quarta-feira, 17 de junho de 2020

SOMOS TODOS AROEIRA: GOVERNO NAZISTA PERSEGUE CHARGISTAS

Duas notícias inquietantes, e a meu ver interligadas, fizeram muita gente erguer as sobrancelhas. 
A primeira foi que a Folha de SP e quatro de seus cartunistas têm que se esclarecer criminalmente na Justiça a respeito de cinco charges que criticavam a violência policial no Brasil em dezembro. 
Foi quando uma ação policial durante um baile funk na favela de Paraisópolis causou nove mortes. Cartunistas incríveis como Laerte, Bennet, João Montanaro e Claudio Mor deixaram registrado o seu espanto através de charges contundentes, que publico aqui.
Só que, seis meses depois, uma associação bolsonarista chamada Defenda PM (de SP) considerou as charges "constrangedoras" e interpelou seus autores. Esse pedido de esclarecimento criminal serve como prelúdio a uma ação penal. 
A gente que é de esquerda e constantemente processada sabe que quase sempre esses processos têm como objetivo, muito mais do que ganhar a ação, incomodar e tentar silenciar. No caso, a tentativa é de calar chargistas, que se expressam através de ilustrações.
A outra notícia é que uma charge de Renato Aroeira (com quem compartilhei uma live da TV 247 no sábado; ele é uma simpatia, e muito inteligente) perturbou o governo. Pouco depois de outra declaração criminosa de Bolso -- esta incentivando seus seguidores a invadirem hospitais --, Aroeira fez esta charge brilhante:
A Secretaria Especial de Comunicação (Secom) avisou que Aroeira e o jornalista Ricardo Noblat (o primeiro a compartilhá-la) serão processados por crime de falsa imputação contra Bolso. 
Eu aposto que Bolso vai perder o processo. Afinal, há jurisprudência! Em fevereiro do ano passado, uma desembargadora do Rio decidiu que esta charge -- também do Aroeira -- não ofendia a honra de um sujeito que posa tranquilamente para fotos com nazistas. 
O capetão nazista perderá novamente!
A ameaça de processo criou uma onda de solidariedade para Aroeira, com a tag #SomosTodosAroeira e uma petição pela liberdade de expressão, que já conta com mais de 60 mil assinaturas. 
Vários chargistas criaram cartuns em sua homenagem. Outros reproduziram a charge de Aroeira usando seus próprios traços.
Sem medo, Aroeira também fez uma charge respondendo à ameaça de processo.

Pra mim é inacreditável que tudo bem mandar invadir hospitais (ainda mais em tempo de pandemia!), mas chamar de nazista quem manda invadir hospital dá processo.

terça-feira, 16 de junho de 2020

POR QUE SARA WINTER NÃO É EX-FEMINISTA?

Ontem a jornalista Nina Lemos, que tem uma coluna no UOL, me pediu pra explicar por que Sara Winter não é ex-feminista. Eu enviei o texto abaixo, que foi publicado hoje. Aqui acrescento algumas novidades.

Como feminista, me incomoda muito que Sara Giromini, hoje abertamente antifeminista, se defina (e seja definida por muitos) como ex-feminista. Mentirosa como é, ela inclusive se vende como ter sido a maior feminista do Brasil e ser pioneira do feminismo no país. Nada mais longe da verdade. Isso é um total desrespeito às mulheres que lutam por direitos há décadas.
Sara nunca foi feminista. Pelo contrário: 
em 2011, ano da primeira Marcha das Vadias, ela criticou manifestantes por saírem às ruas com pouca roupa ou "roupa de puta". No texto que escreveu, ela concluía que a marcha só queria ibope que o Brasil estava copiando o que vinha do exterior. Menos de um ano depois, ela decidiu fazer exatamente o que desdenhava: inaugurou o Femen no Brasil, modelando o Femen Ucrânia. 
Cruz de ferro tatuada
no peito
Sobre o Femen, os movimentos feministas sempre olharam com desconfiança. Primeiro que em nenhum momento o Femen Brasil tentou dialogar com feministas. Depois que o Femen, em geral, é um grupo midiático, comandado por homens, que tem inclinações neonazistas e anti-islâmicas. Parecia um grupo de inspiração fascista disfarçado de feminista, ainda que nunca se dissesse feminista -- se dizia "sextremista" (não sabemos bem o que é isso) e "neofeminista". Várias pessoas já denunciaram que as guirlandas de flores que suas integrantes usam são um símbolo da pureza ariana. No começo eu pensava: puxa, por que o Femen Ucrânia foi pegar uma jovem nazista pra representar o Femen Brasil? Depois entendi que Sara foi escolhida não apesar disso, mas exatamente por isso.
Na mesma época que Sara atacava as feministas da Marcha das Vadias, ela seguia comunidades integralistas e nacionalistas no Orkut. Algumas mais suaves eram “Odeio o PT”, “Resistência Anti-Comunista”, “Amo a Rota”, “Sou fã de Jair Bolsonaro”. Durante seus 15 e 16 anos, Sara fotografava bandas nazis e as entrevistava. São bandas abertamente racistas, antissemitas, anti-comunistas, de orgulho branco, de alimentar o ódio. Numa das entrevistas, a pergunta dela para um nazista começava com: "Sei que tens muitos problemas com os negros, índios e outras escórias do nordeste". Nessa época ela já tinha uma cruz de ferro tatuada no peito e já adotava o nome artístico de Sara Winter, homenagem a uma espiã nazista. 
Sara fez uma carreira lucrativa em cima de ter sido feminista. Nas palestras e testemunhos, ela diz que se curou do feminismo e que se arrepende. Nunca, porém, pediu desculpas por ter sido sido nazista. 
Depois que foi expulsa do Femen, ainda em 2012, por desvio de verbas, Sara continuou tentando usar a marca, mas foi proibida pelo Femen Ucrânia, que encerrou suas atividades no Brasil. Sara começou então um grupo chamado Bastardxs, em julho de 2013. Não deu certo. Ela tinha que fazer atos cada vez mais chocantes para chamar a atenção, como se alçar com ganchos na pele e castrar um boneco de Bolsonaro. Mesmo assim, não conseguia um décimo dos holofotes que tinha no Femen. 
Depois, seguiu um período perdida, em que gravou vídeos chorando dizendo odiar todos os homens, fez campanha para fazer parte do BBB (não foi aceita), gravou um comercial para o Dia dos Namorados com seu então noivo, um militar. Em 2015 ela já era cristã. 
Em 2016 já voltara a ser uma fiel apoiadora de Bolso. Em 2018 tentou ser eleita deputada federal pelo DEM. Com pouco mais de 17 mil votos, não se elegeu. Mas foi chamada por Damares para ingressar no Ministério de Direitos Humanos. Agora está aí fazendo tudo que estamos vendo. A estratégia é a mesma do Femen: chamar a atenção a qualquer custo e ser presa. 
Sara nunca foi feminista e nunca deixou de ser de direita. Até quando estava no Femen fazia homenagens a Margaret Thatcher. Ela apenas se desviou momentaneamente do seu curso. Desde 2015 voltou às suas origens. 
SARA NÃO TEM GRADUAÇÃO?
A novidade de hoje é que, mesmo que Sara saia da cadeia na sexta, quando se completam cinco dias da sua prisão temporária, esse breve período já terá servido pra alguma coisa. Ao preencher uma ficha na delegacia, Sara teve que ticar em "superior incompleto" como seu nível escolar. Isso chamou a atenção.
No primeiro semestre do ano passado, quando saiu a notícia de que Sara seria nomeada para um cargo no Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos, muita gente nas redes sociais questionou suas qualificações. Sara não gostou de ser considerada desqualificada e afirmou no Twitter que tinha "Graduação em Relações Internacionais, especialização em crimes na administração pública, experiência de 4 anos no campo da maternidade, conferencista internacional". Que se saiba, ela estava cursando R.I. em 2011, e trancou a faculdade particular à distância. Ninguém sabia se ela tinha voltado, se havia terminado. Mas quem precisa de graduação quando se tem "experiência no campo da maternidade"? Ô mães, fica a dica.
Falando sério! O UOL obteve, através da Lei de Acesso à Informação (maldita transparência!), o documento apresentado por Sara em maio de 2019 à pasta liderada por Damares. No currículo, Sara inclui no item "Formação", "graduação em Relações Internacionais, Uninter - 2019", e três cursos de extensão. Quanto a esses três cursos, não vejo problemas. São cursos, não diplomas, não títulos, e muita gente os inclui na categoria de "formação" do currículo. Mas percebam que, no Twitter, Sara havia dito ter especialização em crimes na administração pública". Curso de extensão não é especialização! 
No seu site oficial, Sara diz ser "graduada em relações internacionais com formação especial em assessoria e marketing político, e pós-graduanda em ciência política". Aqui, várias mentiras. Ela não completou a graduação. Curso de extensão não é "formação especial". E ela estava cursando Ciência Política em qual instituição? Isso não está no currículo entregue ao Ministério. A Uninter disse que a graduação está em andamento. 
Numa entrevista de abril do ano passado para a UOL, antes de assumir o cargo no Ministério, Sara disse que terminaria a graduação de R.I. no meio do ano. E também tinha outros planos: "Agora farei mestrado em bioética na Fundação Jerome Lejeune e uma pós em políticas públicas. Ainda estou escrevendo um livro. Falta ver a escolinha do meu filho, de 4 anos, e concluir a mudança para Brasília. O casamento sai no começo do próximo ano".
Seus planos não se concretizaram: ela não fez mestrado, nem pós em políticas públicas, não terminou a graduação, não escreveu um outro livro (apenas o primeiro, de 30 páginas), não casou (agora está com outro namorado). Ficou apenas cinco meses no Ministério, e foi exonerada em outubro. Recebia o salário bruto de R$ 5.685. Sua justificativa para sair é que ela queria liberdade para falar o que quisesse e que ganharia mais fora do governo. Num vídeo, ela disse que foi sabotada por funcionárias da pasta, todas feministas, que odiou estar na política, e que não queria mais isso pra ela, talvez só quando fosse velhinha.
Não é crime nenhum traçar projetos e abandoná-los pela metade. O problema é que, ao escrever em seu currículo que tinha graduação, pode ter incorrido em falsidade ideológica. Isso já é ruim, mas é ainda mais sério. 
Acontece que há requisitos exigidos para o cargo que Sara ocupou: ter idoneidade moral e reputação ilibada, ter perfil profissional ou formação acadêmica compatível com o cargo, e não se enquadrar nas hipóteses de inelegibilidade.
Fora isso, o DAS nível 3 exige que a pessoa deve atender a no mínimo um desses critérios: possuir experiência profissional de no mínimo 2 anos em atividades correlatas às áreas de atuação do órgão; ter ocupado cargo em comissão ou função de confiança em qualquer Poder; possuir título de especialista, mestre ou doutor em área correlata às áreas de atuação do órgão; ser servidor público ocupante de cargo efetivo de nível superior ou militar; ter concluído cursos de capacitação em escolas de governo. 
A formação e experiência profissional de Sara não se aplica às exigências do DAS nível 3. Em outras palavras: Sara não poderia ser contratada. Não basta ser amiga da ministra. Existem "critérios técnicos" básicos a serem cumpridos. 
Qualquer pessoa que está no serviço público sabe que, se você não entregar os documentos exigidos, você simplesmente não entra. Perdi a conta de quantas vezes nesses dez anos na universidade tive que apresentar meus títulos de graduação, mestrado e doutorado. Sara não apresentou seu diploma de graduação porque não tinha, nem tem, um. Quem permitiu que ela entrasse mesmo sem essa qualificação? Damares?
O UOL questionou o Ministério sobre a nomeação de Sara, que respondeu que "a referida ex-servidora apresentou toda a documentação que comprovava sua aptidão para o cargo". No entanto, quando a jornalista Constança Rezende informou que a faculdade não reconhecia a formação de Sara, o contato do Ministério disse que "estava verificando junto à área técnica". Depois não respondeu mais. A advogada de Sara tampouco. 
Sabemos que montes de bolsonaristas (o ministro contra o meio ambiente, a própria Damares, Witzel, só pra lembrar de cabeça) mentem no currículo. Mas no caso de Sara parece ser mais grave, pois ela não poderia ter sido nomeada sem a graduação completa.

segunda-feira, 15 de junho de 2020

FECHADA COM BOLSONARO, SARA WINTER FOI PRESA HOJE

Sara Winter conseguiu hoje o que tanto queria: ser presa.
Só não foi o ideal porque aconteceu às 6 e pouco da manhã na sua casa, longe das câmeras. Sara sempre fala que foi treinada na Ucrânia e que agora quer "ucranizar o Brasil" (não se sabe exatamente ao que ela se refere: afinal, a Ucrânia é o país mais pobre da Europa. E, ultimamente, tem se tornado o epicentro do neonazismo também). Ela é sempre meio vaga -- ela foi treinada quando fez parte do Femen, em 2012. Depois que foi expulsa também? 
De qualquer jeito, o que ela aprendeu no Femen Ucrânia ela levou pra sua vida. E as lições básicas dos protestos de topless eram que tinha que ter ampla cobertura midiática e precisava acabar com uma prisão. Se uma dessas duas metas não eram cumpridas, o ato era classificado como um fracasso.
Sara Fernanda Giromini, mais conhecida pelo seu codinome Sara Winter (homenagem a uma espiã nazista), vem caprichando no quesito "cobertura midiática". Faltava a prisão. Imagino a ansiedade que ela estava enfrentando ao ver que os dias passavam e ela não era presa. O que mais ela tinha que fazer, além de ameaçar ministro? Fazer marcha cosplay da Ku Klux Klan? Xingar policiais? Lançar fogos de artifício contra o prédio do STF? (esta última ação eu não sei se foi seu grupo 300 ou outro grupo bolsonarista golpista que promoveu. Mas hoje, depois da prisão de Sara, umas 8 pessoas do 300 soltaram fogos em frente à Polícia Federal). 
Não sei se vou ser capaz de resumir os atos mais recentes de Sara até aqui. Como eu disse, ela começou o grupo 300 do Brasil há algumas semanas, prometendo dar sono, suor e sangue pela nação. Seu principal chamamento para recrutar militantes era "vamos ucranizar o Brasil". Chegou a arrecadar mais de R$ 50 mil através de vaquinha. Ela, que já vivia em Brasília, armou o "maior acampamento da América Latina", com tendinhas todas iguais (compradas na Havan?), prometendo o extermínio da esquerda. 
Mas o que ela diz é sempre confuso e contraditório. Em várias entrevistas, ela fica indignada ao ser chamada de líder ou criadora do acampamento. Não deveria surpreender: ela já negou na minha cara ter liderado o Femen Brasil. 
Amanhã pretendo publicar um texto e fazer um vídeo falando do passado da Sara. Este texto é só pra tentar ver como ela chegou até a prisão hoje. 
Numa entrevista à BBC Brasil publicada no dia 13 de maio, Sara, 
que se descreve como "analista política e conferencista internacional", admitiu que havia armas de fogo no acampamento, mas que eram registradas e pertenciam a colecionadores de armas no grupo, e que elas seriam usadas para defesa. Reiterou que defende atos de ação não-violenta e que "absolutamente nenhum dos integrantes dos 300 do Brasil fala sobre 'milícia armada', muito menos sobre invadir o Congresso ou STF". No sábado último, seu vídeo tinha como título "Invadimos o Congresso Nacional" (mas era fake news: não invadiram. Só ficaram na área externa, cantando o hino e orando).
O pedido de prisão de hoje foi feito pela Procuradoria-Geral da República e aceito pelo ministro Alexandre de Moraes. Sara é uma das investigadas pela PF no inquérito que apura fake news. Em 27 de maio, a polícia entrou em sua casa e apreendeu seus computadores. Ele então gravou ameaças e insultos ao ministro. É importante destacar o que ela diz:
"Eu sou uma pessoa extremamente resiliente. Pena que ele [Alexandre de Moraes] mora em São Paulo. Se estivesse aqui, eu tava na porta da casa dele, convidando ele para trocar soco comigo. Juro por Deus, eu queria trocar soco com esse filho da puta desse arrombado. Infelizmente eu não posso. Mas eu queria. Ele mora lá em São Paulo, né? Você me aguarde, Alexandre de Moraes. O senhor nunca mais vai ter paz na vida do senhor. A gente vai infernizar a tua vida. A gente vai descobrir os lugares que você frequenta. A gente vai descobrir as empregadas domésticas que trabalham pro senhor. A gente vai descobrir tudo da sua vida. Até o senhor pedir pra sair".
Pareceu uma ameaça de violência e perseguição. Depois, em vídeos e tuítes, Sara minimizou suas declarações. Considerou que, por ela ser uma mulher baixinha, ela não poderia ameaçar ninguém, muito menos um homem. Sua prisão estava sendo cogitada desde então. 
No dia 31 de maio, ela resolveu dobrar a aposta: liderou uma marcha com tochas que sinistramente lembravam os protestos de supremacistas brancos de Charlottesville e da Ku Klux Klan. Não tinha nem trinta manifestantes, mas foi suficiente pra gente perceber o perigo que é a extrema-direita.
Esses últimos atos lhe renderam a expulsão do DEM (partido pelo qual havia concorrido à deputada federal em 2018, no Rio. Com 17 mil votos, ela não se elegeu. Em suas redes sociais na época, lamentou e disse ter errado de partido). Sara alegou que estava filiada ao Aliança -- partido que sequer existe até agora.
No dia 8 de junho, um dos advogados que defendem Sara (e processa "CPF por CPF" a quem a chama de nazista, miliciana, terrorista, fascista etc, conforme ela prometeu), revelou que pediu asilo político para Sara à Embaixada dos EUA -- e que o pedido foi negado. Alguns dias depois, Sara afirmou que essa notícia é fake news e que iria processar todos que a escreveram ou espalharam (mesmo que a notícia tenha partido do seu advogado). Segundo ela, não foi pedido asilo pra ela, só pra sua mãe e o filho dela, e não foi negado, porque foi só uma sondagem.
Este último sábado, 13 de junho, foi agitado para Sara. Às 6 da manhã, a polícia militar de Brasília removeu o acampamento dos 300 e de outro grupo bolsonarista. Ela escreveu em seu Twitter: "A militância bolsonarista foi destruída hoje. Presidente, reaja!" Revoltada, gravou um vídeo em que ela começa dizendo: "A polícia tirou todas as nossas coisas, nós que somos patriotas, mas os esquerdistas estão protestando aqui, pois agora nós vamos acabar com a raça desses filhos da puta". E se dirigiu, junto com seus militantes, à gente que protestava lá perto pelo impeachment de Bolsonaro e a favor dos profissionais de saúde. 
Sua estratégia é comum na direita: eles invadiram o espaço de quem estava protestando pacificante, cada um literalmente no seu círculo, para manter o isolamento social. Sara entrou no círculo de um manifestante e, sem máscara, bem pertinho, passou a provocá-lo: "Olha o relógio que você tá usando, é caro pra c*ralho". O manifestante de esquerda, hiper paciente, não respondeu nada. Depois de 5 minutos, Sara esgotou seu discurso anti-comunista e passou a falar da culinária ucraniana (não tô inventando!).
Um PM explicou pacientemente pra Sara e sua turma: "Se os senhores querem contestar que tiramos seu acampamento, tá certo. Mas tem os fóruns pra isso. Frustrar uma outra manifestação com documentos protocolados para poder fazer esse ato é um confrontamento direto à Constituição". Seria bacana se os PMs também tratassem negros, pobres e manifestantes da esquerda com tanta educação e respeito.
Pouco depois, houve uma carreata pró-impeachment que passou em frente. Sara e seu grupo 300, que tinha talvez 15 pessoas, foram à avenida hostilizá-los. Gritavam "Acabou o dinheiro" e "maconheira abortista" e faziam sinais ofensivos com as mãos. Houve um momento em que alguns dos 300 aplaudiram os PMs, e levaram bronca da líder Sara: "Enquanto eu não descobrir quem tá comigo e quem não tá, não vai levar palma não". 
Mais tarde, foi a hora dos 300 patriotas (contei doze) "invadirem" o Congresso Nacional, munidos de bandeiras do Brasil, EUA e Israel, naquele raro momento de patriotismo em que se sente mais orgulho de outros países. Sara gritava: "Tira a nossa barraca, a gente tira o Congresso deles".
Na noite de sábado, bolsonaristas lançaram durante pelo menos 5 minutos fogos de artifício na direção do prédio do STF, enquanto chamavam os ministros de comunistas e mandavam que eles se preparassem. 
Ontem Renan Silva Sena, aquele um que havia agredido enfermeiras num protesto em maio, foi preso, acusado de ser um dos que lançaram os foguetes contra o STF. O carro em que ele estava não obedeceu ao comando, arrancou e arrastou um policial. Ele foi liberado após assinar um termo de comparecimento em juízo.
Ainda ontem Sara e seus dez, quer dizer, 300, disseram que Renan é o líder de outro acampamento bolsonarista (este "intervencionista", eufemismo pra golpista), e prestaram solidariedade a ele. Para ela, ele foi preso por dizer aquilo que todos eles concordam: que o governador do DF Ibaneis Rocha (MDB) é bandido e que o STF é uma ditadura comunista. 
E hoje de manhã Sara foi presa. Além dela, outras cinco pessoas do grupo 300 tiveram prisão decretada, mas seu nomes ainda não foram divulgados. Não é uma prisão preventiva, mas uma temporária por cinco dias, que pode ser prorrogada por mais cinco dias. Este inquérito pelo qual Sara foi presa se refere a protestos antidemocráticos (talvez atos como o de lançar fogos contra o STF podem estar inclusos, se forem considerados uma violação à Lei de Segurança Nacional).
Sara ainda é alvo de dois inquéritos: o das fake news e o de improbidade administrativa pelo Ministério Público Federal do RJ, que investiga os R$ 25 mil usados por ela no Fundo Especial de Financiamento de Campanhas em 2018. 
Grupos bolsonaristas estão chamando Sara de "terceira presa política do Brasil" (os outros dois seriam reaças que protestaram em frente à casa de Alexandre de Moraes, em maio) e puxando a sardinha da vitimização para si. Para eles, "já é crime defender o presidente".
Carla Zambelli, que odeia e é odiada por Sara (a ponto de Sara fazer um vídeo dizendo que Carla fez um aborto enquanto estava no Femen e Carla processá-la pelo vídeo; ela desistiu do processo agora), revelou no Twitter que Sara tem personalidade explosiva, mas não é perigosa, e quis saber se ela, Carla, for presa, os movimentos defensores de mulheres irão defendê-la. Só posso falar por mim, Carla. A resposta é NÃO, vai pro inferno. Por que mulheres reaças que vivem atacando feministas sempre pedem ajuda às feministas? 
Hoje de manhã Oswaldo Eustáquio (que já foi processado por Glenn Greenwald por dizer que a mãe de Glenn estava fingindo estar com câncer; a mãe de Glenn morreu pouco depois e Oswaldo terá de pagar R$ 15 mil), que se autointitula o maior jornalista investigativo do Brasil, fez live no canal de Sara (que ele chama de "ativista pró-vida que salva vidas") para pedir dinheiro pra ela, dizer que a médica Nise (uma das cotadas para ministra da Saúde) é a maior autoridade sobre a pandemia no mundo e que o STF deve responder a crimes contra a humanidade por responsabilizar médicos que receitarem cloroquina a pacientes de covid. "São 11 ministros do STF que estão governando para o PT", concluiu o barbudo, no melhor estilo "E o PT? E o Lula?"
Para Sara, ser presa é sem dúvida a realização de um sonho. Ela quer ser mártir muito mais do que quer ser política. Pra quem diz que devemos parar de falar nela por que isso é dar-lhe votos, ela não será candidata este ano, até por não ter partido. Certamente ela tem grandes ambições para 2022, mas resta saber se ela se manterá em evidência até então. As maiores dúvidas são quem a financia e se a familícia Bolsonaro lhe dará apoio explícito, ou só por baixo dos panos.