quinta-feira, 16 de julho de 2009

INFINITAMENTE CACHOEIRA

Este é um guest post de Mário Cezar da Silveira. Não vou falar mais pra não entregar nada.

5 de janeiro de 1987
Voávamos para Manaus.
Era o vôo que marcaria o início de uma nova fase em nossas vidas.
Minha esposa, grávida de 7 meses, havia sido transferida para gerenciar a filial da empresa na Zona Franca.
Eu não sabia exatamente o que fazer da minha vida profissional, mas como já havia conhecido a cidade e suas carências, topei o desafio.
Tudo anunciava um ótimo futuro, cheio de realizações.
Durante o demorado vôo, falávamos sobre os cuidados que deveríamos tomar para que o nascimento de nosso bebê, previsto para março, ocorresse em Joinville, onde marinheiros de primeira viagem encontraríamos o porto seguro próximo dos avós.
Lembro-me que nos empolgamos com o assunto e começamos a fazer divagações sobre o que esperávamos para o futuro daquele “serzinho gerado com tanto amor” e que com certeza mudaria não só as nossas vidas, mas principalmente a nós mesmos.
Como havíamos decidido não saber o sexo por antecipação, nossos sonhos eram sempre dobrados...
- Se for homem queria que fosse daquele bem rebelde, que não pára um minuto sequer. Vou ensinar a jogar bola, a fazer e soltar pandorga, a andar de bicicleta, a subir em árvore, vou rolar pelo chão com ele... E se for menina queria que fosse bem meiguinha e sapeca.... Fecho os olhos e a vejo de vestidinho rodado, cor-de-rosa, correndo em minha direção com os braços abertos. Vou ser o homem mais feliz do mundo.
- Se for menina vou vestir como uma “dondoquinha” e se for menino com um jeito bem de moleque safadinho.
Sonhamos tanto que nem sentimos o cansaço da longa viagem.
O aviso de preparar para o pouso nos trouxe de volta à realidade.

15 de janeiro de 1987
Estávamos há 10 dias em Manaus quando nosso bebê resolveu nascer prematuro, talvez para acabar com nossa ansiedade.
...e assim nasceu Carolina.

5 de janeiro de 2003
Lá estávamos minha esposa e eu, no meio da mata, em Ibirama, no topo de uma cachoeira, arrepiados de emoção ao ver a coragem de nossa filha Carolina em fazer um rappel de 28 metros de altura.
Enquanto ela descia recordávamos as alegrias que ela já havia nos proporcionado.
Carolina, que em poucos dias estaria completando 16 anos, estava cursando o 2º grau, já havia voado de “parapente”, pulado de “ Bungee Jump”, feito “rafting”, participava de um grupo de dança, cantava no coral da escola, fazia natação, e além de tudo isso, sempre foi uma filha maravilhosa, uma ótima aluna e uma parceira para todas as horas.
Beijamo-nos e ficamos ali abraçados ouvindo os gritos de alegria com os quais nossa filha enchia o ar e o nosso orgulho de sermos seus pais.
Quando ela acabou a descida, beijei emocionado minha esposa, engatei o “mosquetão” auxiliado pelo instrutor e desci a cachoeira com minhas lágrimas de emoção se misturando com a água da cachoeira.
Essas lágrimas não vinham do homem que fazia o rappel, mas do pai que havia ajudado a realizar mais um sonho da filha. As lágrimas eram do marido agradecido a Deus pela esposa maravilhosa e companheira, que apesar de achar loucura botar em risco a vida da filha criada com tanto zelo e sacrifício, estava ali a apoiar (já que o "bom-senso” não a deixava descer), por acreditar que a vida se constrói aos poucos e os medos nada mais são do que portas a serem abertas.
A água castigava o capacete e me envolvia como se eu fosse parte dela.
Parei alguns segundos a descida e fiquei ali “simplesmente cachoeira”.
...Deixei as águas lavarem todos os medos e inseguranças que encharcaram minha vida desde o momento em que Carolina nasceu prematura e que, por complicações no parto, sofreu uma paralisia cerebral.
Deixei lavar o desespero de quando ouvi o primeiro diagnóstico de que pelas sequelas ela não conseguiria ter um desenvolvimento normal, não andaria e seria seriamente comprometida em todas as outras funções.
Deixei lavar os momentos que com o rosto entre os joelhos e as mãos sobre a nuca me perguntava:
Por que com a minha filha, meu Deus?
Será que estou sendo castigado pela minha adolescência conturbada e os sofrimentos que dei aos meus pais?
O que fazer, meu Deus?
Deixei lavar o rancor que ainda guardava daquele médico que, por ser humano, tinha o direito de errar, mas não com a minha filha.
Deixei lavar os primeiros anos em que erradamente lutávamos para que nossa filha fosse igual a qualquer outra criança, quando só tínhamos olhos para suas limitações e cegamente não víamos suas infinitas qualidades.
Deixei lavar o sentimento de culpa por ter decidido ir morar em Manaus.
Fiquei ali naquela maravilhosa simbiose com a natureza, tentando sugar dela todas as lições que estavam ali para serem aprendidas.
Percebi que tudo tem sentido, que tudo é construtivo, até mesmo o que vemos como limitação.
Percebi ali o quanto fomos privilegiados em sermos pais daquela menina. Sem ela jamais estaria naquele divino momento em comunhão com a natureza e sentindo o quanto Carolina havia encharcado nossa vida de amor.
Percebi que ser pai é naturalmente a mais difícil e prazerosa das missões que assumimos pela vida, independente do filho que se tem.
Percebi que fomos iluminados em determinar limites ao educar nossa filha, mesmo com as críticas das pessoas que nos chamavam de “duros demais”.
Percebi que todas as nossas expectativas sempre foram maiores, mas as emoções a cada realização foram também proporcionalmente maiores.
Percebi que não importa como se anda, o importante é que se sonhe para onde ir, que o sonho desencadeie o desejo, que o desejo desencadeie a luta, porque a luta por si só já é uma realização do andar.
Percebi que o amor, além de tudo, também é a melhor fisioterapia.
Não sei se todos esses sentimentos poderiam ser registrados no tempo que se passou enquanto eu “estava cachoeira”, mas as sensações ficaram comigo de tal maneira, que ao completar a descida e encontrar Carolina lá embaixo, nos abraçamos emocionados e ficamos ali, um só ser, infinitamente cachoeira.

Se os nomes parecem familiares, é porque são. Já falei de Mário e Carol aqui e, indiretamente, aqui. Todas as fotos deste post são de Carol em suas atividades de esporte radical.

21 comentários:

Anônimo disse...

lola
uma dica de leitura: http://rozangelajustino.blogspot.com/
hehehee
abraço
maikon k
www.vivonacidade.blogspot.com
essa dica é mais uma provocação.

Renata Minami: disse...

Nossa! Que lindo! Valeu a pena ter lido isso!

Débora disse...

Wow! Esse mundo ainda tem esperança.
Parabéns Mário, pela esposa, pela filha, por você, pela vida.

Junior disse...

Muito emocionante. Adorei.

Bárbara - Αφροδίτη disse...

Fiquei emocionada!

Quase chorei, só não chorei porque estou no trabalho. T_T

Beijo, beijo, Lola!

Samantha disse...

Que historia de amor e superacao maravilhosa. Que paizao 'e o Mario!!!
Eu nem tenho muitas palavras para comentar, mas a historia de vida do Mario e de sua familia estao me fazendo refletir.

Masegui disse...

Parabéns, xará.

Anônimo disse...

- Se for homem queria que fosse daquele bem rebelde, que não pára um minuto sequer. Vou ensinar a jogar bola, a fazer e soltar pandorga, a andar de bicicleta, a subir em árvore, vou rolar pelo chão com ele... E se for menina queria que fosse bem meiguinha e sapeca.... Fecho os olhos e a vejo de vestidinho rodado, cor-de-rosa, correndo em minha direção com os braços abertos. Vou ser o homem mais feliz do mundo.
- Se for menina vou vestir como uma “dondoquinha” e se for menino com um jeito bem de moleque safadinho.


que nojo

mazzy disse...

Que familia linda!!!!
Ja admirei quando li seu post sobre eles, mas agora...

L. Archilla disse...

Anônimo, pais de filhos com paralisia cerebral não estão livres de estereótipos de gênero. Sinto informar, mas nem as minorias são perfeitas.

lola aronovich disse...

Também achei super bonito o relato do Mario, gente. Que bom que vcs gostaram! É emocionante sim. Mas, quando li, também me chamou a atenção essa parte que o Anônimo tão agressivamente menciona. A parte de como tratar o filho de acordo com o gênero. Não vamos ser tão radicais, gente. A maioria das pessoas pensa igual ao Mario. Tudo isso que a gente estava discutindo sobre gênero (a história do Pop na Suécia, o conto de 1972) chama tanto a atenção justamente porque as pessoas já tem todo o comportamento do bebê planejado de acordo com o gênero. Acho errado culpar as pessoas que seguem essas normas impostas pela sociedade. Vamos culpar o sistema, não os indivíduos. Além do mais, um dos pontos que adorei no relato é justamente que Mario discute a sua mudança. Ele mudou de comportamento. Nada impede que ele tenha mudado também as suas visões de difererenças por gênero. Gostei de como existe uma certa ironia no relato do Mario. De como ele e a mulher pensaram em cobrir a menina de rosa, tratá-la como dondoquinha, e de repente lá está ela, fazendo bungee jump, rappel, canoagem, e sei lá o que mais. Atividades que “princesas” não fazem de jeito nenhum! O texto inteiro é sobre quebra de paradigmas.

Luiz disse...

que paizão!!!
abraços a todos,

Deborah disse...

Que lindo Lola T_T

Peço para que pr favor leia:
http://aqueladeborah.wordpress.com/2009/07/16/quanto-vale-ou-e-por-quilo/

Anônimo disse...

Emocionante. Mário, muito obrigada por compartilhar sua história com a gente.
Também entendi o trecho que o anônimo citou de outro modo, achei que o Mário tentou expressar através de um exemplo toda a mudança que veio com o nascimento da filha.
Leah

Anônimo disse...

Lola, aqui é a Adriana e preciso falar com você...
Beijos do Deniz, Henrique e da Blue também

Túlio disse...

Que texto lindo! Soará clichê, mas é um grande exemplo, essa família.

Quanto à parte em que o Mario imagina como criará (tão diferentemente) a criança dependendo do sexo que ela nasça, também achei uma bola fora. Mas o texto como um todo chama mais atenção – e vale mais a pena – do que esse deslize.

Minhas duas partes/impressões favoritas: Mario imaginar que criará uma menininha no estilo princesinha, dondoca, então contar que a filha, aos 16 anos, é ‘toda radical’, fazendo coisas que ele, provavelmente, imaginaria que seriam feitas se ela tivesse nascido menino.
E também ao descobrir que a menina, que já quebrou o tabu de ser uma mulher em esportes ‘masculinos’, mesmo tendo dificuldade motora, quebrar outro paradigma ao praticar esportes radicais (considerados pra pessoas normais – por falta de melhor palavra).

Somnia Carvalho disse...

Lola,

o guest post esta maravilhoso... e fui ao seu texto anterior que havia perdido e também é incrivel...

Ouvir historias assim nos deixa com culpa, mas ao mesmo tempo nos levanta, nos faz reagir...
faz pensar por outro prisma e isso e fantastico.

Dånut disse...

Maravilhoso o texto. Também fiquei meio assim com a parte do se fosse menino e se fosse menina, mas enfim...
O resto tá ótimo. Adorei o texto. Mesmo.

Menina Robô disse...

Mais uma história e de superação que me contageia e me dar mais força em continuar na luta...

Beijos de Luz da Menina Robô, este final de semana estarei enviando o email, pois minha semana de férias está sendo uma correria.

Chris, mãe da Cecília disse...

Que história linda. Estou aqui lutando para não chorar (no trabalho), mas, caramba, como ela mexeu comigo.
ADOREI o post, Mario.


Bjs,
Chris

Giovanni Gouveia disse...

. <= Isso aí é maior do que eu estou me sentindo...

Sobre a parte do "menino moleque, menina dondoca", não entenderam, vocês que criticaram, que Mário superou tudo, inclusive os preconceitos?

Os preconceitos, via de regra, nos são repassados pela sociedade (menino não chora, menina se veste de princesinha, meninas não fazem esportes radicais, meninos não brincam de boneca...), aí vem alguém que fala que, também, pensava assim, mas mudou tudo (e não é apenas discurso), e mesmo assim há apedrejamento?