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quarta-feira, 4 de maio de 2016

"MÃE NÃO ACEITA MINHA AMIGA ATEIA"

A L. me enviou este email:

"Acabei de passar por uma situação chata e senti que deveria compartilhar com você. Estava conversando com a minha mãe e acabei contando que uma amiga que conheço desde a segunda série (agora estou no ensino médio) é ateia. Contei isso com naturalidade, afinal, ser ateu é normal. Mas pra minha mãe aparentemente não é, e ela começou uma discussão. Disse tantas coisas horríveis, Lola! Não acreditei que era minha mãe falando aquelas coisas. Disse que não queria mais ver minha amiga aqui em casa, que ela era do demônio, era pior que merda e que devia ter sido abortada. Terrível!
Minha amiga ateia nunca me fez chorar, mas minha mãe me fez chorar muito. Ela disse também que eu estava indo no mesmo caminho, que estava perdendo o primordial. Poxa vida, sou católica e amo minha religião, mas tenho senso crítico. E meu senso crítico se desenvolveu bastante quando conheci o feminismo. Minha mãe não pareceu a minha mãe, entende? Ultimamente ela estava abrindo a cabeça, aceitando gays e transexuais. E aí do nada ela solta tantas violências pela boca.
E é por esse tipo de violência que tantas pessoas sofrem e morrem todos os dias. Sabe, eu me identifico com certos elementos da assexualidade, mas agora morro de medo de contar pra minha mãe sobre isso. Se ela descobrir que não quero fazer sexo e ter filhos, vai dizer que sou do demônio também, já que ter filhos é aparentemente uma obrigação!
Ai Lola, tô muito triste. Mas me sinto acolhida por você e por todas as pessoas maravilhosas que lutam pelo nosso direito de expressão. Você é totalmente incrível, leio seu blog todos os dias. Obrigada pela atenção!"

Minha resposta: L., querida, vivemos num país religioso e, como podemos ver pelo nosso Congresso, nada laico. E parece que essa religiosidade gera muita intolerância. Uma pesquisa de 2007 revelou que apenas 13% dos entrevistados votaria num ateu para presidente. Outra, de 2008, apontou que os ateus estão em primeiro lugar na aversão dos entrevistados. 17% disseram sentir ódio ou repulsa de ateus; 25%, antipatia. Dá um total de 42% de brasileiros que, digamos, "não gosta" de ateus (pra efeito de comparação, 41% disse sentir aversão a usuários de drogas). Sua mãe é uma dessas pessoas.
E o Censo 2010 mostra que 8% dos brasileiros não têm uma religião. Não quer dizer que toda essa gente seja ateia, mas é um indicativo. Claro que é uma minoria, só que não é tão pouca gente assim. E, se fosse, isso não justificaria tamanho preconceito como o demonstrado pela sua mãe.
Animais não têm deuses; eles são mais
espertos que isso
Eu já contei a minha história algumas vezes. Meu pai era ateu; minha mãe, como se dizia antigamente, "católica relaxada" (recentemente ela me surpreendeu ao se assumir ateia). Eu e meus irmãos não fomos batizados nem nada. Mas fomos colocados numa escola católica. Por um breve período, eu sofri influência das freiras e pensei em ser uma também. 
Porém, como sempre fui feminista, essas ideias retrógradas de "deus é pai" (não mãe?), "a mulher veio da costela do homem" (literalmente?), "Eva foi culpada pela expulsão do paraíso e sofrer ao parir será sua punição" (oi? o parto é uma punição?), "só homens podem ser papa" etc se chocavam com o que eu acreditava. Larguei a religião para sempre e nunca senti a menor falta. 
Não sou uma ateia militante. Se alguém me pergunta, óbvio que não vou negar: sou ateia. Não escondo nem saio fazendo propaganda. Mas, pra ser franca, posso contar nos dedos de uma mão as vezes que sofri preconceito por ser ateia. Uma vez foi numa discussão com um vizinho bêbado, em Joinville. Ele encostou o punho fechado no meu rosto e gritou "Sua ateu!" E na escola onde fui coordenadora durante um tempo havia pressão de alguns professores fundamentalistas para que eu fosse tirada da coordenação. Segundo eles, deus não iria abençoar uma escola que tivesse uma ateia no comando.
Lembro de uma amiga com quem eu almocei um dia. Não me recordo sobre o que estávamos conversando, só que ela chegou pra mim e disse: "Quero te contar uma coisa, mas não quero que você pare de gostar de mim", ou algo assim. Eu já estava esperando o pior, e ela disse, envergonhada: "Eu sou ateia". Eu só respondi: "Eu também!" Não sei o que mais me espantou: que ela não soubesse que eu era ateia ou que eu poderia brigar com alguém por sua (falta de) religião. 
Mas enfim, querida, estou fugindo do assunto. Eu sei que é decepcionante descobrir que uma pessoa que a gente ama (sua mãe, no caso) é tão preconceituosa e irracional. Tenha paciência. Assim como sua mãe ficou mais tolerante com gays e trans, talvez (eu sou uma otimista incorrigível!) ela aprenda que ateus são pessoas tão imperfeitas como qualquer outra. 
Talvez, ao conviver um pouco com a sua amiga, sua mãe perceba que ela não é nenhum monstro. E que existem pessoas de deus que não são de deus.
Por enquanto, se eu fosse você, não conversaria com a sua mãe sobre a sua tendência para a assexualidade. Só pra não criar mais atritos desnecessários...

sábado, 28 de julho de 2012

GUEST POST: ATEÍSMO IDEOLÓGICO E DIREITOS ANIMAIS


Neste guest post, o Robson, do blog Consciência, faz a conexão entre ateísmo ideológico (que ele explicou o que é na semana passada) e direitos dos animais.

Nunca foi nem nunca será prerrequisito ser vegetariano para ser um ateu ideológico. Mas é difícil negar que há conexões entre os diversos aspectos do ateísmo ideológico e os Direitos Animais (DA) -– e que, no final das contas, torna-se questão de coerência um ateu dessa categoria se tornar veg(etari)ano e simpatizante ou defensor da causa abolicionista animal.
Cada aspecto citado do ateísmo ideológico tem algo que combine com a ética animal:
a) Descrença em deuses (e em códigos morais absolutistas)
A inexistência de deuses e a irreligião implicam que não existe uma ética/moral absoluta e de origem divina regendo a conduta dos seres humanos. Nisso os ateus se deixam reger por uma ética exclusivamente secular, que muda ao longo dos tempos -– e são suscetíveis a analisar, aprovar e assim aceitar as mudanças progressistas nessa ética.
Essa ética secular, que Richard Dawkins chama de zeitgeist moral, vive em permanente mudança, há milênios, e continuará se transformando até a extinção da humanidade. Antigamente legalizava a opressão oficializada de minorias (mulheres, estrangeiros, pessoas de outras religiões etc), inclusive permitindo a escravidão de seres humanos. Pouco a pouco foi (e vem) derrubando uma a uma as regras morais permissivas à opressão, com implantação da democracia, abolição de leis racistas, conquista de direitos pelas mulheres, mundialização dos Direitos Humanos, aceitação jurídica integral da homoafetividade, regulação legal das relações entre o ser humano e a Natureza a que ele pertence...
E o próximo passo desse progresso ético tende a ser o reconhecimento cada vez mais abrangente e consistente dos animais não humanos como sujeitos de direito, na sua condição de pacientes morais suscetíveis às consequências das ações dos humanos agentes morais. Negar esse avanço e crer que os animais não humanos não podem, ou não devem, ser eticamente respeitados é subestimar a mutabilidade do zeitgeist moral secular, ou mesmo duvidar dela.
Portanto, a descrença em deuses e, por tabela, em códigos morais absolutos facilita bastante o entendimento de que a incorporação dos Direitos Animais ao paradigma ético vigente é parte da incontível evolução do nosso sistema ético-moral (é perceptível que alguns carnistas questionam os Direitos Animais como se sua eventual sanção fosse a imposição de uma moral absolutista. Porém, nenhum teórico de Direitos Animais considera os DA como o limite ou auge da evolução ética das sociedades modernas. Encaram-nos sim como apenas mais um passo importante na eterna mutação do zeitgeist moral, que será sucedido por outros avanços futuros -- como, prevejo eu, a legalização da poligamia e do nudismo casual).
b) Humanismo secular
Este, pelo visto, ainda é limitado à espécie humana, e poderá ser sucedido aos poucos por um supra-humanismo que inclua tanto os animais humanos como os não humanos como sujeitos morais. Mas mesmo hoje ele já possui semelhanças muito fortes e numerosas com o ideal do abolicionismo animal: a oposição a opressões seja quais forem; o estabelecimento de uma cultura de paz e respeito aos vulneráveis; a rejeição do “direito” dos mais fortes de dominarem os mais fracos e lhes imporem suas vontades; a oposição a atos desnecessários de violência; a reivindicação de direitos integrais a categorias oprimidas; a preocupação com a sobrevivência futura e harmonia da humanidade -– considerando-se que a pecuária está ajudando a comprometer o futuro da espécie humana, através do seu enorme impacto ambiental -–, entre outros aspectos.
Analisando-se bem a proposta dos DA, é possível concluir que, considerando-se a exploração animal algo que atenta, ainda que indiretamente, contra os pilares do próprio humanismo, o veganismo e a adesão à luta pela abolição desse sistema de escravidão acabam sendo praticamente um imperativo ético aos humanistas seculares, sob pena de estarem sendo incoerentes e contradizendo seu próprio ideário.
Afinal, se os animais não humanos são tão ou mais oprimidos do que os seres humanos pelos quais o humanismo tanto zela, por que não se preocupar com eles também? Por que continuar consentidamente participando, por via do consumo, de um sistema que oprime seres que deveriam ter direitos, quando se é humanista e desejador do fim de todo e qualquer paradigma que negue direitos a quem os merece?
c) Filia à Razão e à Ciência
Os Direitos Animais possuem bases racionais e científicas cada vez mais fortes. Seja no que tange os estudos sobre senciência, consciência e comportamento animal, seja nas sólidas bases fincadas na Filosofia da Ética, seja na factualidade das denúncias contra as atividades de exploração animal, seja nos estudos dos impactos ambientais da pecuária e da pesca, os DA possuem uma forte, e cada vez mais difícil de negar, estrutura racional e científica.
As recorrências a apelos sentimentais orais ou gráficos são apenas uma faceta periférica da militância animalista. Há em contrapartida essa robusta fundamentação filosófica e científica, e o pelotão de filósofos e cientistas abolicionistas só vem aumentando ao redor do mundo e fortalecendo essa base intelectual do vegano-abolicionismo.
Por outro lado, o especismo e o carnismo vêm sendo dissecados por esse movimento e denunciados como carentes de bases racionais fiáveis. E é possível perceber na internet que a maioria dos formadores de opinião que ainda estão do lado antropocêntrico não vem conseguindo sustentar seus argumentos ou mesmo simplesmente argumentar sem que recorram a ideias contraditórias, ofensividade de linguagem, manifestação de paixões deletérias -– como o prazer viciado do paladar em torno das carnes -– e/ou evidências científicas questionáveis e precárias, contrariando tanto a Razão como a Ciência.
Em suma, a racionalidade e cientificidade, que marcam o ateísmo ideológico, estão cada vez mais a serviço dos Direitos Animais, tanto respaldando-o como desmontando os argumentos do lado oposto -– carnismo e especismo.
d) Ceticismo científico
Ainda é pouco comum na internet brasileira que ateus declaradamente céticos se invistam em desconstruir os argumentos e preconceitos do carnismo e do especismo, tal como se faz muito com técnicas pseudocientíficas como a homeopatia e a clarividência, com crenças religiosas e com lendas de internet. Mas há um enorme potencial para que o ceticismo científico se alie permanentemente com os Direitos Animais, no que se refere a questionar e desmontar as crenças antropocêntricas.
Tal como pseudociências, o carnismo e o especismo são, como é possível verificar em análise crítica rigorosa das suas justificativas, sustentados por teorias científicas ultrapassadas, falácias lógicas e preconceitos contra vegetarianos e veganos. São um prato cheio para trabalhos de ceticismo, em especial no que tange a aposentar argumentos como “O ser humano precisa de carne” ou “A ‘lei da sobrevivência’ nos obriga a criar e matar animais para proveitos nossos” e apontar falácias.
Está ficando cada vez mais difícil ser ao mesmo tempo verdadeiramente cético e carnista militante sem ser fortemente questionado, visto que tal posição é muito contraditória e, conforme se flagra hoje em dia, compromete seriamente essa qualidade de cético.
Ainda é possível ser ateu e especista ao mesmo tempo, mas o ateísmo ideológico, pautado em valores como o humanismo secular, a racionalidade militante e o ceticismo científico, tem conexões e semelhanças muito fortes com os Direitos Animais. Tanto que se torna complicado não ver contradições no pensamento de alguém que é ateu, humanista-secular, cético, racionalista e pró-científico mas segue pensamentos baseados em preconceitos, teorias científicas vencidas, paixões (como o prazer do paladar) e até falácias lógicas.
Dado esse grande potencial de aliança entre os DA e o ateísmo ideológico, já selada por muitos ateus veg(etari)anos, é possível afirmar que há tantas ou mais razões para ateus dessa categoria se tornarem simpatizantes ou defensores dos DA quanto/que para hindus e jainistas serem vegetarianos. Não há obrigação coercitiva nem mandamento divino que determine que ateus ideológicos devam se tornar vegetarianos e considerar os animais não humanos sujeitos morais plenos, mas há sim o respeito coerente ao complexo ideológico que esse tipo de ateísmo traz consigo.
Afinal, não convém a um humanista secular apoiar ou consentir com um sistema que oprime seres vulneráveis e nega direitos a quem os merece. Idem a um cético usar falácias e teorias científicas ultrapassadas. A um racionalista e amigo da Ciência defender algo deletério na base da paixão, da reação adversa visceral e de dados cientificamente duvidosos. A alguém que não acredita em deuses e em suas morais absolutas defender que a Ética não mude a ponto de incluir os animais não humanos como sujeitos morais.
Ser “vegano porque ateu ideológico” não é exatamente como ser vegetariano porque hindu. Não é uma ordem divina. Ou uma regra cuja violação acarreta punição. Mas é uma recomendação da Razão e também da consciência ética. É uma correção das qualidades de humanista secular, cético, racionalista, amigo da Ciência, reconhecedor da mutabilidade da ética humana, negador de morais petrificadas. Enfim, de ateu ideológico.

sábado, 21 de julho de 2012

GUEST POST: DIVERSIDADE DE PENSAMENTOS NO ATEÍSMO

Robson é ateu e defensor dos direitos animais, como ele já tratou em ótimos guest posts aqui no blog e, claro, no seu próprio blog, o Consciência. Desta vez, ele faz uma ligação importante (e pouco explorada) entre ateísmo e direitos dos animais. Mas, antes, ele explica como há inúmeras correntes de pensamento entre ateus.

Encontrar pontos de convergência entre os Direitos Animais (DA) e o ateísmo é um desafio. Porque, se se considerar o ateísmo puramente como a descrença em deuses, não há nada que ligue essa mera descrença ao ideal da libertação animal. E há uma enorme diversidade de pensamentos, ideologias e convicções entre os ateus, não havendo nenhum “mandamento ateísta” que exija ou recomende o respeito aos animais não humanos.
Porém, há uma vertente ateísta, em franco crescimento hoje em dia, que, não implicando apenas o não crer em divindades, converge todo um ideário que, no final das contas, acaba tendo sim uma ligação relevante com os DA. Essa corrente é que será abordada em dois posts.
O ateísmo, desde sempre, é marcado por uma enorme diversidade de pensamentos, de ideologias, de hábitos, de identidades culturais, até mesmo de crenças espirituais. No que tange ao pensamento, há ateus otimistas, há os pessimistas, há os realistas, há os que alternam seu astral com frequência. Há aqueles que acreditam fielmente no amor, há os que não acreditam mais, há os céticos que só acreditarão no amor de namorad@ quando começarem a senti-lo... Há os que adoram dinheiro e bens materiais, há os que preferem a simplicidade, há os que só querem dinheiro com moderação...
Nas ideologias, há ateus de esquerda, de direita, de centro, de extrema-esquerda etc. Há ateus socialistas, liberais, conservadores ao molde americano, libertários de direita, libertários de esquerda, anarquistas, anarcocapitalistas, simpatizantes de regimes autoritários, e assim por diante. Tem os ateus pró-laicismo, tem aqueles que sonham em ver o Brasil se tornar um Estado confessional ateísta, tem os que são em cima do muro. Tem os que querem que a liberdade religiosa continue como está, tem os que querem a religião ser proibida por lei, tem os que desejam muito que a religião seja regulamentada por lei – ainda que isso demande uma nova assembleia constituinte no caso do Brasil...
Na Filosofia, há ateu de tudo quanto é tipo: materialista-marxiano, idealista-hegeliano, kantista, platonista, epicurista, maniqueísta, niilista, cientificista, metafísico, positivista, existencialista... Há aqueles também que acham a Filosofia uma perda de tempo.
Também mesmo em termos de espiritualidade, há uma enorme diversidade de crenças entre ateus. Há aqueles bem materialistas, que não acreditam em nada que não seja detectável pelo método científico, não creem em nada sobrenatural ou transcendente. Há também, por outro lado, os ateus que creem no sobrenatural –- por exemplo, em espíritos, em reencarnação espiritual de humanos a humanos, em hierarquia de evolução espiritual, em fantasmas, nas chamadas “ciências alternativas” etc.
Há aqueles que creem que morreu, acabou; há os que acreditam em reencarnação, uns de uma forma, outros de outra. Há os que se inspiram em religiões como o budismo e o taoísmo para delinear sua filosofia de vida, e há os que se baseiam puramente em valores irreligiosos. E assim por diante.
E, dentre os ateus, vem se destacando uma divisão cada vez mais conhecida hoje em dia: os chamados neoateus, que defendem que as religiões sejam erradicadas das sociedades modernas por tudo que suas vertentes fundamentalistas e cleros fizeram ao longo da História humana. Defendem que isso seja feito não com violência, leis draconianas ou outros atos impositivos, mas com pesados investimentos em educação laica; em divulgação do pensamento ateísta, da Ciência e da Razão; na multiplicação de debates – que muitos neoateus infelizmente tratam como batalhas argumentativas perde-ganha ao invés de como processos dialéticos de aprendizagem mútua -– entre ateus e religiosos; no incentivo à cultura secular; entre outras providências.
E outra diferença muito notável entre os ateus é a própria divisão sua entre ateus veg(etari)anos que zelam pelos Direitos Animais e ateus onívoros/carnistas que fazem pouco caso do tema, além de existirem vegetarianos que não ligam muito para os DA e onívoros interessados na questão. Há inclusive aqueles ateus que divulgam o veg(etari)anismo e os DA e também aqueles que, fazendo a contraparte conservadora, defendem a continuidade do livre consumo de alimentos de origem animal e tentam argumentar por que o veg(etari)anismo pelo animais não faria sentido.
O ateísmo ideológico
Além dos neoateus, a outra grande categoria ateísta que chama a atenção, dessa vez com menos reações discordantes e mais aceitação entre o universo ateísta, é uma que combina e unifica diversas correntes de pensamento: o ateísmo em si, o humanismo secular, o ceticismo científico, a filia à Ciência e à Razão e a defesa do Estado Laico -– chamada neste texto de ateísmo ideológico. A combinação é tão forte que alguns teóricos (Åsa Heuser e Camilo Gomes Jr são dois exemplos de ateus que defendem que o ateísmo transcende a simples não crença em deuses e inclui o humanismo secular e o ceticismo científico) hoje dão, pautados nela, uma definição ao ateísmo bem mais ampla do que a de simples ausência de crença em divindades.
De fato conseguem criar algo próximo a uma definição paralela de ateísmo, ou pelo menos uma categoria muito forte, que consiste:
a) na descrença em deuses, envolvida em ricas razões e contextos;
b) no humanismo secular, pautado em causas como a defesa dos Direitos Humanos, das liberdades individuais e da cultura de paz -– alguns o estendem ao antimilitarismo;
c) no respeito devotado à Ciência e à Razão como fundamentos do intelecto humano;
d) no ceticismo científico, oposto a crenças mitológicas, superstições e pseudociências;
e) na defesa do Estado Laico, garantidor da liberdade de crer e não crer no que quiser em termos de religião e não ser molestado pelas religiões por isso e dos direitos de minorias direta ou indiretamente prejudicadas por lobbies religiosos.
E de fato, pelo que se pode aferir quali-quantitativamente nas aglomerações de redes sociais e fóruns de internet, essa é a parcela de ateus que mais vem crescendo entre todas as ideologicamente diversas categorias ateístas. Em números e em notoriedade intelectual. Vem crescendo bastante o número de blogs e associações que, tendo muitos membros ateus, prezam pelo humanismo secular, pela divulgação da Ciência e do pensamento racionalista e pela militância pró-laicidade.
É essa categoria que tem mais a ver com os ideais abolicionistas, ainda que os Direitos Animais não sejam parte integrante dessa nova “definição estendida” de ateísmo. Para apontar as conexões entre essa categoria de ateísmo e o DA, continuo no post do sábado que vem.

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

GUEST POST: COMO VIREI ATEU, UM TESTEMUNHO DE NÃO FÉ

O Robson, do blog Consciência, já nos brindou com diversos guest posts. Um deles, sobre ateofobia, foi dos mais comentados do ano passado. Em outro, ele enfrentou o preconceito contra ateus. Neste aqui, ele conta o que o levou a tornar-se ateu. Acho um relato fascinante, inclusive por ser bastante raro. Eu, por exemplo, sou ateia há tanto tempo (desde os treze anos), que não me lembro do passo a passo do meu ateísmo. Lembro apenas que havia (há ainda) diferenças irreconciliáveis entre meu feminismo e a crença em uma figura patriarcal, masculina, barbuda e branca que é chamada de Deus (com maiúscula). Gostaria de frisar que nem eu nem o Robson estamos fazendo apologia ao ateísmo, apenas narrando uma experiência pessoal. E não se pode negar que ateus seguem sendo um dos grupos mais discriminados que há no Brasil. Assumir nosso ateísmo com orgulho é uma forma de combater este preconceito. Eis o "testemunho de não fé" do Robson.

Um testemunho de não fé pode ser visto com olhos desdenhosos por religiosos e mesmo por alguns irreligiosos, que podem achar que estou fazendo o mesmo que evangélicos que depõem como se converteram ao cristianismo -– ou seja, de alguma forma pregando que sigam meu exemplo, que mais pessoas se tornem ateias.
Mas, por outro lado, mostrar às pessoas por que virei ateu poderá lhes derrubar mitos sobre o abandono da fé religiosa –- como a falsa crença de que ateus o são porque “fizeram pacto com o demônio” ou porque queriam uma “liberdade libertina” de “embriaguez, orgias e drogas” a despeito dos ensinamentos das igrejas. Assim sendo, o testemunho ateísta pode servir como uma investida contra o preconceito que tantos religiosos têm contra os ateus, suas (des)crenças e sua motivação para ter abandonado a religião.
Meu ateísmo veio em fevereiro de 2005, bem antes de eu ter a visão de mundo que tenho hoje. Posso dizer que foi a primeira grande revolução pessoal pela qual passei –- as outras foram o vegetarianismo e o hábito de ler. Eu já estava com minhas crenças teístas em decadência desde meados de 2004, e o ateísmo foi a conclusão dessa desconversão.
Até a primeira metade de 2004 eu era bastante cristão, embora não frequentasse igrejas. Era um cristianismo de tendência protestante. Eu orava todos os dias, acreditava que Jesus existiu e “morreu na cruz para nos salvar”, cria em demônios e encostos –- quando havia briga na família, eu achava que era intervenção demoníaca –-, levava a sério que Jesus poderia voltar a qualquer momento e a banda que eu mais apreciava era uma banda cristã de metal alternativo.
Então frequentador de fóruns virtuais de tema livre, me deparei em um deles (já extinto), em julho de 2004, com o conto (provavelmente lendário) da entrevista à radialista cristã Laura Schlessinger, no qual se mostrava que o deus cristão era benevolente para com a escravidão e outros absurdos da lei do Pentateuco. Foi minha primeira decepção com a Bíblia -– que, a saber, eu nunca tinha lido fora do Salmos 91.
Poucos dias depois, li em um outro site que Deus não só apoiava a escravidão no Velho Testamento como também fazia guerras no mesmo, tal como um grão-general. Minha ideia sempre tinha sido a de que Deus tinha uma ética imutável e pacifista e que os hebreus bíblicos eram um povo pacífico que só guerreava para se defender. Entendi então que eu era cristão simplesmente porque não conhecia a Bíblia.
Então, já voltei às aulas (do pré-vestibular que eu fazia na época) não mais cristão, mas ainda crente em Deus -– numa certa crença teísta que denomino pós-cristã. Continuava orando, acreditando em providência divina e crendo que Deus me ajudaria a fazer um grande vestibular. Tanto que, num blog pessoal que eu mantinha naquele tempo (que não era o Consciência Efervescente nem tampouco o Consciencia.blog.br), inseria em cada post, nas semanas anteriores ao vestibular que eu faria para Jornalismo, uma frase parecida com “Deus, me guie rumo à vitória!”, e expressava o desejo de que Deus ajudasse John Kerry a tirar o malfeitor George W. Bush do poder nas eleições estadunidenses de então.
A crença teísta pós-cristã permaneceu estável até o terrível tsunami do Oceano Índico. Tanto que paguei promessa por ter passado no vestibular com uma nota alta andando um grande pedaço da avenida que liga minha casa à UFPE e beijando o chão do prédio onde eu estudaria (por apenas dois meses, desistindo do curso de Jornalismo por crise psicológica).
Depois do tsunami, li em uma notícia um ateu falando que o tsunami e as tantas mortes humanas causadas eram uma prova da inexistência de um deus pessoal como aquele em que eu ainda acreditava. Minha fé então foi minada, e passei por uma transformação gradual da crença à descrença. Via Deus como uma entidade de existência cada vez mais duvidosa. Em janeiro de 2005 fiz uma “oração de despedida”, esperando que a divindade provasse sua existência me ajudando mesmo sem orações.
Poucos dias depois da “oração de despedida”, minha crença “decaiu” ao deísmo –- eu passei a acreditar que Deus nada mais era do que uma energia cósmica transcendental que movia o universo, inclusive crendo que a energia escura seria algo que transcendia o universo material, como uma característica do deus-energia transcendente.
Mas a crença não parou mais de “decair”, de modo que passei a ser agnóstico depois de ter deixado de acreditar na energia transcendental, adquirindo um ceticismo incipiente que era o embrião do meu atual pensamento irreligioso. Às vésperas do meu aniversário de 18 anos, em fevereiro de 2005, completei então minha transição ao ateísmo.
Por algumas poucas vezes, nos meses que se seguiram, passei por momentos de conflito com familiares e amigos intolerantes para com ateus. Mas depois deixei de ter esses problemas, uma vez que as pessoas com quem convivo aceitaram tacitamente meu ateísmo. Vez ou outra algum(a) parente ainda tenta me perturbar, insistindo a mim que “Deus (o da Bíblia) existe” e que “Jesus morreu na cruz para nos salvar”, comportamento a que respondo com indiferença.
Hoje vivo muito bem em se tratando de condicionamento psicológico e espiritual. Ao contrário do que o preconceituoso senso comum religioso acredita, não tenho nem um pingo de infelicidade espiritual, nenhum problema relacionado à falta de “respostas” metafísicas. Contemplo a natureza e o fenômeno da vida com muito regozijo, ao contrário do desencanto que supostamente marca o pensamento ateísta segundo religiosos.
Minha posição sobre a morte é que ela é o fim de minha existência, a volta para o nada, mas nada impediria que surgisse uma nova consciência em algum lugar do universo -– ou, quem sabe, em outros universos paralelos -– que assumisse o papel que minha consciência exerce hoje, o de contemplar e interagir com o mundo fora do meu corpo -– a grosso modo, uma espécie de reencarnação sem espírito.
E, para tornar minha convicção ateísta ainda mais sólida do que já é, periodicamente tomo conhecimento de novos fatos que me comprovam que a crença em um deus pessoal é incoerente: orações frustradas com a morte ou sofrimento de pessoas religiosas, pessoas mostrando como o deus em que creem é relativo e subjetivo demais para existir objetivamente, catástrofes que atestam a inexistência de providência divina interventora etc.
Assim eu vou vivendo, sem nenhuma divindade e com muita disposição para viver uma vida feliz.