domingo, 5 de julho de 2020

BOLSO SE EXCITA COM A MORTE

Acima está um bom resumo de João Moreira Salles sobre o modo Bolsonaro (vulgo "e daí?") de comemorar cada novo recorde de mortes por covid.
O resto do artigo também é ótimo. Salles diz que não existe mais trauma nacional porque tanto Bolso quanto Trump acabaram com a noção da coletividade. Há agora "meus americanos e meus brasileiros". "Convocar os cidadãos a compartilhar a dor de tantas mortes seria afirmar que todas têm o mesmo valor". 
Bolso apenas copia Trump quando fala em gripezinha, vírus chinês, cloroquina. Sequer consegue ser original. Para Salles, Trump não tem empatia devido ao seu narcisismo, mas nisso Bolso é diferente: a morte o excita. E mais: "não existe bolsonarista sem pulsão de morte". 
Leiam. A propósito, o Brasil caminha para as 65 mil mortes por covid. Calcula-se que o número real seja pelo menos sete vezes maior. 
Para Salles, esta imagem num comício no Acre de setembro de 2018 de Bolsonaro convidando o público para fuzilar a petralhada revela um gozo pornográfico do então candidato, agora presidente

sexta-feira, 3 de julho de 2020

COM O CENTRÃO, BOLSO TENTA SALVAR OS FILHOS E A SI MESMO

Reproduzo aqui hoje o artigo que o candidato a presidente Guilherme Boulos (Psol) publicou na Carta Capital esta semana. Boulos traduz como poucos o que se passa na política brasileira atualmente.

Bolsonaro vende o Brasil para o Centrão para se livrar do impeachment e salvar seus filhos da cadeia. Eleito com a promessa de “mudar tudo o que está aí” e acabar com a corrupção, nem faz questão de esconder isso. O ministro Luiz Eduardo Ramos, da Secretaria de Governo, declarou serenamente há alguns dias: “Temos um quadro de quem vota e de quem não vota conosco. A negociação é com os partidos. O senador Ciro Nogueira, presidente do PP, tem 70 votos. Por isso, ele tem espaço no governo com o Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação. Ele assumiu o compromisso de ser governo. Exijo um nível de fidelidade de 80%”. Até cláusula de desempenho o Centrão ganhou agora.
Exemplo caricato dos (nem tão) novos amigos de Jair Bolsonaro é Roberto Jefferson, um dos camaleões mais desavergonhados da história da política brasileira. Nos anos 1990, era líder da tropa de choque de Collor. Depois, foi acusado de participar do esquema de compra de votos da reeleição de FHC. Anos mais tarde, estava no centro do chamado “mensalão” e admitiu que vendia votos por dinheiro e cargos. Teve o mandato cassado, foi condenado pelo Supremo e preso. Agora, virou bolsonarista de carteirinha. Posa em foto com fuzil na mão, ameaça o País com golpe militar e diz que está na linha de frente do governo.
O PTB de Jefferson é do Centrão, que se aliou com Bolsonaro nos últimos meses. Na prática, considerando o desgaste do governo com setores da ativa das Forças Armadas e sua perda de apoio social, é razoável supor que esse bloco fisiológico se tornou o maior fiador da governabilidade. Sem o apoio desses partidos, provavelmente o processo de impeachment já estaria em curso na Câmara.
Mas quem são eles? O termo Centrão é antigo e nem sempre significou a mesma coisa. Começou a ser utilizado durante a Assembleia Constituinte de 1988, como um grupo de apoio a José Sarney. Eles se definiam como um campo suprapartidário e “conservador”. Representavam interesses da elite econômica, preocupada em barrar “direitos demais” na democracia nascente. Ou seja, eram deputados que fizeram um bloco para conter o avanço de reformas populares na formação da Nova República.
O formato atual do Centrão foi desenhado pelo gângster Eduardo Cunha. Ele criou um sistema para eleger deputados com financiamento ilegal e montou uma bancada particular. Acumulou poder. Em 2014, comandava 220 deputados e 13 partidos, quase metade da Câmara. Obviamente, não foi ele quem inventou o toma lá dá cá na relação entre o Executivo e o Legislativo, mas o elevou à categoria da chantagem explícita. 
Além disso, se ainda existia algum elemento de contrapeso institucional do antigo “centro democrático” de Ulisses Guimarães, ele desapareceu inteiramente. Cunha não hesitou em provocar implosões institucionais em nome do interesse próprio e de seu bloco.
Neste sentido, preparou terreno para que o Centrão pudesse ser base de um governo que prega fechamento do Congresso e ruptura democrática. Bolsonaro, pela primeira vez na defensiva, tampouco se fez de rogado em abandonar o figurino de “antissistema” para cair nos braços do modelo de governabilidade daquilo que ele chamava de “velha política”.
Assim, entregou o FNDE ao PP, com orçamento de 54 bilhões de reais. Um prato cheio para desvios… No ano passado, o Fundo anunciou que realizaria um leilão para compra de “equipamentos de tecnologia educacional para a rede pública de ensino”. Queriam comprar 1,3 milhão de computadores, num total de 3 bilhões de reais. Curiosamente, só uma escola da minúscula cidade mineira de Itabirito receberia 30 mil laptops, algo como 118 notebooks para cada aluno. No total, 355 escolas receberiam mais de um laptop por aluno.
É só um exemplo. Tem também a Funasa, vários departamentos de segundo escalão e autarquias regionais. Sem contar a recriação do Ministério da Comunicação, entregue ao genro de Sílvio Santos, também deputado do Centrão. No total, um levantamento feito pelo site Poder 360 mostrou que o governo Bolsonaro liberou cargos que chegam a 68 bilhões de reais em orçamento para investir em 2020.
Em troca disso tudo, Bolsonaro calcula os votos. Precisa garantir que 171 deputados apoiem seu governo genocida e evitem a abertura de um processo de impeachment. O Centrão, convenhamos, estará com ele enquanto for conveniente. Já mostrou no impeachment de Dilma Rousseff que fidelidade não é o seu forte. 
No ritmo em que o governo tem perdido aprovação e colecionado escândalos -– sobretudo se Queiroz resolver falar o que sabe -– talvez esse casamento de conveniência não complete aniversário. Até então o Brasil segue governado por uma aliança única e grotesca entre terraplanistas, milicianos e mercenários.

quinta-feira, 2 de julho de 2020

FOI RACISMO NO CASO DECOTELLI?

Está havendo uma discussão interessante sobre se a demissão do ministro da Educação, Carlos Alberto Decotelli, foi uma atitude racista ou não. E eu queria compartilhar minhas reflexões.
Eu falei bastante dos "erros", "inconsistências", "falhas" ou, sem eufemismos, fraudes no currículo do ex-ministro, o que foi sem nunca ter sido. Mesmo que eu e tantos outros que criticaram Decotelli não mencionamos sua raça, é óbvio que ela está presente. Está na cara: Decotelli é negro. Não dizer que ele é negro não esconde o fato. Óbvio que, se alguém o critica por ele ser negro, a pessoa está sendo racista. 
Ele ser nomeado por um presidente considerado racista não pode ser deixado de lado. Na mesma hora do anúncio da nomeação, comentários no meu blog exigiam que eu explicasse como um ministro negro foi escolhido por um governante acusado de ser racista (a ironia é que aposto como essas cobranças quase sempre vêm de neonazistas, abertamente racistas). Já ficava aparente que Bolso e seus seguidores tentariam usar a imagem de Decotelli para "provar" que não são racistas. Pô, ele até nomeou um negro!
É só lembrar que uma anta como a Carla Zambelli imediatamente usou a nomeação de Decotelli para se posicionar contra as cotas raciais. Ela escreveu: "E aí, Tabata Amaral -- vai ter 'coragem' de criticar o novo ministro? Sabia que ele não precisou de cota para conseguir este currículo?" Inútil discutir com a deputada que as cotas raciais sequer existiam em 1976, quando ele ingressou na faculdade, ou em 2007 para pós-graduação, quando ele entrou no mestrado. 
O início do fim veio com o aviso do reitor da universidade argentina de que Decotelli não teria concluído seu doutorado. Assim que surgiram os primeiros indícios de que Decotelli não era doutor, apareceram também bolsonaristas chamando de "racista" qualquer um que questionasse as qualificações do novo ministro. Mas isso não conteve a avalanche de mentiras reveladas: em menos de quatro dias, Decotelli já não era mais doutor nem pós-doutor e havia plagiado sua dissertação de mestrado. 
Ainda assim, ele conversou com Bolso (no que deve ter sido um dos momentos mais difíceis de sua carreira: como explicar pra um paraquedista quadrúpede o que é mestrado, doutorado, universidade, pesquisa, essas coisas?) e se manteve no cargo, apesar da cerimônia adiada.
A pá de cal, segundo o próprio, veio com a "fake da FGV", que "destruiu a [sua] carreira no MEC". A fake não foi exatamente fake. 
A FGV afirmou que Decotelli não foi professor efetivo na instituição, "tendo atuado apenas nos cursos de educação continuada, nos programas de formação de executivos e não como professor". Mas não é bem assim: professor colaborador ainda é professor, ué! Foi nesse momento que o ministro pediu demissão. 
Foi sim sacanagem da FGV chutar cachorro morto. Decotelli mostrou para um colunista da Época seis prêmios em reconhecimento a seu trabalho como docente nas turmas de MBA. São declarações de "professor homenageado". Ele foi professor de 25 turmas em cinco disciplinas, sempre avaliado com nota 10. 
Nisso -- e só nisso, pelamor! -- eu tenho que concordar com a irmã de Paulo Guedes, Elizabeth, presidente da Associação Nacional das Universidades Particulares, e amiga de Decotelli há trinta anos. Ela disse: "A FGV foi covarde. Fazer diferença entre professores efetivos e colaboradores é uma piada. Se a FGV for ver quais são os efetivos vai dar 1/5 dos professores que ela tem lá. Todo mundo é PJ". Ela também cobrou o movimento negro para que defendesse o ex-ministro.
Na realidade, posso até entender a frustração da FGV. Primeiro que Decotelli mentiu pra universidade alemã ao dizer que era pesquisador da FGV (se não era professor efetivo, não era pesquisador). Mas o principal foi ter plagiado a dissertação de mestrado que Decotelli fez na própria FGV. Não é só pro aluno que pega mal plagiar. Pega mal pro orientador e pra banca que não detectaram o plágio. Pega mal pra instituição, que aprovou um trabalho plagiado. 
Imagino que a FGV deve estar furiosa por ter que formar comissão pra investigar acusações de plágio de uma dissertação aprovada doze anos atrás. E ainda por cima Decotelli declarou, antes de se demitir, que iria revisar o trabalho e que, se houvesse "falhas metodológicas", ele as corrigiria com a FGV (ele também disse que plágio é control c, control v, e que não foi isso que ele faz -- plágio é bem mais do que isso! Aliás, calcula-se que 73% da dissertação foi copiada de outras fontes). Pareceu um meio muito leniente de "resolver" o maior crime que se pode cometer na academia. 
Pra piorar, a FGV também tem que responder a algumas perguntas. Por exemplo, ela apresentava Decotelli nos cursos de MBA como doutor? Porque se fazia isso, ela também estaria se beneficiando de uma fraude. Ela pagava o ex-ministro como mestre ou como doutor?
Essa história toda ainda vai dar pano pra manga. E Decotelli pode sim perder o título de mestre. Antes de continuar, gostaria de compartilhar as opiniões de pessoas mais gabaritadas do que eu.
O grande jurista e professor Silvio Almeida fez uma thread no seu Twitter na sexta (se não viu, veja sua entrevista no Roda Viva). Concordo totalmente com ele. Aliás, tudo que ele diz sobre os negros se aplica também às mulheres: 

Um fio sobre consciência racial, responsabilidade e o "direito de mentir"
A consciência racial é também uma forma de autodefesa. Aprendi logo cedo que seria cobrado pelas minhas ações e palavras de uma forma que as pessoas brancas jamais seriam. 
Aprendi que meus erros não seriam vistos como erros de um indivíduo, mas de "todos os negros". São várias as circunstâncias que podem nos levar a cometer erros. Pressão por resultados, escassez de oportunidades, necessidade permanente de competição, vaidade, lucro etc.
Em um mundo atravessado pelo racismo, é preciso ter consciência do modo com que as pressões por resultado e por prestígio se colocam sobre pessoas racializadas e como as consequências por erros cometidos são sentidas de forma diferente por brancos e negros. 
Mentir no currículo tem consequências devastadoras quando se é negro, pois todos vão olhar para a sua raça e vinculá-la ao erro cometido. A avaliação moral não será feita sobre o indivíduo, mas sobre os negros em geral. É assim que funciona o racismo.
Quando se é branco -- principalmente, se for homem e apoiado por certas instituições -- você pode ser um jurista medíocre, um economista alienado, um "filósofo" delirante; pode mentir que estudou em Yale ou Harvard ou que tem doutorado, ser plagiador que isso será absorvido.
Mas se você for negro será cobrado por cada gesto que fizer no dia seguinte à exposição do seu ato. Sempre vão lembrar do que você fez e de que você também É um negro. E você será abandonado na estrada. E "nós que lutemos" para lidar com a hipocrisia e a seletividade racista.
Adendo: por isso também as políticas de cotas são importantes. Com elas as oportunidades são alargadas e podem as minorias estar na Universidade como parte de uma política de Estado e não como um feito de um indivíduo excepcional, que valida uma suposta "meritocracia".
Adendo 2: Não que feitos incríveis de indivíduos não devam ser valorizados. O sucesso individual não pode ser o índice para se afirmar o quanto uma sociedade é mais ou menos justa. A sobrevalorização da excepcionalidade serve tão somente para legitimar a desigualdade.

Li também um texto do jornalista e roteirista Lelê Teles para a revista Fórum. Concordo com ele (e com Frantz Fanon) que "ao homem negro, dentro da superestrutura criada pelo e para os brancos, não lhe é dada a prerrogativa do erro, há sempre uma espada apontada para o seu pescoço. e o carrasco, carrancudo, treme de ansiedade para receber a ordem capital: decapitar!" 
Mas discordo que o grande erro de Decotelli foi não ter se dado conta de que ele não tinha o direito de transgredir. 
Os exemplos que Lelê usa são fracos. O jovem trabalhador "pardo e gay, agredido violentamente por uma evangélica em seu local de trabalho" pode não ter sido acudido na hora, mas todo mundo ficou do lado dele quando o vídeo apareceu nas redes sociais. Tampouco os 65 plágios de Joice Hasselmann foram esquecidos. Eles são eternamente lembrados por pessoas de esquerda (e, agora, por pessoas de direita iradas por sua oposição a Bolso). Joice carrega sim essa mancha na testa, para sempre. 
Mas o racismo sempre está presente. E fico tentando imaginar o que aconteceria com um cara branco exatamente na mesma situação que Decotelli: ele continuaria no cargo?
Sinceramente, não sei. Citar outros ministros de Bolsonaro que também mentiram no currículo não é tão equivalente. Pra começar, tanto Damares quanto Salles foram nomeados no início do governo, junto a outros vinte ministros. Havia inúmeras "irregularidades" a respeito de todos os 22. Pô, Salles tinha sido lobista de pecuaristas, e agora ele era ministro do meio ambiente?! Damares era, e é, uma completa lunática fanática religiosa. Não foi um choque que a mulher que viu Jesus na goiabeira inventasse "mestrados bíblicos".
Mas nenhum dos dois tinha currículo Lattes, e me parece mais sério um ministro da Educação mentir sobre sua formação do que ministros de outras áreas. Decotelli foi atualizando seu currículo a cada nova revelação, e o MEC se tornou seu assessor de imprensa, defendendo o indefensável (dizendo que ele era doutor por ter concluído os créditos sem defender a tese). 
Nessa hora o MEC não estava apenas passando pano pro Decotelli, mas abrindo brecha pra que milhares (milhões?) de estudantes que cursaram as disciplinas numa graduação, numa especialização, num mestrado e num doutorado mas que por algum motivo não escreveram ou defenderam ou aprovaram o TCC, a dissertação ou a tese passem a se dizer graduados, especialistas, mestres e doutores. É muito grave! 
Decotelli não precisava ter mentido. Seu currículo mesmo sem as fraudes já era infinitamente melhor que o de Weintraub, este sim um medíocre pra ninguém achar qualidade. 
E tem o timing também. Estes últimos dias têm sido calmos em comparação aos outros. Faz mais de uma semana que Bolsonaro, na tentativa de "pacificar os três poderes" e de tentar se salvar de um impeachment ou de uma cassação, não dispara algo polêmico. Talvez por isso tenhamos gastado tanto tempo falando de Decotelli.
Se ele fosse branco, teria sido empossado ministro, apesar das fraudes? Provavelmente sim. Mas teria sido achincalhado do mesmo jeito. 
Não sei se é o caso de "olha o péssimo exemplo que um negro está dando para outros negros". É mais "olha o péssimo exemplo que um ministro do MEC está dando pra estudantes de graduação e pós-graduação". 
Eu tenho mais certeza do racismo em outra situação: quem usa este caso para generalizar qualquer coisa negativa sobre negros é racista. Ponto final, não aberto à discussão. Se a demissão de Decotelli foi motivada por racismo, é mais difícil bater o martelo. É tão raro ter ministro negro que mal dá pra tecer comparações! E a ausência de negros nos ministérios e em cargos de poder em geral é sim devido ao racismo. 
Vejam o vídeo no meu canal e inscrevam-se no Fala Lola Fala, por favorzinho!

quarta-feira, 1 de julho de 2020

AÇÃO CONTRA O GOVERNO POR ATAQUES A JORNALISTAS

 
No final do ano passado, 
participei de uma reunião em SP da Rede Nacional de Proteção a Comunicadores, uma iniciativa de institutos como o Vladimir Herzog, Repórteres sem Fronteiras,  Intervozes, FENAJ, e Artigo 19, entre outros, para tentar proteger jornalistas e blogueiros que vêm sendo atacados por um governo inimigo da imprensa e dos direitos humanos.
Agora esta Rede Nacional entrou com uma ação na Justiça para que jornalistas possam cumprir seu trabalho em segurança. 

Após veículos deixarem de cobrir entrevistas de Jair Bolsonaro nos arredores do Palácio da Alvorada, organizações da sociedade civil recorrem à Justiça para que sejam implementadas medidas de segurança a fim de garantir a atuação dos profissionais de imprensa
Entidades da sociedade civil protocolaram nesta terça-feira, 30 de junho, em Brasília (DF) uma ação contra a omissão do Governo Federal em promover medidas de segurança para garantir a atuação de jornalistas e comunicadores que cobrem as entrevistas do presidente Jair Bolsonaro na área próxima ao Palácio da Alvorada, popularmente conhecida como “cercadinho”.
A ação é assinada por Instituto Vladimir Herzog, Federação Nacional dos Jornalistas (FENAJ), Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Distrito Federal, Intervozes - Coletivo Brasil de Comunicação Social, Repórteres sem Fronteiras (RSF) e Artigo 19. O grupo é representado pelo escritório Aragão e Ferraro Advogados. A iniciativa surgiu a partir da Rede Nacional de Proteção a Comunicadores, projeto que reúne coletivos e organizações de todo o Brasil e que desenvolve estratégias para coibir os casos de violação à liberdade de expressão ao redor do país.
Desde maio, diversos veículos de imprensa, entre eles os grupos Globo, Bandeirantes e Folha, não enviam repórteres para cobrir as entrevistas concedidas pelo presidente no local. A decisão veio após apoiadores de Bolsonaro, que dividem o mesmo local com os jornalistas, subirem o tom das ameaças e dos ataques contra os profissionais de imprensa.
Em resposta a uma reivindicação do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Distrito Federal, o Gabinete de Segurança Institucional da Presidência da República (GSI) chegou a promover novas medidas de segurança e uma nova divisão dos espaços destinados a jornalistas e apoiadores do presidente, mas as iniciativas foram consideradas insuficientes. O chefe do GSI, general Augusto Heleno, em conversa registrada pelo Grupo Bandeirantes, disse que não iria conter ameaças e agressões verbais, e que os jornalistas tinham que “fingir que não ouviram” ao serem ofendidos.
A ação lembra que os ataques a jornalistas não configuram um episódio isolado e que, desde a cerimônia de posse de Jair Bolsonaro e durante todo este ano meio de governo, foram registrados incontáveis relatos de tratamento abusivo do presidente, seus familiares, ministros e apoiadores contra profissionais de imprensa.
Segundo o texto da peça, a liberdade de expressão é um elemento indispensável para a construção e a manutenção de um Estado democrático de direito pleno, não apenas no que diz respeito à possibilidade de expressão em si, mas ao direito de captação e transmissão de informações, intrinsecamente relacionado à atuação de jornalistas e comunicadores, e ao direito da população de ter acesso a essas informações. 
Em outras palavras, a proteção aos profissionais de imprensa é, acima de tudo, uma garantia ao direito de liberdade de expressão, pilar fundamental para o bom funcionamento da democracia e condição necessária para o exercício da cidadania.
Diante da omissão do Governo Federal, as entidades mencionadas entraram com uma ação civil pública exigindo novas medidas de segurança para jornalistas e comunicadores atuarem no local. 
No processo, são citados como responsáveis por promover tais medidas o presidente Jair Bolsonaro; o chefe do GSI, Augusto Heleno; além do novo ministro das Comunicações, Fábio de Faria; e do chefe da Secretaria Especial de Comunicação Social (Secom), Fabio Wajngarten.
Após ser protocolada, cabe agora à Justiça do Distrito Federal uma decisão sobre o juízo da ação.