sexta-feira, 22 de junho de 2018

NINGUÉM É A FAVOR DO ABORTO

Eu só traduzi o ótimo tuíte da Gabriela q o Ubiratan mandou pra mim

Julia Rocha escreveu na sua página do FB algumas coisas que são óbvias para quem fala sobre aborto faz tempo, mas que ainda precisam ser repetidas. Nós somos a favor da legalização do aborto, mas ninguém é a favor do aborto (tem uma diferença enorme aí).

Nem quem aborta, nem quem defende a descriminalização do aborto, nem quem acha desesperador ver mulheres morrendo em clínicas clandestinas. Ninguém!
Repita comigo: ninguém luta pelo aborto! Nenhuma de nós fica em casa torcendo pra que várias mulheres engravidem e queiram abortar! Não há prazer nenhum em ver o desespero de um mulher que procura esse tipo de procedimento. Nenhuma mulher faz isso achando bom!
Mulheres engravidam inclusive usando métodos anticoncepcionais. Mulheres engravidam de parceiros abusadores, mulheres engravidam por que não têm acesso à informação de qualidade sobre contracepção e sobre planejamento familiar. Mulheres engravidam por que uns sacanas resolvem furar a camisinha.
A realidade é muito mais diversa do que a realidade que você conhece. Quando a gente comemora que um país legalizou o aborto, a gente não tá comemorando que fetos e embriões, muitos deles concebidos nas condições citadas acima, vão ser retirados do útero das mulheres que os carregam. Isso é triste pra caramba, mas vai acontecer de qualquer jeito. Com aborto legalizado ou não. O que a gente tá comemorando é que as mulheres que decidirem fazer isso não vão correr risco de morrer!
Elas são mães de outras crianças, são pessoas boas, não são as bruxas odiáveis que te contaram.
E só pra lembrar: países que descriminalizaram o aborto tiveram redução das taxas de abortos realizados.
Defendamos educação sexual nas escolas e acesso adequado à informação sobre contracepção e planejamento familiar. 
Defendamos a responsabilização dos homens! O debate é urgente! Mulheres estão morrendo. Principalmente mulheres pobres e negras.
Para parar com essa sangria é que é imperativo legalizar o aborto.

quinta-feira, 21 de junho de 2018

PESADELO SEM FIM: POR QUE DISTOPIAS FEMINISTAS DEVEM PARAR DE TORTURAR MULHERES

Assim que vi este artigo de Sarah Ditum no The Guardian, pensei no meu curso da pós-graduação. 
Vou oferecer uma segunda parte da disciplina Utopias e Distopias Feministas no semestre que vem (veja aqui o cronograma inteiro da primeira parte, com links pros textos), e planejo incluir uma discussão sobre a segunda temporada da série de TV Conto da Aia. Então pedi pro querido Vinicius Simões traduzir o artigo, que agora compartilho com vocês. 
Não concordo com tudo que diz Ditum (por exemplo, não acho que ficção, feminista ou não, deve apresentar soluções, e gostei pacas do romance Only Ever Yours). Porém, seu artigo rende ótimas discussões e, no mínimo, novas indicações de leituras. 
Estou assistindo (e gostando) da série Conto da Aia, mas tem muita gente incomodada com a violência contra as mulheres. Como diz a chamada: "O Conto da Aia inspirou uma nova geração de escritoras cujos mundos distópicos são cada vez mais sombrios, tenebrosos e sádicos. Mas onde está a esperança?"

A uma mulher, grávida por conta de um estupro, é negado um aborto. Ela é legalmente detida e submetida a uma cesariana forçada. Uma mulher com baixa renda quer deixar seu parceiro controlador, mas não pode, porque uma política de governo destinada a “impedir o colapso familiar” significa que todos os benefícios são pagos na conta dele. Uma mulher relata uma agressão sexual, mas a polícia não acredita nela, então a processa por fazer uma falsa alegação enquanto seu agressor continua livre para atacar mais vítimas. Meninas são sistematicamente preparadas para a prostituição e a polícia ignora seus agressores. Um homem se vangloria de que ele pode “agarrar” mulheres “pela boceta”: ele é eleito presidente. Tudo isso aconteceu na Irlanda, no Reino Unido e nos EUA na última década.
Como as mulheres do elenco do Saturday Night Live cantaram em sua resposta musical aos homens chocados com as revelações do #MeToo: “Bem-vindos ao inferno/ Isso não é novidade/ Nossa situação tem sido um incômodo desde que temos peitos”. 
Do abuso teocrático de garotas nas regiões controladas pelo Boko Haram na África ocidental, até o assassinato da jornalista Kim Wall por Peter Madsen, inspirado na pornografia da tortura, 
o mundo oferece uma variedade tão rica de pesadelos para mulheres que parece supérfluo para a ficção inventar mundos ainda vez mais horripilantes. Mas não importa: com a segunda temporada da aclamada adaptação de TV de O Conto da Aia, de Margaret Atwood, prestes a começar [em maio 2018], o apetite por distopias feministas não mostra sinais de diminuir, e as editoras mostraram-se mais do que dispostas a satisfazer essa demanda.
No livro Red Clocks, de Leni Zumas, o aborto é proibido nos EUA e um “muro rosa” impede que as mulheres voem para o Canadá. Em Future Home of the Living God, de Louise Erdrich, o aquecimento global parece ter precipitado uma crise reprodutiva: mulheres grávidas são mantidas em centros de detenção e mulheres férteis recrutadas para carregar embriões. The Growing Season, de Helen Sedgwick, imagina um mundo em que úteros artificiais se tornaram a norma. The Book of Joan, de Lidia Yuknavitch, se passa em uma Terra envenenada, comparada a um “preservativo espacial idiota”, onde um punhado de sobreviventes ricos sofre mutação até ficarem sem sexo. 
No encantador The Water Cure, de Sophie Mackintosh, as mulheres têm sido atingidas por uma sensibilidade terrível que torna os homens tóxicos para elas. Gather the Daughters, de Jennie Melamed, indicado ao prêmio Arthur C. Clarke, é ambientado numa apavorante comunidade fechada em que os pais devem estuprar suas meninas pré-púberes para substituir o sexo reprodutivo -- uma medida de controle populacional.
O sofrimento vende, especialmente quando são mulheres que estão sofrendo e, como acontece com qualquer tendência, a pressão para cada nova iteração é superar o que veio antes. Os resultados, às vezes, escapam ao absurdo: em Vox, de Christina Dalcher, que será publicado em agosto, as mulheres são equipadas com pulseiras que emitem choques elétricos caso falem mais do que cem palavras por dia. E há mais por vir. Na Feira do Livro de Londres, em março, os grandes lançamentos foram histórias de coisas terríveis que acontecem com mulheres: 
The Farm de Joanne Ramos, a ser publicada pela Bloomsbury no ano que vem, se passa em uma fábrica de barrigas de aluguel; Vardø, de Kiran Millwood Hargrave, sobre os julgamentos de bruxas do século XVII, foi adquirido pela editora Picador por uma soma de seis dígitos após uma guerra de leilão em 13 rodadas de lances. Na literatura jovem o mesmo fascínio prevalece: Only Ever Yours, de Louise O'Neill, publicado em 2014 [traduzido em Portugal com o título As Filhas de Eva], estabeleceu o tom, revisitando O Conto da Aia para o mercado adolescente.
O romance de 1985 de Atwood permanece como um marco porque seu poder de chocar nunca desapareceu. Limitando-se à tecnologia existente e aos eventos que já haviam acontecido, Atwood criou uma visão do totalitarismo patriarcal que radicalizou geração após geração de leitoras. Atualizado até os dias atuais em sua adaptação para TV, adquiriu nova ressonância. Encomendado antes da presidência de Trump, mas transmitido durante a mesma, O Conto da Aia se tornou um ponto de referência instantaneamente reconhecível. Feministas vestiram trajes de aia para protestar contra a legislação anti-aborto; estilistas enviaram roupas chiques de aias para suas passarelas.
No entanto, com a segunda temporada já sendo exibida nos Estados Unidos e prestes a começar no Canal 4 [Reino Unido], algumas espectadoras começaram a manifestar seu desconforto com os níveis de brutalidade no drama. A primeira temporada, aproximando-se bastante do romance, tinha um conhecido arco de dor para Offred. A segunda temporada, solta de seu material de origem, tem um potencial de desprazeres ilimitados em Gilead. A revista New York classificou-a de “uma horrível cavalgada incessante de pornografia da tortura feminista para rivalizar com nossos maiores autores misóginos”, e perguntou se havia justificativa para ser tão chocante, dado o assunto, ou se a série estava simplesmente sendo sádica.
O Conto da Aia efetivamente inaugurou a distopia feminista como um gênero, e à medida que a distopia feminista florescia, seu oposto -- a utopia feminista -- desaparecia. A obra do século XVII de Margaret Cavendish, O Mundo Resplandecente, o livro  de 1915 de Charlotte Perkins Gilman, Terra das Mulheres, A Mão Esquerda da Escuridão, de Ursula K. Le Guin (1969), e The Female Man (1975), de Joanna Russ, todos ofereciam não-lugares onde ser mulher não significava mais ser inferior. Revisitar estes “e se...” é revigorante.
No mundo imaginário de Mão Esquerda de Gethen, por exemplo, não há seres humanos masculinos e femininos: em vez disso, todo indivíduo é capaz de ovular e inseminar, e assume cada papel dependendo da situação. Em tal mundo, escreve Le Guin, não há “divisão da humanidade em metades fortes e fracas, protegidas/ protetoras, dominantes/ submissas, proprietárias/ propriedades, ativas/ passivas”. É uma invenção que aponta para a crueldade das classes sexuais humanas existentes e a possibilidade de uma vida sem restrições de gênero.
Um dos poucos romances que revisitaram esse escopo imaginativo nos últimos anos é O Poder, de Naomi Alderman. No romance de Alderman, as mulheres desenvolvem um órgão especializado chamado meada que lhes permite dar grandes choques elétricos, o que, por sua vez, permite que elas dominem os homens, do jeito que homens dominaram historicamente as mulheres. É gratificante entrar em um mundo em que as mulheres podem ser condescendentes com os homens com a autoridade alegre dos temidos, e as inversões do romance são deliciosamente reveladoras sobre o padrão masculino da nossa própria sociedade. É engraçado ler uma personagem feminina nobre dizendo a um homem servil que a ideia dele de um “mundo dirigido por homens” seria “certamente mais gentil, mais carinhoso e -- ouso dizer isso? -- mais sexy do que aquele em que vivemos”.
Mas quando um protagonista masculino, Tunde, descreve o que é ser a classe sexual inferior, é chocante ouvir essas palavras da boca de um homem. Somente quando você vê um homem sendo tratado como as mulheres são tratadas você entende o quão longe estamos da noção radical de que mulheres são pessoas. No entanto, O Poder não é exatamente um manifesto de mudança. Em um trecho do texto religioso do seu futuro matriarcal, O Livro de Eva, nos é dito: “A forma do poder é sempre a mesma”. Quando os homens têm poder, eles o usam sobre as mulheres; quando as mulheres têm poder, elas o usam sobre os homens. A perspectiva de uma sociedade que não é definida por um sistema de classe de sexo é uma impossibilidade nebulosa aqui.
Claro, essa crítica sugere que um romance tenha alguma obrigação de ser um manifesto para a mudança, o que levanta a questão espinhosa de o que significa para uma obra de arte ser feminista. Para Atwood (mentora de Alderman durante a criação de O Poder), este sempre foi um ponto de discórdia, e sua relação com o rótulo “feminista” e com o movimento em geral há muito tem sido incerto. Em um artigo opinativo de 2017 para o New York Times, ela respondeu à pergunta se O Conto da Aia é um romance feminista:
"Se você quer dizer um tratado ideológico em que todas as mulheres são anjos e/ou tão vitimizadas que são incapazes de fazer uma escolha moral, não. Se você quer dizer um romance em que as mulheres são seres humanos -- com toda a variedade de caráter e comportamento que isso implica -- e também são interessantes e importantes, e o que acontece com elas é crucial para o tema, estrutura e enredo do livro, então sim. Nesse sentido, muitos livros são 'feministas'”.
É uma resposta que engenhosamente se exime da demanda sufocante de fazer propaganda de seu romance, mas também não é tanto uma resposta quanto um deslize entre dois espantalhos feministas. O feminismo não é nem a afirmação de que mulheres são perfeitas, nem é qualquer coisa que por acaso seja sobre mulheres: é um movimento para desmantelar um sistema no qual os homens sistematicamente detêm o poder sobre as mulheres e as exploram economicamente, sexualmente e (como O Conto da Aia examina mais obviamente) reprodutivamente.
Parte desse movimento sempre foi chamado de “conscientização”, no qual mulheres compartilham suas experiências e afirmam a natureza do problema. O boom das distopias feministas parece se encaixar exatamente nessa descrição -- elas estão identificando problemas, às vezes com exagero satírico, e dando às leitoras o alívio do reconhecimento. Mas a conscientização é um primeiro estágio, apenas significativo quando forma a base para uma ação coordenada, e como a comentarista política e cultural Helen Lewis apontou, o feminismo contemporâneo mostrou incrível força na conscientização, mas muito menos convicção quando se trata de objetivos concretos.
Há campanhas vitais e sucessos notáveis ​​(a campanha Revogue a Oitava Emenda, para remover as restrições brutais da Irlanda ao aborto, por exemplo, e o trabalho de Caroline Criado-Perez sobre representação feminina), mas enquanto movimentos de grande repercussão como o projeto Everyday Sexism (o machismo de todos os dias) e o #MeToo estabeleceram inequivocamente que temos um problema de sexismo e assédio sexual, eles ainda não se uniram em torno de uma solução. O mesmo dilema -- um senso aguçado do que está errado, um impasse quando se trata de formas de corrigi-lo -- caracteriza grande parte da atual literatura de distopia feminista.
Essa tendência se manifesta de algumas maneiras. A obra de Sedgwick, The Growing Season, questiona se úteros artificiais forneceriam a liberação definitiva dos papéis de gênero ou deixariam as mulheres ainda mais vulneráveis ​​à coerção masculina. Com a reprodução terceirizada do corpo feminino, as mulheres não são mais estereotipadas em papéis de “cuidado”: ​​um recepcionista homem é tão pouco memorável quanto uma executiva mulher. 
Mas a violência masculina persiste, e os úteros externos oferecem um novo alvo para ela. “Nós inventamos uma nova forma de abuso. Demos aos homens o poder definitivo sobre as mulheres”, lamentou a feminista inventora da “bolsa”. Mas essas grandes ideias são deixadas de lado à medida que o romance muda para o modo conspiração/ suspense e, de certa forma enganosa, estabelece a gestação interna e externa como escolhas igualmente válidas. (Diz algo sobre como só a “escolha” é vazia como meta feminista que Sedgwick deva conjurar esse improvável equilíbrio para torná-lo convincente.)
O romance de Dalcher, Vox, acerta um pouco em relação a como a socialização feminina é simplesmente o processo de habituação das mulheres a consequências violentas -- a protagonista Jean observa com horror sua filha de cinco anos adquirir habilmente o silêncio feminino -- mas chega a um clímax que é tanto um ato de wishful thinking [auto-engano, "bem que eu queria"] como Cinquenta Tons de Liberdade, de EL James. Jean não só derrota o patriarcado, como também foge com um sexy linguista italiano. É uma espécie de vitória, mas não responde a nenhuma das questões levantadas por Dalcher sobre linguagem, poder e consentimento.
No livro de Erdrich, Future Home of the Living God, a fuga desesperada da narradora Cedar das autoridades que querem tomar seu bebê e controlar seu corpo é apenas um pequeno desvio da realidade de coerção reprodutiva para as mulheres nativas americanas, que sofreram esterilização forçada e a retirada de seus filhos (Erdrich, como Cedar, pertence à tribo Ojibwe). Não há como escrever uma conclusão satisfatória para essa situação. 
Onde O Conto da Aia (o livro) evita tanto a salvação desonesta quanto o tormento desgastante, cortando abruptamente a história de Offred, Future Home insiste em uma desolação paralisante. A ferrovia subterrânea das parteiras que protegiam Cedar fracassa e termina com a captura dela e seu bebê levado embora: “Espero na minha cela pela próxima gravidez”, ela escreve para a criança que nunca conhecerá. “Onde você estará, minha querida, na última vez em que nevar na Terra?”
Tal conclusão pode aparentar ser contundente, enquanto na verdade se regojiza na dor feminina. Erdrich se esquiva dessa armadilha, mas algumas distopias feministas não. Em Only Ever Yours, de O’Neill, garotas são criadas como “Evas”, escrupulosamente inculcadas na feminilidade para tornarem-se esposas agradáveis ​​para os homens da classe dominante. Aquelas que fracassam são jogadas mais para baixo no sistema de castas de mulheres até que, no fundo do poço, são enviadas ao “Subterrâneo” para o extermínio. Em um trecho desgastante, a protagonista Freida é punida por uma infração sendo trancada em seu quarto, onde as paredes são telões que mostram repetidamente sua humilhação pública em cadeia nacional.
É uma cena que capta a auto-aversão da adolescente ampliada pelas mídias sociais, mas uma reflexão não é o mesmo que uma crítica. Ao ler isso, com o foco preciso no peso e na aparência, uma jovem pode ficar mais propensa a reforçar suas ansiedades do que a desconstruir o mito da beleza. O desfecho mostra Freida abraçando seu final no Subterrâneo com uma paixão quase erótica: “A agulha afunda na minha pele, o líquido sussurra, esquece, esquece, ao meu sangue… Estou pronta para não sentir nada, para sempre”. Ao contrário do que diz Atwood, feminismo não se trata nem de idealizar mulheres, nem de simplesmente representá-las, mas ambas as opções parecem muito mais preferíveis a um tipo de “feminismo” que oferece consolo na autodestruição.
Se a distopia verdadeiramente feminista deve retratar honestamente as lutas das mulheres sem sensacionalizar suas dores e dramatizar uma análise política sem cair em slogans pesados, então talvez tal coisa nunca possa existir. Afinal, uma das razões para Atwood ter cautela com o rótulo “feminista” é que muitas vezes ele é um padrão a mais aplicado apenas às mulheres escritoras -- um padrão que falhará, já que o propósito da maioria dos padrões aplicados apenas às mulheres é garantir que elas nunca serão boas o suficiente.
Mas há ficção que entende a opressão das mulheres, reconhece a subjetividade delas, tem a imaginação para testar como o pior dos casos pode acontecer e a esperança de que possamos encontrar algum tipo de futuro melhor no final. Uma distopia feminista, em outras palavras, deve conter um pouco de utopia feminista. Em Red Clocks, o horror do “Muro Rosa” (um cenário que é mais ou menos um fato para mulheres sem passaporte na Irlanda, ou mulheres em regiões conservadoras nos EUA que não têm recursos para o transporte através das divisas estaduais) é entrelaçado com uma comovente resistência feminina, à medida em que as personagens de Zuma aprendem a olhar umas às outras em busca de ajuda. 
Há um vínculo que se estende não apenas entre mulheres, mas através do tempo: “Milhares de anos em desenvolvimento, aprimorados pelas mulheres nas obscuras dobras da história, ajudando umas às outras”, pensa uma. 
A sororidade também é resgatada em The Water Cure, embora de maneira um tanto perturbadora. No final, suas personagens femininas matam um homem para proteger seu mundo fechado: elas o deixam na praia como uma mensagem para outros intrusos de que “aqui não é seu lugar”, e sua utopia ambígua utopia. 
The Book of Joan, com seu estranho e contínuo sentido de tempo (a narradora, Christine, e seu adversário, Jean de Men, são reproduções da proto-feminista medieval Christine de Pizan e do autor hiper-misógino de The Romance of the Rose), não oferece exatamente progressismo: como você pode progredir quando a história está se autodesmoronando? Mas há algo de esperançoso na reivindicação que delimita uma volta ao reconhecimento da materialidade na política, e não à expropriação insustentável do planeta ou do corpo: “O corpo é um lugar real”, diz a rebelde Joan, enquanto comanda as sobreviventes terrestres em um exército. "Um território tão vasto quanto a Terra."
E há o soberbo A Parábola do Semeador, de Octavia Butler (1993). Em uma Terra superaquecida e pobre em recursos num futuro próximo, onde as mulheres são mais um recurso a ser explorado, a protagonista Lauren lidera um grupo de peregrinas através de uma selva violenta com o sonho de começar algo novo. Esse algo é Earthseed: parte religião, parte projeto de colonização interestelar, “a derradeira mudança humana à beira da morte... um destino que é bom buscarmos se esperamos ser algo diferente de dinossauros de pele suave”. 
Enquanto o mundo em que vivemos ainda não é um lugar para as mulheres, o feminismo precisa desses sonhos de coisas melhores. Enumerar nossas feridas, por si só, não nos levará a um lugar além do mal.

quarta-feira, 20 de junho de 2018

MACHISMO BRASILEIRO ENVERGONHA O MUNDO

A esta altura todo mundo já sabe dos torcedores brasileiros que assediaram uma moça (possivelmente russa) na Copa do Mundo. Eles a cercaram e fizeram um coro de ""B*ceta rosa!" e "É bem rosinha!". 
Tem advogado, engenheiro, policial militar... tudo "homem de bem". Tudo "pai de família" (alguns não pagam pensão, mas tudo bem: pelo jeito basta procriar pra ser considerado um modelo de pai). 
A moça russa tem que dar queixa para que talvez eles sejam deportados. Eu pensava que não iria acontecer muita coisa por lá, já que a Rússia deve ser um país mais machista que o Brasil. Mas uma jurista russa já oficializou a denúncia, e os torcedores podem responder por crimes lá mesmo.
Um deles pediu desculpas, disse estar bêbado. Uma justificativa que não costuma ser aceita quando mulheres que beberam demais são estupradas.
Tem gente (principalmente homens) tratando o vídeo como brincadeira infantil, polêmica, tempestade em copo d'água, exagero. Que tal tratar pelo nome mesmo? É machismo que se chama. 
Hoje circulou um outro vídeo de um rapaz na Rússia pedindo pra estrangeiras repetirem, sem saber o que estão dizendo, "Eu quero dar a b*ceta pra vocês". 
O cara, que é funcionário da Latam no aeroporto de Guarulhos, já foi demitido. (Lembro quando, uns três anos atrás, a Latam demitiu um funcionário em Joinville que era notório troll na internet). 
É óbvio que babacas de qualquer nacionalidade tentando filmar mulheres para se exibirem para os amigos não é nenhuma novidade. Uma leitora me enviou este deprimente vídeo do ano passado, por exemplo. Que bom que isso está se tornando inaceitável!
Uma nota de repúdio da Procuradoria Especial da Mulher no Senado foi lida em plenário pela senadora Vanessa Grazziotin (PCdoB-AM):
"A Procuradoria da Mulher do Senado lamenta e repudia a atitude do grupo de torcedores brasileiros que ganhou repercussão internacional durante a Copa do Mundo realizada na Federação Russa.
Explorando a oportunidade do clima de festa, eles se acercaram de uma moça estrangeira e entoaram, coletivamente, expressões de conteúdo misógino, pornográfico, com ofensas ao corpo da mulher. Esse grupo de torcedores envergonha nosso país. Eles se aproveitaram do fato de a mulher não compreender nosso idioma para humilhá-la e ridicularizá-la.
Postado na internet, o fato multiplica a gravidade da cena, que mostra em poucos segundos porque as mulheres brasileiras têm razão em lutar contra ao machismo e uma realidade de estupros e feminicídios que os homens insistem em pintar de cor-de-rosa.
A cultura do estupro brutaliza homens do Brasil desde sua formação mais tenra e por vezes os acompanha até a idade em que deveriam mostrar comportamento adulto e maduro.
Que o repúdio das mulheres do Brasil e do mundo tenha um caráter educativo para esses homens e que a solidariedade coletiva feminina tranquilize e alivie o coração de nossa irmã estrangeira."
A OAB também lançou nota de repúdio, em que explica o problema: "O grupo não estava apenas se regozijando às custas de quem não entendia uma única palavra proferida, mas também demonstrando a naturalidade com a qual praticam a imoralidade, pois seus integrantes fizeram vídeos, tiraram fotos e publicaram em suas redes sociais, para que todos compartilhassem com eles esse momento de 'alegria e diversão', registrando o escárnio, o abuso e a agressão contra uma mulher. [...]
A opressão e o constrangimento sexual são parte da vida das mulheres e as atinge em todas as gerações. É responsabilidade de todos nós coibir práticas que exponham as mulheres e as objetifiquem, reduzindo-as aos seus corpos. O abuso foi covarde e humilhante, atingindo todas as mulheres do mundo. É preciso reforçar políticas públicas e institucionais para combater a misoginia, adotando práticas de igualdade e respeito."
Pois é. E depois dizem que as mulheres brasileiras que saem com estrangeiros é que mancham a imagem do Brasil no exterior...
O meu lado Pollyanna Deslumbrette me faz ver o lado bom disso tudo -- justamente a repercussão do caso, a indignação que os vídeos estão causando. 
Ou vocês imaginariam um escândalo desses quatro anos atrás? Imaginariam manchetes de que esse machismo "envergonha o país"? Sinal de que o feminismo está muito forte.  
Ontem dei uma entrevista sobre os ataques que sofro e a Lei Lola. O Jornal da Cultura citou isso ao tratar dos torcedores machistas (aqui, a partir do segundo minuto).