domingo, 12 de agosto de 2018

A MORTE DA PM E A PROIBIÇÃO DE UMA PEÇA

Tem um mascutroll insistindo pra que eu fale de uma policial militar que foi assassinada em SP. Óbvio que o troll não tem nenhum interesse em saber sobre a PM em si. É só mais uma oportunidade pro cara que parte de premissas erradas -- "vc odeia a polícia e é hipócrita porque só dá valor a mulheres que são feministas" -- me xingar.
Há inúmeros motivos pra eu não destacar algum assunto aqui no bloguinho. Eu posso não saber que o tal assunto aconteceu. Eu posso não ter tempo em escrever sobre isso. Eu posso achar que não tenho nada além do óbvio para acrescentar ao assunto. Eu posso não escrever sobre um assunto justamente porque um mascutroll me cobrou pra escrever, e eu não gostar de seguir ordens de um ser repulsivo. Eu posso sugerir que a pessoa comece o seu próprio blog e lá escreva sobre tudo que achar importante. 
O caso de que só fiquei sabendo através da insistência do mascutroll foi o seguinte: Juliane dos Santos Duarte, ou Dudu Duarte (há dúvidas se era uma mulher cis lésbica ou um homem trans hétero), policial militar, foi assassinada numa favela em SP. Seu corpo foi encontrado quatro dias depois. Como a maioria dos PMs mortos, ela estava fora de serviço. 
Fiquei sabendo dessa notícia muito por cima, porque passei boa parte da semana passada em Brasília, participando de um colóquio internacional incrível sobre análise do discurso, onde tive a honra de dar a conferência de encerramento. Quando voltei, vi na minha timeline do Twitter muita indignação com uma matéria da Folha de S. Paulo, que falava do "intenso dia de férias" da PM antes de ser baleada. 
Como bem explica o Intercept, Juliane foi morta duas vezes: pelos criminosos que a mataram e pela imprensa. De fato, ao ler a notícia da Folha, vem a pergunta: 
se a vítima tivesse sido um homem cis hétero, haveria tantos detalhes sobre o que ele bebia e com quem ele saiu? Qual a necessidade de descrever fisicamente a mulher com quem a PM flertou? Como escreveu o Intercept: "Dizer que a PM viveu seus últimos momentos de vida com 'bebida, beijos e dança', em uma narrativa com chave erótica, foi a escolha mais desrespeitosa possível ao tratar de uma policial militar morta brutalmente e que tinha direito de se divertir como bem entendesse em seus momentos de folga". 
É lamentável o assassinato da PM. Lamentável o tratamento de parte da mídia sobre o assunto. E lamentável também a estupidez do troll em querer ditar sobre o que devo escrever.
Depois eu vi que toda a direita fez comparações cretinas entre a repercussão dada à execução da PM com à da vereadora Marielle Franco. A execução de Marielle foi política! E só pros reaças saberem: Marielle (e tantos ativistas de Direitos Humanos) dava amparo a familiares de PMs assassinados e lutava contra esse tipo de crime. A narrativa de que ativistas não se importam com a morte de policiais é uma ficção. 
JESUS DISSE: VAI TER PEÇA SIM
Aliás, aproveitando o domingo e o post curto, tem uma outra notícia que eu queria registrar: no final de julho, no 28o Festival de Inverno de Garanhuns, foi apresentada a peça Jesus, Rainha do Céu. Um desembargador, atendendo ao pedido da Ordem dos Pastores Evangélicos de Garanhuns, havia proibido o espetáculo por "retratar Jesus indevidamente". Motivo: quem interpreta Jesus é Renata Carvalho, uma atriz trans.
Isso, que eu saiba, tem nome: censura. Mas Renata e o pessoal de Garanhuns foi forte. Fez o espetáculo com recursos próprios, sob chuva, sem iluminação, com som cortado, desafiando um batalhão da PM que fora enviado para impedir a peça. Um grande sucesso de desobediência civil. Uma catarse.
Renata afirmou: "Desde que a peça estreou, há dois anos, em Londrina, sofremos perseguições. Esse ódio se deve à construção social, à folclorização e à criminalização dos corpos trans. Por isso, lutamos por representatividade trans. Queremos estancar a sangria. No Brasil, a vida média de uma trans é de 27 anos". 
Por coincidência, 27 anos era a idade da PM Juliane -- ou Dudu -- quando foi assassinada. 

21 comentários:

Anônimo disse...

depois os crentelhos e câncervas vem cobrar "liberdade de expressão"

Cyan disse...

Amei

titia disse...

Ouço esses machistas e religiosos hipócritas (tenho um bocado de ambos na família, infelizmente) e só me pergunto quantos desses pináculos da moral e dos bons costumes falam horrores de transgêneros e travestis na rua/no púlpito/na mesa do bar/na internet mas ao chegar em casa ligam o xvídeos e batem uma punheta sinistra para "shemales". Não, eles não querem extinguir pessoas trans, de jeito nenhum querem eliminá-las; querem apenas que elas fiquem nas sombras, marginalizadas, excluídas, caladas, servindo de brinquedo sexual para os "cidadãos de bem", de receptáculo para suas pulsões mais degradantes e sombrias. Como sempre, os que mais enchem a boca pra dizer que são honestos são os mais perversos e execráveis.

Anônimo disse...

mostre-me nos comentários onde xinguei vc que eu nunca mais comento aqui. Só estou mostrando a hipocrisia da esquerda. Ah, e o que saiu na foice de SP foi: passa as últimas horas do seu dia em bebida, PEGAÇÃO e dança, não beijos.

Anônimo disse...

Lola, a Ju era uma mulher lésbica que não gostava (nem um pouco) de ser tratada por 'ele', fato este corretamente apurado e divulgado pela Ponte.org. Como lésbica que não performa feminilidade, gostaria de sugerir mais cuidado para evitar o nosso sistemático apagamento. Lésbicas butch como eu e a Ju sofrem pressão de ativistas para "transicionarem" e isso precisa acabar. Obrigada.

Anônimo disse...

Tb tenho uma cambada de religiosos hipócritas e donos da verdade na minha família. Por isso mantenho a maior distância possível...

Felipe Roberto Martins disse...

São vidas. Pessoas são pessoas, todas as vidas são importantes.

Anônimo disse...

A família e os amigos dela já falaram que ela era uma mulher lésbica. Ela apenas usava calça e cabelos curtos. Isso não fazia dela um homem. Agora, o determinismo de gênero se tornou tão impositivo que usar calças largas é definição de homem ou trans. Na minha opinião, a morte da PM também foi política, pois explicita como existem espaços na cidade completamente fora do controle estatal. E isso já extrapolou todos os limites possíveis. Não podemos continuar vivendo dessa maneira, tolhidos no nosso direito de ir e vir ou vivendo sob as ordens de criminosos. É completamente imoral que o Poder Público e a imprensa tratem com naturalidade essa situação.

Anônimo disse...

Um absurdo essa proibição da peça. É a ditadura do politicamente correto.

Não posso fazer nenhum critica a cultura africana (por mais insignificante e verdadeira que seja) que sou logo "rotulado" de racista.


Anônimo disse...

Neste caso mostrou me como a Direita e hipocrita pous vi reportagens nas paginas de esquerda respeitosas mas quando Marielle faleceu foram os conservadores que espalharam mentiras

Anônimo disse...

Li essa matéria da Folha desavisada, fiquei chocada. Com os detalhes narrados quase como numa novela. A policial foi exposta, assim como a crueldade dos membros do tráfico de drogas. Fiquei mal, chorei ao imaginar a mulher nas mãos desses homens, da tortura que sofreu, enfim.
Por outro lado, não vejo relatos assim das atuações da nossa polícia fascista. Não estaria ela pagando (injustamente, fisa-se, por favor) pela forma como a sua própria corporação atua? Com tortura, estupros, violação?
Fabi.

Anônimo disse...

"~ditadura do politicamente correto~" feita pelos direitebas, babaca, só se for

Anônimo disse...

A teoria Queer é a coisa mais misógina do mundo. Agora tão dizendo que a PM Juliane era um homem trans só porque ela não estava dentro dos padrões de feminilidade. Outro dia eu vi num tumblr alguém dizer que a Joana D'arc era um homem trans. Pode isso? Acho muita desonestidade tentar ''transicionar'' postumamente a PM Juliane ou a Joana D'arc só porque elas não estavam dentro do padrão de feminilidade.
Lola, Lolinha... Como é que você cai numa armadilha dessas? Menos Teoria Queer e mais Feminismo. Menos Butler e mais Dworkin

Cristiane Lira disse...

Falaram até que Marielle ela foi esposa de um traficante (mentira).

Anônimo disse...

Já fiz dois trabalhos de pesquisa com travestis e todas falam a mesma coisa: a quase totalidade de seus clientes é de homens casados passivos que traem as mulheres com elas. Todos muito conservadores e religiosos na aparência e gays passivos no quarto de motel. E um detalhe sinistro: boa parte recorre à violência (agredindo as travestis depois do sexo) e às drogas (sobretudo cocaína antes do sexo) para lidar com as suas incoerências.

Sergio Costa disse...

Infelizmente incontáveis policiais são mortos todos os anos, pois o sistema social brasileiro legaliza essas mortes. Quanto aos comentários de evangélicos sobre Juliane, notadamente os verdadeiros evangélicos respeitam Juliane, pois amam à vida, honram os seus casamentos, vivem ao lado da paz e do amor ao próximo. Conheço vários pastores que morreriam para salvar o seu semelhante, mas também vejo aproveitadores surgirem no meio caos. Ser evangélico é caminhar distante da imoralidade, da maldade e dos vícios.O verdadeiro cristão não julga, respeita, não agride, acolhe, não se vinga, perdoa.

Anônimo disse...

Eu fico abismada quando leio coisas assim. Entao existe pressão da comunidade trans p que mulheres lésbicas que gostam de usar roupas consideradas masculinas sofrem pressao p passar por um processo altamente agressivo ao corpo humano? Eh tao absurdo que sei la.

Li hj tbm outro absurdo: estao esculhambando a disney e um ator hetero porque ele foi escolhido p fazer o papel do primeiro personagem homossexual da Disney (deveria ser um ator heterossexual). Eh ridículo ao extremo isso.

Alicia

Anônimo disse...

Gosto muito do blog e acho ele uma porta importante para o feminismo, porém não consigo deixar de me incomodar com essa falta de respeito em sempre se colar a questão trans nas mulheres e apagar lésbicas em favor do determinismo do que homens acreditam ser ou não feminino e mulheridade. A PM não era trans, uma mulher que não performa o que se espera do gênero feminino não é trans, uma mulher que prefere uma aparência mais masculina não é trans e tanto se briga pra respeitar a identidade de gênero alheia sendo que ao mesmo tempo ela não é respeitada com esses "transicionamentos" póstumos, sem a chance da pessoa falar por si própria. Tá certo isso não.

Anônimo disse...

Finalmente gostei de um comentário da Alicia.

:)

Anônimo disse...

Concordo totalmente. Foi desrespeitoso por parte da Lola e de toda imprensa questionando o ser ou não ser dela.

Anônimo disse...

Eu acho que só deveria ser considerado trans quem toma hormônios e fez a cirurgia de resignação de sexo, senão vira uma bagunça na cabeça das pessoas.
Essa história de se sentir isso ou aquilo é muito confusa. Realmente não é uma roupa ou um corte de cabelo que faz alguém ser mulher ou homem.