sexta-feira, 31 de agosto de 2012

DUAS NOTINHAS CONTRA O PRECONCEITO

Várias pessoas têm me pedido para divulgar o repúdio ao colunista Carlos Ramalhete, da Gazeta do Povo, então vamulá. Infelizmente, não é de hoje que o principal jornal do Paraná manifesta opiniões odiosas (não que seja o único. O Pondé tá firme e forte como teúdo e manteúdo da Folha de SP). Ramalhete tem o hábito de tomar posições conservadoras, como condenar a Marcha das Vadias e chamar cotistas de coitadinhos.
Esta semana, ele usou o velho e estúpido argumento de que se deve acabar com a diversidade porque crianças em bando são cruéis. Já ouvimos isso antes: não vamos ensinar o aluno a ser tolerante com as diferenças (afinal, escola deve se preocupar em ensinar coisas importantes, como fórmulas pra passar no vestibular), vamos é forçar qualquer criança minimamente fora do padrão a ser “normal”. Sabe, né? Vamos aterrorizar com bullying a criança gordinha até que ela emagreça, porque senão ela sofrerá demais na escola! Desta vez Ramalhete não quer é que filhos adotados por casais gays sofram. Ele considera a adoção por casais gays ou lésbicas “um abuso de autoridade por parte do Estado”. 
E olha o título do artigo: “Perversão da adoção”. Perversão! Que bacana, fazendo uma alusão a como os homofóbicos veem a homoafetividade.
Por conta de todos esses preconceitos proferidos, está havendo uma petição recomendando que leitores cancelem a assinatura do jornal até que a coluna de Ramalhete seja encerrada.
Não acho o que ele diz pior do que o Pondé -- só pra citar unzinho -- diz toda semana. Mas já assinei.

E, como homofobia e machismo andam sempre de mãos dadas, vamos a outro episódio.
Esta semana o blog Testosterona, comandado pelo (como disse a halterofilista inglesa a trolls que criticaram seu corpo) “homem mais gentil e mais atraente a engrandecer a Terra com a sua presença”, publicou um vídeo (que não é dele; aliás, parece que nada naquele blog é feito por ele, só kibado de veículos como o blog do Silvio Koerich, entre outros) que ensina um rapaz a fazer sexo anal com a namorada depois d'ela ter recusado várias vezes: bater com um tijolo em sua cabeça para que ela desmaie. Aí sim, com ela incosciente, o sujeito pode estuprá-la. Não é hilário? Ué, é humor! Logo, está automaticamente acima do bem e do mal. Nem conta como apologia ao estupro.
Após inúmeros protestos, Edu tirou o vídeo do ar, pediu as suas leitoras (ninguém nunca disse que o machismo não tem validadoras) que mandassem fotos com plaquinhas dizendo que elas são bem humoradas apesar de serem mulheres, e mandou um beijo pras feministas. É uma oferta irrecusável, considerando a beleza do remetente, mas fique com a tijolada que você tanto gosta, Edu.
Que um blog completamente idiota e misógino tenha tanto público é sinal da sociedade em que vivemos. É muito mais fácil pra um blog, um programa de TV, um artigo de jornal que valide o senso comum ter mais público que um veículo que combata preconceitos. O que eles não contam, e isso os deixa atordoados, é com a reação. Acabou o tempo de poder falar qualquer besteira contra grupos historicamente oprimidos sem ser contestado. Sem ser visto como um babaca total.
O pior é que o Testosterona é parceiro da MTV, que divulgou um daqueles comunicados que não dizem nada. E ter tirado o vídeo do ar também não significa muita coisa. Este tumblr mostra bem como uma das “piadas” frequentes do Edu é que o motivo de sexo anal ser mais gostoso é que – diz ele -- seria humilhante pra mulher. É condizente com o que acreditam as pessoas ignorantes, dessas que creem que só mulheres e gays têm ânus, e que a única zona erógena de um homem hétero é o pênis. Vamos continuar denunciando o Testosterona na página da MTV. E também na Safernet e na Polícia Federal.
Muita gente critica, até com razão, que as feministas não se mexem para criminalizar a misoginia, ao contrário do que os gays estão fazendo para criminalizar a homofobia. O racismo, como sabemos, já é considerado crime inafiançável desde 1989, e por mais que o Brasil continue sendo um país racista, os “humoristas” e politicamente incorretos (termo que virou eufemismo para abertamente preconceituosos) pensam duas vezes antes de falarem ou escreverem algo muito racista. Bom, o que o pessoal não sabe é que o PL 122 criminaliza não apenas os preconceitos contra orientação sexual, mas também contra identidade de gênero. Ou seja, ele também criminalizaria o machismo e homofobia, se fosse aprovado. Vamos ser otimistas: quando for aprovado. O PL 122 está circulando desde 2006, e sempre teve o apoio das feministas, parceiras de lutas anti-homofóbicas.
Ah, mas se passar uma lei dessas, o Edu talvez não poderá mais rir de estupro ou contar piadas altamente originais como “vai lavar louça”. Pois é, ele faria o quê da vida? Tipo, ele teria que se tornar de engraçado?! Ah, seria esforço demais pro cidadão!
Abaixo-assinado contra Testosterona e FB Orgulho de Ser Hétero aqui. Assine, por favor!

quinta-feira, 30 de agosto de 2012

MENINAS ADOLESCENTES ESTUPRADAS? CULPA DO FOGO DELAS

 Jovens de 16 anos depõem sobre estupro

Quero falar de dois casos que envolvem abuso sexual de adolescentes e que estão dominando as notícias esta semana. O primeiro aconteceu na madrugada de domingo na cidade baiana de Ruy Barbosa. Duas adolescentes de 16 anos foram a um show do grupo de pagode New Hit. Após o show, pediram para tirar foto com os integrantes. Eles as mandaram para o fundo do ônibus, onde cada uma foi jogada para dentro do banheiro e estuprada por dois ao mesmo tempo. Quando conseguiram sair do ônibus, acionaram a polícia. Dez homens foram presos, mas poderão sair assim que a fiança for determinada e paga. O exame de corpo de delito das jovens deve sair amanhã.
O outro caso levou à prisão de um casal na segunda. Luciana, professora universitária em faculdades particulares de SP e doutoranda da USP em anatomia humana, e Rodrigo, técnico de telemarketing, ambos com 35 anos, eram namorados e adeptos de BDSM. Juntos aliciaram uma adolescente de 14 anos, a filmaram em práticas sadomasô e distribuíram as fotos. Num enredo que lembra o ótimo filme Confiar, o pai da menina desconfiou do comportamento diferente. Instalou um programa de espionagem no computador dela e, quando coletou as informações que precisava, as entregou à polícia.  
Não preciso nem dizer que esses dois episódios proporcionam uma enorme oportunidade para comentaristas de notícias na internet botarem pra fora todo seu preconceito. Um porque lida com uma banda de pagode. A classe média adora odiar pagode -- segundo ela, coisa de preto e favelado, e suas fãs seriam umas degeneradas. O outro porque trata de uma prática sexual longe do padrão da normalidade, visto automaticamente como perversão. E tem um bônus: a professora presa é gorda.  
Coletei muito rapidamente alguns comentários nos sites de notícias. Estes são do caso de BDSM (tudo sic):

- “Ela já tem 14 anos e já sabe muito bem oque ela faz,o casal é saafdo mais á garota não é nenhuma santa se fosse uma menina de 10 anos tudo bem.”
- “Estas novinhas sao piores q mulher vivida. Ela encontrou este casal num site de estudos biblicos? Alguem teve q colocar uma arma na cabeça dela p ela participar da festinha? Me poupe. Uma pervinha, com um pai frouxo q nao soube criar a filha...agora joga a culpa neste casal. Estas pervinhas mirins aprontam todas na hora q o bicho pega se fazem de inocentes, tenha dó!”. 
- Se essa professora gorda fosse minha namorada eu meteria a mão nela. Mesmo sem ser sádico".
- “Menina adolescente tem mais fogo no rabo do que foguete da Nasa...”
- “Ta na hora de aolecentes eser punidos tambem els sabem que nao pode ter relaçao sexual com maior de idade.”
- “Que se fo... todos: os pervertidos, o pai da piveta e até a própria, pois se pode dizer tudo de uma safadinha dessas que fica chafurdando em site de encontros na internet, menos que seja criança e inocente.”

Seria ingênuo pensar que esses comentaristas não representam o senso comum. Estes são pro caso do New Hit, e são bem parecidos:
- “As meninas querem mídia. De repente Playboy daqui ha dois anos... Deram pq quiseram! Fato! Essas piranhas dão adoidado pra esses caras de bandas de pagode, de rock etc... Bando de piranha! Da e assume q deu!”
- “Senhores pais mais cuidado com suas filhas”.
- “Fica difícil tomar partido de algum. Esses favelados começam a ganhar grana sem terem um pingo de instrução, daí passam a achar que estão acima do bem e do mal e das leis. Por outro lado, essas garotas mal mestruam e passam a se comportar como biscates. Tudo é uma gde lixo: tanto estes 'artistas' como estas fãs!”
- “Queriam era dar mesmo para esses macaquitos pobres e conseguiram... Agora aguentem”.

Esta é a cultura de estupro de que tanto se fala. Se pegarmos outros casos, os comentários serão quase idênticos: ela quis, ela não era santa, ela sabia o que estava fazendo, ela só quer aparecer, cadê o pai? (pra vigiar e punir), cadê a mãe? (pra cuidar da garota e dar-lhe o bom exemplo de como uma mulher séria deve se comportar). Em casos de estupro, na cultura em que vivemos, a culpa é sempre da vítima.
No caso da menina de 14 anos abusada por praticamentes de BDSM, o que impressiona é a rapidez com que a mídia e o senso comum transformam tudo em perversão. Alguma dúvida que se o crime não envolvesse sadomasoquismo, a repercussão seria muito menor?
BDSM não é crime. Pode-se não gostar da prática (eu não gosto, quero dizer, nunca tentei e não tenho vontade de tentar, mas não posso nem quero determinar o que cada pessoa faz na sua vida sexual), mas daí a tratá-la como crime vai uma enorme distância. E, ao contrário do que a mídia vem noticiando, sexo com adolescentes de 14 anos não é pedofilia. Eu acho errado e condenável, mas não é pedofilia. Pedofilia envolve crianças, e adolescente de 14 anos não entra nessa categoria.
Agora, abuso sexual e estupro são crimes. E pra que haja abuso não é necessário apontar uma arma. Há várias outras formas de coagir pessoas, principalmente menores de idade, a fazer o que elas não querem fazer. Portanto, todo apoio a essa menina. Que ela consiga superar este trauma terrível. E a culpa também. Culpa que está impregnada em toda a sociedade quando o assunto é estupro e abuso sexual.
No caso dos integrantes da New Hit acusados de estupro, longe de mim defender um grupo que canta coisas como "Espanca, espanca, espanca. Cansei de te espancar. Agora vou dá massagem". Não gosto de pagode, mas tem quem gosta. Condenar um gênero artístico por muitos de seus componentes e fãs serem menos ricos e menos brancos que o padrão tem nome: elitismo e racismo. E, assim como praticantes de BDSM, é ridículo supor que fãs de pagode “pediram pra ser estupradas”.
O caso continua gerando notícias. A mãe de uma das adolescentes lamenta as ameaças que recebe e não poder sair de casa: “Eles cometem o crime e nós é que somos as criminosas”. As fãs seguem acreditando nos seus ídolos: “Fomos as primeiras a entrar no camarim e eles não fizeram nada com a gente”, diz uma delas em defesa do grupo.
Parece que o exame de corpo de delito vai provar que uma das adolescentes era virgem quando sofreu o estupro. Voltaremos aos velhos tempos em que um estupro era mais sério numa moça virgem, logo “direita”, que numa moça promíscua, ou experiente, ou simplesmente não virgem. Ouviremos palavras que nem sabíamos que ainda existiam, como “defloramento”.
Ainda assim, independente do que a Justiça decidir nesses dois e em tantos outros casos, o senso comum já escolheu os culpados: as vítimas. Pra variar.

UPDATE: Fãs do grupo New Hit, que se auto-intitulam Marias Hiteiras, confiam em seus ídolos. Uma delas declarou, "Sou fã desde o comecinho, no tempo que eles cantavam a música 'Senta na minha PickUp'". Embora uma prévia do laudo médico comprove o estupro, as fãs planejam fazer uma passeata em defesa da banda, desde já chamada por quem é contra culpar as vítimas de Marcha dos Estupradores.
Todos os indícios do crime são os piores possíveis. Um coronel declarou que as vítimas foram encontradas "totalmente sujas de sêmen". Uma das adolescentes estupradas disse aos integrantes que era virgem. "Eles riram e disseram que agora eu não era mais", declarou ela em seu depoimento à polícia.
Sério mesmo, Marias Hiteiras, que vocês conseguem ler notícias como esta e continuar acreditando na inocência de seus ídolos? Juram que a lealdade que vcs têm a uma droga de grupo de pagode é maior que a lealdade ao seu gênero? 

UPDATE 2: Saiu uma pequena matéria no Correio sobre os protestos no shopping Iguatemi em Salvador, neste sábado. Pouca gente compareceu. Mas as fotos deixam claro que, como narrou a Drica (que esteve lá), havia muito mais gente se manifestando contra os estupradores do que a favor. Menos mal. E parabéns pelo contraprotesto, lutadoras! 
UPDATE 3: O laudo foi divulgado nesta segunda, e confirma: as adolescentes foram mesmo estupradas por integrantes do  New Hit. Isso quer dizer que os comentaristas de notícias pararam de culpar as vítimas? Putz, se vc acredita que um mero detalhe como um laudo confirmando estupro faz alguém culpar os estupradores, é porque vc ainda não entendeu a cultura do estupro...

quarta-feira, 29 de agosto de 2012

GUEST POST: PRECONCEITOS COTIDIANOS NO MUNDO LÉSBICO

Hoje é o Dia da Visibilidade Lésbica, um dia para todxs nós lutarmos contra a homofobia e o machismo (que sempre andam juntos). O Movimento Mulheres em Luta escreveu um bom texto sobre a importância desta data.
Já publiquei vários guest posts sobre lesbianismo, como este da Aoi Ito sobre sexo entre lésbicas não ser fetiche, este sobre como Susanna se descobriu lésbica, este também, só que da Linda, este da Renata sobre ter orgulho da sua orientação sexual, e esta bela resposta da Two of Us a trolls, entre outros. Tantos que todo dia o pessoal que acha que toda feminista é lésbica diz pra mim: "Sua sapata!" -- e eu respondo como uma aluna lésbica me ensinou: "Seu hétero!" Minha grande alegria foi ter sido chamada de meio lésbica. Um dia eu chego lá.
Hoje publico um guest post um pouco diferente, que fala do preconceito entre as lésbicas (a gente sabe que existe). Foi escrito por Letticia, lésbica e feminista de 30 anos, que nasceu em Gurupi-GO, que no meio do caminho virou Gurupi-TO. Sua família ainda mora lá, mas Lettícia andou por Goiânia, Campinas e Paris, onde mora hoje.

Tive a ideia de escrever estas notas motivada por dois fatores: um texto que li não faz muito tempo aqui, e que falava de alguns dos preconceitos recorrentes no “mundo gay” masculino; e por conversas que tive faz pouco com duas amigas, as quais, cada uma a sua maneira, pareciam achar (talvez como muita gente?) que um relacionamento entre duas mulheres (fosse longo ou breve) era um verdadeiro mar de igualdades... uma espécie de miragem que sim, eu fiz o favor de destruir! Antes eu não tivesse argumentos para fazê-lo!
Para além dessas duas motivações, é claro, também há muito das minhas próprias frustações, quem sabe até de um emaranhado de dores das mais variadas? Dores intímas, dores de militante ainda debutante, e de quem há um tempo um pouco maior vem trabalhando com leituras de teóricas feministas e lésbicas (meu mestrado dialogava com essas questões). E neste tempo, digamos, teórico, isto é, em que eu nunca havia me relacionado com uma mulher, confesso que já sentia uma certa estranheza, uma desconfiança, diante dos trabalhos que descreviam as relações entre mulheres como uma em que reinava a igualdade plena. Sei  bem que muitos desses trabalhos inserem-se num contexto político manifesto e cuja importância acho inegável (digo isto já que para mim a dimensão política está sempre em jogo), mas, enfim, não é sobre isto que quero falar aqui. Quero falar de algo mais simples, de conversas que tive, comentários que ouvi, posturas que observei. Mas talvez alguém deva estar se perguntando: por que falo de Paris? 
Cheguei em Paris em outubro de 2009 para fazer doutorado em História e, antes disso, havia tido apenas uma namorada que não conheci em nenhum contexto LGBT específico. Morávamos em cidades nas quais havia pouquísimos lugares voltados especificamente para um público lésbico, somado ao fato de que não tinhamos carro (o que dificulta um pouco saídas noturnas no interior de São Paulo, onde não há ônibus noturno) e tampouco muito dinheiro (sim, só estou em Paris porque tenho bolsa de doutorado!). Só passei a frequentar bares e boates lésbicas em Paris, também já na companhia de uma namorada que tive há um tempo e que gostava bastante de sair com as amigas para dançar. Devo dizer que é bastante confortável sair em lugares em que um simples gesto de carinho seu em sua parceira não vai provocar uma baita sensação de constrangimento, nojo, desejo de um outro homem (estamos ali para despertar desejo masculino, não?)... O nome disso seria agressão? Foi assim que me senti algumas vezes em contextos e lugares os mais variados: eu não manifestava carinho para não “agredir” as pessoas que estavam a minha volta, mas elas já me agrediam pelo simples fato de me fazerem pensar assim!
Bem, além de passar a frequentar a noite lésbica parisiense, pude conviver com uma série de mulheres lésbicas (a grande maioria com mais de 30 anos, minha própria faixa etária), amigas da minha ex, e foi aí que observei a mim mesma, ouvi e participei de conversas. E antes que possam pensar que se tratam apenas de doutorandas como eu -- não. São mulheres das mais variadas profissões, escolaridade, países, negras, brancas. Então vamos, finalmente, às notas parisienses, as quais acredito, poderiam ser parecidas em tantos outros contextos.
“As aparências enganam”/Tipologias: Há para além de uma série de classificações que vão desde lésbica feminina, masculina, femme, butch, caminhoneira (sim! Em francês há também este termo), gouine, toda uma série de classificações dentro das quais, se há espaço para uma série de discussões políticas identitárias bem interessantes, há também uma série de preconceitos. Masculina com masculina?! “Dá até nojo, nem pensar... É feio, não combina”. Mas imaginem! É mera questão de “gosto pessoal”? 
Mas sim, na França, para quem incomodar possa, há muitos casais de meninas consideradas ou que se consideram masculinas. Seja lá o que se entenda por masculino e feminino: cabelo curto, ausência de maquiagem, salto alto, vestido, unhas feitas etc versus cabelo longo, maquiagem salto, vestido, saia etc. Eu? Sou feminina, mas bem que poderia me cuidar mais. As pessoas (incluido eu aqui!) são bem mais complexas que seus próprios conceitos e preconceitos! E mesmo quem se diz masculina, feminina, butch, femme etc na verdade esbarra sempre com os limites de cada uma dessas categorias!
Sexo e machismo: você é ativa (em geral as lésbicas mais “masculinas”) ou passiva (em geral, as “femininas”, claro!) na cama? Se deixa ou não penetrar pela parceira? Penetra? Quer que ela goze sempre? Senão para quê sexo? Senão não valeu? O que seria sexo -- eu pergunto. Alguém aí já se questionou? Ativa, passiva, “boa de cama”... Essas classificações fazem mesmo sentido? Ou a gente estabelece dinâmicas diferentes de acordo com as pessoas (tempo, intimidade, diálogo) com quem vai se relacionando? Não seria mais gostoso assim? 
Por isso não, disse eu as minhas queridas amigas, o mundo lésbico não é um reino onde impera a absoluta igualdade. Nem é espaço de absoluto diálogo. Aliás, alguém aí já ouviu um homem dizendo que sexo entre duas mulheres é bonito de se ver porque é mais delicado? Pura bobagem! Fazemos sexo e ponto. E, neste caso, felizmente, tem para todos os gostos. E acreditem, às vezes é para nosso próprio prazer e não para apreciação de um terceiro, ou quem sabe de uma terceira. 
Ah! e tem as meninas que ficam com meninas que são “fáceis”, “putas”...
Misoginia: sim, tem muita misoginia também! Quantas vezes eu não ouvi: “isto é bem coisa de mulher”. Piada, não entendeu? Eu é que não tenho senso de humor! Ou tenho um diferente? Ouvi isto de mulheres lésbicas, que gostam de mulheres! Ah! Mas os homens héteros também gostam e dizem isto. Já ia me esquecendo: alguns gays também justificam a sua escolha por homens porque veja, mulheres, com suas “coisas de mulher” (o singular torna a coisa mais perigosa ainda), não dá! E que piada engraçada de dar dor na barriga. Ouvir isto dentro de um grupo de amigas lésbicas e gays, então...
Bissexuais a evitar!: E antes que isto daqui fique longo demais, lembrem-se meninas que como eu gostam e sentem desejo por outras mulheres: nunca confiem em garotas bissexuais, pois elas sempre, mais cedo ou mais tarde, trocarão você por um homem. E sabem por que? Porque claro, todas elas nunca vão ter coragem de socialmente sair da zona de conforto de ter uma relação hétero, socialmente bem mais fácil (em muitos aspectos é sim, mas sempre? E intimamente?), e porque homens têm pênis de verdade! Eles sempre vão ganhar na cama porque, claro, o prazer proporcionado pela “verdadeira” penetração é o auge do sexo e do prazer sexual para todas, não? 
Conheci e conheço lésbicas incríveis em Paris, namorei e amei imensamente  especialmente uma delas! São e não são estas mesmas de quem ouvi alguns dos comentários de que me servi como materiais de notas. Pessoas como eu, diferentes de mim... E vamos conversando e nos repensando!  É este o objetivo deste post!

terça-feira, 28 de agosto de 2012

"COMO SER FEMINISTA SEM ME DESTRUIR?"

Já tem alguns meses que a Amanda me enviou este email:

"Acompanho seu blog há alguns meses, mas nem me lembro direito como cheguei até lá!
Foi através dele que conheci a pessoa inspiradora que você é, mas também foi através dos seus posts que acabei enxergando uma realidade que eu até então ignorava.
O motivo do meu email é lhe perguntar como você faz para lidar com todas essas informações horrorosas sobre ódio, machismo e preconceito.
Antes do seu blog, me considerava uma pessoas com poucos preconceitos (sei que ainda carrego alguns), mas nunca havia pensado muito sobre os tantos assuntos discutidos por lá. Agora no entanto, presto atenção redobrada no que acontece ao meu redor, no que é dito nas redes sociais, no que é notícia e no que acontece no meu dia a dia.
Assim conheci os mascus, descobri que existem pessoas defendendo estupro e pedofilia. Enxerguei que nós mulheres ainda estamos muito longe de não precisar mais do feminismo. Percebi o quão machista é a sociedade e o quão isso é encarado como normal, como natural.
Enfim, descobri um monte de coisas ruins. E essas coisas ruins me fazem mal. Me deixam para baixo. Fazem eu me sentir impotente diante de tanta desgraça.
Fico nervosa quando um 'amigo' fala e faz coisas que agora considero inaceitáveis. Eu não sei como lidar com isso. Eu não sei como posso fazer para lutar contra isso e não sei como continuar me informando sem me deixar destruir por essas monstruosidades.
Por isso lhe escrevo. Para pedir um conselho sobre como me manter informada e consciente sem morrer junto com cada mulher que for estuprada no mundo. Sobre como relevar a ignorância e até a maldade de uma pessoa querida. E também, sobre como militar a favor da igualdade, mesmo que de uma maneira limitada a minha pequena vida.
Obrigada pelo seu precioso tempo e obrigada pelo seu blog!"

Minha resposta: Agradeço o carinho, Amanda. Imagino que muita gente tem as mesmas dúvidas que você. Senão não existiria aquele ditado, "a ignorância é uma benção" -- que, no inglês ("ignorance is bliss"), ficou como "ignorância é felicidade". E isso se aplica a todas as injustiças do mundo: não seria melhor não saber que uma pessoa te enganou? Que tem um monte de criança passando fome num bairro perto de você? Que alguém querido tem uma doença terminal e vai morrer em poucos meses? Que um namorado é cheio dos preconceitos? Acredito que tem muita gente que prefere não saber, ainda mais se é pra se sentir impotente diante da descoberta.
Mas não é o nosso caso, certo? Somos otimistas e temos essa vontade de mudar o mundo. Ou sou só eu que sou uma poliana deslumbrete? Claro, não somos lunáticas ou arrogantes pra pensar que nossa influência será ilimitada. Mas é aquele negócio do Efeito Ripple de influência, da pedrinha jogada numa lagoa. Não vai causar ondas, mas forma círculos. De alguma forma a pedrinha afeta a lagoa. E nós (qualquer pessoa que queira desafiar o status quo no que se refere à busca por igualdade) somos essa pedra no sapato do senso comum. 
O que a gente conversa ou escreve ou protesta pode até não surtir efeito imediato, mas ela fica lá, uma sementinha na cabeça da pessoa. E aí talvez a pessoa ouça isso de novo mais pra frente, ou talvez algo aconteça na vida dessa pessoa pra ela se lembrar daquilo. Recebo um monte de emails de pessoas que chegaram ao blog, acharam tudo que eu escrevia revoltante, e foram ficando e mudando de ideia. Outro dia um cara (que eu não conhecia nem de ouvir falar) escreveu um post no blog dele dizendo que vivia me gozando, até que a filha dele foi ameaçada, e ele notou que tem que ver esse negócio de feminismo aí. A maioria de nós que diz e faz coisas vistas como "rebeldes" já ouviu algo assim.
Sobre a sua pergunta, eu digo que sou feminista desde que me conheço por gente e sempre fui uma pessoa feliz, pra cima. Mas claro que há intensidades, e sei que fiquei mais feminista desde que comecei este bloguinho, em janeiro de 2008. De lá pra cá, me tornei mais consciente do meu feminismo, leio muito mais teoria, converso com mais gente sobre assuntos relacionados ao feminismo, organizo minhas ideias. 
Sou xingada diariamente, todo dia mesmo, e não sei nem dizer se criei uma casca grossa, porque não lembro de ter me deprimido em algum momento por causa disso. Eu simplesmente sei que não é pessoal, e que uma enorme carga de agressividade é disparada contra qualquer pessoa que luta por transformações, em qualquer época e lugar do mundo. As primeiras sufragistas, que lutavam pelo direito óbvio de mulheres poderem votar, já eram chamadas de ogras machonas peludas bigodudas mal-amadas querendo acabar com a família e a civilização. 150 anos depois e os guardiões dos bons costumes ainda não trocaram o disco!
Trolls me fazem rir, mas e ler notícias e relatos terríveis, isso não me afeta? Afeta sim, mas por um tempo. Não posso centrar minha vida naquilo. Tenho que esquecer, pensar em outras coisas, rir, me divertir. Uma feminista é uma pessoa como outra qualquer. Acho difícil alguém ser ativista em tempo integral. Na minha vida pessoal, até parece que vou pensar "What would Jesus a feminist do?" pra cada garrafa de água que vou encher pro maridão na geladeira (ele enche minhas garrafinhas também). Ou aquele mito ridículo (que muita gente ainda jura que é verdade) que certas posições sexuais são anti-feministas. Ou que eu deveria olhar feio prum garçom que puxa a cadeira pra eu sentar. Ser feminista é parte fundamental da minha identidade, mas não é só isso que me define. Também sou mulher cis (identificada como mulher desde que nasci), sou ateia, sou de esquerda, sou hétero, sou monogâmica, sou chocólatra, sou gorda, sou apaixonada por cães e gatos, sou professora, sou anti-preconceitos, sou pão dura miserável... 
Pra cada notícia horrível eu procuro ver um vídeo fofinho de gatos pra aliviar a mente e melhorar o astral. E chamo a atenção de amigos quando eles se superam nas besteiras, mas nem sempre. Tem que ver cada ocasião. Tenho a sorte de conviver com pessoas pouco ou não preconceituosas, em geral. O importante é dialogar, saber ouvir, apresentar bons argumentos, e crer que as pessoas podem mudar. 
Mas sinto, Amanda, que sua pergunta parte do pressuposto errado. Uma das funções do feminismo, creio eu, é denunciar o que há de errado. Outras feministas discordam e dizem que falar de estupro, de violência doméstica, de propagandas machistas, é se vitimizar. Já eu penso que é fundamental mencionar os problemas, até pra não cair na ladainha de "feminismo não tem mais razão de ser, as mulheres já conquistaram tudo que queriam". Mas ficar só nos problemas, sem propor sugestões, sem crer em mudanças, pode ser bem deprê. E, quando a gente percebe que, pouco a pouco, trabalho de formiguinha mesmo, a gente consegue mudar o mundo, isso dá um empoderamento incrível. Portanto, feminismo é empoderador. A meu ver, uma feminista não deve andar cabisbaixa pensando nos problemas. Deve andar orgulhosa, sentindo-se poderosa, forte, feliz e convicta de que está fazendo a sua parte. Feminismo não destrói ninguém -- só constrói.

segunda-feira, 27 de agosto de 2012

GUEST POST: QUER QUE EU EMAGREÇA? PERGUNTE-ME COMO

"Gosto de vc como vc é". E nem precisa ser o Colin Firth pra falar isso

Ana, uma simpática e inteligente moça de 18 anos, vem fazendo o maior sucesso com seus comentários. Selecionei um que ela deixou no guest post sobre gordofobia em família, e vou publicá-lo aqui como guest post.

Adorei um comentário anônimo: “Sabe, a pessoa SABE que está gorda. Ela não precisa de ninguém dizendo isso porque ela sabe. Nunca vi gente chegando num bar e apontando pra todo mundo e dizendo que álcool faz mal. Todo mundo sabe. Mas por que não existe esse policiamento como existe com gordura?
É bem isso aí, sem tirar nem por. As pessoas patulham sem dó nem piedade. O que eu posso acrescentar é que às vezes o policiamento até é com boa intenção, só que feito do jeito errado.
Pega minha mãe, por exemplo: eu sempre fui um modelo de criança. Mega comportada, mega inteligente, recebia elogios o tempo todo. Mas isso nunca foi suficiente, ela sempre encheu o saco pra que eu emagrecesse. A justificativa dela era sempre a mesma: "Eu não quero que você passe pelo o que eu passei".
Vou deixar claro: entendo e até concordo com ela. Ela teve problemas com o espelho a vida toda e como qualquer pai e mãe, queria o melhor pra filha.
O meu ponto é que a abordagem está errada. Tudo o que minha mãe conseguiu comigo foi me convencer que eu era feia. Nenhum comentário dela me deu forças pra mudar de vida, pelo contrário, as palavras sempre jogavam mais areia em cima de mim. E em geral é assim, as pessoas falam achando que vão ajudar e só te fazem mais infeliz.
Quando você é gordo, ninguém nunca te incentiva a ser feliz e se valorizar, só te dizem que você não é bom o suficiente e precisa emagrecer. Vejo um monte de gente sendo cruel com gordos e se justificando "Ah, mas se continuar assim vai sofrer/adoecer/morrer. Eu tô falando a verdade pro próprio bem dela". As pessoas acham que "jogar na cara" é a solução e vai, sei lá, "inspirar uma mudança na vida da pessoa". Acreditem em mim quando eu digo que esse tipo de comentário não ajuda, só atrapalha.
É muito comum, por exemplo, aparecer gente querendo te “conscientizar” do teu PRÓPRIO peso -- e como disse o comentário que eu citei, A GENTE JÁ SABE. E às vezes dá raiva, sabe, porque MEU AMOR, EU VIVO NESSE CORPO. TIPO, 24H/7. VAI POR MIM, EU NOTEI AQUELE PNEUZINHO MUITO ANTES DE VOCÊ. É um comentário dos mais inúteis -- o gordo sempre sabe que é gordo. Mas ninguém se dá conta disso. Todo mundo acha que conhece seu corpo melhor que você. Isso é claramente absurdo, e só gera indignação.
Sabe, quando a gente ouve que é feio e indesejável, a última coisa que a gente quer é se expor. Quando as pessoas comentavam, acho que elas esperavam que eu tomasse uma atitude. Mas quando elas me convenciam de que eu era gorda e feia, a última coisa que eu queria era sair pra fazer exercício na frente de todo mundo, ainda mais com aquelas roupas coladas. Então eu me entocava em casa, ficava me sentindo um lixo. E quando eu finalmente saía, não era porque eu gostava de exercício físico ou porque tinha finalmente me aceitado, era porque tava me odiando tanto que me forçava a fazer algo que eu não queria pela promessa de que se eu perdesse peso, ia ser feliz.
O problema desse tipo de coisa é que dieta nenhuma vai pra frente quando exercício é um sacrifício e não um lazer. Sabe, o negócio não é só emagrecer. É ter uma vida boa. Não adianta você dizer pra fulano que ele é um gordo e precisa tomar vergonha na cara. Não interessa o quão nobre sua intenção seja, você só vai por a pessoa pra baixo. Ela não vai se mexer, e SE se mexer, ainda pode fazer do jeito errado (como eu fiz muitas vezes), só por desespero e vergonha, arriscando essa tal saúde tão preciosa que você queria, a princípio, salvar.
Mudar o estilo de vida, que é uma coisa que a gente cultiva desde sempre, é muito difícil. As pessoas que estão nesse processo precisam é de APOIO, não de crítica. E não vejo isso acontecendo muito, não. Está todo mundo muito preocupado com o bem-estar e a saúde alheia, mas ninguém se preocupa em fazer com que a pessoa se sinta bem COMO É em primeiro lugar. Não, fica todo mundo batendo na tecla de que você TEM QUE emagrecer porque SÓ ASSIM vai ser feliz. E isso é errado. Sou a favor de melhorar, sempre. De ser mais saudável e tal. Mas isso se conquista com auto-confiança e prazer em viver, não com a auto-punição.
É só ver o que acontece, por exemplo, quando a Lola faz um post falando em auto-aceitação. Não dá tempo de contar até cinco e já aparece gente indignada, fazendo questão de dizer que quem está acima do peso tem que se manter alerta e vigilante sim senhor. Eu percebo uma dificuldade em aceitar que se amar é muito mais eficaz que fazer dieta -- a verdade é essa. Quando você se aceita gordo, magro, baixo, alto, azul com bolinhas pink, você fica mais forte. E essa força te ajuda em qualquer processo que você vá enfrentar pra levar uma vida mais saudável.
É importante entender: aceitar o corpo não tem a ver com não ser saudável, muitíssimo pelo contrário. Aceitação é exatamente o primeiro passo. Mas é só sugerir que um gordo pare de se odiar e todo mundo pula, achando que se o ódio sumir, a pessoa vai relaxar. Quando na verdade, se o ódio sumir, ela finalmente vai estar livre pra descobrir uma vida melhor. E aí se emgrecer vier no pacote, ela vai emagrecer, não por ser infeliz, mas porque perder peso foi uma consequência natural.
Talvez a gordofobia entre aí, nessa resistência em acreditar que um gordo pode ser feliz e saudável como é. Porque esse pensamento demonstra o verdadeiro posicionamento de um gordofóbico: no fundo, a saúde é só uma desculpa, o problema dele mesmo é com a aparência. Para um gordofóbico, alguém que simplesmente se aceite é inútil, mesmo que seja saudável -- porque a pessoa continua gorda. É ESSE o problema do gordofóbico: a gordura, não a saúde. A pessoa está feliz, saudável como ela tanto clama que quer, mas gorda. O verdadeiro preconceituoso não se contenta com isso, ele quer mesmo é que todos emagreçam. Acho que é aí que a máscara cai pra valer e a gente vê quem está realmente preocupado com o bem estar dos outros e quem só é ignorante.
Eu acho sinceramente que quando a pressão deixar de ser “EMAGREÇA PORQUE SER GORDO É RUIM” e passar a ser “SE ACEITE E SEJA FELIZ”, vamos ter muito mais gente saudável.