítico que não há como reformar o sistema se apenas um lado pede mudanças. Para uma reversão, é necessário um compromisso público entre esquerda e direita, como aquele firmado após o fim da 2ª Guerra Mundial.  
Em um mundo que nunca foi tão rico mas ao mesmo tempo tão pobre e tão desigual, em que nunca se trabalhou tanto e com salários com ganhos reais de baixos níveis, reverter a miséria, a concentração de riqueza, e a pouca mobilidade social e econômica, é um compromisso que requer um pacto social daqueles que prezam pelo bem-estar dos que sofrem os fortes impactos do aprofundamento do ordenamento inconsequente de uma ordem global preocupada em proporcionar vantagens e privilégios para o 1% mais rico, às custas do empobrecimento e de dificuldades dos outros 99%.
O apodrecimento neoliberal causa uma metástase social de cegueira incomensurável, tanto que o establishment democrata é ferrenho crítico de Bernie Sanders, que por defender maior proteção social e trabalhista e gratuidade nas universidades, incomoda o centrismo neoliberal estadunidense, refratário que é, à proposta de Medicare for All. Se políticas como essas, e as que pedem aumento progressivo de impostos para os mais ricos, que estão em seus menores níveis históricos nos países desenvolvidos, de participação dos trabalhadores, quem de fato geram riqueza, nos lucros e dividendos das empresas, incomodam tanto, é porque são alternativas factíveis ao neoliberalismo. E são propostas como essas que se devem buscar implementar para se fazer frente a um caos social que vem a cada década, desde os anos 80, gerando maiores graus de instabilidade nas sociedades. 
Nesse sentido, é extasiante que um esquerdista tradicional como Jeremy Corbyn lidere o trabalhismo inglês, depois de quase duas décadas de influência liberal de Tony Blair. Corbyn, quando foi eleito líder do partido em votação, se elegeu sem o consentimento de Blair, que à época chegou a escrever uma carta pedindo um não voto em Corbyn. Vencendo Blair, que atuou em conjunto com Bush para invadir o Iraque, Corbyn melhorou o desempenho do trabalhismo na eleição geral britânica de 2017, e é apontado como favorito, levando-se em conta o humor político do eleitorado no curto e médio prazo, para se tornar o próximo primeiro-ministro britânico. 
Caso consiga tal feito, será nos últimos tempos uma liderança de esquerda, a nível global, que não chegará ao poder influenciado por uma carreira construída sob a aprovação do establishment neoliberal. Corbyn é a liderança que a esquerda precisa nesse momento histórico. Representante de uma esquerda firmemente centrada nos valores da esquerda pré-década de 80, Corbyn tem a pinta do quase extinto político bonachão nascido dentro das estruturas sindicalistas, que sabe dialogar com as massas e transpira uma confiança sincera que faz com que o velho operariado sinta aquela esperança tão contumaz no eleitorado esquerdista dos anos de 20, 30, 40, 50 e 60. 
Os economistas neoliberais, sedentos por mais e mais neoliberalismo, costumam dizer que Thomas Piketty é um obsessivo economista que só se preocupa em taxar ricos. Se O Capital no Século XXI é uma obra que incomoda tanto é porque consegue adentrar as entranhas do decadente status quo neoliberal e propor soluções possíveis, quando se há compromisso político e público para tanto. 
Há uma enorme preocupação com o avanço da extrema direita europeia, que venceu a legislativa de março de 2018 na Itália, e têm chances de conquistar mais espaços políticos com Marine Le Pen, que está dando um verniz mais palatável a seu movimento que agora se chama Reagrupamento Nacional, e que pode se beneficiar dos protestos dos coletes amarelos. Le Pen, assim como seu correligionário ideológico Matteo Salvini, começa uma estratégia de se aproximar mais de instituições populares, como sindicatos, para angariar mais apoio de base. Enquanto a extrema esquerda tem enormes dificuldades para avançar, a extrema direita passeia no tecido social europeu com uma facilidade que não se via desde o fim do nazismo e do fascismo. 
Há que se ter comedimento de possíveis vitórias de partidos reacionários nas próximas eleições europeias, já que muitos direitistas com plataformas reacendendo o ódio social foram derrotados em pleitos majoritários depois do rescaldo da vitória de Trump, fato contrário da presença que possuem no parlamento europeu, de onde advém boa parte da verba para custear atividades políticas de parlamentares que para poderem combater as instituições liberais, recorrem ao dinheiro destas instituições para manterem assíduas suas atividades. 
Mas a meteórica ascensão da extrema direita na Europa, fenômeno que se dá em diferentes graus de intensidade entre países, é um alerta máximo de que o aprofundamento neoliberal causa ainda mais desordem institucional e política. Com uma centro-esquerda e uma centro-direita encantadas por defender o status quo, cabe a uma direita inconsequente angariar a fúria popular de um sistema conservador, cada vez mais fechado para a ascensão social dos pobres, mas aberto para mais e mais privilégios dos ricos. 
Apesar do progresso, 180 milhões de
crianças encontram-se em situação
pior que a de seus pais
Pesquisas mostram que a mobilidade social declinou drasticamente nas sociedades de capitalismo avançado desde os anos 80, período coincidente com o florescer neoliberal. A expectativa hoje é que os filhos tenham uma condição socioeconômica pior do que a dos pais. Não é de continuidade, e sim de maior fragilidade social. A Europa, outrora centro mundial portador do ideal civilizatório de direitos humanos, assiste o esgarçamento de uma ordem erguida há quase 40 anos. 
O neoliberalismo avança depressa, destruindo nações em todo o mundo, fazendo minorias étnicas e sociais serem usadas como bodes expiatórios, para assim poder argumentar e custear o sofrimento dos povos. O espaço de crítica a um status quo tão perverso como esse pertenceu a esquerda. É a esquerda que historicamente se preocupou com as questões sensíveis da classe trabalhadora, da classe média baixa, dos pobres e excluídos. Se a esquerda perdeu o comprometimento de lutar para enfraquecer o poderio do establishment capitalista, que ao menos retorne ao seu lugar político vinculado aos anseios das demandas dos trabalhadores. Com uma esquerda e uma direita alienadas pelo sonho de consumo do 1% da rica elite burguesa global, fica difícil um panorama político, social e econômico que possa refrear a escalada da boçalidade do reacionarismo mundial.

domingo, 27 de janeiro de 2019

REESTATIZAÇÃO JÁ PARA COMBATER O MAR DE LAMA

Poucos dias depois de Bolsonaro ter dito em seu discurso medíocre que o Brasil era o país que mais protegia o meio ambiente, uma barragem em Brumadinho, MG, se rompeu, acabando com uma cidade inteira, matando 37 pessoas (fora dezenas de desaparecidas que talvez nunca sejam encontradas) e milhares de animais, e destruindo todo um ecossistema.
É um dos maiores desastres ambientais do planeta. 
E é preciso lembrar que não foi um acidente ou uma fatalidade, mas (mais) um crime da Vale S.A. Desta vez a culpa não é da familícia Bolsonaro, que não completou ainda um mês de desgoverno, mas da ganância pelo lucro e da falta de fiscalização. 
Dos Gêmeos: não foi acidente. Foi crime!
Lógico que não ajuda em nada o Brasil ter um presidente que, durante a campanha, reclamou do que chamou de "indústria da multa" do Ibama e da dificuldade em conseguir licenças ambientais, o que, segundo ele, atrapalha as obras. Pra piorar, o ministro do meio ambiente, Ricardo Salles, foi condenado por favorecer mineradoras quando era secretário do governo Alckmin. Parece piada: um ministro do meio ambiente aliado não com o meio ambiente, mas com empresas que destroem o meio ambiente.
Tampouco ajuda a impunidade que reina no Brasil. Parece que não aprendemos nada com o crime de Mariana, que aconteceu há pouco mais de três anos. Quando o presidente da Vale (empresa responsável por ambos os crimes) assumiu, seu lema era "Mariana nunca mais". Até agora ninguém foi preso pelo desastre de Mariana. Moradores ainda não foram indenizados. Guilherme Boulos lembra que, "das 68 multas ambientais aplicadas, apenas uma está sendo paga (em 59 parcelas!)". 
Ao ler este descaso, pensei: será que não se pode reestatizar a Vale? 
A privatização da Vale do Rio Doce aconteceu em maio de 1997, durante o governo FHC, e foi um dos maiores roubos da história do país. A Vale foi vendida por apenas R$ 3,3 bilhões, quando somente as suas reservas minerais eram calculadas em mais de 100 bilhões. Ou seja, ela foi praticamente doada. 
Tentei pesquisar um pouco sobre reestatização e fiquei feliz em ver que o presidente do Psol, Juliano Medeiros, já teve essa ideia
Ontem ele comentou no Twitter: "Rompimentos de barragens da Vale do Rio Doce, empresa estatal: 0. Rompimento de barragens da Vale S/A, empresa privada: 2. A privatização mata. Reestatização já!" Se não tivéssemos um governo entreguista, que planeja privatizar tudo a preço de banana para os investidores estrangeiros, poderíamos tentar levar adiante esta sugestão.
Enquanto isso, o sofrimento continua, envolto em um gigantesco mar de lama. Helicópteros do SUS estão sendo usados para resgatar vítimas. O lucro é da empresa, mas o gasto com o desastre provocado pela empresa é socializado. Um resumo do capitalismo.