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sexta-feira, 20 de julho de 2018

O ESCÂNDALO NO BASQUETE FEMININO PARAOLÍMPICO E AS FEMINISTAS

Compartilho com vocês o questionamento interessante da ilustradora Gui Araújo, que me enviou este email no final de junho, quando eu estava viajando, de férias. Tento responder algumas coisas depois. 

No dia 13 de junho recebi via whatsapp uma mensagem comentando sobre uma notícia que me chocou absurdamente: “Atletas paralímpicas são afastadas da seleção após denúncia de abuso sexual”.
Segue trecho da matéria:
"O caso aconteceu após um treino no alojamento da equipe Gladiadoras/ Gaadin (Grupo de Ajuda dos Amigos Deficientes de Indaiatuba), baseado na cidade de Indaiatuba, no interior de São Paulo. Segundo a vítima, que prefere não se identificar neste momento, as três atletas afastadas pela CBBC -- Lia, Geisa e Denise -- usaram um pênis de borracha para abusá-la sexualmente. Ela teria sido retirada de sua cadeira de rodas contra a sua vontade e, já no chão, teve suas roupas íntimas abaixadas à força. A então coordenadora do time, Gracielle Silva, também aparece segurando a vítima no chão em fotos que circularam em grupos de Whatsapp e às quais a reportagem teve acesso. Gracielle se suicidou no último dia 29 de maio".
Até o momento, eu não sabia quem eram as mulheres citadas, não conhecia suas histórias de vida e ao ler a notícia completa não pude deixar de concordar que se trata de uma situação delicadíssima, mas não menos chocante, triste e dura de aceitar.
Fui pesquisar sobre as suspeitas. A paratleta Lia Maria Soares Martins, com uma história de superação exemplar, é uma pessoa inspiradora, sem dúvida. Ela diz sobre o episódio que ocorreu dentro do alojamento do clube: “Foi uma brincadeira de mau gosto e agora vai destruir a minha vida".
Buscando na rede a repercussão sobre o caso, não encontrei nenhum blog feminista discorrendo sobre o assunto, ainda estou fazendo minhas reflexões sobre o fato, e seja lá como for identificado, “brincadeira de mau gosto”, abuso ou estupro, uma coisa é certa, já destruiu uma vida, a de Gracielle Silva, de quem não consegui encontrar nada a respeito (apenas que, ao contrário das outras envolvidas, ela não tinha deficiência), além do envolvimento no escândalo. Gostaria de saber coisas boas sobre ela. Detestaria pensar nessa mulher como apenas uma pessoa que se envolveu num caso de abuso e merecia punição. 
Não encontrei nada relevante a respeito de Geisa e Denise. Não sei o que cada uma pensa, mas eu acho triste conhecer pessoas a partir de notícias ou casos negativos como este, sem a chance de saber um pouco mais sobre elas.
Um escândalo protagonizado por mulheres, paratletas que ninguém jamais iria supor serem capazes de algo desse nível. Talvez isso provoque ainda mais surpresa de alguns e indignação por parte de outros.
Pesquisando pela rede, não foi surpresa alguma encontrar fóruns onde homens aproveitaram para descer a lenha nas mulheres, nas feministas: "Mas e as feministas? Cadê as feministas? Todo homem é um estuprador em potencial... Péra!"
Não posso negar que este também foi um questionamento meu.
Por que no dia 20 de junho todo mundo só falava na vergonha dos torcedores brasileiros “brincalhões” na Rússia, e uma semana antes ninguém comentou sobre a “brincadeira de mau gosto” / assédio / abuso / estupro das paratletas (que causou uma morte)?
Das lutas, das vitórias e das dores de ser mulher feminista, não podemos fugir da responsabilidade que recai sobre nossos discursos diante da sociedade. 
Como mulher, como feminista, eu sinto profunda tristeza e imensa vergonha. Embora acredite num feminismo individualista, eu entendo a construção do coletivo, e o “mexeu com uma mexeu com todas” nesse caso, me afetou desta forma, eu sinto a dor pela vítima do abuso, sinto o arrependimento que as agressoras devem sentir, sinto a vergonha e aflição que foi capaz de levar Gracielle ao suicídio, sinto o peso da impotência e dos olhares que condenam feministas por acusar todo homem como potencial estuprador e se calarem diante desse escândalo, silêncio que eu procuro entender. 
Durante uma fase da minha vida eu acreditava que mulheres seriam seres mais evoluídos e que homens tendiam a ser mais agressivos, violentos e portanto capazes de maldades que nós mulheres jamais cometeríamos. Faz muito tempo isso, percebi rápido que estava equivocada. Na luta por direitos iguais, já não posso negar que algumas igualdades são reais, somos todos e todas capazes de agredir, abusar, oprimir e cometer erros injustificáveis, que destroem pessoas. Não importa quem faz mais ou quem faz pior. 
Gostaria de crer que é um fato isolado, mas eu não sei. Por outro lado, se admitimos isso, é como se escolhêssemos essas mulheres para eleger como “monstras” e sabemos que não são. São pessoas normais, assim como todos os homens normais, amáveis e queridos pela família e amigos, mas que cometem deslizes, são capazes de atos inconsequentes que fazem sofrer, que destroem vidas. 
É lógico que sei diferenciar um crime de uma atitude inconsequente, mas tanto um quanto outro, independente de ser encarado pela lei como mais grave e passível de punição, são igualmente nocivos e capazes de gerar danos às vítimas. 
Não quero amenizar a gravidade da ação destas mulheres ou justificar de alguma forma. Também não quero comparar abusos cometidos por homens e mulheres, definindo o que motiva uns e outros. Acredito que cada caso é um caso e deve ser analisado dentro de seu contexto. 
Eu queria falar sobre esse fato e ouvir outras mulheres, acho que precisamos cuidar dessa ferida (eu me senti ferida e acho que é ferida de mais gente). Precisamos enfrentar isso, assumir o que precisa ser assumido.

Meus comentários: Há vários questionamentos seus, Gui, e todos são válidos. Em primeiro lugar, a Copa do Mundo monopoliza tudo mesmo. Não dá pra ser diferente. É um evento internacional que ocorre a cada quatro anos. No "país do futebol" (masculino), no esporte em que somos os melhores do mundo, não se fala em muita outra coisa.
Este escândalo no basquete feminino paralímpico aconteceu ano passado, e só agora veio à tona. É um assunto delicado, pois envolve três jogadoras importantes, e já resultou em um suicídio. Falar disso é também falar do envolvimento de Gracielle. Antes de publicar este post, entrei em contato contigo, perguntei se havia atualizações sobre o caso. Parece que não há nada até agora. 
Acho que se falou relativamente pouco sobre o escândalo na ginástica olímpica masculina. E isso que saiu no Fantástico, um programa de TV muito popular. O técnico Fernando de Carvalho Lopes foi acusado por pelo menos 42 atletas de ter praticado abuso sexual enquanto trabalhava em São Bernardo do Campo. Lopes foi afastado da seleção em 2016. Um outro técnico, de outra cidade, sabia dos abusos e não fez nada além de piadas. 
O medalhista Petrix Barbosa teve a coragem de falar abertamente sobre os abusos de Lopes. Já o famoso campeão Diego Hypolito negou abuso, mas, depois da reportagem, falou do bullying que sofreu de companheiros de equipe mais velhos no início da carreira. Um desses episódios foi ter que, nu, pegar com o ânus uma pilha com pasta de dente em cima. Obviamente isso também é abuso!
Eu, pessoalmente, acho esses dois escândalos bastante parecidos. Infelizmente, isso é comum em muitos esportes. Eu participei durante anos dos Jogos Abertos do Interior, tanto em SP quanto em Santa Catarina, jogando xadrez. Não vi abusos no xadrez, mas a gente falava com atletas de outras modalidades, e era horrível. Era muita violência e hierarquia disfarçadas de piada. Sabe os trotes nas universidades, em que um veterano acha que pode mandar num calouro? Então: nos alojamentos esportivos, a forma mais suave de "mandar num calouro" era que ele deveria lavar seu prato após cada refeição.
Mas havia mil e uma "brincadeiras" humilhantes, inúmeras delas de cunho sexual. Se o atleta reclamasse, ele seria odiado pelo grupo. Os técnicos viam tudo e muitas vezes incentivavam. Portanto, denunciar estava fora de cogitação. E denunciar o quê? Afinal, aquilo não era visto como abuso ou bullying, só brincadeira, confraternização. Se o calouro achasse ruim, ele teria a chance de se vingar em outro calouro no ano seguinte.
Isso a gente ouvia de várias modalidades esportivas, tanto no masculino quanto no feminino (embora mais no masculino). Era corriqueiro, rotina mesmo. Só recentemente que algumas pessoas vêm vendo essas "piadas" como abuso inaceitável.
Creio que foi isso que aconteceu com as atletas paralímpicas do basquete. Elas devem ter achado divertido usar um pênis de borracha em outra atleta. Claro que isso choca, até porque são atletas de alto nível, e creio que espera-se que atletas paralímpicas comportem-se melhor, tenham mais maturidade. Mas aí é que está: elas não são diferentes. A cultura de estupro lhes ensinou que aquilo que fizeram não é estupro. 
Quanto a misóginos gritarem "Cadê as feministas?!", danem-se eles. Eles vivem nos demonizando, atacando, ridicularizando, mas quando surge algum caso que envolve mulheres ou em que o acusado é alguém de esquerda, pedem a opinião das "malditas feminazis" (aliás, pedem nada. Eles nem vão ler este texto. Só vão dizer que as feministas não se manifestaram, porque seríamos hipócritas).
Eu nunca disse que todo homem é um estuprador em potencial. Desafio que encontrem um só texto em que escrevi isso. Nunca escrevi, porque não acredito nisso. Mas aí você vê um mascu num vídeo afirmando que fui eu que inventei essa expressão! 
Outra coisa é que nunca neguei que mulheres possam ser violentas, que mulheres não podem estuprar. Existem feministas que creem que homens não podem ser feministas, e que mulheres não podem ser machistas. Eu acredito que homens podem (e devem) ser feministas e que mulheres podem ser machistas
Uma coisa é dizer que a maioria dos casos de violência e estupro são cometidos por homens. É um fato incontestável, uma realidade que precisa ser mudada. Outra coisa é dizer que só homens cometem violência. Simplesmente não é verdade, e duvido que muitas feministas digam isso. 
Espero que este caso lamentável de abuso no basquete feminino paralímpico (assim como o da ginástica olímpica masculina) sirva para acabar (ou no mínimo questionar, ou desnaturalizar) a violência nos esportes. Não é "brincadeira de mau gosto", é abuso!

segunda-feira, 21 de maio de 2018

AS UNIVERSITÁRIAS CHILENAS COMEÇARAM UMA REVOLUÇÃO

O Chile está em marcha, devido a mobilizações feministas lideradas por universitárias em todo o país. 
Quem me contou foi um casal que mora em Blumenau: "Esse é um momento histórico para as mulheres chilenas, com impactos positivos para a sociedade, pois abriu um canal para o diálogo que antes não existia. Foi com a Alessandra, minha companheira e autora desse texto, que descobri o feminismo. Ela acompanha teu blog faz anos e foi através dela que conheci teu trabalho. Queremos te agradecer por todos os teus posts que inspiram a muitas mulheres (e homens) a lutar por uma sociedade menos machista e mais consciente. Te adoramos!"
Ahhh! Acompanhe o belo post de Ale Boos (doutora em Paleontologia e professora em Gaspar) e Mario Quiñones (designer com mestrado em animação, e chileno). E vamos seguir o exemplo das nossas vizinhas!
“Moça! O quê você faz com esse decote? Você veio para uma prova oral ou gostaria de ser ordenhada?” 
“Devemos exigir ainda mais das mulheres feias, porque as lindas mesmo sendo burras, encontram marido… Ao contrário, uma mulher feia e burra não tem quem aguente!”
“Moça, me faça um favor: pegue os 4 milhões de pesos (20 mil reais) que custam o seu curso e vá para o shopping!”
“Quando um homem olha uma mulher e sente vontade de estuprá-la, não é mais que uma desordem nas suas inclinações naturais”.
Esses são alguns exemplos de frases misóginas escutadas por estudantes universitárias chilenas todos os dias e ditas pelos seus professores em sala de aula. As frases foram reunidas em uma carta assinada por 127 alunas da Faculdade de Direito da Universidad Católica na capital Santiago. O número de alunas apoiando a carta segue crescendo. 
Apesar de ser um país não muito distante do Brasil, sabemos pouco sobre o Chile. Talvez algumas e alguns de nós se lembrem dele pelos bons vinhos, pelo futebol, pelo deserto do Atacama e como “o país mais desenvolvido da América do Sul”. 
Mas o Chile, assim como outros países do nosso continente, possui problemas como a desigualdade social, o genocídio dos povos indígenas, a corrupção e claro, o machismo. Nesse último quesito, somente ano passado foi aprovada uma lei que permite às chilenas direito ao aborto seguro nos casos de estupro, risco de morte da mãe ou quando o embrião/ feto possua alguma má formação congênita ou genética letal. Sim, antes disso, o Chile fazia parte da “seleta” lista de nações em que o aborto é proibido em qualquer situação! 
Aprovada e colocada em vigor a lei, havia a sensação de se caminhar rumo à conquista de mais direitos para as mulheres, maior respeito e igualdade entre os gêneros. Mas nas últimas semanas vieram à tona vários casos de machismo no ambiente universitário e as chilenas se uniram, foram às ruas, ocuparam suas faculdades e conseguiram uma grande vitória: um projeto de lei específico contra o assédio sexual no mundo acadêmico!
Tudo começou na Universidad Austral (em Valdivia, no sul do Chile) no dia 17 de abril, onde as estudantes ocuparam a Faculdade de Filosofia e Humanidades em protesto às denúncias de abuso sexual e violência de gênero dentro da instituição. Logo depois, no dia 27 de abril, foi a vez de ocupar a Faculdade de Direito da Universidad de Chile (a universidade pública mais antiga e de maior prestígio do país). 
Nessa universidade, o professor de Direito administrativo e ex-presidente do Tribunal Constitucional (equivalente ao STF do Brasil), Carlos Carmona, foi denunciado por assédio moral e sexual por sua ex-assistente e estudante do quinto ano, Sofía Brito. Ela resolveu levar a público a sua história em um programa de rádio feminista apresentado pela comediante e atriz Natalia Valdebenito. Segundo Sofía: “a importância que esse professor tem no mundo do Direito e da política faz com que seja muito difícil que acreditem em uma simples estudante”. Os trechos a seguir também foram retirados dessa entrevista:  
“A primeira vez que eu me senti incomodada por Carmona, falei pra ele que havia limites corporais, mas ele começou a manipular a situação dizendo que não podia trabalhar comigo se era eu quem colocava os limites, que ele precisava me conhecer em todas as esferas da minha vida”. Após a denúncia, “muita gente começou a me questionar e a situação ficou conhecida dentro da universidade”. A jovem falou que muitas vezes pensou em abandonar o curso depois da denúncia, pois era a primeira vez que tinha problemas com um professor, mesmo tendo previamente trabalhado com muitos outros. 
A situação mais grave de assédio aconteceu bem no meio das tramitações para a aprovação da lei do aborto durante o ano passado. Naquele momento, Sofía preferiu calar-se para não comprometer a decisão judicial final do ex-presidente do Tribunal Constitucional, que era seu chefe e seu abusador. Após as denúncias formais dela à universidade, Carmona foi apenas afastado por três meses das suas atividades na instituição. 
O que aconteceu com Sofía foi a gota da água... Na opinião das estudantes, a punição recebida pelo professor foi muito branda e demonstrou como as políticas institucionais para combater o assédio sexual nas universidades são falhas. O episódio gerou uma catarse coletiva nas estudantes universitárias em nível nacional, que começaram a reconhecer o forte machismo dentro da sala de aula, o que gerou a carta que comentamos no início do texto, além dos protestos e ocupações. 
No nível administrativo, a desigualdade de gênero é ainda mais evidente no ambiente acadêmico. Recentemente circulou uma foto do Conselho de Reitores das Universidades Chilenas (CRUCH) e das máximas autoridades das 27 universidades públicas e particulares: nenhuma era mulher. 
São esses contrastes e injustiças de gênero que levaram a aumentar para 15 o número de universidades e para mais de 30 faculdades em greve ou ocupação até agora, por tempo indefinido. Inclusive, alunas do emblemático colégio feminino “Liceo Carmela Carvajal”  -- porque no Chile ainda existem escolas separadas para meninas e meninos 
"Nos tiraram tanto que nos tiraram
o medo", protestam chilenas
-- invadiram e ocuparam o Instituto Nacional (colégio masculino de maior destaque, equivalente a um instituto federal) para protestar contra o machismo e a violência de gênero depois de uma denúncia de assédio sexual contra uma assistente dentro do instituto.
Além disso, alunos desse mesmo colégio criaram um moletom de turma com os dizeres: “Quem dera ser bissetriz para te dividir em duas partes, e altura para passar pelo teu ORTOcentro" (orto em espanhol é cu em português).
Na última quarta-feira, 16 de maio, aconteceu a maior manifestação dos movimentos feministas já feita no país. Mais de 150 mil estudantes marcharam pela Alameda (principal avenida de Santiago), desde a Praça Itália até o Palácio do Governo. “A particularidade que essas mobilizações têm é que colocam no centro das prioridades demandas historicamente tratadas como secundárias, como é a educação não sexista, e a partir daí estamos insistindo junto ao movimento de estudantes para que entendam que a transformação radical do modelo de educação não vai acontecer se não incorporarem essas perspectivas (de gênero), que são também parte de uma luta maior. A gente fala de uma ruptura cultural” disse Emilia Schneider, porta-voz da ocupação da Faculdade de Direito da Universidad de Chile. 
Algumas das demandas mais concretas do movimento são a capacitação dos professores, alunos e funcionários em temas como feminismo e igualdade de gênero, além de modificações nos programas de ensino para incluir uma maior quantidade de mulheres no corpo docente e de autoras nas bibliografias exigidas pelas universidades.
O feminismo chegou para abrir mentes e desconstruir uma sociedade criada e dominada pelo machismo e patriarcado. É hora de mudar paradigmas, de lutar ainda mais contra o conservadorismo, de censurar os homens que gostam de censurar, como o ex-candidato à presidência do Chile Tomás Jocelyn Holt, que se declara “liberal” e no Twitter fez comparações entre os seios das manifestantes chilenas e os da mulher do famoso quadro da revolução francesa de Delacroix: “o tamanho da revolução se mede pelo tamanho dos seios das suas musas”. 
Holt é mais um exemplo do trabalho gigante que significa mudar o sistema, mas ao menos nas duas últimas semanas, o feminismo é tema de conversa obrigatório na sociedade chilena, nos meios de comunicação impressos e nos diferentes programas de TV. 
Chegou a hora de falar, de denunciar e de mobilizar as instituições de ensino superior para que finalmente lutem pela igualdade de direitos, por uma maior justiça e por tolerância zero ao machismo e à violência de gênero. Por um presente e futuro melhores para as mulheres chilenas e de todo o mundo!

quinta-feira, 17 de maio de 2018

REVISITANDO CLUBE DOS CINCO E OUTROS FILMES ADOLESCENTES DOS ANOS 8O NA ERA DO #METOO

Eu era adolescente na época de Clube dos Cinco, e o filme foi marcante pra mim. Eu já sabia que havia cenas machistas (a transformação da Allison nunca me caiu bem, e que tipo de vitória é pra Claire namorar um Bender?), mas isso não me impediu de gostar muito deste clássico -- ainda hoje.
Molly e Ally Sheedy em 2015,
festejando o 30o aniversário do filme
Então, quando vi que a maior estrela adolescente dos anos 80, Molly Ringwald, escreveu um excelente texto sobre os filmes de John Hughes para a revista New Yorker, pedi pro Vinícius traduzir. E o Vinicius, mais uma vez, atendeu o pedido (super obrigada)! Hoje Molly, além de atriz, é também escritora e cantora. Vive com sua família em NY.

As duas atrizes nos trinta anos
de Clube dos Cinco (1985)
No início deste ano, a Criterion Collection, que é “dedicada a reunir os maiores filmes do mundo inteiro”, lançou uma versão restaurada de Clube dos Cinco, um filme escrito e dirigido por John Hughes no qual eu participei, mais de três décadas atrás. Para essa edição, participei de uma entrevista sobre o filme, assim como outras pessoas próximas da produção. Eu não tenho o hábito de voltar a ver filmes que fiz, mas esta não foi a primeira vez que voltei a ver este: há alguns anos, assisti com minha filha, que tinha dez anos na época. Nós gravamos uma conversa sobre isso para o programa de rádio “This American Life”.
Molly Ringwald e sua
família
Eu serei a primeira a admitir que dez anos é jovem demais para assistir a Clube dos Cinco, um filme sobre cinco alunos do ensino médio que fazem amizade durante uma detenção em um sábado, com muitos palavrões, conversas sobre sexo e uma cena já famosa dos estudantes fumando maconha. Mas minha filha insistiu que as amigas dela já haviam visto, e ela disse que não queria assistir pela primeira vez na frente de outras pessoas. Um amigo diretor-roteirista me assegurou que crianças tendem a filtrar o que não entendem, e imaginei que seria melhor se eu estivesse lá para responder às perguntas desconfortáveis. Então cedi, pensando talvez que isso daria um momento doce e não convencional de ligação entre mãe e filha.
É uma experiência estranha, assistir a uma versão mais jovem e inocente de você mesma na tela. É ainda mais estranho -- até mesmo surreal -- assisti-la com sua filha quando ela está muito mais próxima em idade dessa versão do que você. Meu amigo estava certo: minha filha não parecia realmente perceber a maior parte das coisas sexuais, embora tenha se espantado audivelmente quando achou que eu havia mostrado minha calcinha.
Em um ponto do filme, o personagem bad boy, John Bender, se abaixa sob a mesa onde minha personagem, Claire, está sentada, para se esconder de um professor. Enquanto está lá, ele aproveita a oportunidade para espiar sob a saia de Claire e, embora os espectadores não vejam, fica implícito que ele a toca de forma inapropriada. Eu rapidamente pontuei para minha filha que a pessoa de calcinha não era realmente eu, embora esse esclarecimento parecesse irrelevante.
Continuamos assistindo e, apesar das minhas melhores intenções de contextualizar os trechos incômodos, não formulei sobre o que poderia ter acontecido embaixo da mesa. Ela não manifestou nenhuma curiosidade por algo sexual, então decidi seguir a deixa e discutir o que parecia ressoar mais com ela. Talvez eu tenha me acovardado.
Mas fiquei pensando sobre essa cena. Pensei nisso novamente no outono passado, depois que várias mulheres apresentaram acusações de assédio sexual contra o produtor Harvey Weinstein, e o movimento #MeToo ganhou força. Se atitudes relativas à subjugação feminina são sistêmicas, e acredito que sejam, parece lógico que a arte que consumimos e sancionamos desempenhe algum papel no reforço dessas mesmas atitudes.
Eu fiz três filmes com John Hughes; quando foram lançados, causaram impacto cultural suficiente para me colocar na capa da revista Time e fazer com que Hughes fosse considerado um gênio. Sua reputação na crítica só cresceu desde sua morte, em 2009, aos 59 anos. Os filmes de Hughes passam constantemente na televisão e são até ensinados nas escolas. Ainda há muita coisa que amo neles, mas ultimamente tenho sentido a necessidade de examinar o papel que esses filmes desempenharam em nossa vida cultural: de onde vieram e o que podem significar agora.
Quando minha filha propôs assistirmos a Clube dos Cinco juntas, eu hesitei, sem saber como ela reagiria: se ela entenderia o filme ou mesmo se gostaria. Eu me preocupava que ela achasse alguns aspectos do filme problemáticos, mas não previ que no final das contas isso acabaria sendo mais problemático para mim.
Pode ser difícil lembrar como era escassa a arte para e sobre adolescentes antes que John Hughes chegasse. Os romances de jovens adultos ainda não haviam explodido como um gênero. Na tela, os grandes problemas que afetavam os adolescentes pareciam pertencer em grande parte ao mundo da ABC Afterschool Specials, que estreou em 1972 e ainda estava no ar quando atingi a maioridade, na década de 80. Todos os adolescentes que conheci preferiam morrer do que assisti-los. Os filmes tinham um sopro de castidade, o diálogo era obviamente escrito por adultos, a música era brega.
Representações de adolescentes em filmes eram ainda piores. Os atores escalados para papéis adolescentes tendiam a ser muito mais velhos que seus personagens -- eles tinham que ser, já que os filmes muito frequentemente eram apelativos.
Os filmes de terror adolescente que floresceram nos anos 1970 e 1980 traziam adolescentes sendo assassinados: se você fosse jovem, atraente e sexualmente ativa, suas chances de chegar ao fim eram basicamente nulas (uma alegoria parodiada, anos depois, pela franquia Pânico). 
As comédias adolescentes de sucesso do período, como O Clube dos Cafajestes e Porky’s, foram escritas por homens para garotos; as poucas mulheres neles eram ninfomaníacas ou mulheres mandonas e agressivas. (A robusta treinadora feminina em Porky’s chama-se Balbricker [nota: o nome Balbricker em inglês ganha um duplo sentido por conta da cacofonia produzida com ball-breaker, uma gíria pejorativa para se referir a mulheres dominantes]). Os garotos são pervertidos, tão unidimensionais quanto suas contrapartes femininas, mas com mais tempo de tela.
Em 1982, Picardias Estudantis, que teve a rara distinção de ser dirigido por uma mulher, Amy Heckerling, aproximou-se de uma representação autêntica da adolescência. Mas ainda abriu espaço para a fantasia masculina de um jovem, com a atriz Phoebe Cates andando de topless sob uma névoa fina de água suavemente pornô.
E então veio Hughes. Hughes, que cresceu em Michigan e Illinois, e começou a trabalhar, depois de abandonar a faculdade, escrevendo anúncios em Chicago. O trabalho o levava com frequência a Nova York, onde ele começou a frequentar os escritórios da revista de humor National Lampoon. Ele escreveu uma história chamada “Vacation '58” -- inspirada por suas próprias viagens familiares -- que lhe garantiu um emprego na revista e se tornou a base para o filme Férias Frustradas.
Outra história chamou a atenção da produtora Lauren Shuler Donner, que o encorajou a escrever o que se tornou Dona de Casa por Acaso (Mr. Mom). Aqueles filmes o ajudaram a conseguir um acordo com a Universal Studios. Clube dos Cinco seria sua estreia na direção; ele planejava filmar em Chicago com atores locais. 
Ele me disse mais tarde que, durante um fim de semana de 4 de julho, enquanto olhava fotos de atores considerados para o filme, ele encontrou a minha, e decidiu escrever outro filme em torno da personagem que ele imaginava ser aquela garota. Esse roteiro se tornou Gatinhas e Gatões (Sixteen Candles), uma história sobre uma garota cuja família esquece seu 16o aniversário. O estúdio adorou o roteiro, talvez porque, pelo menos na forma, tivesse mais em comum com os sucessos comprovados -- Porky’s e outros -- do que com Clube dos Cinco, que basicamente parecia uma peça de teatro.
Uma reunião foi marcada, nós nos demos bem, e eu filmei Gatinhas e Gatões nos subúrbios de Chicago no verão depois que completei a nona série. 
Quando terminamos de filmar, e antes de começarmos a filmar Clube dos Cinco, John escreveu outro filme especialmente para mim, A Garota de Rosa Shocking (Pretty in Pink), sobre uma garota da classe trabalhadora navegando pelos preconceitos sociais de sua opulenta escola secundária. 
O arco dramático do filme envolve ser convidada e depois desconvidada para o baile de formatura. Em resumo os filmes podem parecer superficiais -- uma garota perde seu par para uma dança, uma família esquece o aniversário de uma garota -- mas isso é parte do que os tornou únicos. Ninguém em Hollywood estava escrevendo sobre as minúcias do ensino médio, e certamente não do ponto de vista feminino. 
De acordo com um estudo, desde o final dos anos 1940, nos filmes de família com maior bilheteria, personagens femininas foram superadas em número pelos garotos de três para um -- e essa relação não melhorou. Que dois dos filmes de Hughes tivessem protagonistas femininas nos papéis principais e examinassem os sentimentos dessas jovens sobre as coisas bastante comuns que estavam acontecendo com elas, enquanto também conseguiam ter credibilidade instantânea que se traduzia em sucesso nas bilheterias, era uma anomalia que nunca foi realmente replicada. (Os poucos filmes de grande sucesso estrelados por mulheres jovens nos últimos anos foram em grande parte passados em futuros distópicos ou incluíam vampiros e lobisomens.)
Eu tive o que poderia ser chamada de relação simbiótica com John durante os dois primeiros filmes. Eu fui chamada de sua musa, o que eu acredito que era, por um pequeno tempo. Mas, mais do que isso, sentia que ele me ouvia -- embora certamente não o tempo todo. Ele saiu da escola de comédia da National Lampoon, e ainda havia um resíduo de grosseria que ficou, não importava o quanto eu protestasse. 
No roteiro de filmagem de Clube dos Cinco, havia uma cena em que uma atraente professora de ginástica nadava nua na piscina da escola enquanto o Sr. Vernon, o professor responsável pela detenção dos estudantes, a espiava. A cena não estava no primeiro rascunho que eu li, e influenciei John a cortá-la. Ele cortou, e embora eu tenha certeza de que a atriz que havia sido contratada para o papel ainda me culpe por frustrar seu momento, acho que o filme ficou melhor por isso. 
Em Gatinhas e Gatões, um personagem alternadamente chamado de Nerd e Ted Fazendeiro faz uma aposta com os amigos de que ele pode ficar com a minha personagem, Samantha; para provar, ele diz, vai ficar com a calcinha dela. Mais adiante no filme, depois de Samantha concordar em ajudar o Nerd, emprestando sua calcinha para ele, ela tem uma cena emotiva com seu pai. A cena originalmente terminaria com o pai perguntando: “Sam, o que diabos aconteceu com sua calcinha?”. 
Minha mãe se opôs. “Por que um pai saberia o que houve com a roupa de baixo de sua filha?”, ela perguntou. John se contorceu desconfortavelmente. Ele não quis dizer isso, ele disse -- era apenas uma piada, uma tirada. “Mas não é engraçado”, disse minha mãe. “É assustador”. A fala foi alterada para “Apenas lembre-se, Sam, você usa as calças na família”.
Minha mãe também se manifestou durante as filmagens daquela cena em Clube dos Cinco, quando eles contrataram uma mulher adulta para a foto da calcinha de Claire. Eles nem sequer me pediram para fazer isso -- não acho que era permitido por lei pedir isso a um menor -- mas até mesmo ter outra pessoa fingindo ser eu era embaraçoso para mim e perturbador para minha mãe, e ela disse isso. Essa cena permaneceu, no entanto. 
Além disso, como posso ver agora, Bender assedia sexualmente Claire durante todo o filme. Quando ele não está a sexualizando, ele desconta sua raiva nela com um desprezo cruel, chamando-a de “patética”, zombando-a como “mimada”. É a rejeição que inspira sua acidez. Claire age com desdém em relação a ele, e, em uma cena crucial perto do fim, ela prevê que na escola, na segunda-feira de manhã, mesmo que o grupo tenha criado uma conexão, as coisas vão retornar, socialmente, ao status quo. 
Final feliz? Pra Claire é que não deve ser
“Apenas enterre sua cabeça na areia e espere sua merda de formatura!”, Bender grita. Ele nunca pede desculpas por nada disso, mas, no entanto, ele fica com a garota no final.
Se estou soando excessivamente crítica, é apenas em retrospecto. Naquela época, eu estava apenas vagamente ciente do quão inapropriada era a escrita de John, dada a minha experiência limitada e o que era considerado normal na época. Eu estava com trinta e poucos anos antes de parar de considerar homens verbalmente abusivos mais interessantes do que os legais. 
Estou um pouco envergonhada em dizer que demorei ainda mais para compreender totalmente a cena no final de Gatinhas e Gatões, quando o galã dos sonhos, Jake, essencialmente troca sua namorada bêbada, Caroline, com o Nerd, para satisfazer os impulsos sexuais deste último, em troca da calcinha de Samantha. O Nerd tira fotos com Caroline para provar sua conquista; quando ela acorda de manhã com alguém que ela não conhece, ele pergunta se ela “gostou”. (Nenhum deles parece se lembrar muito). Caroline balança a cabeça em espanto e diz: “Sabe, tenho a estranha sensação de que sim”. Ela teve que ter uma sensação, em vez de um pensamento, porque os pensamentos são coisas que temos quando estamos conscientes, e ela não estava.
Pensando nessa cena, fiquei curiosa sobre como a atriz que interpretou Caroline, Haviland Morris, se sentiu em relação à personagem que ela representou. Então mandei um e-mail para ela. Nós não nos víamos ou nos falávamos desde que ela tinha 23 anos e eu 15. Nos encontramos para tomar café, e depois de termos colocado a conversa em dia, perguntei a ela sobre isso. Haviland, fiquei surpresa ao saber, não tem os mesmos problemas com a cena que eu tenho. 
Em sua opinião, Caroline tem alguma responsabilidade pelo que acontece, por conta de como ela fica bêbada na festa. “Não estou dizendo que é ok para depois ser estuprada ou ter sexo não consensual”, esclareceu Haviland. “Mas... não é uma rua de mão única. Eis uma garota que fica tão chapada que nem sabe o que está acontecendo.”
Houve uma ocasião em meus vinte e poucos anos em que bebi demais em uma festa e acabei em um quarto sentada na beira de uma cama com um produtor que eu não conhecia, desnorteada e tonta. Uma boa amiga, que havia me seguido, apareceu na porta alguns minutos depois e anunciou: “Hora de ir, Molly!”. Eu a segui, tentando não tropeçar, e passei o resto da noite extremamente doente e envergonhada -- e o resto da minha vida grata por ela ter estado lá, cuidando de mim, quando eu estava temporariamente incapaz de cuidar de mim mesma. Eu compartilhei a história com Haviland, e ela ouviu educadamente, assentindo.
Haviland, como eu, tem filhos, e por isso decidi enquadrar a questão hipoteticamente, de mãe para mãe, para ver se mudava o ponto de vista dela. 
Se uma de nossas filhas bebesse demais, e algo assim acontecesse com uma delas, ela diria: “Culpa sua, porque você bebeu demais”? Ela balançou a cabeça: “Não. Absolutamente, ele terminantemente permanece dentro da calça até que seja convidado por alguém disposto e consensualmente capaz de convidá-lo a pôr para fora”. Ainda assim, ela acrescentou: “Não vou colocar em preto e branco. Não é uma rua de mão única”.
Depois do nosso café, respondi a um e-mail de Haviland para agradecer-lhe por concordar em falar comigo. Mais tarde naquela noite, recebi outra nota. “Sabe,” -- escreveu ela -– “quanto mais penso nisso esta noite, estranhamente, menos desconfortável estou com Caroline. Jake estava com nojo dela e disse que poderia violá-la de 17 formas se quisesse porque ela estava tão acabada, mas ele não o fez. E então, foi Ted quem teve de perguntar se eles haviam feito sexo, o que certamente não demonstra comportamento responsável de qualquer das partes, mas também não significa realmente estupro. Por outro lado, ela foi basicamente trocada por uma calcinha... Ah, John Hughes.”
[Eu, Lola, pedi a Vinícius que não traduzisse os cinco parágrafos seguintes, em que Molly analisa os temas de escrita de Hughes na revista National Lampoon. Não achei relevante, porque não tem a ver com os filmes. E também porque o texto já está gigantesco. Quem quiser ler esses 5 parágrafos, convido a ler no original].
[Molly:] John acreditava em mim, e em meus dons como atriz, mais do que qualquer outra pessoa que conheci, e ele foi a primeira pessoa a me dizer que eu tinha que escrever e dirigir um dia. Ele também era fenomenal para guardar rancor, e poderia responder ao perceber uma rejeição da mesma forma que o personagem de Bender fazia em Clube dos Cinco
Mas eu não estou pensando sobre o homem agora, e sim nos filmes que ele deixou para trás. Filmes de que tenho orgulho de muitas maneiras. Filmes que, como sua escrita no começo, embora em menor escala, também poderiam ser considerados racistas, misóginos e, às vezes, homofóbicos.
As palavras “bicha” e “viado” são lançadas ao léu; o personagem Long Duk Dong, em Gatinhas e Gatões, é um estereótipo grotesco, como outros escritores detalharam de maneira muito mais eloquente do que eu.
E ainda assim, me disseram mais vezes do que eu poderia contar, tanto amigos quanto estranhos, incluindo pessoas da comunidade LGBT, que os filmes os “salvaram”. Ao deixar uma festa, não muito tempo atrás, fui abordada por Emil Wilbekin, um afro-americano gay, amigo de um amigo, que queria me dizer exatamente isso. Eu sorri e agradeci, mas o que eu queria dizer era “Por quê?” Mal há uma pessoa que não seja branca nos filmes, e nenhum personagem é abertamente gay. 
Cerca de uma semana depois da festa, pedi a meu amigo que me colocasse em contato com ele. Por e-mail, Wilbekin, um jornalista que criou uma organização chamada Native Son, dedicada ao empoderamento de homens negros gays, explanou sobre o que ele havia me dito enquanto eu saía da festa. Clube dos Cinco, ele explicou, salvou sua vida mostrando a ele, uma criança que cresceu em Cincinnati nos anos 80, “que havia outras pessoas como eu que estavam lutando com suas identidades, sentindo-se deslocadas nas construções sociais de ensino médio e lidando com os desafios dos ideais e pressões familiares”. 
Essas crianças também estavam “encontrando a si mesmas e sendo ‘outras’ em um ambiente heteronormativo branco, muito tradicional”. A falta de diversidade não o incomodou, acrescentou ele, “porque os personagens e as histórias eram tão lindamente humanos, perfeitamente imperfeitos e falhos”. Ele assistiu aos filmes no ensino médio e, embora ainda não tivesse se assumido, teve uma boa ideia de que era gay.
A Garota de Rosa Shocking apresenta um personagem, Duckie, que foi vagamente baseado no meu melhor amigo de 40 anos, Matthew Freeman. Somos amigos desde que eu tinha 10 anos, e ele trabalhou como assistente de produção no filme. Como Emil, ele é assumido agora, mas não era na época. (Essa é uma das razões pelas quais eu com frequência aponto, para consternação de alguns fãs e para o deleite dos outros, que Duckie é gay, embora não haja nada que indique isso no roteiro.) 
“Os personagens que John criou falam em se sentir invisíveis e estranhos", Matt me disse recentemente. Eles captam “como nos sentíamos como garotos gays ‘no armário’ que só podiam viver indiretamente através dos despertares sexuais dos outros, para que não fôssemos descobertos com a ameaça real de sermos condenados ao ostracismo ou atacados”.
Os filmes de John transmitem a raiva e o medo do isolamento que os adolescentes sentem, e ver que outros podem sentir o mesmo é um bálsamo para o trauma que adolescentes experimentam. Se isso é suficiente para compensar a impropriedade dos filmes, é difícil dizer -- até mesmo criticá-los me faz sentir como se eu estivesse despojando uma geração de algumas de suas memórias mais carinhosas, ou sendo ingrata, uma vez que que eles ajudaram a estabelecer minha carreira. E ainda assim abraçá-los inteiramente soa hipócrita. E ainda assim, e ainda assim...
Como devemos nos sentir em relação à arte que tanto amamos como nos opomos? E se estivermos na posição incomum de ter ajudado a criá-la? Apagar a história é um caminho perigoso quando se trata de arte -- a mudança é essencial, mas lembrar o passado também é, em toda a sua transgressão e barbárie, para que possamos medir corretamente o quão longe chegamos e também até que ponto ainda precisamos ir.
Enquanto pesquisava para esse texto, me deparei com um artigo publicado na revista Seventeen, em 1986, no qual entrevistei John. (Foi a única vez que o fiz.) Ele falou sobre os artistas que o inspiraram quando ele era mais novo -- Bob Dylan, John Lennon -- e como, assim que se “acomodaram” em sua arte, seguiram em frente. Salientei que ele já havia feito muitos filmes sobre o subúrbio, e perguntei se ele achava que deveria seguir em frente como seus ídolos. 
"Acho que é prudente que as pessoas se preocupem com as coisas que conhecem”, ele disse. E acrescentou: “Me sentiria extremamente desconfortável escrevendo sobre algo que não sei”.
Não tenho certeza se John estava realmente confortável ou satisfeito. Ele costumava me dizer que não achava que era um escritor de prosa bom o suficiente, e embora gostasse de escrever, ele notoriamente odiava revisar. Eu estava pronta para fazer mais um filme de Hughes, quando eu tinha 20 anos, mas senti que precisava ser reescrito. Hughes recusou, e o filme nunca foi feito, embora pudesse haver outras circunstâncias das quais eu não estava ciente.
Na entrevista, perguntei se ele achava que os adolescentes eram vistos de maneira diferente quando ele tinha essa idade. “Definitivamente”, ele disse. “Minha geração teve que ser levada a sério porque estávamos interrompendo coisas e queimando coisas. Fomos capazes de iniciar a mudança porque éramos em número grande. Nós éramos parte do Baby Boom, e quando nos mexemos, tudo se mexeu conosco. Mas agora há menos adolescentes e eles não são levados tão a sério quanto éramos. Você faz um filme adolescente, e os críticos dizem: 'Como você se atreve?' Simplesmente há uma falta geral de respeito pelos jovens agora.”
John queria que as pessoas levassem os adolescentes a sério, e as pessoas levaram. Os filmes ainda são ensinados nas escolas porque os bons professores querem que seus alunos saibam que o que eles sentem e dizem é importante; que se eles falarem, adultos e colegas vão ouvir. Acho que isso é, em última instância, o maior valor dos filmes e por que espero que eles irão durar. As discussões sobre eles mudarão, e elas deveriam. Cabe às próximas gerações descobrir como continuar essas conversas e torná-las suas -- continuar falando, nas escolas, no ativismo e na arte -- e confiar que nos importamos.