sábado, 30 de junho de 2012

COMO FAZER A LOLINHA MUITO FELIZ COM R$ 30

ATENÇÃO: TALVEZ ÚLTIMOS 10 EXEMPLARES (em junho 2014). NÃO HAVERÁ UMA OUTRA REIMPRESSÃO DESTE LIVRO.

Meu livro com algumas das minhas melhores crônicas de cinema e cinco textos inéditos foi publicado (e reimpresso) pela Com-Arte, editora-laboratório da USP, e eu comprei vários exemplares pra poder vendê-los diretamente a você. Assim, você recebe meu livro autografado, com uma linda e sincera dedicatória, em casa.  
Para tanto, você deve seguir uns passinhos simples:
- deposite R$ 30 na minha conta no Banco do Brasil, agência 3653-6, cc 32853-7, ou Banco Santander, agência 3508, cc 010772760. 
- se vc não tiver conta nesses bancos, é só fazer a transferência. Neste caso, o seu banco vai te pedir meu CPF. Não se assuste: meu nome "oficial", que aparece na conta, é Dolores Aronovich Aguero, mas sou eu mesma.
- envie pro meu e-mail (lolaescreva@gmail.com) um comprovante de pagamento ou printscreen, e umas linhas que me inspirem para escrever uma dedicatória. Não se esqueça de me enviar seu endereço (com CEP)!
Pronto! Só isso. Aí eu te mando um exemplar autografado e registrado, que deve chegar em sua casa em poucos dias. 
Os R$ 30 referem-se a R$ 22 (preço do livro) mais 6,10 do registro, mais 1,90 do envelope com bolhas de plástico do Correio (eu chequei com o correio e parece que não houve aumento neste meio ano). Se vc quiser comprar dois livros para serem enviados para o mesmo endereço, sai mais em conta: R$ 44 (valor dos dois livros) mais R$ 7,45 (o valor do registro sobe, porque aumenta o peso), mais 0,55 do envelope (que não será especial): R$ 52. Pra três ou mais exemplares, entre em contato comigo.
Pro exterior, o livro sai por R$ 43 pra EUA e Canadá, R$ 45 pra Europa, R$ 51 pra Ásia, e R$ 52 pra África. Pergunte-me sobre outros continentes, ou se vc quiser mais de um livro.
Outra possibilidade para envio dentro do Brasil é pelo Registro Módico. O registro, que normalmente fica por R$ 6,10, neste caso sai por R$ 3,90. Neste caso eu uso um envelope normal, sem bolha de plástico, e aí fica por 22 + 3,90 + 0,40 = R$ 26,30. Portanto, você decide: ou paga R$ 30 e recebe o envelope com bolha de plástico enviado pelo registro normal, ou paga R$ 26,30 e recebe em envelope normal, enviado por registro módico.
Por favor, compre meu livro! Para que eu consiga que outras editoras se interessem por mim quando eu lançar um livro (mais) feminista, preciso mostrar que posso vender livros.

GUEST POST: A INTELIGÊNCIA FICA À SOMBRA DA BELEZA

Sofia, 19 anos, me mandou este email em fevereiro. Demorei um tempão pra publicá-lo, esperando -- devo admitir -- um final feliz, que ainda não veio. Mas virá. Um dia. Sofia ainda é jovem.

Acompanho o blog há um ano, e o conheci em um momento de transição muito difícil pra mim. Eu leio suas opiniões e os relatos das mulheres que se sentem mal com seus cabelos, corpos, sexualidade e as pressões da sociedade, e eu compreendo muito bem tudo isso. Cresci em uma família extremamente machista e de convicções cristãs (pai católico, mãe espírita), mas meus próprios pais falam que eu saí meio torta, já que sou a única que gosta de estudar política e que lê avidamente. Tenho uma mini biblioteca em meu quarto com quase 200 títulos. 
As pessoas se espantam comigo, e se espantam desde que eu era pequena. Fui a primeira aluna da classe, na escola fui a única a conseguir pontuação máxima em uma prova. Mas não é por isso que as pessoas ficam espantadas, é porque eu sou bonita. Eu sei que fica parecendo pretensão quando alguém se considera bonito... Mas é isso, aprendi que estou dentro do padrão. Apesar de toda a miscelânea genética que é a minha família (negros, europeus, índios, árabes), saí com a pele branca, se me bronzeio fico com um tom meio dourado, cabelos cacheados (mas do tipo fácil de cuidar) e castanhos, seios grandes, cintura fina, bunda e coxas grandes, nada de barriga. Nunca tive problemas de acne ou com a balança. E, com tudo isso, parece que as pessoas acham praticamente impossível que eu consiga escrever uma redação. Nem meus próprios pais.
Isso está parecendo reclamar de barriga cheia, não é? Eu sei. Mas não é nada fácil ouvir um "Pra que estudar? Não sabe que toda mulher inteligente é infeliz? Você já é bonita!". Esse tipo de comentário dói. E todo mundo acha que é frescura minha não querer usar shorts ou vestidos, mesmo no calor, por achar desagradável as cantadas na rua. Há na mente das pessoas aquela ideia de que "o que é bonito é pra ser mostrado".
Minha pré-adolescência foi infernal. Meu corpo se desenvolveu antes dos das minhas colegas de escola mais próximas, o que as fez se afastarem de mim por eu receber mais atenção dos meninos. Como se a culpa fosse minha! Na época eu estudava em uma escola perigosa, com má fama em toda a região, e eu quase fui estuprada no banheiro da escola. Só escapei porque um amigo me ajudou. Mas ninguém fez nada, nem os outros alunos, nem os professores ou a direção. Era como se a culpa de tudo fosse minha, por ter o corpo que tinha. 
Me isolei bastante, tendo só dois amigos próximos. Eu não penteava mais o cabelo pra sair, usava as roupas mais largas possíveis e cabulava aula sempre que podia, para fugir dos colegas. Quanto aos meus pais, eles nunca souberam disso porque a direção da escola nunca os informou e eu, muito menos, porque realmente me sentia culpada. E, talvez, meu próprio pai me culpasse (ele é o mais machista aqui de casa). A situação apenas melhorou quando mudei de cidade. Continuava isolada, sem prolongar as amizades (mas com meus pais sempre cobrando a presença de amigos e namorados).
Eu continuei a estudar, pois era quando eu me sentia segura. Em vez de conversar com os colegas, passava os intervalos e aulas de educação física conversando com os professores que estavam sem dar aula no momento. Foi quando decidi ser professora, mais precisamente de História. Quando informei isso aos meus pais, veio a descrença de novo. Eles diziam que eu não seria capaz, talvez nem entrasse na faculdade, e que eu podia arranjar um emprego de secretária ou recepcionista já que eu sou "menina bem educada e de boa aparência". Depois disso, meu ânimo com os estudos sofreu diversos altos e baixos. Eu precisava me sentir apoiada, pois não me sentia capaz de seguir meu sonho sozinha. Por sorte, o apoio que eu não tive da minha família, veio dos professores.
Quando terminei o Ensino Médio não fui logo para a faculdade, pois meu pai me cobrava ir trabalhar. Trabalhei como atendente e consultora em perfumaria, manicure e pedicure e (pasme!) vendedora de planos de academia. Sempre detestei academia! Tenho a forte impressão de que fui contratada simplesmente por causa da minha aparência, pois até mesmo os instrutores da academia achavam que eu malhava. 
Depois de muito duelo mental, resolvi voltar a estudar, depois de um ano parada, e tentar ir para a faculdade. Larguei o emprego. Conversei muito com meus pais e eles aceitaram me pagar um cursinho, mesmo que o mais barato da região. E eles disseram que, se eu não passasse em algum vestibular, não me ajudariam mais. Tive que dividir meu tempo entre estudar e cuidar da casa, porque meus pais trabalham e meu irmão passava o dia todo no computador (e só eu que tinha que cuidar da casa, porque eu era a mulher da casa na ausência da minha mãe).
Foi quando conheci o seu blog, e muitas das culpas que eu sentia pararam de me assombrar. Eu percebi que muitas das coisas que eu achava que estavam erradas na sociedade e tentavam enfiar na minha cabeça que era arrogância da minha parte, estavam realmente erradas. Seu blog me ajudou a ter força pra seguir em frente e para repensar muitos dos meus conceitos, me fez um bem enorme.
Estudei bastante, com a esperança forte de entrar em uma faculdade fora do estado e poder me ver um pouco livre das amarras dos meus pais. Também prestei a Fuvest, mesmo com meu pai rindo da minha tentativa. Passei na primeira fase da Fuvest com facilidade. Minha nota no Enem havia sido ótima e eu podia escolher entre quase todas as universidades federais. Escolhi uma que fica a 700 km de São Paulo.
Infelizmente, isso trouxe um clima de desespero pra dentro de casa. Meu pai fazia cenas de não querer comer ou de não conseguir dormir. Minha mãe ficava dizendo que não ia comemorar a minha conquista, pois estava fazendo mal ao meu pai (ela até que me apoiou um pouco, mas como toda "boa esposa", precisava deixar contente o poderoso megalossauro). E ambos ficavam pasmos por eu ter conseguido passar na primeira fase da Fuvest e tido uma ótima nota no Enem, enquanto meu irmão mais velho não. Me olhavam como se eu fosse uma estranha no ninho, embora quisessem me manter presa. Me senti culpada, de novo, por estar trazendo desconforto para a minha família. No último dia do prazo para as escolhas no SiSU, mudei minha opção para ficar em uma universidade perto de casa. Infelizmente, o curso de História (o que eu quero) é muito concorrido nessa faculdade; a nota de corte para ele estava altíssima. Tive que escolher Filosofia, não era muito menor a nota, mas eu conseguia entrar.
Não fui convocada para a Fuvest (onde estava concorrendo o curso que quero, mas as ciências exatas me mataram na segunda fase, além de toda a pressão em casa). Mesmo que eu fosse convocada na terceira chamada, minha casa fica a três horas da USP, praticamente inviável (e meus pais acham que eu serei ainda mais "corrompida" estudando lá, além do "Pra você ser estuprada lá é fácil!").
Às vezes fico me perguntando se sou eu quem exagero, que acho que o mundo tem que girar do jeito que eu quero e que eu deveria ser mais "disposta" e "compreensiva" com meus pais. Mas... Poxa... Eu passei um ano de noites mal dormidas, sem tempo para lazer, só estudando e fazendo trabalhos domésticos,  a maioria das pessoas se afastaram porque eu não tinha tempo pra elas, e a única amiga que eu tenho mora tão longe que preciso pegar um ônibus de viagem para visitá-la. Por que não ficar fula da vida por, depois de tanto sacrifício, não ter conseguido o que eu queria, sendo que estava ao meu alcance?
Eu sei que o desabafo ficou grande e que os problemas são meio intrincados. Não sei nem se ficou coerente tudo o que escrevi. Mas acho que deu pra entender. Numa sociedade machista e, hipocritamente, com um pé no hedonismo, como a que a gente vive, a inteligência fica à sombra da beleza. Tive que desistir do que eu queria por estar presa a um pai machista, sem fé em mim, com quem eu só consigo ter um bom relacionamento engolindo muito, muito sapo. Nem quando a genética ajuda, a sociedade deixa a mulher ser livre de verdade.
[Até agora a situação não melhorou pra Sofia. Ela foi cursar Filosofia numa universidade que entrou em greve duas semanas após o início das aulas, e que continua em greve até hoje. Enquanto isso, Sofia segue morando com os pais.]

sexta-feira, 29 de junho de 2012

PROFESSORA DE INGLÊS TEM QUE ANDAR BONITA E ARRUMADA?

Camiseta feminista em modelo baby look

A T. me enviou um email revoltado anteontem, que publico aqui. Eu respondo (na realidade, peço ajuda aos universitários) depois.

Estou passando por uma situação que nunca nem sequer imaginei passar. Sou professora de inglês, por enquanto. Sempre amei inglês e estudava em casa até poder pagar um cursinho que fiz durante um ano e meio para conseguir um certificado e poder dar aulas. Este ano vou prestar o Enem para Letras. 
Entrei numa franquia de escola de idiomas há quase dois meses, e como já conheço a metodologia fica mais fácil para eles. O salário é ótimo e as pessoas também. Minha amiga que me indicou me falou sobre o dono,  que ele gosta que as mulheres usem maquiagem, salto e tenham sempre as unhas feitas. Bom, isso é um problema pra mim porque anos de uma ansiedade ridicula me levaram a roer minhas unhas até não existirem mais. Salto alto? nunca usei. Maquiagem? já tentei e francamente me sinto uma verdadeira palhaça. Não consigo usar batom, parece que não sou eu quando me olho no espelho, então não uso. Também não uso roupas justas no corpo, tenho 1,61 e peso atualmente uns 75 kg, ou seja, sou gorda. 
Logo na primeira semana de trabalho conversei com a coordenadora e pedi uma blusa de uniforme G. O dono me parou no meio do corredor com alunos em volta e perguntou por que eu estava usando blusa de professor e não de professora, e apontou para uma outra professora (magérrima) que estava por perto e comentou que gostava que as professoras se vestissem daquela forma, baby look. Como consequência, me deram uma blusa baby look EGG. Eu fico me perguntando que imbecil é capaz de fazer uma pessoa usar uma roupa EGG quando ela pode usar uma G, ou M que lhe veste bem. Mas, nãoooo... baby look é feminina. A outra não. Como se o fato d'eu usar uma blusa do meu tamanho diminuísse minha sexualidade. 
A blusa, mesmo sendo EGG, é justa e curta, eu estou sempre trabalhando incomodada e quem é professora sabe, preciso dos meus braços livres, preciso abaixar sem ter a necessidade de me preocupar que meu cofrinho vai aparecer. Além disso, é proibido usar casaco nem fino ou da mesma cor que a blusa do uniforme. Aumentem o ar, faça o que for mas não coloque casaco dentro da unidade. Eu disse dentro, não é quando você dá aula, ou está com alunos ou pais. É DENTRO da unidade. 
Enfim, hoje tinha sido um dia muito tranquilo. Eu estava bem comigo mesma, estava achando meu cabelo bonito, e o trabalho tinha sido muito agradável. Pois bem, chego em casa e minha amiga vem me contar que a coordenadora irá conversar comigo por que o tal dono quer que eu use calça apertadinha -- é isso mesmo que vc leu. Nada de roupa larga, pelo menos um batom, nada de franja, e tenho que começar a pintar as unhas. Isso me arrasou. Eu estou com muita raiva e minha vontade é de manda ele enfiar o narcisismo dele no meio do c*. Os poucos homens que trabalham lá (o dono prefere contratar mulheres; diz que são mais fáceis de lidar) podem usar a roupa que quiserem (o único requisito é vestir a camiseta), mas as mulheres não?
Todas as meninas que trabalham na recepção do curso são bonitas. É requisito para se trabalhar ali. Eu queria saber desde quando beleza interfere na sua excelência em sala de aula, ou melhor, no seu trabalho. O dono está sempre na unidade e eu estou sempre fugindo dele porque detesto o modo como me olha, eu me sinto um lixo. Há professoras bem gordinhas no curso, até bem mais do que eu e elas se vestem da maneira como ele quer, mas é patético! As blusas as vestem como o ursinho Pooh, nunca cobre tudo! Se levanta o braço a barriga fica toda de fora, e eu, independente de ser magra ou gorda, acho isso o fim! Minha barriga é coberta de estrias e eu morro de vergonha delas. Imagine deixá-las a mostra? Eu nunca fui à praia por causa disso...  
É inacreditável você não poder usar uma roupa que lhe vista de modo que você se sinta confortável! Lola, estamos em 2012 e eu não consigo acreditar que isso seja uma realidade e que eu esteja vivendo isso. As pessoas têm medo do dono da escola, tudo no curso gira em torno da figura poética que ele mesmo criou para si ali dentro. Dá medo, dá pena. Hoje eu estava tão bem, rs. Estava.

Minha resposta: Me solidarizo contigo, T. Acho que todo mundo na vida já pegou um chefe xarope. A maior parte dos chefes que tive foram ótimos, mas tive um que só falava besteira e que, por fazer quase tudo fora da lei, precisava se esconder na agência de propaganda sempre que a fiscalização aparecia. E um dos meus primeiros chefes era um idiota total, desses que acham que função de secretária júnior (meu emprego na ocasião) era comprar presente pra amante e mentir na cara dura pra esposa. 
E vou aproveitar seu email pra dizer com todas as letras: odeio baby look! Argh, odeio. Já fui forçada a usar isso também. É horrível. Não é confortável, não é bonito, e sempre tive a impressão que quem criou esse troço não quis apenas que as mulheres pareçam bebês (como diz o nome), mas que pareçam ter alguma deficiência mental mesmo. E vc não mencionou, mas outra coisa que eu odeio é meia calça. Faz a gente se sentir uma salsicha. Até acho que deixa as pernas bonitas, mas a que custo? Tem um episódio ótimo de A Sete Palmos em que uma personagem rebelde fantasia um número musical contra a imposição de ter que vestir meia calça (encontrei, tá aqui!).
Ok, agora chegando ao X da questão, creio que a escola de idiomas não pode exigir que suas professoras usem maquiagem, salto alto, calça apertada, cabelo de uma certa forma, esmalte nas unhas etc. Até entendo que recepcionistas tenham que usar isso (ossos do ofício), mas sinto que, ao menos que essas exigências babacas estejam especificadas no contrato, a escola não pode te despedir se vc não "entrar na linha". Seria discriminação, não seria (advogadas, respondam! Responderam: É assédio moral).
E não sei se isso é ilegal, mas recomendo que vc grave algumas conversas que a coordenação ou seu chefe tenham contigo a respeito dessas imposições. (Perguntei a advogadas/os e responderam que não só não é ilegal -- desde que quem grave seja um dos interlocutores -- como é recomendável). Aproveite e faça algumas perguntas, do tipo "Além da minha aparência, tem mais alguma coisa do meu trabalho que vcs não estejam contentes?". Porque isso pode provar (aí é que tá: serve como prova?) que, em caso de demissão, ela ocorreu unicamente por causa de vc não aceitar as normas de conduta que não são importantes pra você desempenhar sua função.
Outra coisa é procurar o sindicato pra se informar sobre como proceder. Talvez eles já tenham alguma experiência com um caso assim... Não sei se entra como assédio moral, mas quase, né? 
E imagino que conversar com o dono seja difícil, mas eu tentaria. E contaria pra ele algumas das coisas que vc colocou neste email, inclusive dizendo que algumas mulheres gostam de andar arrumadas, outras não, e que impor que todas as mulheres se comportem do mesmo jeito tem um nome. Machismo. Talvez ele já tenha ouvido falar?

quinta-feira, 28 de junho de 2012

O PREÇO DA ETERNA VIGILÂNCIA

Vi a notícia sobre os dois irmãos gêmeos que, por andarem abraçados, à noite, na Bahia, foram espancados por um grupo de oito rapazes. Um dos irmãos morreu.
A primeira coisa em que pensei foi algo que presenciei em Floripa, durante o meu mestrado. Nada tão sério, nenhum assassinato, mas aquilo me marcou. Eu estava saindo da casinha em que alugava pra ir à faculdade quando, numa casa na mesma rua, dois rapazes tentavam fixar uma placa logo abaixo do teto. Eles pareciam desconfortáveis, até que o sujeito de cima, meio cambaleante, gritou pro de baixo: “Pô, me segura direito, cara! Pode tocar em mim, eu sou seu irmão!”.
Continuei andando, perturbada por viver num mundo em que irmãos não podem encostar um no outro sem que sua masculinidade seja colocada em xeque.
A segunda coisa que pensei ao ler a notícia dos irmãos gêmeos foi num caso no ano passado, em que pai e filho foram atacados numa feira agropecuária perto de Ribeirão Preto, SP. O grande crime dos dois foi andar abraçados. Sete rapazes confundiram o gesto de amor paterno com aquele pecado gravíssimo, homossexualidade, e partiram pra cima. O pai teve mais da metade da orelha decepada. “Não pode nem abraçar o filho”, protestou ele.
Para reconstruir a orelha, esse pai teve que tirar cartilagem de sua costela. Ele disse à reportagem, na época: “Não saio muito. Fui um dia só, para agradar a namorada e o filho, e acontece isso”. Pois é, se a situação está péssima até para homem hétero, imagina como deve ser para um gay ter seu direito de ir e vir desrespeitado. Para uma mulher.
Imagino que seja quase unânime a condenação a atos assim, contra homens héteros (se eles fossem homossexuais a condenação seria muito menos unânime). Ah, dirão alguns, isso que aconteceu com o pai e filho e com os irmãos gêmeos foi ação de um bando de criminosos. É verdade. São criminosos, foram presos, espero que fiquem presos.
Daí em diante as opiniões se dividem. Uns tentam explicar o incidente sem tocar na palavra homofobia, já que, pra eles, homofobia não existe. Li esta semana mesmo: homofobia é uma invenção de ativistas gays para implantar uma ditadura gayzista. Não sei ao certo como tentam explicar casos assim achando que homofobia não existe, mas deve ser do jeito que explicam os estupros como presente de aniversário em Queimadas negando o machismo. Foram atos individuais, sabe? Rapazes que acordam numa bela manhã, se reúnem com seus amigos e assim, do nada, saem para incendiar índios, espancar empregadas (eles pensavam que era prostituta!), matar homens abraçados.
Outras pessoas dizem que ok, homofobia (e outros preconceitos variados) até existe. Mas só nesses casos chocantes em que alguém acaba morto! Homofobia, pra esse pessoal, é ferir alguém grave e fisicamente. Xingar de viado não é homofobia, é só uma palavrinha à toa. Fazer careta pra casal do mesmo sexo que anda de mãos dadas não é homofobia, é só uma manifestação inocente do seu gosto pessoal. Reclamar com o gerente do restaurante se vir um casal gay se dando uma bitoquinha não é homofobia, é só não querer que seu filho sofra más influências. Não contratar um cara mais “afeminado” pra uma vaga de emprego não é homofobia, é só que você tinha candidatos mais fortes. Querer proibir que se discuta tolerância às diferenças na escola não é homofobia, é só que esse tipo de educação você dá em casa. Afirmar que datas como hoje, Dia do Orgulho Gay, são uma bobagem não é homofobia, é só o seu jeito de esfregar na cara das pessoas a sua orientação heterossexual.
E, pode apostar, ainda tem a galera que vai dizer que irmãos gêmeos espancados ou pai perder a orelha não é homofobia, porque... as vítimas nem eram gays!
Pra essas pessoas, a gente já disse mil vezes, mas vai repetir: homofobia, transfobia, machismo existem, são fortes, e sempre caminham juntos. Todos são a mesma face de uma masculinidade com prazo de validade vencido. Uma masculinidade que diz que homem que é homem, homem que é homem com H, homem de verdade, tem que encontrar sua definição de masculinidade nos seus opostos. Portanto, homem tem que ser o contrário de mulher. Tudo que é feminino é ruim e deve ser superado. Tudo que for ambíguo. Tudo que não seja comportamento de macho. Só que tudo tem um preço. Ser rei do universo não é só um passeio. Pra manter os privilégios masculinos, é preciso pagar pedágio. E esse pedágio é viver uma eterna performance burlesca, é vestir uma máscara em que você finge ser homem. No que tudo de atrasado que significa Ser Homem é incluso.
Entra aí não poder chorar, não poder ser carinhoso com os próprios filhos, não poder tocar num outro homem — nem que este homem seja seu pai ou seu irmão. É o preço da eterna vigilância. Tem certeza que esse modelo de masculinidade que você se empenha em seguir é positivo? Tem certeza que vale a pena viver num mundo, ou num país, em que pais e irmãos não podem se abraçar, porque qualquer ato de afeto entre homens fará outros homens pularem em cima pra defender uma masculinidade que eles mal conseguem definir? Pense bem, antes de responder. E tente encontrar uma definição de masculinidade que não seja tão danosa.
Enquanto isso, na Câmara dos Deputados, alguns congressistas tramam interferir num conselho autônomo, o Conselho de Psicologia, para que aceite a “cura gay”. Sim, tem muita gente que acredita que homossexualidade é doença e, como tal, pode — deve! — ser curada. O incrível é que essa gente esteja no Congresso de um estado que deveria ser laico, e com peso para perpetuar a discriminação.
O que deve ser curado não é o gay, é o homofóbico. O que precisa de uma cura urgente — e isso depende de você, da gente — não é a homossexualidade. É todo um conceito falido de masculinidade.

quarta-feira, 27 de junho de 2012

GUEST POST: MACHISMO ISLÂMICO CONTRA UMA BRASILEIRA EM BERLIM

Livia, uma brasileira que vive em Berlim, me enviou um email. Seu relato é polêmico, muito polêmico, porque existe meio que uma lei não escrita que só a direita pode criticar os muçulmanos. Só que penso que a esquerda, que critica o cristianismo e o judaísmo pelo machismo explícito dessas religiões, deve ter todo o direito, talvez até a obrigação, de criticar o islamismo. 
Não sou do tipo "vamos respeitar a cultura alheia". Se eu quero que a minha cultura mude, vou querer que a dos outros mude também, no que se refere a romper tradições preconceituosas. Claro que é complicado falar sobre uma cultura da qual sabemos tão pouco. E claro que não devemos generalizar. E claro que há várias feministas entre as muçulmanas, e elas são perfeitamente capazes de falar por si. Mas há muitos casos de mulheres ocidentais que são agredidas e/ou desrespeitadas por muçulmanos que, mesmo vivendo num país ocidental, insistem em manter costumes misóginos. 
Não tenho o menor apreço pelo presidente do Irã ou pelos monarcas da Arábia Saudita. Digo isso porque os reaças adoram criticar feministas porque não passamos o dia falando mal de Ahmadinejad, mas eles convenientemente "esquecem" que em países aliados do imperialismo, como a Arábia Saudita, as mulheres também são apedrejadas, além de -- diferente do Irã -- não poderem dirigir. Aliás, elas só poderão votar a partir de 2015, pela primeira vez. E é chato falar, mas Iraque e Afeganistão têm mais mulheres no governo que os EUA. E que a gente, com nossos minguados 9% de mulheres na Câmara Federal.
Não gosto do islã, porque vê mulheres como cidadãs de segunda classe e é homofóbico. Também não gosto do cristianismo e do judaísmo porque fazem exatamente a mesma coisa. Enfim, me sensibilizo com o relato da Livia.

Muitas vezes li em seu blog sobre como o corpo feminino é tratado como propriedade pública (em casos de estupro, assédio, comentários...) e por isso decidi te escrever o meu relato, passado poucas horas atrás [no final de maio]. Ele só é um pouco diferente da maioria das outras histórias de horror femininas porque se deu com um grande choque de culturas. 
Moro desde janeiro com o meu namorado em um bairro predominantemente turco aqui em Berlim [há 160 mil imigrantes muçulmanos em Berlim, dos quais 73% são turcos], e hoje aproveitei o sol para passear de bicicleta e ler um livro à beira do rio Spree. Pois lá estava eu deitada lendo (como todos os alemães fazem) quando me aparecem quatro adolescentes turcos e sentam ao meu lado. Um dos garotos começa a perguntar onde eu moro (eu não respondo), se sou casada (sim) e se posso dar meu Facebook (não). Já estava sobre a minha bicicleta indo embora quando um deles grita alguma coisa, eu paro e de repente dois dos meninos vem, me agarram os peitos (um de cada lado), riem e saem correndo. 
Chorei muito, chamei a polícia (super prestativa, aliás), fiz um boletim de ocorrência e provavelmente não verei mais esses garotos na vida. Enquanto esperava a polícia, falei para os dois adolescentes que tinham ficado (os que não tinham me agarrado) que não é porque sou uma mulher não mulçumana que eles podem agarrar meus seios assim. Um deles respondeu: “O que deveremos agarrar então? A sua bunda?”.
Alguém poderá argumentar que os garotos que me agarraram no parque na beira do Spree eram adolescentes, e por isso “naturalmente aprontam”. Mas o fato é que estão reproduzindo valores e comportamentos aprendidos em casa, com os adultos. Já tinha lido em várias reportagens que a maioria dos mulçumanos desrespeitam as alemãs (eu devo contar como alemã porque não tenho a cabeça coberta), ou qualquer outra mulher ocidental. Só que, fora um estresse aqui e outro ali, nunca tinham me agarrado na rua. Somos todas umas vadias que andamos com o cabelo à mostra e saias curtas (eu estava de moleton no caso relatado) e transamos antes do casamento. Conheço jovens mulçumanos que pensam e dizem isso. Claro que não são só os mulçumanos que desrespeitam as mulheres, mas com essa premissa fica ainda mais fácil, não é?
A minha sorte é que isso se passou na Alemanha, onde tenho total apoio da sociedade e da polícia (que não gosta muito de adolescentes turcos mesmo). Em um país islâmico eu a princípio não poderia andar com a cabeça descoberta, e se alguém me assediasse a culpa seria toda minha. E caso eu, ainda que morando na Alemanha, pertencesse a uma família mulçumana, a culpa seria toda minha. Toda semana aparece no jornal que um pai assassina a filha, por ter cometido o grande crime de ser estuprada. Repito: na Alemanha, país ocidental e relativamente democrático!
Ninguém me ofende na rua por eu não estar de véu, mas passo por um assédio quase diário, muitas vezes para lá do desrespeito. Coisas que não aconteciam tanto no Brasil. Para começar, homens que sabem que eu sou comprometida e que me veem com meu namorado vivem me olhando de cima abaixo, me chamando para tomar café, e por aí vai. Já fui cantada desde a janela do meu próprio apartamento do terceiro andar. Coisas semelhantes acontecem com as minhas amigas que moram nas redondezas e que não portam véu. Os agressores (se você me permite dizer assim) são quase sempre turcos. Para mim é claro que em uma cultura em que uma mulher pode ser renegada/assassinada pela família se envergonhar os pais (por exemplo traindo o marido) coloca as mulheres em uma situação vulnerável. (Dica de filme sobre isso: Contra a Parede, do diretor Fatih Akin).
Devo dizer que estou tentando assimilar o acontecido e me esforçando para não generalizar o preconceito contra tudo e todos da Turquia. O que na verdade não seria possível, porque adoro baklava, um doce turco delicioso.
Em poucos meses aqui em Berlim já aprendi a diferenciar diferentes formas de islamismo. É uma cultura muito interessante e muito plural. E quebrei um pouco desse tabu alemão de não se misturar com muçulmanos. 
Eu tenho amigos vindos da Turquia, Afeganistão, Iraque, Tajiquistão -- amigos esses que com certeza condenariam o que os adolescentes fizeram comigo. Aprendi várias palavras de árabe e turco em pouco tempo, e pretendo aprender mais. Me dê um mês e eu já vou saber um basiquinho de persa! Esse pessoal é gente boa e vem pra festas na minha casa. Com certeza não são todos os islâmicos que se comportam mal. E quer saber? Eu também sou imigrante, sofro preconceito aqui e ali (embora, claro, bem menos que Mohameds, Fatmas e Abdullahs) e acho que estamos todos mais ou menos no mesmo barco. Se uma regra afetar a eles (como se limitarem o número de vagas na faculdade para estrangeiros, por exemplo), afeta a mim também.
Lola, seu blog me inspirou para que eu tomasse a atitude que tomei, de chamar a polícia e registrar o acontecimento. O que a minha queixa pode mudar? Talvez incluam tópicos sobre respeito às mulheres nos cursos de integração para jovens imigrantes? Não sei. Com certeza foi melhor que ter me enraivecido e deixado por isso mesmo, coisa que talvez eu antes tivesse feito. Portanto, obrigada! Seu blog faz com que eu seja uma pessoa muito mais forte e confiante!