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terça-feira, 29 de maio de 2018

COVARDES USAM BULLYING GORDOFÓBICO PARA MATAR DIELLY

Vi há mais ou menos duas semanas o terrível suicídio de Dielly, vítima de bullying. Anotei para falar sobre o caso mas o tempo foi passando, e a falta de tempo aumentando. Foi bacana, portanto, que algumas pessoas me lembraram de fazer um post sobre isso. É importante sim.
Dielly Santos tinha 17 anos e estudava numa escola estadual em Icoaraci, distrito de Belém. Dielly era gorda, negra, estava com depressão. Um alvo perfeito para quem passa a vida cometendo bullying. No dia 16 de maio, ela se enforcou no banheiro. 
Sua tia contou que Dielly era constantemente chamada de "lixo" e "porca imunda". Os ataques não pararam com sua morte: vários trolls foram a página em memória de Dielly no Facebook para continuar com os insultos e fazer novas "piadas", sem o menor respeito à família dela. Outros foram lá para criticá-la por não ter aguentada. Foi fraca, segundo eles. Alguns a chamaram de "vitimista" (ué, ela foi vítima; vitimista é quem se faz de vítima sem ser!). 
Obviamente não é verdade que bullying forma caráter (pelo menos no sentido geral de caráter, que está associado à força e ética). Pode formar mau caráter. Se formasse caráter, não teria como seus representantes-mór vermes do estirpe de um Gentili ou dos reaças disfarçados de humoristas do Twitter. 
Uma lei foi sancionada este mês para fazer que escolas, clubes e agremiações tomem medidas de prevenção e repressão para combater a intimidação sistemática, mais conhecida como bullying (como se chama essa lei? Que tal chamá-la de Lei Dielly?).
A ONU tem um estudo de 2016 que mostra que metade das crianças e jovens no mundo já sofreu algum tipo de bullying. Entre as razões mais citadas por 100 mil jovens de 18 países estavam a aparência física, gênero, orientação sexual, etnia, país de origem. No Brasil, 43% dos jovens responderam já ter sofrido bullying. 
E mais um dado: o suicídio é a segunda principal causa de morte entre jovens de 15 a 29 anos, segundo levantamento da Organização Mundial da Saúde.
A Capricho fez uma ótima reportagem em que recordou que a modelo Nara Almeida, que morreu de câncer após uma luta intensa, foi aclamada (também) pela sua magreza, sem que as pessoas associassem sua aparência à doença. "Se a magreza de Nara continuou a ser elogiada mesmo após a morte da modelo, que tinha mais de 4 milhões de seguidores no Instagram, o corpo da anônima Dielly também continuou a ser alvo de chacotas após o suicídio", escreveu a jornalista Isabella Otto. 
Paola Altheia, autora da excelente página Não Sou Exposição, diz que evita usar o termo gordofobia porque muita gente o relaciona ao "politicamente correto" e foge. Mas é lógico que gordofobia existe -- e mata. Paola, que é nutricionista, afirma: "o estigma da obesidade mata muitíssimo mais do que a própria obesidade. Mata a pessoa aos poucos, mata a pessoa por dentro, leva ao isolamento, leva à baixa autoestima, leva à depressão, e pode, como no caso da Dielly, culminar no suicídio".
Ela aponta no vídeo que existe hoje uma mentalidade individualista de que cada um deve resolver seus problemas sozinho, sem ajuda, e que depressão é sinal de vulnerabilidade. Não é! É doença. Se você tem depressão, procure terapeuta. Se você é vítima de bullying, não se cale. Ponha a boca no trombone. Se é verdade que as redes sociais estão aí para aumentar o bullying (o jovem hoje não é só xingado e humilhado nas horas em que está na escola, mas quando está em casa também, através da internet), também estão para denunciar. Exponha quem comete bullying. Fale com professorxs, com a direção da escola, com os pais dos "valentões". 
Quanto a esses que cometem bullying, sinceramente, procurem ajuda também. Vocês têm sérios problemas. Não só vocês não têm como ser felizes, mas vocês não sabem o futuro que os aguarda. Você vai ter dificuldade em cometer bullying a vida toda. Já já terá responsabilidades, precisará trabalhar, e comece a rezar agora para que existam muitas fábricas de móveis Alezzia para contratar você. Porque a grande maioria das marcas não gosta de ter seu nome relacionado a quem é cruel com pessoas (ou animais). Você pode acabar como o reacinha do Twitter que perdeu seu emprego na TAM quando seu perfil foi denunciado. Parece que ele era até um bom funcionário, mas a empresa não quis nem saber -- ele foi demitido. E não conseguiu mais emprego no Brasil. Teve que se mudar de país.
Quer dizer, imagina que tristeza deve ser a vida de alguém que só consegue externar seus sentimentos xingando, odiando, zombando outra pessoa (quase sempre uma pessoa que vem de grupos historicamente oprimidos, como mulheres, negros, LGBT). Tem como ídolo Danilo Gentili, que escreveu um livro (que virou filme feito com a Lei Rouanet) incentivando o bullying. Que tal usar dinheiro público para combater a praga do bullying, fazendo campanhas em grande escola, em vez de usar dinheiro público para financiar gente que promove o bullying? Não parece, sei lá, uma ideia revolucionária?
Eu digo sempre aqui que a gente precisa adotar uma mentalidade de "dane-se o que eles pensam" (e dizem), que um cara que te xinga de "gorda escrota" revela muito mais sobre ele do que sobre você, que somos doutrinadas desde crianças a sermos aprovadas pelos homens, e que essa aprovação se baseia na nossa aparência física (baseada num padrão irreal de beleza) e na nossa submissão ("papai não gosta de menina zangada", "por que você não sorri mais?", "ninguém gosta de feminista"), que não temos que depender da aceitação de ninguém, que devemos nos amar como somos, que não estamos numa eterna competição de Miss Universo para sermos julgadas pela nossa aparência. 
Mas pra mim é fácil falar: eu já tenho 50 anos, desenvolvi muita casca grossa, sempre me envolvi com gente boa e dou mais valor ao que eles dizem do que aos trolls, tento não levar pro lado pessoal (eles não me xingam por eu ser a Lola, que sequer conhecem; me xingam por eu ser feminista, de esquerda, uma mulher forte, e se eu não fosse gorda eles escolheriam qualquer outra característica física minha para tentar me ofender). 
E, principalmente, eu nunca tive depressão. Sei que depressão é uma doença séria que tira as nossas defesas e acaba com nossa autoestima. Se ser xingada quando a gente está bem não é legal, ser xingada quando se tem depressão pode ter um efeito muito mais devastador. 
Esses covardes se valeram disso para te destruir, Dielly querida. Não vamos deixar que destruam mais meninas. 

terça-feira, 31 de outubro de 2017

GUEST POST: "EU ERA MUITO PRETA"

A Ana me enviou este email.

Oi, meu nome é Ana, sou leitora do blog. Estava lendo alguns posts seus, como o de uma menina que se julga feia ou de homens que se relacionam com mulheres gordas, e aquele post de homens que julgam mulheres fora do padrão normativo, e lembrei de algo que me aconteceu há uns cinco anos. Os nomes são fictícios.
Lembro até hoje no primeiro ano do ensino médio do olhar de um menino que me fitou. A princípio eu estava a fim de um outro garoto que ao longo do ano me zoou apenas por gostar dele, mas, vendo que havia quem admirava minha beleza, e talvez me valorizaria, logo fiquei a fim dele, o "Paulo".
Eu, negra, pele escura, cabelo crespo, nariz pequeno, boca levemente cheia, sem corpo escultural de passista, uma menina de altura média, "cheinha", rústica, cabelo amarrado para trás que mesclava entre coque e rabo de cavalo, nerd, nada "feminina", tímida. Ele, um rapaz de pele bem clara, magro, alto, bonito. Parecia gostar de mim e sempre me fitava quando podia. O que mais gostei nele foi o jeito reservado.
A sociedade não gostou. Quem mais se incomodou foi um amigo do Paulo que já havia declarado no começo do ano que eu era muito preta e portanto nunca ficaria comigo (disse a outro garoto e eu ouvi), e logo emendou que eu era muito feia (para disfarçar o racismo que chocou até o menino que lhe perguntou se ficaria comigo).
Paulo não sabia que seu amigo me detestava por ser negra, ele não tinha presenciado esse ato racista, então, ele continuava a me olhar, e a andar com seu amigo. No meio de todos os meninos machistas e agressivos, Paulo parecia diferente, e isso me encantou. Apesar de tudo, ele não me zoava, apenas ficava calado, e eu achava que ele ficava assim por medo de ser zoado, talvez. Tentei esquecê-lo, evitava olhar, mas ele não retrocedia.
No meio de todo bullying que eu sofria por ser quieta, negra, estranha, como diziam, ainda tinha gente de outra sala de olho em mim. Várias meninas paravam na minha frente pra me reparar e se perguntavam o que Paulo tinha visto em mim. Eu tentava fingir que não era comigo, mas doía. O assédio era grande.
Passei a ver Paulo como o diabo e eu fugia dele, pois só o fato d' ele olhar para mim (ele era de outra turma) fazia com que seus amigos de turma implicassem comigo.
Passei a evitar tudo, a não participar de gincanas do colégio, a ter crises de ansiedade que doíam meu estômago, a não ficar nem no pátio do colégio para evitar exposição (eu me isolava no auditório vazio que tinha atrás do pátio do colégio). Durante esse tempo os meninos já tinham inventado coisas de mim que eu desconhecia, apenas ouvia boatos.
Eu já era a feia da sala e nerd estranha, a maioria das meninas negras são, então eu evitava o Paulo pra não ser importunada. Eu nem sabia o nome dele, só soube cinco anos depois, quando eu já havia saído do colégio e ainda sofria as consequências do bullying (depressão e fobia social).
Eu nunca entendia a falta de coragem que Paulo tinha para chegar em mim. Todas as meninas ficavam, algumas nem eram consideradas bonitas, mas depois de pensar bastante, me liguei que o problema era minha cor mesmo. Eu não era uma simples menina, era uma menina negra e pra variar, tímida. Eu era a menina mais escura da sala, e eu pensava que era apenas um complexo meu, até que sempre que passava perto dos colegas de Paulo, notavam que se referiam a mim como "neguinha" e coisas do tipo.
O amigo racista dele aproveitava que ele estava longe e cuspia no chão toda vez que me via, assim, todos os outros meninos passaram a fazer o mesmo, e ele a olhar calado. Às vezes ele até ria, parecia que de nervoso.
Eu já tinha desistido d'ele fazer algum contato comigo, estava no segundo ano depois de um ano de bullying, até que um dia ele me estendeu a mão enquanto eu estava sentada no banco, me cumprimentou. Eu, apavorada, apertei as mãos dele. Todos viram.
A consequência desse aperto não foi muito boa e então eu tive que sair do colégio. Estava insuportável o ambiente, o assédio tanto das meninas quanto dos meninos era demais, eu já não aguentava mais.
Ao todo foi um ano e meio de bullying (saí na metade do segundo ano). Eu era importunada porque não parecia uma menina convencional, segundo eles, porque eu não merecia ser amada por ser "feia", por ser diferente. Ninguém poderia gostar de mim, era o que mostrava a reação de todos.
O pior de tudo foi que Paulo nunca fez nada, não que eu saiba. Ele preferiu aderir ao social.
Apesar de tudo, de toda a covardia dele, ainda assim foi a única lembrança boa que tive do ensino médio. Você já presenciou alguma cena do tipo, Lola? Quem era a menina feia da sua sala? Na sua sala haviam pessoas negras e como eram tratadas, em especial, as meninas?

Meus comentários: Eu estudei numa escola americana em SP, de elite. Havia gente de várias nacionalidades, mas na minha sala não havia negros (se bem que havia indianos, e também japoneses e coreanos). Na minha turma tinha uma muçulmana, uma brasileira gordinha que era bastante zoada, mas talvez mais pelos seus valores conservadores que pela sua forma ou religião. Não sei. Eu gostava muito da minha turma e acho que no ensino médio havia pouco bullying, felizmente. Havia mais na sexta, sétima série pra trás. 
Sinto muito por tudo que você passou, Ana. Imagino como isso deve afetar sua autoestima até hoje. Eu fico pasma como tem gente que nega que o racismo exista... 

sexta-feira, 27 de outubro de 2017

NÃO FOI BULLYING, DIZ TERAPEUTA

Ainda sobre a terrível tragédia ocorrida em Goiânia na semana passada, reproduzo um texto do terapeuta cognitivo Jordan Campos
Para ele, a motivação do crime em que um menino de 14 anos matou dois de seus colegas e feriu outros quatro a tiros não foi o bullying.
É uma análise interessante, na contramão do que se vem falando sobre o caso, embora eu esteja longe de concordar com tudo que o autor diz.
Atenção: leia uma refutação ao texto. Valéria, professora que também escreveu sobre o massacre, critica o post de Campos por, entre outros motivos, não cogitar a possibilidade do bullying.

Sim, um adolescente matou dois colegas de escola com uma arma de fogo. Sim, pessoas desinformadas e com a ajuda da mídia espalham que o bullying foi o motivo. Não, não foi este o motivo. E vou aqui explicar um pouco sobre tudo isto.
Sou pai de quatro filhos, psicoterapeuta clínico de crianças, jovens e adultos e discordo completamente da “desculpa esfarrapada” desta pseudo-versão dos fatos. Bullying é o resultado de um abuso persistente na forma de violência física ou psicológica a uma outra pessoa. 
Bullying não é a piada sem graça, a ofensa solta ou uma provocação por conta do odor resultante da falta de desodorante por quatro dias, que foi exatamente o “caso” do adolescente que matou seus colegas. O motivo pelo qual o jovem assassinou seus colegas é um conjunto de fatores na formação de sua personalidade sob responsabilidade de seus pais. 
O GATILHO que deu o start em seu plano de matar pode ter surgido da provocação de seus colegas, sim. Foi uma reação desmedida, autoritária, perversa e calculada a um conflito em que ele se viu inserido. A falta de preparo emocional e educacional deste jovem para lidar com frustrações é o ponto alto deste simples quebra-cabeças. 
Quando somos colocados frente a um conflito, ou o enfrentamos, ou fugimos ou paralisamos. As vítimas de bullying costumam paralisar e passam anos no gerúndio do próprio verbo que identifica este problema. Bullying é uma ressaca, um trauma no gerúndio, que vai minando as forças, destruindo a autoestima e a identidade frágil de suas vítimas.
No caso do adolescente em questão ele não teve tempo de ser vítima de bullying, ele simplesmente enfrentou a provocação de ser chamado de fedorento com base em sua formação de personalidade, filosofia de vida, exemplos e criação, reagindo. Colegas de sala disseram que ele era adorador do nazismo, cultuava coisas satânicas e quando provocado dizia que seus pais, que são policiais, iriam matar os provocadores se ele pedisse! BINGO!
NÃO FOI BULLYING - Por mais espantoso que possa ser, desculpem mídia e pseudo-sábios filósofos contemporâneos -- o garoto matou porque tinha na sua formação de personalidade uma espécie de autorização para fazer! A identidade deste jovem de 14 anos estava formada em um alicerce que permitia isso. Ele provavelmente iria fazer isso logo logo... Na escola, com o vizinho, na briga de trânsito ou com a namorada que terminasse com ele, e isso nada tem a ver com bullying. A provocação foi apenas o motivo para “fazer o que já se era.”
Agora, falando do bullying, digo sem pestanejar que o maior culpado pela sedimentação do bullying e suas prováveis repercussões não são os coleguinhas “maldosos”, e sim a FAMÍLIA de quem sofre este tipo de ação. Se quem sofresse bullying fosse um potencial assassino a humanidade estava extinta. Mata-se muito por traições, brigas de trânsito, desavenças de trabalho, machismo, homofobia... Mas não por bullying. Pelo contrário -- é muito mais provável um suicídio, depressão, implosão.
O que faz com que alguém resista ou não a uma ação que pode virar bullying? Simples -- a capacidade do jovem em lidar com frustrações e aprender a enfrentar seus problemas e conflitos. Esta é a maior prevenção ao bullying -- aprender a vencer frustrações se submetendo a elas de forma sadia e com orientação. Aprender a respeitar os pais e a vida. Ter lições diárias de cidadania, direitos humanos -- mas o mais importante -- passar por frustrações e ter apoio dos pais, sem lamentar e encontrar culpados e sim crescer forte entendendo que neste mundo não podemos ter o controle das coisas.
Pais, ensinem seus filhos a respeitarem vocês e aos outros. Sei que muitos de vocês estão cheio de carências, desesperados em relações funcionais fúteis, e projetando em seus filhos o amor que não tiveram de quem acham que deveriam ter. Negligenciam assim o respeito e querem ser amados -- isso contribui para fazer jovens fracos, deprimidos, ansiosos, confusos e vítimas fáceis para o bullying. Lembrem-se: só se ama e se valoriza o que se aprende a respeitar!
(Este texto foi feito com base em informações disponíveis na imprensa e pela polícia até então. Não é um exame, avaliação ou diagnóstico psicoterapêutico, e sim considerações em tese, de cunho geral de muitos anos atendendo jovens como profissional do comportamento).

quarta-feira, 25 de outubro de 2017

BULLYING: NÃO É PIADA E NEM FORMA CARÁTER

Muito tem se falado de bullying devido ao massacre ocorrido semana passada numa escola particular em Goiânia, em que um aluno de 14 anos abriu fogo numa sala, matando dois colegas e ferindo quatro.
O menino pegou a arma do pai, que, assim como a mãe, é oficial da polícia militar. O pai disse, em depoimento, que nunca havia ensinado o filho a atirar e que não sabia que ele sofria bullying. A coordenadora da escola, Simone Maulaz Elteto -- uma heroína que convenceu o atirador a entregar a arma, evitando assim uma tragédia com maior número de mortos -- contou que não sabia do bullying. Mas outros alunos comprovam que o menino era chamado de "fedorento". 
De toda forma, o bullying é uma praga social que afeta inúmeras crianças e adolescentes e que, infelizmente, muitas vezes não é combatido. Conservadores (aqueles mesmos que defendem a liberação de armas) tratam o bullying como piada (vide o filme do Gentili) ou como um rito de passagem, algo importante para "formar caráter". 
É completamente absurdo pensar que um ritual que tem o potencial de arruinar a infância e adolescência de tanta gente pode ser benéfico. Eu nunca sofri bullying, mas quem sofreu sabe que não há nada de graça ou de aprendizado nisso.
Reproduzo o texto que Lucila Saidenberg publicou na sua página no FB.

Foi no final do primário que o bullying começou. 
Lá pela sétima, oitava série. Escola Milton de Tolosa, em Campinas. De repente, sem motivo aparente, eu passei a ser um alvo. Uma criança aleatória chegava e dizia: "Oi, você passa alguma coisa no cabelo? Que tal um pente?" E mais outras pequenas chacotas baseadas em aparência física. Eu era magra, cabelo comprido, estudiosa. Ignorei.
Mas a partir daí só aumentou. Passei a "bruxa" e a "louca". Nada do que eu dizia ou fazia era aceitável, tudo era motivo para riso.
Eu sabia que mudaria de escola em pouco tempo, e continuei ignorando, achando que no segundo grau isso ia parar. Ledo engano.
Continuou, piorou. Escola Vitor Meirelles, Campinas. Eu era a "mulher maluca", por ser estudiosa e ter minhas próprias opiniões. A "feminista" (antes até de saber que essa palavra existia) por não "arrastar asa" para os meninos, como as outras garotas. 
Onde quer que eu fosse, nos corredores ou no pátio, era abordada e assediada. Piadas maldosas, risos de escárnio. Minha aparência sempre tinha algo errado. Minhas roupas eram sempre motivo de riso, por mais normais que fossem. Passei a evitar acessórios, usava o uniforme escolar da maneira mais simples possível. Não adiantava.
Se eu falava alguma coisa, qualquer palavra que soasse diferente era motivo de riso. Me ouviam para distorcer o que eu dizia. Se eu classificava algo de "excepcional", ouvia de volta que havia falado "retardado". Parei de usar figuras de linguagem e metáforas. 
Estudava mentalmente todos os sentidos possíveis de cada palavra que eu ia falar. E nem assim adiantava. Passei a lanchar na porta da biblioteca, e a passar o recreio inteiro lá dentro lendo alguma coisa. Qualquer coisa. Desaparecia. Só assim me deixavam em paz. Eram tão limitados que nem se lembravam de que eu existia, se eu não estivesse à vista. Pensei que havia encontrado uma solução. O que eu não sabia era que estavam planejando algo pior.
Um dia ouvi de um menino no pátio um xingamento diferente. Ele apontou um dedo para o meu nariz e disse, em tom de acusação: "Judia!"
Eu sabia que um já falecido avô meu era judeu, eu tinha noções de religião e cultura judaicas, mas fora o sobrenome, eu não falava sobre isso na escola. 
"É verdade que os judeus enterram seus mortos debaixo do piso da cozinha?" Ele perguntava em tom de acusação. "Que usam o sangue de crianças cristãs em seus rituais?" Se eu tentasse esclarecer qualquer coisa, ouvia de novo, como se estivesse sendo acusada de um crime: "Judia!"
Só fiquei sabendo depois que ele era um desses nazistóides tupiniquins, essa gentinha complexada, que tem racismo de si mesma e que se acha muito "poderosa" ao assumir posturas fascistas. Provavelmente fazia parte de algum grupelho, e queria se afirmar. Achou a mim para perseguir.
Tentei negar, tentei explicar que só é judeu quem é filho de mãe judia. Não adiantou. Ele estava citando as leis nazistas de Nurenberg, que eu também desconhecia, que faziam de qualquer pessoa com pelo menos um avô judeu um candidato às câmaras de gás.
Me mandou "provar" que não era judia. "Como?" Eu perguntei. Ele me olhou bem nos olhos e me disse: "você sabe".
Naquele momento eu entendi que, para "provar" alguma coisa, eu teria de me transformar em alguém até mais antissemita do que ele. Negar meu pai, odiar meu avô, me transformar em um monstro. Era mais uma tentativa de me controlar, de conseguir me submeter à visãozinha de mundo tacanha dos meus agressores.
Nada do que eu tentasse "provar" seria o suficiente. Se eu sucumbisse, seria controlada, humilhada, inventariam mil coisas para eu fazer contra a vontade como "teste". Eu viraria o capacho da escola.
Mas eu sabia que a minha permanência naquela segunda escola também era temporária. Logo eu estaria fora de lá, também. Virei as costas para o nazistinha, deixei ele falando sozinho e foquei nos estudos, coisa que sempre foi o meu objetivo. Era para estudar que eu ia à escola. Nada mais.
O que eu realmente não esperava foi ouvir o "mulher maluca" dos brasileiros na terceira escola, Ayanot, supostamente frequentada por gente "mais bem educada", onde terminei o segundo grau já em Israel. Mas até lá eu já estava calejada e, após o choque inicial, mandei todos mentalmente à M*.
Aos meus perseguidores, eu só tenho uma coisa a dizer: malditos sejam, todos.
A quem sofre de bullying: eu rezo por vocês. Sejam fortes e nunca se calem. Busquem ajuda, falem com pais e professores, vão à polícia, reclamem por escrito na secretaria de educação de suas cidades. Vão à OAB e procurem assistência jurídica. Façam um escândalo! Não é porque vocês são crianças, que vocês não têm direitos. 
Aos professores e diretores de escolas: não esperem o bullying começar, nem tentem olhar para o outro lado. É preciso evitar que ele comece, antes de mais nada. Existem métodos pedagógicos para isso.
Isso tem que acabar.